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DVeras Awards 2019: livros

Lucia Berlin, 1962. Foto: Buddy Berlin.

Lucia Berlin, 1962. Foto: Buddy Berlin.

Em sua 13a. edição, o DVeras Awards elege os três melhores livros de ficção ou não-ficção que li por prazer entre janeiro e dezembro de 2019. Breve explicação de praxe sobre as regras deste concurso hedonista: ficam de fora obras técnicas e de referência, as lidas por motivo profissional e as não concluídas até 31 de dezembro. García Márquez, Vargas Llosa e Rubem Braga são hors-concours. A comissão julgadora sou eu mesmo.
A lista de 2019 traz autores dos Estados Unidos, Brasil, Reino Unido, Itália, Colômbia, Peru, China e Argentina. Dos 17 livros relacionados, quatro foram escritos por mulheres. Em 2020, quero continuar buscando mais olhares femininos na literatura e ampliar a abrangência geográfica-temática. Agradeço a todas as pessoas que me deram sugestões e me permitiram criar conexões com elas através das letras.
  • Comecei o ano com o lindo Manual da faxineira: contos escolhidos, de Lucia Berlin (1936-2004). As histórias dessa coletânea, todas de inspiração autobiográfica, apresentam a vida movimentada de uma criança solitária nascida no Alasca e criada no Novo México, adolescente de elite no Chile, boêmia hipster em Nova York, enfermeira em Oakland nos 70 e, no final da vida, professora universitária. Foi também faxineira e professora de crianças, casou três vezes, teve quatro filhos, um caso apaixonado com um rapaz de 17 anos, amigo de um deles, e passou anos enfrentando o alcoolismo. Ela tinha o que contar e sabia como fazer.
  • Em seguida li Rio em Shamas, de Anderson França, talentoso escritor, roteirista, professor e ativista de direitos humanos nascido na zona norte do Rio de Janeiro. Ele escreve crônicas de humor ácido sobre o cotidiano de pretos e pobres da periferia, muitas vezes abordando a violência policial. Dinho, como é conhecido pelos amigos, tornou-se mais um brasileiro auto-exilado do século 21: por causa de seus escritos contundentes, foi ameaçado de morte e teve que deixar o país.
  • A invenção da natureza, da historiadora britânica Andrea Wulf, é uma biografia do extraordinário gênio alemão Alexander von Humboldt, precursor da ecologia e o primeiro a organizar evidências em torno do conceito de gaia, o planeta feito de interconexões entre todos os seres vivos. Belo livro, com passagens bacanas do encontro dele com personagens históricos como Simon Bolívar e Thomas Jefferson, sem falar nas expedições pelas montanhas do Equador, florestas colombianas e estepes russas.
  • Simpatia pelo demônio, de Bernardo Carvalho, relata a manipulação de sentimentos em uma relação homossexual abusiva entre dois intelectuais, numa história que vai e vem entre Berlim, Nova Iorque, Rio de Janeiro e Oriente Médio. Tecnicamente bem escrito, mas confesso que achei tedioso.
  • Hacks mentais: 70 hacks para produtividade, hábitos e relacionamentos, de Luiz Felipe Araújo. Curioso, mas superficial. Leitura rápida para sala de espera de médico e fila de banco.
  • Passei alguns meses fazendo uma releitura deliciosa em doses homeopáticas: Coisas simples do cotidiano, coletânea de crônicas de Rubem Braga. Mestre.
  • Em abril li A realidade não é o que parece, de Carlo Rovelli. O livro me abriu as portas pela primeira vez à gravidade quântica de maneira que quase consegui entender. Trecho da apresentação:  “O espaço e o tempo realmente existem? De que é feita a realidade? De onde vem a matéria? O cientista Carlo Rovelli passou a vida inteira investigando essas questões, tentando ampliar os limites do que sabemos. … Ele revela como nossa compreensão da realidade mudou ao longo dos séculos, de Demócrito à gravidade quântica em loop. Rovelli nos guia por uma jornada maravilhosa e nos convida a imaginar um mundo completamente novo onde os buracos negros estão esperando para explodir, o espaço-tempo é feito de grãos e o infinito não existe – um vasto universo amplamente desconhecido”.
  • Com armas sonolentas, de Carola Saavedra, conta sobre três mulheres que têm as vidas interligadas. A história passeia entre a Alemanha e o Brasil, com toques de realismo fantástico. Não é ruim, mas não conseguiu me fazer embarcar na vida das personagens.
  • A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada é um maravilhoso volume de contos fantásticos de Gabriel García Márquez que conheci só agora. O que dá nome ao livro trata de uma adolescente explorada sexualmente pela avó como prostituta itinerante. Os contos se passam no deserto colombiano e aldeias caribenhas de pescadores onde o cheiro de rosas invade as casas e vestígios de naufrágios interagem com os moradores. Impressionante.
  • Nossas noites, de Kent Haruf, relata a amizade de um casal de velhos vizinhos que resolvem começar a dormir juntos para enfrentar a solidão. Bem bonito.
  • La tía Julia y el escribidor, de Mario Vargas Llosa, conta das peripécias de uma aventura amorosa vivida em Lima pelo narrador aos 18 anos de idade com uma tia divorciada, recém-chegada da Bolívia. Divertido e muito bem contado. Como pano de fundo, acompanhamos o cotidiano de uma estação de rádio e algumas radionovelas, narradas de forma simultânea à ação principal. Leitura em espanhol.
  • A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, deu origem ao filme que representa o Brasil no Oscar 2020. História sensível e intensa sobre o cotidiano feminino num bairro periférico do Rio na década de 1950, que só poderia ter sido escrita por uma mulher. Recomendo.
  • A cidade ilhada, Milton Hatoum. Releitura de contos de um dos melhores escritores brasileiros, com personagens do universo amazônico onde ele viveu parte de sua juventude.
  • Mudança, de Mo Yan, foi uma surpresa agradável vinda da China. É um divertido livro de memórias focado nas mudanças ocorridas no país asiático durante a segunda metade do século 20.
  • The Music of Chance, de Paul Auster, conta da amizade entre dois homens bem diferentes que se conhecem na estrada, entram numa aposta de cartas com dois milionários e, por conta de uma dívida, precisam enfrentar juntos um período de servidão. Não é o meu favorito, mas como todos os livros de Auster, muito bem escrito. Leitura em inglês.
  • A uruguaia, de Pedro Mairal, foi outra agradável surpresa vinda da nova geração de escritores argentinos. O protagonista é um homem que está preso a um casamento infeliz e relata, com linguagem fluida e bem humorada, sobre sua paixão avassaladora por Guerra, uma mulher atraente que ele conhece numa viagem a Montevidéu.
  • Freakonomics, de Steven D. Levitt. Abordagem criativa da economia a partir de perguntas inusitadas. Gostei.
E o DVeras Awards 2019 vai para os seguintes livros:
  • Bronze: A uruguaia, de Pedro Mairal, pelo frescor, bom humor e vitalidade da narrativa. Quero ler mais coisas dele.
  • Prata: A invenção da natureza, de Andrea Wulf. Biografia impecável sobre um personagem interessante e um tema de extrema relevância pra sobrevivência humana no planeta.
  • Ouro: Manual da faxineira, de Lucia Berlin. Em janeiro, logo que terminei a leitura, comentei:  ”Seu estilo compassivo, engraçado, agridoce e direto ao leitor não deixa nada a dever a mestres da narrativa curta como John Fante, Raymond Carver, Paul Auster, Alice Munro, Rubem Braga”. Ela sabia escrever com emoção e, ao mesmo tempo, com uma técnica apurada sobre personagens marcantes em situações cotidianas. Para mim foi a descoberta do ano, uma preciosidade.
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