Posts com a categoria ‘letras’

30

Jul

10

DVeras em Rede, 10 anos

Pra não deixar a data passar em branco: há dez anos, em um dia qualquer de julho de 2000, nascia o web log DVeras em Rede. Uma combinação de diário digital, laboratório de redação, arquivo de resenhas e reportagens, catálogo de fotos, cápsula do tempo, depósito de pequenas insanidades e outros usos que fui descobrindo com o tempo. Algumas coisas que você não perguntou sobre este blog, mas vou contar assim mesmo:

  • Os dois inspiradores foram os blogurus Nando Pereira e Nicholas Frota, jornalista e designer brilhantes com quem eu trabalhava. Na mesma época e lugar surgiram também o Pinkdress, que depois iria se transformar no delicioso blog da Dadivosa; e o C.r.i.m.i.n.a.l., que não sei por onde anda.
  • DVeras em Rede nasceu em um apartamento na rua Paulino Fernandes, a uma quadra do metrô de Botafogo, no Rio. Alimentava-se com uma conexão de 128 Kb, num berçário chamado Geocities. O primeiro background do blog era cor de creme, horroroso. Depois mudei pra branco e adotei uma linha mais minimalista.
  • Nesses dez anos, o blog hospedou-se nas seguintes plataformas: Geocities; f2s; Blogger; Blogger Brasil (que não deixou saudade nenhuma); Globalite (também não fez falta); novamente Blogger e, no início de 2009, WordPress. Parte dos posts se extraviou, mas desconfio que a humanidade não perdeu grande coisa.
  • DVeras em Rede nunca mudou de nome. Houve um tempo em que pensei em rebatizá-lo de DVeras na Rede, mas abri uma cerveja, refleti e desisti – era uma mudança muito radical.
  • Uma das primeiras logomarcas do blog foi desenhada pelo amigo Zé Dassilva, que morou com a gente um tempinho quando chegou ao Rio – e hoje é quase um carioca da gema, embora ainda torça pro Criciúma.
  • DVeras em Rede nunca teve anúncio ou patrocínio, por dois motivos: não procurei, nem fui procurado. Contudo, se você tiver uma proposta interessante, posso estudar…
  • …mas um dos pré-requisitos é manter a “linha editorial”: este é um blog sobre assuntos aleatórios, em que coerência temática passa longe das preocupações.
  • Por que blogo com regularidade há dez anos? Vou levar outros dez pra responder. :) As principais motivações racionais foram os desejos de criar um espaço de livre-pensar e de usar a ferramenta pra praticar a autodisciplina da escrita. Mas às vezes acho que é pura compulsão mesmo. Mardita compulsão divertida!
  • DVeras em Rede tem poucos leitores, mas de alta qualidade. Nunca me esforcei pra divulgar o blog. As pessoas vão chegando, a maioria lê em silêncio e se manda; algumas trocam um dedo de prosa nos comentários, vão embora e depois retornam, ou não. É simples assim. Já conheci gentes finas através do blog.
  • Passei anos sem moderar os comentários, mas nos últimos tempos tive problemas com uns malas e precisei apagar alguns. Quando migrei pro WP, passei a usar uma ferramenta pra moderar comentários (só na primeira vez do elemento) e filtrar spam.
  • Uma das coisas que me mais me divertem é conferir as palavras-chave que os paraquedistas do Google usam pra chegar até aqui, tipo: como lavar um gato em casa; fotos de cocô e xixi humano; o pintinho em forma de poesia, posição baião-de-dois e dispositivo para repelir gambás. Não se pode atender a todos.
  • O segredo pra blogar durante dez anos: quando estou sem saco ou tempo pra escrever, adoto uma dessas opções: reblogar a mim mesmo, recuperando um texto antigo; reblogar os outros; contar piada; publicar anotação de leitura (aliáas adoro fazer isso e depois reler); publicar uma foto. Também deixo dias sem atualizar, sem remorso, mesmo sabendo que não é o ideal. Essa é uma das vantagens de não ter compromissos publicitários.
  • Um dilema cotidiano é como preservar a intimidade sem tornar o texto insípido, impessoal. Isso requer bom senso e um delicado equilíbrio, atributos que provavelmente não tenho de sobra, mas estou na busca. Como regra geral não publico meu endereço, fotos dos rostos dos filhos, detalhes da minha vida sexual / intestinal ou referências a reportagens em andamento. Talvez devesse enfrentar melhor a timidez, é uma coisa em que sempre penso. E lembro de meu ídolo John Fante na definição de Bukowski: “Finalmente um escritor que não tem medo da emoção”.
  • Blog versus redes sociais: o twitter e o facebook desviaram um pouco a minha atenção do DVeras em Rede ultimamente, mas acho que funcionam mais como complementos que como “rivais”. Há coisas que só um texto mais longo pode dar conta. E outras pras quais bastam 140 toques ou menos.
  • Fase WordPress: é muito boa a nova plataforma pra gerenciar o blog, mas ainda estou engatinhando no uso dos recursos. O novo design, “em construção”, está sendo feito num trabalho conjunto com Fabrício Boppré, leitor do blog que é também designer e programador de mão cheia e se ofereceu pra uma parceria voluntária. As mudanças se inspiram na filosofia/estética japonesa wabi-sabi, mas deixo que o próprio Fabrício desenvolva isso melhor uma outra hora, num post convidado.
  • O que mais gosto de escrever aqui no blog? Sem dúvida, as Miguelices e Brunitezas. Sou fãzaço dos meus meninos. Espero que, mais adiante, eles se divirtam com as frases e historinhas que registrei da infância deles.
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07

Jul

10

Anotações de leitura: inventar uma inocência

Uma das coisas encantadoras da leitura é encontrar textos que refletem, com brilho, ideias sobre as quais já matutei de maneira tosca. É o caso destes trechos em que o filósofo francês Michel Onfray se refere aos preconceitos sobre outros povos. Como antídoto, ele propõe ao viajante “deixar-se preencher pelo líquido local”; metaforicamente, é claro, mas não consigo deixar de associar a deliciosos momentos introspectivos que passei bebericando vinho ou cerveja (ou pisco, chicha, aquavit) em algum bar de lugar desconhecido, enquanto observava a multidão fluir e pensava na futilidade que é rotular as pessoas. Recomendo este livro a todos os viajantes.

Encerrar povos e países em tradições reduzidas, elas mesmas, a duas ou três pobres ideias é confortador, pois sempre tranquiliza submeter a inapreensível multiplicidade à unidade facilmente controlável: assim, africanos dotados de ritmo, chineses fanáticos por comércio, asiáticos em geral talentosos para a dissimulação, japoneses polidos ao extremo, alemães obcecados pela ordem, suíços bem conhecidos por sua limpeza, franceses arrogantes, ingleses egocêntricos, espanhóis orgulhosos e fascinados pela morte, italianos fúteis, turcos desconfiados, canadenses hospitaleiros, russos associados a um senso agudo de fatalidade, brasileiros hedonistas, argentinos roídos pelo ressentimento e pela melancolia, enquanto os magrebinos [africanos do norte] se caracterizam, evidentemente, pela hipocrisia e a delinquência.

Lançados indiscriminadamente, esses lugares-comuns permitem explicar – pelo menos é o que se crê – o jazz americano e as finanças pós-maoístas, a genealogia do fascismo europeu e a legendária neutralidade helvética, a insularidade genética dos anglo-saxões e a sangrenta tourada ibérica, a exceção nacional francesa e a dramática máfia moscovita depois da Glasnost, a imigração à América do Norte, terra de acolhida dos aventureiros e dos colonos, o corpo alegre das praias de Copacabana e a longa e glacial comoção do tango nas caves de Buenos Aires, mas também as taxas de criminalidade elevadas nos países europeus, pouco importando a verdade, contanto que haja uma aparência de sentido. Se fosse feita uma lista não-exaustiva dos julgamentos e das opiniões de uns sobre os outros, quem sairia incólume?

Um dos riscos da viagem consiste em partir para verificar por si mesmo o quanto o país visitado corresponde à ideia que se faz dele. Entre o desejo de encontrar os lugares-comuns encarnados que ocupavam o espírito e o de lançar-se numa terra absolutamente virgem, existe uma meia medida: ela supõe uma arte de viajar inspirada pelo perspectivismo nietzschiano – nada de verdades absolutas, mas verdades relativas, nada de padrão métrico ideológico, metafísico ou ontológico para medir as outras civilizações, nada de instrumentos comparativos que imponham a leitura de um lugar com os referenciais de um outro, mas a vontade de deixar-se preencher pelo líquido local, à maneira dos vasos comunicantes.

Michel Onfray, Teoria da viagem: poética da geografia, p. 55-56, L&PM, 2009.

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11

Jun

10

Elogio do sotaque

Nesta segunda, 14/6, às 18h30, no auditório da Reitoria da UFSC, o escritor argentino Alan Pauls (autor de O passado, levado ao cinema por Hector Babenco) profere a conferência Elogio do sotaque. Este vai ser o quarto encontro do ciclo O Pensamento do Século XXI deste ano, que já trouxe o italiano Emanuele Coccia, a francesa Liliane Meffre e o norte-americano Christopher Dunn para debater questões emergentes da arte e do pensamento de vanguarda contemporâneos, informa a Agência de Comunicação da UFSC: “Ganhador do conceituado prêmio Herralde, de literatura em língua espanhola, com ´O passado`, Pauls tem também ´História do Pranto` traduzido no Brasil (pela Cosac Naify, em 2008) e uma obra breve, porém muito aclamada pela crítica internacional, com 11 títulos, vários deles traduzidos para o inglês, francês, alemão e outros idiomas”.

Não faço ideia do que ele vai falar, mas já me fisgou pelo título.

Mais informações aqui.

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07

Jun

10

Anotações de leitura: organizar a memória

Entre a ausência de vestígio e seu excesso, a fixação dos instantes fortes e raros transforma o tempo longo do acontecimento num tempo curto e denso: o do advento estético. Trata-se de, com longas durações, produzir emoções breves e tempo concentrado no qual se comprima o máximo de emoções experimentadas pelo corpo. Um poem bem-sucedido, uma foto expressiva, uma página que fica supõem a coincidência absoluta entre a experiênca vivida, realizada, e a recordação reativada, sempre disponível não obstante o passar do tempo. De uma viagem só deveriam restar uns três ou quatro sinais, cinco ou seis, não mais que isso. Na verdade, não mais que os pontos cardeais necessários à orientação.

Michel Onfray, Teoria da viagem, p. 53.

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31

May

10

Leituras em família

Estamos vivendo uma temporada maravilhosa aqui em casa: o despertar da paixão pela leitura nos dois meninos, em diferentes fases de desenvolvimento – alfabetização e pré-escola. É uma onda boa que chega de mansinho, sem sobressaltos, sem lembrança exata de quando começou, assim como a mudança das estações. Acontece com uma simplicidade que encanta. Às vezes me pego encarnando o papel de pai típico, ao pedir pro Miguel apagar a luz do quarto que é hora de dormir (na real sempre fui flexível com isso, acho que a hora ideal é quando dá sono, mas o dormir muito tarde tem suas inconveniências práticas). E ele, sem tirar os olhos do mangá do Naruto que lê na cama, responde, “Espera um pouco”. Debruçado no tapete, Bruno desenha letras aparentemente ao acaso, mas que pra ele fazem todo sentido. Depois recorta papeizinhos e cola com fita adesiva pelas paredes. Às vezes simplifica o processo e escreve com caneta diretamente nelas.

Os sinais se multiplicam, sutis e eloquentes. Há cada vez mais gibis da Turma da Mônica no quarto deles e no banheiro. Nossas visitas a bibliotecas e livrarias são um programa muito apreciado, comparável a ir aos parquinhos ou à praia. Aquela bagunça de livros parcialmente lidos pelos cantos da casa já não é mais privilégio dos adultos. Uma cena bonita de se ver à noite é Miguel lendo livros em voz alta pro Bruno na cama. A tevê tem deixado de oferecer tantos encantos e fica cada vez mais tempo desligada. O segredo disso tudo? Não há segredo, esse é o fato. É o bom e velho método da educação pelo exemplo. Crianças que têm pais leitores tendem a se tornar boas leitoras. Esta é uma das heranças mais preciosas que podemos deixar pra eles.

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26

May

10

E por falar em camarão…

…recebi esta agora por e-mail do Celso Vicenzi.

A festa
“Estava suave o sol, o ar limpo e o céu sem nuvens. Afundado na areia, um caldeirão de barro fumegava. No caminho entre o mar e a boca, os camarões passavam pelas mãos do Zé Fernando, mestre de cerimônias, que os banhava em água-benta de sal e cebolas e alho.
Havia bom vinho. Sentados em roda, amigos compartilhávamos o vinho e os camarões e o mar que se abria, livre e luminoso, aos nossos pés.
Enquanto acontecia, essa alegria estava já sendo recordada pela memória e sonhada pelo sonho. Ela não terminaria nunca, e nós tampouco, porque somos todos mortais até o primeiro beijo e o segundo copo, e qualquer um sabe disso, por menos que saiba.”
Eduardo Galeano, escritor uruguaio.
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26

May

10

Crime e castigo, camarão e cuscuz

Ontem foi dia de boas aquisições livrescas. Comprei por impulso na banca de revista o clássico Crime e Castigo, de Dostoievski, por R$ 14,90. Mais barato que meio quilo de camarão graúdo. Ao pensar nisso, eu passava na frente duma peixaria. Parei e comprei camarão, que preparei com cuscuz pro jantar.

Ganhei da Laura Teoria da Viagem, de Michel Onfray (já escrevi aqui sobre outro livro desse filósofo francês), que o Fabrício Boppré tinha me indicado. E ela comprou pros meninos, num balaio de promoções da Livros & Livros, um de Manoel de Barros. Já temos o que fazer nos intervalos dos jogos da Copa.

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12

May

10

Piada pronta da vez: segurança divina

Esta semana vi no vidro traseiro de um carro da segurança da UFSC um adesivo em que faltavam duas letras. Lia-se: “Grupo Tático de Orações Especiais”. Com o número crescente de assaltos e arrombamentos no campus,  acho que estão precisando mesmo de uma forcinha lá do alto.

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12

Apr

10

Lido & Leno: China, resenhas, imigrantes…

Em março encarei dois livros bem interessantes enquanto preparava um artigo para a edição 16 da Revista do Observatório Social: China: uma nova história (John King Fairbank e Merle Goldman), e China: radiografía de una potencia en ascenso (Romer Cornejo, coord.). Como o tempo era escasso pra deglutir os dois tijolos, precisei fazer uma leitura transversal de ambos, principalmente do primeiro, em que saltei alguns séculos (não sem certo remorso, logo deixado de lado ao lembrar dos direitos inalienáveis do leitor) pra me dedicar com mais detalhe aos tempos recentes. O segundo, da Editora El Colégio de México, é em espanhol e reúne artigos de especialistas em diversas áreas. Muito legal pra quem se interessa por geopolítica, relações internacionais, minorias étnicas, questões de gênero e combate à pobreza. Um dos artigos, escrito por Xulio Rios, aborda as relações entre China e Taiwan, tema que me atrái desde que tive a oportunidade de conhecer a ilha asiática em 1993.

Nos intervalos, me deliciei com Nick Hornby e seu Frenesi Polissilábico, que ganhei do cumpay Frank Maia. O escritor inglês reúne uma série de resenhas literárias que publicou em uma revista americana. Fiel à sua mania revelada em Alta fidelidade, no início de cada artigo ele faz duas listas: a dos livros comprados e a dos livros lidos no mês. Não é o filé de Hornby, mas mesmo assim, valeu encarar. São resenhas bem humoradas e cheias de tiradas espirituosas sobre a arte (ou vício) de ler, além de ótimas dicas, apesar de quase sempre restritas ao universo anglo-americano. A maioria dos livros e autores que ele cita, eu nunca tinha nem ouvido falar. Mas Hornby é simpático o bastante pra nos deixar bem à vontade quanto à nossa ignorância. Taí um cara com quem eu gostaria de tomar uma Guiness ou uma caipirinha. Se você é viciado em livros, recomendo o Frenesi, mas se ainda não leu Hornby, melhor começar com Um grande garoto ou Alta fidelidade.

Há poucos dias terminei A síndrome de Ulisses, do colombiano Santiago Gamboa. Aborda a vida de imigrantes ilegais. É a história de um colombiano que tenta ser escritor em Paris dos anos 90, em meio ao maior perrengue de grana, tendo que lavar pratos num restaurante coreano e fazer bicos de professor de línguas  pra sobreviver. Ele faz amizade com vários imigrantes que, como ele, vivem no submundo parisiense: uma prostituta romena, um estudante marroquino, um norte-coreano com quem divide a pia do restaurante e outros. Pelo caminho, ele mata o tempo trepando com várias mulheres, investigando sobre um compatriota desaparecido, tentando superar o fora da ex-namorada espanhola e reescrevendo um romance ruim. Um dos pontos altos é a série de papos literários que ele tem com os amigos árabes e com escritores latino-americanos. Também é interessante a forma como, em determinados momentos, ele passa a narrativa em primeira pessoa aos outros personagens. Achei meio mal-amarrado em alguns trechos e foi inevitável compará-lo desfavoravelmente a outros autores que escreveram sobre a vida dura de Paris, com absoluto domínio da narrativa (Henry Miller, Paul Auster). De qualquer forma, a escrita é coloquial, flui bem e prende a atenção.

Anteontem comecei Um adivinho me contou, de Tiziano Terzani, enfaticamente recomendado pela @ladyrasta e que a Laura encontrou por R$ 9,90 num balaio de promoções. É o relato da experiência que esse jornalista italiano viveu ao passar um ano inteiro sem viajar de avião, se locomovendo entre Ásia e Europa por terra e mar. Um adivinho havia previsto que ele poderia morrer se voasse em 1993, e de fato ele se salvou de um acidente aéreo (eu também, quando era criança). Terzani questiona o modo de vida consumista, apressado e cético da cultura ocidental. As primeiras páginas já me fisgaram de jeito.

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26

Mar

10

A vida dupla de Vinicius de Moraes

Recebi do Fernando Evangelista e compartilho.

Ganhei da Ju o livro Encontro/ Vinicius de Moraes, organizado pelo Sergio Cohn e pela Simone Campos. Foi publicado pela azougue editorial. Nunca tinha ouvido falar. O livro reúne entrevistas concedidas pelo Vinícius de 1967 a 1979. A primeira, de 1967, foi feita por Otto Lara Resende, Lúcio Rangel, Ricardo Cravo Albim e Alexy Viany. Olhem só a turma…

Lá pelas tantas, ele fala que durante o começo da juventude vivia entre duas turmas. Uma da praia, do esporte; e outra que era da literatura e da música.

E ele tinha vergonha de falar das coisas de uma para a outra.

“Eu levava sempre essa vida dupla. Com os amigos da praia, freqüentava os prostíbulos da Lapa, da rua Conde de Lage. Tudo isso, para a turma da literatura, era secreto. Mas também ocultava algumas coisas dos amigos da praia.

Um amigo desse grupo da praia, chamado Paulão, era um oligofrênico total, um sujeito fortíssimo. Nós fazíamos jiu-jitsu com o Hélio Gracie. Um dia, na volta do treino, ele ficou me olhando muito esquisito no ônibus. Era um olhar de raiva e desconfiança, uma coisa muito perturbadora. De repente, porque não tinha escolha mesmo, perguntei para ele: o que está acontecendo? Por que você está me olhando assim?

E ele respondeu: é que me contaram que você anda escrevendo poesia. É verdade? E eu respondi: euuuuuuuuuuu?”

abraços,

fernando

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