Posts com a categoria ‘viagem’

13

Jul

10

Pequenas delícias das tardes de inverno

A partida mais gostosa que vi nesta Copa foi, sem dúvida, a disputa do terceiro lugar, Alemanha x Uruguai. Não pela qualidade do futebol ou por alguma jogada extraordinária – se bem que aquela bola uruguaia na trave no último lance foi de disparar o coração. E sim pela maneira como vi o jogo: no sofá, em estado alfa, aconchegado entre Miguel e Bruno, nós três debaixo de um cobertor de lã. Cochilei uma boa parte do primeiro tempo, mas que delícia… Em uma palavra: comunhão.

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07

Jul

10

Anotações de leitura: inventar uma inocência

Uma das coisas encantadoras da leitura é encontrar textos que refletem, com brilho, ideias sobre as quais já matutei de maneira tosca. É o caso destes trechos em que o filósofo francês Michel Onfray se refere aos preconceitos sobre outros povos. Como antídoto, ele propõe ao viajante “deixar-se preencher pelo líquido local”; metaforicamente, é claro, mas não consigo deixar de associar a deliciosos momentos introspectivos que passei bebericando vinho ou cerveja (ou pisco, chicha, aquavit) em algum bar de lugar desconhecido, enquanto observava a multidão fluir e pensava na futilidade que é rotular as pessoas. Recomendo este livro a todos os viajantes.

Encerrar povos e países em tradições reduzidas, elas mesmas, a duas ou três pobres ideias é confortador, pois sempre tranquiliza submeter a inapreensível multiplicidade à unidade facilmente controlável: assim, africanos dotados de ritmo, chineses fanáticos por comércio, asiáticos em geral talentosos para a dissimulação, japoneses polidos ao extremo, alemães obcecados pela ordem, suíços bem conhecidos por sua limpeza, franceses arrogantes, ingleses egocêntricos, espanhóis orgulhosos e fascinados pela morte, italianos fúteis, turcos desconfiados, canadenses hospitaleiros, russos associados a um senso agudo de fatalidade, brasileiros hedonistas, argentinos roídos pelo ressentimento e pela melancolia, enquanto os magrebinos [africanos do norte] se caracterizam, evidentemente, pela hipocrisia e a delinquência.

Lançados indiscriminadamente, esses lugares-comuns permitem explicar – pelo menos é o que se crê – o jazz americano e as finanças pós-maoístas, a genealogia do fascismo europeu e a legendária neutralidade helvética, a insularidade genética dos anglo-saxões e a sangrenta tourada ibérica, a exceção nacional francesa e a dramática máfia moscovita depois da Glasnost, a imigração à América do Norte, terra de acolhida dos aventureiros e dos colonos, o corpo alegre das praias de Copacabana e a longa e glacial comoção do tango nas caves de Buenos Aires, mas também as taxas de criminalidade elevadas nos países europeus, pouco importando a verdade, contanto que haja uma aparência de sentido. Se fosse feita uma lista não-exaustiva dos julgamentos e das opiniões de uns sobre os outros, quem sairia incólume?

Um dos riscos da viagem consiste em partir para verificar por si mesmo o quanto o país visitado corresponde à ideia que se faz dele. Entre o desejo de encontrar os lugares-comuns encarnados que ocupavam o espírito e o de lançar-se numa terra absolutamente virgem, existe uma meia medida: ela supõe uma arte de viajar inspirada pelo perspectivismo nietzschiano – nada de verdades absolutas, mas verdades relativas, nada de padrão métrico ideológico, metafísico ou ontológico para medir as outras civilizações, nada de instrumentos comparativos que imponham a leitura de um lugar com os referenciais de um outro, mas a vontade de deixar-se preencher pelo líquido local, à maneira dos vasos comunicantes.

Michel Onfray, Teoria da viagem: poética da geografia, p. 55-56, L&PM, 2009.

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10

Jun

10

As cores de Veneza

Recebi da @dialves e compartilho essas imagens espetaculares de Veneza.

Around Venezia from Icam on Vimeo.

Na primavera de 1997, Laura e eu passamos um dia inteiro batendo perna por Veneza. Podia ter sido uma semana, ou um mês, e ainda seria pouco. Não tava tão colorido quanto neste vídeo, era um dia cinzento. Lembro também que almoçamos umaas fatias de pizza bem meia-boca e esbarramos em turistas o tempo todo. Detalhezinhos da realidade :) Mesmo assim, valeu cada instante. É uma pérola.

p.s.: Depois, no trem pra Innsbruck, ela clicou esta foto minha com o pensamento perdido em algum lugar.

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07

Jun

10

Anotações de leitura: organizar a memória

Entre a ausência de vestígio e seu excesso, a fixação dos instantes fortes e raros transforma o tempo longo do acontecimento num tempo curto e denso: o do advento estético. Trata-se de, com longas durações, produzir emoções breves e tempo concentrado no qual se comprima o máximo de emoções experimentadas pelo corpo. Um poem bem-sucedido, uma foto expressiva, uma página que fica supõem a coincidência absoluta entre a experiênca vivida, realizada, e a recordação reativada, sempre disponível não obstante o passar do tempo. De uma viagem só deveriam restar uns três ou quatro sinais, cinco ou seis, não mais que isso. Na verdade, não mais que os pontos cardeais necessários à orientação.

Michel Onfray, Teoria da viagem, p. 53.

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10

Apr

10

Uma repórter brasileira em Bangcoc

Militares tailandeses em conflito com camisas vermelhas em Bangcoc. Foto: Anita Martins

Minha primeira leitura neste sábado foi o blog Presença de Anita, em que a jornalista Anita Martins – filha do colega Celso Martins, aqui de Floripa – faz o diário de bordo de sua viagem pelo Sudeste Asiático. No momento ela está na Tailândia, onde teve a oportunidade (a sorte, dizemos nós repórteres) de presenciar de perto um conflito entre militares e o grupo “camisas vermelhas”, manifestantes que fazem oposição ao governo e querem novas eleições. Anita, que está vivendo na Austrália, já percorreu nessa viagem Tasmânia, Indonésia e Cingapura. Sabe-se lá até onde vai. Seu blog está uma delícia.

p.s.: Mundo pequeno… Enviei pra lista Salinha do C.A. o link pro blog dela e, uns dois minutos depois, a própria respondeu de Bangcoc:

Eita, coisa rapida, hein. Hehehe. Sabe como eh pai ne, gente!?

Aproveito a deixa pra dizer que se alguem quiser um frila, to por aqui. Contatos: anitamartins11@hotmail.com/ anmartins11@gmail.com/ anmartins11 (skype).

Beijos e me desejem boa sorte, please

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08

Apr

10

Da arte de caminhar nas nuvens

Certa vez, Laura e eu fomos à praia do Campeche às 7h da manhã, pra espairecer a cabeça de um problema imobiliário que nos incomodava na época. Havia uma camada densa de neblina rasteira sobre a areia. Caminhamos meia hora literalmente no meio das nuvens, sem enxergar nada além de 10 metros. De repente, a neblina acabou, como que cortada por uma faca. E um dia lindo de sol apareceu. O problema se evaporou – o tempo mostrou que era irrelevante, ponto de partida pra uma longa viagem que depois fizemos.

Escrevi isto comentando o post Alvoradas oníricas, do amigo, vizinho e colega frila Mauricio Oliveira.

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07

Mar

10

Cartografia da memória: Stavanger

Stavanger, Noruega, 1997. Foto: Laura Tuyama

Stavanger, no sudoeste da Noruega, é a terceira maior cidade do país, com 190 mil habitantes. Limpa e sossegada, com arquitetura quase frugal, nem parece fazer jus à sua fama de capital do petróleo desse país nórdico. Suas casas são quase todas de madeira, pintadas de branco ou de cores claras. A comunidade vive com conforto, mas sem sinais evidentes de ostentação.

Stavanger foi nosso ponto de partida pra uma excursão que Laura e eu fizemos na primavera de 1997 – acompanhados dos amigos Eirik e Hélène – à Preikestolen, “pedra do púlpito”. Pra chegar até lá é preciso primeiro pegar um ferry-boat, depois rodar um pouco de carro e caminhar por uma trilha de duas horas e meia, sempre subindo. Preikestolen é uma “torre” natural de granito no alto de um paredão vertical de 604 metros que bordeia o fiorde Lyse. Lugar de beleza extraordinária, onde tive um epifania que conto outra hora.

Kai Hennig, Eirk, Hélène e Dauro. Foto: Laura TuyamaFicamos hospedados no apartamento do simpático Kai Hennig, arquiteto amigo de Eirik e Hélène (eu o reencontrei faz pouco tempo, com a ajuda do Facebook). Fizemos muitas caminhadas pelas ruas e pelo porto. Lembro que quebrei uma taça de cristal num restaurante. De Stavanger seguimos de barco costeando os fiordes rumo a Bergen, mais ao norte.

Fotos: Laura Tuyama

Exibir mapa ampliado

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07

Mar

10

Cicloexpedición por Suramérica

Recebi pela lista Campeche e passo o convite adiante.

VIACICLO – ASSOCIAÇÃO DOS CICLOUSUÁRIOS DA GRANDE FLORIANÓPOLIS
CICLOEXPEDICIÓN POR SURAMÉRICA
BICICLETADA FLORIPA

C O N V I D A M

CICLOEXPEDICIÓN POR SURAMÉRICA: INTERCÂMBIO DE EXPERIÊNCIAS

Debate com David Vanegas e Diego Cardona, integrantes da “Cicloexpedión por Suramérica”, projeto composto por 14 ciclistas colombianos que estão percorrendo todos os países sul americanos para promover a bicicleta como um veículo da paz, da sustentabilidade e da igualdade entre os povos

Dia 09/03/10 – Terça-feira – 19h
Auditório do Depto. Arquitetura/UFSC – Florianópolis/SC – Ver mapa em http://tinyurl.com/reunioes

Conheça o projeto em www.cicloexpedicionporsuramerica.org
Mais informações sobre o evento em www.viaciclo.org.br

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03

Feb

10

Navegações da infância

Dauro e André no navio de Manaus a Belém 1972. Meu irmão André (à direita) e eu brincando sobre um bote salva-vidas no navio Leopoldo Peres, que descia o rio Amazonas de Manaus a Belém. Retornávamos a Recife, depois de um período de dois anos em que nossa família morou na capital amazonense. Um tempo intenso que nós, na  inocência de seis e quatro anos, não conseguimos captar na totalidade (e quem consegue?). Mas intuímos nos fragmentos de conversas dos adultos, passeios de barco,  cheiros de chuva, mato e frutas estranhas, reflexos de luz naquele mundo de mistérios, naufrágios e águas grandes. Arrisco dizer que muito do que sou hoje se deve às experiências vividas na infância amazônica. Manaus, na época, tinha em torno de cem mil almas – uma provinciazinha em comparação com a atual metrópole inchada de 1,7 milhão de habitantes. Os “banhos” – passeios a igarapés que nos encantavam nos fins de semana – foram engolidos pela onda urbana e estão cada vez mais distantes. Mas, na essência, a cidade continua uma ilha humana rodeada de floresta úmida e água por todos os lados. A sensação de pequenez diante do universo, de deslumbre com a enormidade da natureza, foi tão marcante que me acompanha sempre.

Uma cena que se repetiu algumas vezes na viagem me impressionava. Quando ancorávamos em algum porto, caboclinhos com a minha idade ou menos remavam em canoas até o casco do navio e pediam coisas. Os passageiros amarravam roupas, comida e dinheiro em sacos plásticos e os jogavam na água. Os meninos iam nadando como peixes e recolhiam as doações. Outra lembrança: em cima desse bote salva-vidas, ou de outro parecido, esqueci um cavalinho de borracha natural que havíamos comprado no porto de Santarém. Quando dei por mim, o bicho tinha derretido no sol forte e se transformado no que hoje me pareceria uma obra de arte conceitual. Enquanto eu enxugava as lágrimas, o navio descia a correnteza em direção ao mar, me dando as primeiras lições de transformação e impermanência. Desde então, só retornei ao Amazonas uma vez, em 1990, por alguns meses. Já tá quase na hora de ir de novo.

p.s.: Foto de Sara Veras, minha mãe, digitalizada pelo amigo Michel. O slide tinha perdido as cores originais e estava arranhado, então dei uma fotoxopada restauradora e converti pra preto e branco.

p.s.2: O navio Leopoldo Peres naufragou na década de 80, depois de uma colisão com uma fragata da Marinha.

p.s.3: Já leu Milton Hatoum? Recomendo. Literatura amazônica e universal.

p.s.4: Já contei essa história do cavalinho aqui antes, mas só por alto, sem foto. E se tem uma coisa com que não me preocupo é me repetir.

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01

Feb

10

Domingo das águas

Cachoeira do Salto, em São Bonifácio, SCComemorei 44 anos de um jeito que adoro: junto com os amados, visitando um lugar quase inexplorado, no sossego do mato. Eita cantinho lindo! A Cachoeira do Salto fica no município de Águas Mornas, perto da estrada que dá acesso a São Bonifácio, na subida da serra, a uns 60 km de Floripa.

Quem deu a dica foi o Botelho, nosso correspondente especial para assuntos aleatórios e especialista em líquidos espumosos. Uma hidromassagem dessas remoça a gente.

Na volta, paramos pro tradicional lanche de pamonha, rosquinhas e caldo de cana em Santo Amaro da Imperatriz. Não é preciso de muita coisa pra gente ser feliz.

p.s.: No começo da trilha há uma placa informando que a área está à venda. Checamos o preço: o sítio com aquele pedacinho de paraíso custa R$ 350 mil. Se você comprar, cuide bem!

Foto: Ana Tuyama

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