Posts com a tag ‘mundo’

07

Jul

10

Anotações de leitura: inventar uma inocência

Uma das coisas encantadoras da leitura é encontrar textos que refletem, com brilho, ideias sobre as quais já matutei de maneira tosca. É o caso destes trechos em que o filósofo francês Michel Onfray se refere aos preconceitos sobre outros povos. Como antídoto, ele propõe ao viajante “deixar-se preencher pelo líquido local”; metaforicamente, é claro, mas não consigo deixar de associar a deliciosos momentos introspectivos que passei bebericando vinho ou cerveja (ou pisco, chicha, aquavit) em algum bar de lugar desconhecido, enquanto observava a multidão fluir e pensava na futilidade que é rotular as pessoas. Recomendo este livro a todos os viajantes.

Encerrar povos e países em tradições reduzidas, elas mesmas, a duas ou três pobres ideias é confortador, pois sempre tranquiliza submeter a inapreensível multiplicidade à unidade facilmente controlável: assim, africanos dotados de ritmo, chineses fanáticos por comércio, asiáticos em geral talentosos para a dissimulação, japoneses polidos ao extremo, alemães obcecados pela ordem, suíços bem conhecidos por sua limpeza, franceses arrogantes, ingleses egocêntricos, espanhóis orgulhosos e fascinados pela morte, italianos fúteis, turcos desconfiados, canadenses hospitaleiros, russos associados a um senso agudo de fatalidade, brasileiros hedonistas, argentinos roídos pelo ressentimento e pela melancolia, enquanto os magrebinos [africanos do norte] se caracterizam, evidentemente, pela hipocrisia e a delinquência.

Lançados indiscriminadamente, esses lugares-comuns permitem explicar – pelo menos é o que se crê – o jazz americano e as finanças pós-maoístas, a genealogia do fascismo europeu e a legendária neutralidade helvética, a insularidade genética dos anglo-saxões e a sangrenta tourada ibérica, a exceção nacional francesa e a dramática máfia moscovita depois da Glasnost, a imigração à América do Norte, terra de acolhida dos aventureiros e dos colonos, o corpo alegre das praias de Copacabana e a longa e glacial comoção do tango nas caves de Buenos Aires, mas também as taxas de criminalidade elevadas nos países europeus, pouco importando a verdade, contanto que haja uma aparência de sentido. Se fosse feita uma lista não-exaustiva dos julgamentos e das opiniões de uns sobre os outros, quem sairia incólume?

Um dos riscos da viagem consiste em partir para verificar por si mesmo o quanto o país visitado corresponde à ideia que se faz dele. Entre o desejo de encontrar os lugares-comuns encarnados que ocupavam o espírito e o de lançar-se numa terra absolutamente virgem, existe uma meia medida: ela supõe uma arte de viajar inspirada pelo perspectivismo nietzschiano – nada de verdades absolutas, mas verdades relativas, nada de padrão métrico ideológico, metafísico ou ontológico para medir as outras civilizações, nada de instrumentos comparativos que imponham a leitura de um lugar com os referenciais de um outro, mas a vontade de deixar-se preencher pelo líquido local, à maneira dos vasos comunicantes.

Michel Onfray, Teoria da viagem: poética da geografia, p. 55-56, L&PM, 2009.

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07

Mar

10

Cicloexpedición por Suramérica

Recebi pela lista Campeche e passo o convite adiante.

VIACICLO – ASSOCIAÇÃO DOS CICLOUSUÁRIOS DA GRANDE FLORIANÓPOLIS
CICLOEXPEDICIÓN POR SURAMÉRICA
BICICLETADA FLORIPA

C O N V I D A M

CICLOEXPEDICIÓN POR SURAMÉRICA: INTERCÂMBIO DE EXPERIÊNCIAS

Debate com David Vanegas e Diego Cardona, integrantes da “Cicloexpedión por Suramérica”, projeto composto por 14 ciclistas colombianos que estão percorrendo todos os países sul americanos para promover a bicicleta como um veículo da paz, da sustentabilidade e da igualdade entre os povos

Dia 09/03/10 – Terça-feira – 19h
Auditório do Depto. Arquitetura/UFSC – Florianópolis/SC – Ver mapa em http://tinyurl.com/reunioes

Conheça o projeto em www.cicloexpedicionporsuramerica.org
Mais informações sobre o evento em www.viaciclo.org.br

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28

Feb

10

Um relato do terremoto

Recebi este e-mail de meu amigo argentino Jorge Guenul, que vive com a mulher e duas filhas em Villa la Angostura, próxima a Bariloche e a apenas uma hora da fronteira com o Chile.

…fue terrible yo me habia acostado a las 2,45 horas AM y el sismo fue a las 3:34 am, me despertè y se movia toda la estructura de la casa.. las chapas del techo bibraban y el piso se desplazaba, realmente una experiencia traumàtica y de dificil resoluciòn. No sabes que hacer con la familia… ellos dormian y los tuve que despertar, las niñas se asustaron mucho y nos quedamos despiertos por varias horas. Acomodamos colchones en el piso y dormimos todos juntos, preparados para salir a la calle, por las siguientes rèplicas, las que existieron en dos o tres oportunidades.

Lo màs desagradable de toda esta situaciòn es que se produce un bloqueo mental, no estas preparado, es algo inesperado, pensas que el mundo se viene abajo.

El sismo fuerte durò unos dos minutos que resultan interminables pero a la vez insuficientes para saber que hacer con tu familia. Yo vivo en el medio de la montaña rodeado por bosque, asique salir afuera es peligroso porque se te pueden venir los àrboles encima y quedarte en la casa puede resultar mortal porque la misma se puede derrumbar… como veraz, es una experiencia que traumàtica, que la verdad es difìcil de pasarla, nosotros ahora estamos mas tranquilos, pero seguimos preocupados, aunque ya un poco mas tranquilos. … un fuerte abrazo para toda la familia y gracias por tu preocupaciòn, los queremos muchos y seguramente si este terremoto no nos matò nos volveremos a encontrar en esta vida… amigos los queremos mucho.

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27

Feb

10

Terremoto no Chile

Acordei cedo com mais uma notícia de terremoto. Dessa vez a tragédia é no Chile, país lindo que tive a oportunidade de conhecer razoavelmente – fui uma vez mochilando e três a trabalho. A Amandinha, filha da amiga Adri Canan, estava passando férias com o pai em Santiago. Liguei pra Adri e ela me contou que pequena chegou a Floripa na quinta-feira. A família de Pablo está bem, mas a casa deles teve vários estragos, com móveis tombados etc.

Estamos buscando notícias de Cíntia Schultz, irmã da Vanessa. Cíntia e o marido estão viajando de carro desde dezembro pela Patagônia. Pelo que conta no post mais recente de seu blog, estavam entre o sul do Chile e o sul da Argentina, prestes a pegar a Carretera Austral. Até o momento não foi possível fazer contato com eles. Se alguém souber de algo, por favor, informe.

O Google criou uma ferramenta para procurar pessoas desaparecidas. Tenho acompanhado as notícias pela Globo News e também pelo twitter, na hashtag #chile; por alguns jornais chilenos e pela TV Chile, transmitida ao vivo por streaming, que está fazendo uma cobertura muito boa.

UPDATE 18h05: Cintia, irmã da Vanessa, acaba de ligar do Chile pra mãe dela. Estão bem. Tavam passeando e só agora souberam do terremoto.

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03

Sep

09

Aviso de pauta: China

Aviso de pauta de Marques Casara:

Dia 13 tô indo para a China. Minha mulher, a fotógrafa Tatiana Cardeal, vai receber um prêmio de fotografia em Guangzhou, a uns 600 Km de Pequim. Depois, seguimos em direção ao Sul até a fronteira com o Laos, fazendo reportagens sobre comunidades tradicionais.

Aceitamos pedidos de matéria de texto, foto e vídeo.

p.s. vou levar minha camisa do Inter pra ir comemorando ao longo do caminho. Os chineses adoram vermelho e detestam azul.

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28

Jun

09

Golpe em Honduras


Honduras President Arrested, originally uploaded by rbreve.

Acordei tarde, abri o twitter e me inteirei do golpe militar em Honduras. Fui de imediato ao portal G1, da Globo, procurar mais informações. Na capa não encontrei nada. Mas tinha um ótimo tutorial sobre os passos de Moonwalk. Acessei o UOL. Honduras estava lá, na terceira chamada, abaixo de uma matéria sobre futebol. A manchete ao meio-dia e pouco era “Depoimento de médico de Jackson foi inconclusivo”, semelhante à do G1. É isso que chamam de “infotainment”?

Foto de Roberto Brevé.

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28

Jun

09

A volta ao mundo sem sair da poltrona

Duas historinhas que podem parecer banais pra quem vive no mundo conectado desde criança, mas que me maravilham pelo potencial extraordinário da internet pra aproximar as pessoas:

1.
Na noite da morte de Michael Jackson, o broder Hélio Matosinho, editor da TV Record News em São Paulo, me ligou pelo Skype pra perguntar se eu tinha o telefone da ‘Megui’ – como é mais conhecida minha amiga Gisele Losso, que mora em Los Angeles. Ele queria oferecer a ela um frila – boletins ao vivo – e precisava fazer contato urgente. Eu não tinha o número, apesar de termos estado juntos numa jam session campechana poucos dias antes, no fim das férias dela. Entrei no Facebook, Megui tava offline e deixei mensagem. Como imaginei que ela não voltaria a tempo, perguntei no twitter se alguém conhecia quem fizesse um frila em L.A. Em menos de 2 minutos, @riqfreire (Ricardo Freire, blogueiro do excelente Viaje na Viagem) me disse que @pedrotourinho tava tuitando direto do hospital. Consegui teclar com Pedro (até aquele instante, um completo desconhecido pra mim) e fiz a ponte. Quase ao mesmo tempo a Megui entrou no Facebook e passei o celular dela pro Matosinho. Conexões feitas, fui dormir. Como de hábito, não vi TV no dia seguinte, mas acho que tudo se arrumou. E pensar que, quando comecei a trocar correspondência com pen-friends pra aprender inglês, uma carta levava sete dias pra chegar…

2.
Escrevo a segunda historinha ouvindo na web o uruguaio Jorge Drexler pela Rádio Latina, um programa da rádio comunitária australiana Bay FM. Agora é madrugada de domingo no Sul do Brasil, início da tarde de domingo na costa leste da Austrália – é como se o futuro estivesse chegando até meus ouvidos por um portal mágico. Como cheguei a essa estação? O Celso Martins (que bloga no Sambaqui na Rede 2) me deu um toque agora há pouco, via GTalk, que a filha dele, Anita, está com um programa de música brasileira nessa rádio australiana. Sintonizei a tempo de ouvir a voz de Anita ao vivo, num inglês fluente e agradável, abrir o programa tentando explicar o que é boi-de-mamão pra apresentar uma música típica da tradição açoriana de Floripa. E na sequência colocando uma série de músicas super bacanas do sul da América: Brasil, Peru, Paraguai, Argentina, Uruguai… Enquanto escuto o programa aqui no Campeche, Celso, lá no Sambaqui, também acompanha a filha e me conta que ajudou a Anita a fazer a seleção musical. Neste exato instante, do outro lado do mundo, toca o clássico da banda Dazaranha, Vagabundo Confesso. Que viagem!

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02

May

09

Wired conta de onde veio o ancestral da gripe suína

Reportagem publicada ontem pela Wired Science aponta que o “ancestral” do vírus da gripe H1N1 surgiu em 1998 em fazendas industriais nos Estados Unidos.

Swine Flu Ancestor Born on U.S. Factory Farms

Scientists have traced the genetic lineage of the new H1N1 swine flu to a strain that emerged in 1998 in U.S. factory farms, where it spread and mutated at an alarming rate. Experts warned then that a pocket of the virus would someday evolve to infect humans, perhaps setting off a global pandemic.

The new findings challenge recent protests by pork industry leaders and U.S., Mexican and United Nations agriculture officials that industrial farms shouldn’t be implicated in the new swine flu, which has killed up to 176 people and on Thursday was declared an imminent pandemic by the World Health Organization. (…)

Wired Science – News for Your Neurons

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30

Apr

09

A gripe suína e o poder da indústria pecuária

Estátua na entrada da cidade de Xavantina (SC), que se orgulha de ter a maior concentração de suínos per capita do mundo. Foto: Chico Faganello.

Pra quem tem interesse em saber o que está por trás da origem da gripe suína, recomendo a leitura de um artigo de Mike Davis, professor no departamento de História da Universidade da Califórnia e especialista nas relações entre urbanismo e meio ambiente. O texto foi publicado dia 27 no Guardian e sua tradução em português, por Katarina Peixoto, está no Carta Maior. Davis alerta para os riscos da industrialização empresarial da pecuária:

Em 1965, havia nos EUA 53 milhões de porcos espalhados entre mais de um milhão de granjas. Hoje, 65 milhões de porcos concentram-se em 65 mil instalações. Isso significou passar das antiquadas pocilgas a gigantescos infernos fecais nos quais, entre esterco e sob um calor sufocante, prontos a intercambiar agentes patógenos à velocidade de um raio, amontoam-se dezenas de milhares de animais com sistemas imunológicos debilitados. Cientistas advertem sobre o perigo das granjas industriais: a contínua circulação de vírus nestes ambientes aumenta as oportunidades de aparição de novos vírus mais eficientes na transmissão entre humanos. (…)

Coincidentemente, esta semana o videodocumentário Espírito de Porco, que Chico Faganello e eu dirigimos (com recursos do Prêmio Cinemateca Catarinense), foi finalizado e entregue à Fundação Catarinense de Cultura. Entre as questões levantadas pelo filme está o confinamento na criação industrial, que tem reflexos no bem-estar dos suínos e, por tabela, dos humanos, na água, no solo e no ar (“é o cheiro do dinheiro”, brincam alguns moradores do Oeste do estado, naqueles dias quentes em que a merda de porco é captada pelo olfato a quilômetros de distância).

Santa Catarina tem uma das maiores concentrações de suínos do mundo – o rebanho supera as 50 milhões de cabeças, ou dez porcos para cada habitante. Por motivos econômicos, governo e indústria têm se esforçado em disseminar a ideia de que o problema não tem nada a ver conosco. Mas os alertas vindos de todo o planeta indicam que seria sensato pensar grande e com visão de longo prazo, isto é, fazer uma reflexão profunda sobre a validade do atual modelo de produção de carne. Nosso documentário não tem respostas prontas, quer mesmo é estimular o debate. Em breve vamos exibi-lo ao público, primeiro no oeste de Santa Catarina e depois em Florianópolis e festivais.

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29

Apr

09

Informações sobre gripe suína


Bem boa esta matéria do Bom Dia Brasil, da Globo, sobre a gripe suína, e também a série de perguntas e respostas sobre o risco e a prevenção, publicada no portal G1. Reportagens esclarecedoras e sem alarmismo.
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Cesar Valente citou no De Olho na Capital o saite que dois cientistas criaram voluntariamente no dia 27 com informações em português sobre prevenção, tratamento e contenção. É bem fundamentado e referenciado, mas aplicável somente SE a gripe chegar por aqui botando pra quebrar, como já ocorre no México.
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Nessas orientações do doutor em epidemiologia Wladimir J. Alonso e da doutora em zoologia e profissional de TI Cynthia Schuck-Paim, me chamou a atenção uma divergência quanto à recomendação de duas fontes com bastante credibilidade:

* Nota: nós respeitosamente discordamos da recomendação de alguns órgãos (como o Center of Diseases Control dos EUA e o Ministério de Saúde do Brasil) que pessoas com suspeita de gripe suína devam “Procurar assistência médica na unidade de saúde mais próxima”. Dado o potencial pandêmico desta cepa viral, é fundamental que suspeitos de terem esta doença evitem circular por locais públicos. Casos suspeitos deveriam ser comunicados por telefone, através do qual instruções de contenção seriam repassados ao paciente e pessoas próximas, e imediatamente uma equipe com equipamentos adequados de biosegurança se deslocaria ao local. Este tipo de medida é fundamental principalmente no primeiro estágio de propagação.

O que eles dizem parece fazer sentido. Mas, sem qualquer condição de opinar sobre a polêmica (que não é detalhe bobo, pois pode envolver a diferença entre a vida e a morte de muita gente), cá fico em minha ignorância, agora ligeiramente reduzida com a leitura desse material todo.

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