Posts com a tag ‘memento’

28

Aug

16

Lembranças de um ex-repórter de polícia

Entrei na reportagem pela editoria de polícia, como tantos focas. Melhor lugar pra aprender a escrever sem firulas, direto ao ponto, com verbos de ação. Cavalo invade delegacia. Acusado de furto faz declaração de amor. Eram tempos mais tranquilos, em que homicídio sempre dava capa – só uns 20 por ano na província, na década de 80.

De vez em quando a calmaria era quebrada. Durante o sequestro dos filhos dos Brandalise em Videira, participei de uma megacobertura de O Estado, acompanhando a parte final: o tiroteio em um prédio de Balneário Camboriú. Baita equipe. Entrei no hospital e entrevistei o sequestrador, ferido e algemado a uma maca.

Meus editores foram o Carlão Paniz e o Paulo Goeth. A eles, e ao então secretário de redação (ou algo assim) Ademar Vargas de Freitas, devo muitas canetadas pedagógicas no meu texto, naquelas laudas de 20 linhas de 70 toques, hoje artigos de museu. Assim como o moderníssimo telex, com aquela fitinha perfurada que trazia os despachos das agências de notícias.

A redação era enfumaçada e barulhenta, com todas as Remington matraqueando na hora do fechamento, as entrevistas por telefone, a rádio-escuta, fotógrafos escolhendo material, editores conversando com diagramadores, piadas e risadas. Dava pra sentir a pulsão no ar: aquelas pessoas encarnavam a confissão de García Márquez de que o “jornalismo é a melhor profissão do mundo”. Fiquei dois anos cobrindo polícia, depois passei pra geral.
#jornalismo30anos

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26

Aug

16

Flashbacks sonoros

A gargalhada solta do Bonson na redação. O vozeirão do Renan com um cartaz na porta do DC, “Quero meu salário!” O som agudo da máquina de telefoto, que baixava uma imagem completa em minutos.
#jornalismo30anos

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24

Aug

16

Sugestão de uso para dicionários

Na revisão de O Estado a gente jogava o significado das palavras apostando cerveja. Que era paga no mesmo dia, no boteco dos fundos da redação. #jornalismo30anos

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24

Aug

16

Barquinho

Meu primeiro texto publicado em jornal, que eu me lembre, foi no Estadinho, suplemento infantil de O Estado que era editado pelo talentoso Fabinho Brüggemann. História sobre um menino que gostava de tomar banho de chuva e soltava barquinhos de papel com meleca na correnteza da rua. Meio autobiográfica, tirando a meleca. O Estadinho foi o melhor suplemento infantil que já li. Imaginativo, engraçado, poético, nunca subestimava a inteligência das crianças. E saía em cores, com belas ilustrações.
#jornalismo30anos

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24

Aug

16

30 anos de jornalismo

No dia 22 de agosto completei 30 anos de exercício do jornalismo. Começo a contar da minha contratação com carteira assinada como revisor de O Estado, em Floripa. Muitas histórias, pessoas, viagens e aprendizados.

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12

Jan

16

Trinta anos hoje

Há trinta anos, às 10h de uma manhã de sol como esta, eu desembarcava no Terminal Rodoviário Rita Maria, em Florianópolis, vindo de Natal. Paixão à primeira vista que se transformou em amor duradouro. São tantas descobertas, tantas histórias… As melhores nunca vão ser escritas, mas quem as viveu comigo, sabe. Fui acolhido com muito afeto e riso nesta cidade-ilha que escolhi como minha. Aqui dormi de janela aberta e tomei banho de mar em praias limpas que hoje estão poluídas. Aqui, no Hospital Universitário da UFSC, nasceram meus dois filhos. Aqui me formei em jornalismo e aprendi a amar essa profissão. Aventura vertiginosa de aprendizado com uma linda “família ampliada” com quem criei vínculos eternos. O sentimento é de gratidão a todos que me iluminaram e iluminam o caminho. Parabéns pra vocês também.

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18

Jul

12

Auto-retrato de inverno

Hoje, 18 de julho, meu pai completaria 87 anos. Faz um ano e três meses que ele partiu, deixando uma saudade imensa de suas conversas bem humoradas, sua sabedoria, gentileza e amor pela vida. Cliquei esta foto na semana passada, no carro de um amigo. Quando fui editá-la, olhei meus olhos e vi os dele. De alguma forma, João Camillo permanece nos descendentes.

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30

Jan

12

A rainha do Sabiá

Hoje de manhã, em Fortaleza, morreu a tia Edite, mana querida de meu pai, com quase 90 anos de idade. Ela era a última sobrevivente dos irmãos dele, depois da partida da tia Maria do Céu aos 91 no ano passado. Visitei tia Edite em abril (poucos dias depois da morte dele), no quarto-enfermaria montado no apartamento da prima Judite. Tia Edite viveu os últimos tempos sofrendo com as doenças inevitáveis da velhice, mas em relativa serenidade, no aconchego da família. Ela alternava momentos de lucidez com outros em que viajava no tempo da sua longa existência, recordando antigas rezas e canções ou conversando com seus amados que já tinham partido. Pele alva, mãozinhas encarquilhadas pelo tempo, tinha lindos olhos claros que nos encaravam com imensa doçura.

Nunca vou esquecer das férias de infância que eu passava no sítio do Sabiá, em Russas. Aquele cenário de caatinga cearense faz parte de mim. Eu brincava entre os pés de carnaúba, corria atrás das galinhas-de-angola e admirava os cachorros de cabeça grande tangerem o gado pro curral, comandados pelo tio Raimundo Cláudio. De chapéu preto, magro, forte e calado, sempre trabalhando numa coisa ou outra, tio Raimundo Cláudio emanava uma energia silenciosa que combinava demais com o lugar. A água vinha de um riacho a alguns quilômetros, trazida em barricas pelos jumentos. Não havia luz elétrica e nenhum vizinho ao alcance da vista, só um enorme pátio com mato ressecado e a casinha de taipa abandonada ao lado, onde ela os irmãos tinham nascido. Enormes pés de tamarindo faziam a gente apertar os olhos ao olhar pra cima, seus galhos mais altos se misturando com as nuvens flocadas. Sol de torrar, banho de cuia. Depois das três da tarde, pontual, chegava o Vento Aracati pra refrescar a alma dos viventes.

Quando anoitecia, tia Edite acendia um lampião que enchia o velho casarão com cheiro de querosene e produzia um jogo impressionante de luz e sombras. A gente ensaiava a fuga, mas sabia que era inevitável: ela nos arrebanhava todos pra rezar o terço na calçada, em tamboretes e cadeiras de balanço. Eu contava os minutos pra acabar logo a reza, mas aquela ladainha era também hipnotizante, fazia a gente dar um curioso mergulho em si mesmo – anos depois, quando aprendi o que era mantra, me lembrei disso. Depois seguíamos pelo corredor comprido até a cozinha, nos fundos, e íamos jantar – comida simples, mas sempre gostosa. Às vezes aparecia uma visita que amarrava o cavalo na árvore da frente e sentava pra bater papo. Aí ficávamos ouvindo as conversas dos adultos: noivas que fugiram, bailes, crimes; comentários sobre a seca; anedotas, histórias de assombração. No céu, uma imensidão de estrelas, a não ser quando era lua cheia, outro espetáculo mágico.

Tia Edite era rainha absoluta de seus domínios, respeitadíssima por todos – e fazia um lindo par com tio Raimundo Cláudio. Ah, eu adorava as férias no Sabiá. Aos meus olhos de sete anos, tudo aquilo me parecia grandioso. Já se vão quase quarenta anos. Muita coisa mudou, outras, nem tanto. A propriedade hoje tem luz elétrica e bomba d´água, mas continua sem vizinhos próximos – e as antigas fotos de família continuam ornando as paredes. A casa de taipa onde tia Edite e os irmãos nasceram não existe mais, desabou de velhice. Permanecem de pé os carnaubais e continuam por lá as misteriosas inscrições rupestres. Os rios secos ainda transbordam na estação das chuvas, isolando a propriedade. Os pés de tamarindo também resistem ao tempo – devem ter saudade daqueles dois meninos, Janes e Jacó – meu pai e meu tio -, que subiam até os galhos mais altos pra se esconder da mãe quando aprontavam alguma presepada. Tio Raimundo morreu faz tempo e a família mora em Fortaleza. Lá vive só o primo Cláudio, poeta meio ermitão que cria uns sete gatos, faz seu próprio queijo e com quem gosto demais de prosear. Adeus, tia Edite, e obrigado por ter existido.

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22

Jul

11

Chuva nas folhas

Chuva nas folhas

Sou solar por natureza, mas amo a chuva desde criança. Uma das minhas primeiras lembranças é de estar pendurado na grade de um janelão que dava frente pra rua Major Codeceira, no bairro da Boa Vista, em Recife, e ficar olhando a água correr pelo meio-fio. Depois, aos cinco e seis anos, em Manaus, nunca perdia a chance de tomar banho pelado naqueles temporais tropicais que vinham e sumiam de repente, com pingos grossos de encher copo d’água. Em Natal, a Cidade do Sol, chuva é tão rara que rende até desconto pra turista em hotel. Na adolescência eu fantasiava em um dia morar num lugar onde pudesse curtir isso mais vezes, ficar em casa olhando pela janela ou curtindo um livro debaixo do cobertor. Meu desejo foi atendido em Floripa, até demais. Aqui ela vem junto com o frio e às vezes dura por dias e dias. Fininha, insistente, deixa o ar tão úmido que quase dá pra cortar com uma faca. As frutas apodrecem rápido, o guarda-roupa fica com cheiro de mofo, o chão do quintal, encharcado. Mas não consigo reclamar. Sempre dá pra encontrar beleza nesse presente que cai do céu.

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31

May

11

Os melhores anos

O ex-comparsa de jornal O Estado Paulo Clóvis Schmitz, PC para os amigos e colegas, publicou esta crônica no Notícias do Dia e reproduzo na íntegra. Ele comenta a Festa dos Dinossauros, realizada no sábado com uns 150 cúmplices da aventura inebriante que foi trabalhar no “mais antigo”. Bukowski dizia de Fante, e se aplica ao PC: eis um escritor que não tem medo da emoção. Pra completar meu deleite com esta leitura, adoro crônica de ônibus.

Os melhores anos

O coletivo seguia lento, ruidoso, carregando o peso da própria sucata, a fala ligeira e os sonhos de gente que tinha vindo ao Centro para resolver demandas bancárias, negócios miúdos, ninharias de todo gênero. No corredor, grandes trouxas de roupas para lavar, pertencentes a famílias que pagavam por isso, e também mudas de árvores, a ração para o boi, apetrechos e ferramentas de pedreiro.
Vencida a reta das Três Pontes, o ônibus cambava para a esquerda e tomava a estradinha do Saco Grande, nome original do bairro que é hoje conhecido por João Paulo. Ao cruzar de novo a rodovia, na lá frente, saltávamos nós, empregados d’O Estado, para mais uma jornada, sabendo que o nosso trabalho seria conferido no dia seguinte, na hora do café da manhã, por senhores bem comportados daqui e de Joaçaba, Chapecó, São Miguel do Oeste…
Entrar no corredor que dava para a redação era deixar para trás todos os dilemas, uma dor física, algum drama existencial – em suma, o mal-estar do mundo. A grande sala repleta de Remingtons, laudas e fungos no carpê sem lavação era o porto seguro, a tábua de salvação, a certeza do amor próprio conferido pelo ofício abraçado, sabe-se lá a partir de que circunstâncias.
Ali, os dias eram plenos, dias de uma afeição particular aqui, de anseios não manifestos ali, e também de cobranças e louvores, quando houvesse razão para isso. Foram amizades sinceras, um aprendizado permanente e a comunhão perfeita com aquele recanto aprazível, quase interiorano, de uma cidade já em franca transformação.
A volta, à noite, repetia o ritual, o ônibus levando os sonhos, angústias e falas em outra direção, talvez em tom mais confessional, como convinha ao horário. Com ele, iam alguma saudade e a satisfação com a própria obra, que seria retomada um dia depois. Ia também a certeza de que o corredor estaria ali, imutável, como quem espera a volta do filho pródigo. Queixas havia, e também pequenas tragédias à espreita, mas o saldo era positivo, sempre.
Reencontrar parte desse passado ajudou a rememorar passagens, recapitular episódios impagáveis, rever figuras de bondade infinda e perceber que o tempo passa para todos, inexorável, independente do bolso, do título, da índole irretocável de uns, da empáfia de outros. Foi salutar falar de gente que já se foi, de gente que não deu mais as caras, de gente que chutou o balde e mudou de ramo e de rumo. Todos foram protagonistas de uma saga e marcaram, à sua maneira, a mente de quem gastou ali alguns dos melhores anos de sua vida.

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