Posts com a categoria ‘cinema’

13

Aug

19

Don Draper, personagem memorável

mad menNão vos trago novidades, passei só pra contar que finalmente terminei de ver a série Mad Men, exibida entre 2007 e em 2015. Confesso que na época não me fisgou e interrompi no primeiro episódio. Finalmente resolvi encarar e só tenho elogios. Roteiro, diálogos, cenários, figurino, arco dramático dos personagens, atores e atrizes, trilha sonora (Tomorrow Never Knows, dos Beatles, que fecha um dos episódios, custou 250 mil dólares à produção)… Tudo muito caprichado. Não por acaso ganhou 137 prêmios e foi indicada a outros 372.

Don Draper (Jon Hamm), o destruidor de corações das mulheres, que personagem bem construído e complexo! As pontes entre o passado misterioso e o presente dele explicam (sem entregar de uma só vez) sua dependência por sexo, a carência afetiva, o sentimento de culpa e inadequação, misturados com alcoolismo, senso de lealdade, genialidade e eloquência. Admirado, desejado e invejado, nunca ignorado. Nem bom nem mau, um humano com várias definições possíveis. “Frio como um peixe”, diz alguém num certo momento, referindo-se ao modo reservado que adota como couraça (sem spoilers, mas a resolução de seu drama e o fechamento da história, na sétima temporada, são brilhantes).

Como tema central, a evolução do mundo da publicidade entre os anos 1950 e 1970, com seus lances de brilhantismo, golpes baixos e manipulação da opinião pública, doses cavalares de cigarro e álcool, camaradagem e um prazer de trabalhar em equipe que me despertaram lembranças agridoces dos tempos de redação de jornal. Em paralelo, uma excelente reconstituição de época, pontuada por acontecimentos marcantes como a crise dos mísseis em Cuba, os assassinatos de Kennedy e Luther King e a chegada dos astronautas à lua.

Tão relevante quanto esse pano de fundo é a crônica de costumes sobre o empoderamento das mulheres, na família e no trabalho. A trajetória de Peggy (Elisabeth Moss), secretária ambiciosa que quer se tornar publicitária, é uma metáfora de muitas conquistas femininas (e por falar em metáforas, muito foda a animação de abertura). Também gostei da evolução da filha de Don, Sally (Kiernan Shipka), que no começo é uma menina e vemos se tranformar em uma adolescente de personalidade forte, fundamental na evolução do seu pai. Há vários outros personagens muito bons.

Eu poderia passar uma noite inteira conversando sobre Mad Men num boteco, tamanha a impressão que me causou. No momento estou “órfão de séries”, com a sensação de tempo bem aproveitado.

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04

Apr

19

Dois filmes bons, um filme bosta

CANDELÁRIA (2017), do diretor cubano Jhonny Hendrix, se passa no chamado “regime especial”, na década de 1990, quando o fim da União Soviética provocou penúria no país caribenho. Os aposentados Candelária e Victor Hugo quebram a rotina de privações e tédio quando ela encontra uma câmera de vídeo roubada e eles começam a filmar suas brincadeiras eróticas. Um dia a câmera desaparece, com consequências inesperadas. Trata de amor na velhice com delicadeza e talento.

MANOS SUCIAS (Mãos Sujas, 2014), do colombiano Josef Kubota Wladyka, acompanha a jornada perigosa de um pescador e seu amigo adolescente que viram “mulas” do tráfico de cocaína e transportam uma carga de barco até o Panamá pela costa do Pacífico. Tensão e suspense do princípio ao fim, numa história bem contada que mostra um pouco do cotidiano das comunidades negras locais. Ganhou o festival de Tribeca como melhor narrativa de novo diretor.

TRIPLE FRONTIER (Operação Fronteira, 2019), de J.C. Chandor. O personagem interpretado com a habitual canastrice por Ben Affleck se une a amigos mercenários pra roubar uma fortuna em dólares na casa de um traficante no Brasil. Depois de muitos tiros contra bandidos latinos estereotipados e perseguições inverossímeis, eles fogem cruzando os Andes peruanos (ok, a paisagem é linda). Clichês em abundância sobre ganância, lealdade, pecado e redenção, até o final previsível. Se você tiver algo melhor pra fazer, não perca seu tempo.

Todos estão disponíveis no Netflix. Grato ao Mauro Sniecikowski pelas duas primeiras dicas certeiras. A terceira é de minha inteira responsabilidade. :)

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25

Jun

17

Corralón: cinema argentino de primeira

Recém-saído do forno, este filme teve só duas exibições em seu país de origem, a Argentina. A terceira foi nesta quinta à noite no FAM, com a presença do diretor Eduardo Pinto. Tive o prazer de confirmar a precisão do comentário do Dorva Rezende sobre a qualidade do “Jarmusch argentino”. Corralón tem ecos do já clássico Down By Law (1986), da opção pelo preto e branco à estética de paredes descascadas e ruelas escuras da periferia. Mas sua pegada é mais contundente ao expor nossos contrastes latino-americanos (não há espaço para respiradas de humor à la Roberto Benigni). O filme acompanha a história de dois amigos, trabalhadores de uma empresa de materiais de construção, que entram em conflito com um casal de burgueses arrogantes. Destaque pra trilha sonora de Axel Krygier, perfeitamente integrada à trama vertiginosa. Mais não digo, a não ser que envolve cachorros e é de tirar o fôlego. 5/5

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