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25

Apr

17

Sugestões de livros

livros
No Dia do Livro, perguntei aos meus amigos e contatos nas redes sociais que livro eles me indicariam e por quê. Alguns sugeriram mais de um, outros não disseram o motivo. O resultado foi esta lista com mais de 50 sugestões de leitura que compartilho para sua inspiração.
  1. Agripa Alexandre – A lista dos prêmios de nobel de literatura desde 1950.
  2. Raul Ribeiro – “Estranhas Catedrais”. Ótimo para entender a histórias das empreiteiras e a participação nos governos desde a ditadura. Ou antes.
  3. Paulo Evangelista – Eu sempre recomendo dois livros: Memórias do Subsolo, do Dostoievski e O Livro dos Abraços, do Galeano. O motivo é simples: os dois, em épocas diferentes, marcaram a minha vida.
  4. Dorva Rezende – Tiger! Tiger!, do Alfred Bester, porque a ficção científica e a poesia podem te levar a grandes saltos pelo universo.
  5. Tatiana Kinoshita – Recomendo O que Jamais Dizer a uma Mulher Grávida, da Chiado Editora. Porque sou a autora. :)
  6. Janine Motta – Haiti depois do inferno, de Rodrigo Alvarez, correspondente da Globo. A união da imprensa mundial em prol da notícia me surpreendeu, mas chorei em várias páginas também.
  7. Ana Paula Lückman – “Você vai voltar pra mim”, do Bernardo Kucinski. O título não é o que parece.
  8. Nei Duclós – Terra do Fogo, de Francisco Coloane.
  9. Carlos Moura – Sangre de Mestizos. Augusto Céspedes. Lê – se achares – e depois me diz… Ou vai no Obras Completas do Murilo Rubião… Pq realidade e história são conceitos flexíveis…
  10. Gastão Cassel – O Quinteto de Buenos Aires. Manuel Vázquez Montalbán. Porque é literatura no seu modo mais essencial. Ele é um contador de histórias, precursor de vários seguidores pelo mundo no seu estilo de narração policial – Andrea Camilleri, Luiz Alfredo Garcia-Roza (para citar um brasileiro). O personagem Pepe Carvalho é impagável.
  11. Jean Mafra – “Ninguém” de Ieda Magri. Pois ela é uma autora contemporânea dona de uma ironia necessária, que nos apresenta um livro potente. Pois ela é mulher, é do interior de SC, mas também por isso não fazer a menor diferença diante do que apresenta.
  12. Ana Cadengue – Amo Saramago, mas já que é só um, lá vai: O Conto da Ilha Desconhecida. Ah, pura identificação mesmo. Me sinto sempre naquele barco. Ou naquela porta…
  13. Fábio Brüggemann – ‘não contem com o fim do livro”, uma conversa muito legal do umberto eco com o jean-claude carrière.
  14. Paulo Arenhart – Cem sonetos de amor, Pablo Neruda. Fábulas completas, Esopo. Fábulas nos fazem pensar fora da casinha! Número zero, Umberto Eco. De Umberto Eco recomendo todos! E este foi o último!
  15. Svetlana Lana – O mestre e a margarida, Mikhail Bulgakov. é misterioso, não só por coisas que acontecem lá. Já li várias vezes em russo e cada vez é diferente, você vai descobrindo algo de novo. Cada vez que tentavam gravar um filme baseado no livro aconteciam coisas misteriosas e até mesmo trágicas. É difícil para ler mesmo em russo. Então se não o conseguires, temos que parar e voltar mais tarde, até que o livro te “aceite”. já me contarás…
  16. Tadeu Meyer – O círculo, Dave Eggers. Distopia do presente, sobre a onipresença da tecnologia e a indução à exposição total. Na pior em paris e londres. Eric Blair vivendo como mendigo na década de 20, antes de virar George Orwell.
  17. Clóvis Scherer – Estou lendo e gostando de “Os versos satânicos”. Pelo tipo de literatura fantástica no contexto do islamismo.
  18. Sandra Werle – Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa. É um romance histórico, gênero que eu gosto. Fala sobre Angola e a guerra pela independência de Angola o que, para mim, é novo – não tenho muitas leituras a respeito dos outros colonizados portugueses como nós, brasileiros. Mas principalmente por Ludo. A personagem principal, sua solidão, sua condição de mulher, sua imaginação e paixão pelos livros… ela me trouxe várias identificações, sofri profundamente com ela e refleti demais sobre os “esquecimentos” aos quais somos submetidos ou impomos a nós mesmos. Já gostava de Agualusa, mas fiquei impactada com esse romance.
  19. Luiz Fernando Pereira – Reality Hunger: a manifesto, David Shields. O livro é uma coleção de tópicos do David Shields a respeito da nossa tendência cultural e comportamental recente de buscar realidade por causa do “excesso de não-realidade”, observando o que vem acontecendo na cultura geral, entretenimento, literatura, mídia e psiquismo. Mas a busca por realidade também é algo esquisito, por vezes fake e ambíguo, pois também passa a ser fabricado e encenado. O que está em jogo é sempre uma espécie de sede de realidade (daí o título). Leitura muito interessante que sinto ter a ver contigo, com o fato de você ser um jornalista aberto e investigativo, e com tua busca por visão ampla multidisciplinar sobre as coisas. David Shields é uma espécie de pensador da literatura, mas que nesse livro extrapola totalmente para a filosofia da realidade (apesar dele partir de e falar muito de arte e literatura).
  20. Rodrigo Leite – Sidarta, Hermann Hesse. É uma linda jornada de iluminação. Uma narrativa que transborda a beleza simples das coisas sábias.
  21. Delana Macedo Veras – Pollyanna menina [Eleanor Porter]. Por causa do jogo do contente.
  22. Paulo Brito Canção do Mar [Amanda Hocking], porque gostei.
  23. Sergio Giron – A guerra não tem rosto de mulher. Svetlana Alekiévitch…. depoimentos de emocionar sobre as mulheres russas na 2 grande guerra/guerra da vitória. Nobel 2015. imperdível no meu humilde conceito.
  24. Roseméri Laurindo – Analectos (Confúcio). Porque ainda há tempo e o tempo é curto.
  25. Angélica Elisa Sonaglio – A amiga genial, o primeiro da trilogia de Helena Ferrante. Porque te envolvem demais!!!
  26. Cândido Rodrigo Gomes da Silva – Viagem ao fim da noite. Pq é um livro do Céline.
  27. Camillo Veras – Getúlio, de Lira Neto. Pra quem quer conhecer a história do Brasil.
  28. Patricia Pratts – O Casamento – Nicholas Spark. Fala de um regaste da paixão/conquista, depois de mais de 20 anos de casados… Um romance maduro e muito próximo da realidade atual, em que os amores são rasos e descartáveis.
  29. Ana Paula Barreto – O Homem que amava os cachorros, do cubano Leonardo Padura. A história nos faz refletir sobre muitas das nossas “crenças” ideológicas. E nos faz ter certeza que o melhor caminho possível ainda é a democracia. :)
  30. Daniel Eduardo Guilhamet – Nunca Mas (Informe de la Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas).
  31. Celso Vicenzi – A Tolice da Inteligência Brasileira, de Jessé Souza. São 20 anos de pesquisas e nunca ninguém mostrou, de maneira tão clara, documentada e convincente o papel dos intelectuais brasileiros para construir uma imagem distorcida do Brasil e fazer com que o povo aceite, submisso, privilégios injustos eternizados entre nós. Depois, pra curar a “ressaca”, Poemas Escolhidos, de Mia Couto e uma poeta polonesa magnífica: Wislawa Szymborska. Livro: Poemas.
  32. Mauro Sniecikowski A montanha mágica de Thomas Mann – pq está em meu top 3.
  33. João Carlos Dalmagro Júnior “Desonra”, do J. M. Coetzee, porque soube, como poucos e com uma linguagem envolvente, explorar a descrença na humanidade de forma absolutamente contemporânea.
  34. Cassiano Fagundes – Cidade em Chamas, Garth Risk Hallberg.
  35. Cecilia Revisartese – “Se questo è un uomo” (Primo Levi), porque vivi no campo de concentração com ele, levada pelos detalhes, de um modo que foi muito especial, para mim. “Tempo entre costuras” (María Dueñas), pela ideia de como fazer a costureira virar espiã. “Um homem chamado Ove” (Fredrik Backman), porque me diverti. “O 11o mandamento” (Abraham Verghese), porque não queria que o livro terminasse.
  36. Antonio Rocha – The book of Joy with Dalai Lama and Desmond Tutu. It makes you and the world feel good.
  37. Mario Rocha – Deserto dos Tártaros, do Dino Buzzati. Li há muitos anos e considero um livro obrigatório, entre muitos, tantos outros.
  38. Sergio Farias Homens imprudentemente poéticos de Valter Hugo Mãe. Uma ode à língua portuguesa.
  39. Raquel Eltermann Cinco grandes reportagens que têm em comum o fato de retratarem fatos históricos e locais altamente estigmatizados da Europa no século XX. Guernica, Chernobil, Transilvânia, Lourdes e Auschwitz são os cenários; e a proposta do jornalista catalão Álvaro Colomer é refletir como se vive atualmente nessas paragens do Velho Continente marcadas por feridas que chocaram e refletem ainda hoje no mundo (não só) Ocidental . “Guardianes de la memória – Recorriendo las cicatrizes de la Vieja Europa” (Ed. Martínez Roca, Madrid, 2008; 255 págs). :)
  40. Carlos Tonet – 100 Anos de Solidão. Porque foi a melhor coisa que já li.
  41. Henrique Finco – Arrisco indicar o “É isto um homem?”, do Primo Levi – e também o “A Trégua”, do mesmo autor. Para completar, o “A guerra não tem rosto de mulher”, da Svetlana Aleksievitcht. No primeiro, Primo Levi descreve sua sensação de não mais pertencer à Humanidade quando estava preso em Auschwitz; no segundo, seu retorno para casa após ser libertado pelo Exército Vermelho. O Svetlana tem os depoimentos de algumas das mais de um milhão de mulheres que serviram no Exército Vermelho durante a segunda guerra mundial. O que os três têm em comum é a denúncia do fascismo, o que me parece fundamental nos dias que correm. Abraço.
  42. Dagomir Marquezi – 50 Pilotos: A Arte de se Iniciar uma Série.
  43. Ivi Brasil – Ensaio sobre a lucidez, José Saramago. A população que foi acometida anos antes pela cegueira branca decide nao votar naa eleições, levando a democracia ocidental à bancarrota. O estado cerca a cidade mas nem assim os eleitores votam…
  44. Ivana Medeiros Zoccoli – Pais Inteligentes Formam Sucessores, Não Herdeiros. Autor: Augusto Cury. Porque nos faz refletir sobre a maneira como estamos criando nossos filhos e escrito com muito clareza e envolve muito amor.
  45. Marcello Castro – O tabuleiro de damas – Trajetória do menino ao homem feito, de Fernando Sabino. Memórias. Se ainda não leu, corra! “Morrer tem pelo menos três vantagens: não precisa mais ir ao dentista, declarar imposto de renda e cortar unha do pé.” (Hélio Pelegrino, citado por Fernando Sabino em “O tabuleiro de damas, p. 53)
  46. Shirley Bilro – Uma nova tradução de Satyricom que nos leva ao inusitado banquete de Trimalquião…
  47. Roberto Solino – recomendo “obras completas (y otros cuentos)”, de augusto monterroso, infelizmente sem tradução para o português. é um livro curto mas com verdadeiras obras primas, inclusive o seu conto mais famoso, o micro “el dinosaurio”. um dos contos que gosto mais (literatura sobre literatura) é “leopoldo (sus obras)”.
  48. GR – O livro que me mudou para sempre: O IDIOTA, Fiódor Dostoiévski.
  49. Joenilson – O Estrangeiro Albert Camus. Esse é fantástico.
  50. Josimey Costa – Quase conto.
  51. Laura Tuyama – O Amor de uma Boa Mulher (2013), Alice Munro. Indico pela força da narrativa curta. Em poucas palavras ela consegue te apresentar personagens complexos e situações perturbadoras.
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20

Feb

17

Raduan Nassar e a ditadura militar

Trecho de Um copo de cólera, de Raduan Nassar, citado por Pádua Fernandes. O livro foi escrito em 1970 e publicado em 1978.
Depois de afirmar que ela se tornaria polícia feminina, é o fascista, em astuta estratégia do autor, que faz este comentário subversivo: “no abuso de poder, não vejo diferença entre um redator-chefe e um chefe de polícia, como de resto não há diferença entre dono de jornal e dono de governo, em conluio, um e outro, com donos de outros gêneros”.
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29

Dec

15

Leituras de 2015: DVeras Awards

Compartilho com os viciados em livros a minha lista de leituras concluídas em 2015. A maioria é de ficção e está numerada mais ou menos na ordem cronológica em que me chegou às mãos. Ficam de fora as leituras de trabalho e as obras que venho degustando aos golinhos – como O som e a fúria, de Faukner, denso e multifacetado; Um prazer fugaz: cartas de Truman Capote, interessante, mas desigual; e Voces de Chernóbil, reportagem da Nobel de literatura Svetlana Alexievich, de uma humanidade devastadora, ainda sem tradução pro português. Incluí dois contos de García Márquez, um de Bolaño e um de Chandler pescados na internet, pequenas obras-primas que valem por livros inteiros. Os de Gabo têm títulos fantásticos de bons.

O resultado compõe uma boa variedade de estilos, temas e nacionalidades – são 29 representantes dos Estados Unidos, Brasil, Japão, Suécia, Chile, Peru, Colômbia, Escócia, Itália e Canadá.  Todos à sua maneira me fizeram companhia amiga ao longo deste ano bruto que já vai tarde. Com esses autores e autoras, viajei sem sair da minha rede no quintal. Tangi gado no lombo de um burrinho em Minas (26). Bebi feliz com amigos poetas em Lima (18). Toquei no colo de Evita na Casa Rosada (13). Conheci uma estranha sedutora em Istambul. Fui abduzida enquanto me prostituía (15). Testemunhei um duplo homicídio em Moçambique (7). Encarei a espera e a solidão num apartamento de Santiago (6). Tive uma lua-de-mel inesperada em Paris (8). E no Rio, amei uma mulher de aliança que não era o que parecia… (25)

Difícil apontar meus favoritos do ano. Mas listas servem pra isso mesmo: despertar curiosidade, motivar outras listas, criar polêmica. E também para dar uma ilusória sensação de ordem no meio do caos. Sigo a brincadeira do DVeras Awards de anos anteriores e aponto os top de 2015 em negrito – mas vamos combinar que Guimarães Rosa, Rubem Braga, Gabo e John Fante são hors-concours, tá? Ao final, faço um breve comentário sobre as escolhas e anuncio o campeão do ano. Boas leituras.

  1. Pacto Sinistro (Patricia Highsmith)
  2. Recado de Primavera (Rubem Braga)
  3. Tudo é eventual (Stephen King)
  4. 1933 foi um ano ruim (John Fante; releitura)
  5. Caçando carneiros (Haruki Murakami)
  6. A vida privada das árvores (Alejandro Zambra)
  7. O homem de Beijing (Hennig Mankell)
  8. El rastro de tu sangre en la nieve (Gabriel García Márquez)
  9. A zona do desconforto (Jonathan Franzen)
  10. Sensini (Roberto Bolaño)
  11. O homem que virou fumaça (Maj Sjowall e Per Wahloo)
  12. A quinta mulher (Hennig Mankell)
  13. A quiet flame (Philip Kerr)
  14. El tren (Raymond Chandler)
  15. Contos fantásticos: amor & sexo (Bráulio Tavares, org.)
  16. Noites do sertão (Guimarães Rosa)
  17. Meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras (Eliane Brum)
  18. Contarlo todo (Jeremías Gamboa)
  19. Número Zero (Umberto Eco)
  20. A grande fome (John Fante)
  21. A garota na teia de aranha (David Lagercrantz)
  22. Punto de fuga (Jeremías Gamboa)
  23. F (Antonio Xerxenesky)
  24. Sobre a escrita: a arte em memórias (Stephen King)
  25. Histórias curtas (Rubem Fonseca)
  26. Sagarana (Guimarães Rosa; terceira releitura)
  27. En este pueblo no hay ladrones (Gabriel García Márquez)
  28. Sobre encontrarse a la chica 100% perfecta una bella mañana de abril (Haruki Murakami)
  29. Ódio, amizade, namoro, amor, casamento (Alice Munro)

Sobre a escrita é o relato da trajetória de Stephen King no universo da linguagem, desde a infância à consagração como um dos grandes talentos da literatura fantástica. O livro traz orientações preciosas para quem pretende escrever profissionalmente. Pode acreditar, o homem sabe do que fala. Um de seus conselhos: “Você pode abordar o ato de escrever com nervosismo, excitação, esperança ou desespero. Faça isso de qualquer forma, menos sem seriedade”. “A narrativa tem também uma parte confessional para quem busca entender os bastidores do processo criativo do autor e as dificuldades que ele enfrentou. Muito bom.

Contarlo todo, romance de estreia do peruano Jeremías Gamboa, me impressionou pela fluência com que relata a vida do jovem protagonista, morador da periferia de Lima que resolve seguir o jornalismo e depois troca a profissão pela de escritor. A sensação de não-pertencimento, a busca do sonho, a cumplicidade dos amigos, as armadilhas do amor e da solidão, ingredientes frequentes nos romances de formação, aparecem de maneira original e cativante. Devorei o livro pouco tempo depois de uma viagem ao Peru. Meu prazer com essa leitura também se deve às identificações pessoais que tive com a história – o cotidiano das redações e seus personagens me trouxeram vários flashbacks –  e ao reconhecimento de vários cenários urbanos, como os do bairro boêmio de Barranco. Em seguida, li o livro de contos dele Punto de fuga, escrito antes, que comprova sua maturidade narrativa. Recomendo ambos.

Meus desacontecimentos foi, pra mim, o grande acontecimento de 2015 em termos de leitura. A repórter e documentarista Eliane Brum narra a descoberta e fascinação precoce com as letras, que moldou toda a sua trajetória de vida. História tocante, contada com emoção, domínio do idioma e apuro estético – aliás, marcas presentes em seus textos jornalísticos e de opinião. Meus desacontecimentos é o ganhador do DVeras Awards 2015. É um livrinho bom de ler anotando. Gosto muito deste trecho, entre tantos outros: “Meu pai pouco falava comigo pela boca, mas dizia muito com os olhos. Nas andanças pelo Brasil que, muito mais tarde, eu faria como repórter, escutei de homens e mulheres das mais variadas geografias uma expressão que revela a finura da linguagem do povo brasileiro: ‘Sou cego das letras’. Era como expressavam, em voz sentida, sua condição de analfabeto. Luzia, com esse nome tão profético, arrancou meu pai da cegueira das letras. E, com ele, todas as gerações que vieram depois. E as que ainda virão. Era isso que, ano após ano, ele agradecia à beira do túmulo de Luzia. E eu escutava, com os olhos”.

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15

Mar

15

Anotações de leitura: cuspe bom

“Comida gostosa, apimentada, temperos fortes. Para a saúde, vai ver não fosse bom, era reimoso; mas a mulher se ria, perto dela não se podia pensar em coisas mofinas. Achava fio de cabelo dela, não tinha repugnância, não se importava. – ‘Bem: eu cuspisse dentro da sopa, você tinha escrúpulo de tomar? Você gosta de mim de todo jeito?’ Asco nenhum. O cuspe dela, no beijar, tinha pepego, regosto bom, meio salobro, cheiro de focinho de bezerro, de horta, cheiro como cresce redonda a erva-cidreira”.

~ Guimarães Rosa. Dão-Lalalão (O Devente), em Noites do Sertão.

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08

Feb

15

Lendo: Meus desacontecimentos

“Desde pequena eu tenho muita raiva – e quase nenhuma resignação. A reportagem me deu a chance de causar incêndios sem fogo e espernear contra as injustiças do mundo sem ir para a cadeia. Escrevo para não morrer, mas escrevo também para não matar.

Ouvi de alguns chefes que a indignação faz mal para o exercício do jornalismo, que bom jornalista não tem causa. Discordo. Indignação só não faz bem para quem tem como única causa a do patrão.”
(…)
“Meu pai pouco falava comigo pela boca, mas dizia muito com os olhos. Nas andanças pelo Brasil que, muito mais tarde, eu faria como repórter, escutei de homens e mulheres das mais variadas geografias uma expressão que revela a finura da linguagem do povo brasileiro: “Sou cego das letras”. Era como expressavam, em voz sentida, sua condição de analfabeto. Luzia, com esse nome tão profético, arrancou meu pai da cegueira das letras. E, com ele, todas as gerações que vieram depois. E as que ainda virão. Era isso que,ano após ano, ele agradecia à beira do túmulo de Luzia. E eu escutava, com os olhos”.

~

Eliane Brum, uma das melhores repórteres do Brasil e escritora talentosa, em “Meus desacontecimentos – a história da minha vida com as palavras”

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06

Jun

14

Fante sobre Dostoiévski em ‘A irmandade da uva’

fante-sobre-dostoievski

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21

May

14

A irmandade da uva

John Fante - A irmandade da uva. Capa de livro.

Era pra ser só uma passada rapidinha na livraria, mas ele me fisgou. Recém-lançado no Brasil, The brotherhood of grape é de 1977. John Fante era o escritor favorito de Bukowski, que dele dizia: “Finalmente alguém que não tem medo da emoção”. Sem dúvida ele dominava o ofício como poucos.

O romance mais conhecido de Fante, e provavelmente o melhor, é Pergunte ao pó, em que seu alter-ego Arturo Bandini tenta fazer sucesso na Los Angeles dos anos 30, enquanto mata a fome com laranjas em um hotel barato e vive uma paixão complicada com uma garçonete mexicana. Humor e lirismo com muita arte.

O livro foi traduzido pro português por ninguém menos que Paulo Leminski, que, no prólogo, descreve a aventura dessa transcriação. Algumas sutilezas só funcionavam em inglês, lembrava Leminski, como a frase “I was twenty then”, fundamental pra definir o perfil do protagonista (“Eu tinha vinte anos então”. ou “Eu era vinte…”).

Também gosto muito de O vinho da juventude, em que ele recupera, com um tom bem-humorado e agridoce, as lembranças da infância e adolescência numa família de imigrantes italianos. E 1933 não foi um ano bom, também focado na família, com destaque para o seu pai, um pedreiro orgulhoso e durão.

Recomendo Fante a todos que gostam de ler bons romances em que o escritor coloca sua alma, sem floreios ou artifícios literários.

Depois conto o que achei deste.

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13

May

14

De Quintana, Shakespeare e leitura

- Poeta, o que devo ler para entender Shekespeare? - Shakespeare, minha filha.

– Poeta, o que devo ler para entender Shekespeare? – Shakespeare, minha filha.

Fonte: Ora Bolas – O humor de Mário Quintana. Juarez Fonseca, L&PM Pocket, 4a. edição, p. 94, maio de 2013.

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01

Dec

13

DVeras Awards 2013: livros

Chegou mais um dezembro. O blog mantém a tradição e apresenta a lista de queridinhos do ano em várias categorias. Pra quem toma contato com o DVeras Awards pela primeira vez, segue um resumo dos critérios, pelo que me lembro:

  • O único responsável pelas escolhas sou eu mesmo, ditador benevolente deste blog.
  • Em caso de empate, é utilizado o método científico do arremesso de moeda para o alto.
  • O prêmio aos contemplados é a visibilidade entre meus 17 leitores, todos formadores de opinião.
Vamos à primeira categoria: livros. Em 2013, encarei 22 livros e estou avançando em outros sete – mais que no ano anterior, menos do que eu gostaria. Nesta conta, não incluo dezenas de leituras transversais relacionadas a pesquisas de trabalho. A grande novidade do ano é o suporte tecnológico. Rendi-me ao e-book e tenho convivido com muitos livros no tablet Samsung Galaxy de sete polegadas – um formato confortável pra ler na rede, no ônibus ou numa casinha de sapê. Sem mais delongas, a lista dos contemplados é esta:
3. Vida de escritor (Gay Talese). É uma combinação de autobiografia com algumas histórias levantadas por ele que terminaram não sendo publicadas. Ou por rejeição do editor, ou porque Talese não sabia o caminho a tomar e decidiu abandonar o projeto. Ele tem fascínio por personagens anônimos e pelos que fracassam. Um resumo do posfácio de Mário Sérgio Conti: “Vida de escritor traz precisamente o que o título enuncia: um relato do calvário. … O livro não tem nada de condescendente nem conformista. Os seus assuntos são o trabalho e o fracasso. … Ao mostrar as frustrações do relato de apurar e relatar, Talese desmistifica o jornalismo”.
2. Norwegian Wood (Haruki Murakami). Uma das minhas melhores descobertas de 2013. Murakami consegue fazer uma ponte entre a cultura japonesa e a ocidental em um romance que flui como água, sem truques rebuscados de estilo. Depois do livro, vi o filme (de Tran Anh Hung) e também curti muito. Em seguida devorei a distopia 1Q84, em três volumes, e comecei Minha querida Sputnik. Uma boa síntese da narrativa de Norwegian Wood, na Wikipedia:
“No agitado Japão dos anos 60 o jovem Toru Watanabe mistura uma existência sem perspectivas às primeiras questões filosóficas e afetivas ao se envolver com a namorada de seu melhor amigo recém falecido, [com] uma estudante de ideias libertárias e [com] uma mulher mais velha. Repleto de referências pop com citações aos Beatles, Bill Evans, Miles Davis, literatura norte-americana, cinema e cultura europeia, o romance de Murakami cria um delicado – e por vezes cruel – retrato da geração que passou quebrando tabus nos anos 60 e 70 e viu todo um sonho ruim [sic; ruir, né?] nas décadas seguintes.”
E o vencedor do DVeras Awards 2013 é…
1. O sentido de um fim, de Julian Barnes. Ainda estou sob impacto desse livrinho de 160 páginas, vencedor do Man Booker Prize de 2011. As armadilhas da memória são o pano de fundo do romance. Tony Webster, um pacato sexagenário inglês, recorda os tempos de adolescência e juventude, tentando reconstituir retalhos da passagem pela escola, do relacionamento com os três amigos mais chegados, das suas primeiras experiências com mulheres. Um desencanto afetivo o acompanha e ele tenta compreender o que ocorreu, pra seguir em frente. “O que você acaba lembrando nem sempre é a mesma coisa que viu”, é uma de suas frases, mencionada na resenha da editora Rocco, que o publica no Brasil.
Este é o segundo livro de Barnes que leio – em 2001, li Do outro lado da Mancha, uma deliciosa coletânea de histórias sobre britânicos que foram viver na França. Assim como o texto do japa Murakami, o de Barnes flui sem pirotecnias, conduzindo o leitor como se cada frase fosse ligada à outra por fios invisíveis. Ao longo da leitura de O sentido de um fim, anotei trechos como estes:
“Mas o tempo… como o tempo primeiro nos prende e depois nos confunde. Nós achamos que estávamos sendo maduros quando só estávamos sendo prudentes. Nós imaginamos que estávamos sendo responsáveis, mas estávamos sendo apenas covardes. O que chamamos de realismo era apenas uma forma de evitar as coisas em vez de encará-las. O tempo… nos dá tempo suficiente para que nossas decisões mais fundamentadas pareçam hesitações, nossas certezas, meros caprichos.”
~
“Eu sem dúvida acredito que todos nós sofremos traumas, de um jeito ou de outro. Como não sofreríamos, a não ser num mundo com pais, irmãos, vizinhos e amigos perfeitos? E há também a questão, da qual tanta coisa depende, de como nós reagimos ao trauma: se o admitimos ou reprimimos, e como ele afeta a nossa forma de lidar com os outros. Alguns admitem o trauma e tentam atenuá-lo; alguns passam a vida tentando ajudar outras pessoas que foram traumatizadas; e há aqueles cuja principal preocupação é evitar sofrer mais traumas, a qualquer custo. E estes é que são cruéis, é deles que temos que nos precaver”.
~
“Naquela época, nos imaginávamos presos numa espécie de gaiola, esperando para sermos soltos na vida. E quando esse momento chegasse, as nossas vidas – e o próprio tempo – iriam se acelerar. Como poderíamos saber que nossas vidas já tinham começado, que algum benefício já havia sido obtido, algum dano já havia sido causado? E, também, que seríamos soltos numa gaiola apenas maior, cujas fronteiras a princípio seriam imperceptíveis.”

 

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01

Mar

13

Vida de Escritor

Vida de EscritorVida de Escritor by Gay Talese

My rating: 4 of 5 stars

Li e recomendo Vida de escritor, de Gay Talese. É uma combinação de autobiografia com algumas histórias levantadas por ele que terminaram não sendo publicadas. Ou por rejeição do editor, ou porque ele não sabia o caminho a tomar e decidiu abandonar o projeto. Talese tem fascínio por personagens anônimos e pelos que fracassam.

Passou meses na China pesquisando sobre uma jogadora de futebol que perdeu um pênalti na final da Copa do Mundo, numa partida que deu o título aos EUA. Durante anos, coletou informações e fez entrevistas sobre um prédio antigo em NY, onde diversos restaurantes bacanas abriram as portas e faliram em poucos meses. Também acompanhou de perto o caso de Lorena Bobbit, a equatoriana que decepou o pênis do marido. O resultado é um painel que revela muito sobre o método de trabalho dele, suas obsessões, bloqueios diante da página em branco e a paixão pela reportagem.

Do posfácio de Mario Sergio Conti: “Vida de escritor traz precisamente o que o título enuncia: um relato do calvário. … O livro não tem nada de condescendente nem conformista. Os seus assuntos são o trabalho e o fracasso. … Ao mostrar as frustrações do relato de apurar e relatar, Talese desmistifica o jornalismo”.

Conti conta ainda que Vida de Escritor, de 2006, foi o livro de Talese que teve pior recepção nos Estados Unidos. As restrições foram de duas ordens: ele seria um pot-pourri com restos de livros que goraram; e a sua construção era forçada e frágil. Conti diz que não há o que discutir quanto à primeira ressalva, mas a restrição não se sustenta, pois considera a construção do livro “altamente requintada” – labiríntica, autoquestionadora, fragmentada.

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