Posts com a categoria ‘crônicas’

18

Nov

19

Eu tenho preconceito

Uma croniquinha que publiquei no Facebook em 2 de setembro de 2018.

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O papo no almoço de domingo foi sobre preconceito, uma coisa que as pessoas só costumam enxergar nos outros, nunca em si mesmas. Não é o meu caso. Poderia fazer uma lista exaustiva dos meus, mas vou só resumir. Se você vestir a carapuça de algum dos que vou citar agora, não se apoquente nem reforce meus preconceitos deixando comentário desaforado. Desde já admito que a culpa é minha. Sou só um humilde aprendiz em busca de evolução espiritual nestes tempos tenebrosos de aversão à diversidade.

Pra começar, tenho preconceito contra quem tenta me vender qualquer produto ou serviço não solicitado. Isso inclui operadores de telemarketing, políticos em campanha, gerentes de banco, escritores de autoajuda, assessores de imprensa que mandam e-mail com meu endereço no campo de /cco, anúncios personalizados, testemunhas de jeová, hare khrisnas, carismáticos e evangelizadores de qualquer denominação. Abro poucas exceções: indígenas vendendo artesanato, crianças pedindo gostosuras no ralouin, mendigos pedindo um troco pra tomar cachaça. Dia desses comprei dois abacates de um casal que tocou a campainha de casa. A história deles muda a cada vez, mas são simpáticos e adoro abacate.

Tenho preconceito contra perfis de casal nas redes sociais – a gente nunca sabe com quem está falando nem a quem dar os parabéns no aniversário. Tenho um tiquinho de preconceito contra casais que vivem dizendo como seu amor é lindo – são os que mais se divorciam, mas a insegurança que revelam é tão comovente que merecem perdão. Não é o caso dos comentaristas de portal, racinha abominável. Tenho preconceito com fotos de viagens a Paris (inveja pura). No Instagram, com quem vive postando selfie ou foto de comida. Exceção pra modelos (sigo vári@s) e conhecedores da boa mesa. Também sou preconceituoso com fotos ruins de pôr do sol e lua cheia, horizontes desnivelados, rótulos de cerveja artesanal. Mas adoro vídeos de gatinho, vá entender.

Admito: muitas vezes sou intolerante. Tenho preconceito com quem vota em fascista, fiscaliza o cu dos outros, diz “o” direitos humanos como se fosse pessoa, exige ser chamado de doutor, posa de machão, exibe arma, abusa do marketing pessoal, faz piada humilhante com deficiente, caga regra à direita ou à esquerda. Com quem, sendo escolarizado, escreve “menas”, “a muito tempo”, “haviam muitas coisas”. Com colonizados que amam jargão em inglês. Meu estômago se revira quando leio “deixa eu desenhar”, “vá estudar história”, “vá pra Cuba”, “narrativa do golpe”. Tenho os dois pés atrás com aperto de mão molenga ou forte demais, com quem só tecla usando emoji, com quem fala “tá ligado?” cem vezes por dia, com motorista que não dá seta e fecha cruzamento.

Eu olho atravessado pra quem me trata bem, mas humilha o garçom; pra frases no imperativo, publicidade infantil, hamburgueria gourmet, terraplanistas e criacionistas; pra abusadores da fé alheia, sabichões do twitter, picaretas do empreendedorismo, arautos do livre mercado que sugam os serviços públicos; pra imitadores baratos de Bukowski, bêbados e abstêmios inconvenientes, gente que vem me falar mal de meus amigos como se me fizesse um favor. Tenho preconceito com vampiros emocionais, com quem só tem certezas e, confesso, um enorme preconceito com quem não ri de si próprio. Paro a lista por aqui, porque talvez alguém ache que fui longe demais e tenho preconceito com quem não gosta de textão. Prometo que vou tentar melhorar, tá?

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22

Aug

18

Novos desafios

Chegou na firma e recebeu a boa notícia do chefe: iria ganhar uma oportunidade única de enfrentar novos desafios. Mais detalhes no RH. Munido de carteira de trabalho, essa herança anacrônica da era Vargas, logo soube dos detalhes. Fora promovido a gestor de home-office autônomo, um cargo de alta relevância, vinculado apenas informalmente à estrutura organizacional, para não tolher sua liberdade criativa. Em sintonia com as diretrizes modernizadoras da reforma trabalhista, precisaria rescindir o contrato de trabalho e se tornar microempreendedor para continuar prestando seus inestimáveis serviços. Assumiria, naturalmente, os custos de água, energia, internet e cafezinho, mas com toda a liberdade para escolher os fornecedores e marcas que melhor lhe aprouvessem. Afinal, paternalismo não ajuda nada a estimular o desenvolvimento profissional em um ambiente de livre mercado, e você prefere tomar arábica, não é mesmo? Outra vantagem imensurável: total controle sobre a temperatura do ambiente laboral, um grande passo na conquista da autonomia do eu.

Foi à luta. Comprou pijama novo em dez vezes, contratou contador, conseguiu CNPJ e começou a trabalhar em casa. Em pouco tempo percebeu como expandia os horizontes. Aprendeu a usar os recursos de maneira parcimoniosa e sustentável, para não aumentar a pegada ecológica. Descobriu como alongar o endividamento, como vender almoço para comprar janta. Hoje ele é o feliz CEO de uma empresa enxuta e versátil do ramo de serviços aleatórios. Para maximizar os resultados, acumula responsabilidades: é gestor da prospecção de partículas invisíveis (varre a casa); líder do board de aquisições (faz a feira); manager de recursos animais (cuida dos cachorros); barista (passa o café); alquimista com especialização em sódio (faz a comida); supervisor do fluxo de informações (pesquisa no Google, atende o telefone, recebe o carteiro). Ainda arruma tempo para fazer ginástica laboral (lava o banheiro), cultivar a network (Facebook, Whatsapp) e prestar trabalho voluntário em ações ambientais (separa o lixo e leva pra calçada). É verdade que sua empresa tem enfrentado dificuldades no fluxo de caixa, mas já disponibilizou aos credores um powerpoint com o diagnóstico tranquilizador: é só uma crise passageira nos mercados emergentes, coisas do mundo competitivo e globalizado. Nada que abale sua crença inabalável no poder da vontade.

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30

Dec

15

A matemática de amassar barro com as costas

Dia dos Mortos no México. Foto de Barney Moss/Creative Commons

Dia dos Mortos no México. Foto de Barney Moss/Creative Commons

Você pode achar esta calculadora de probabilidades um tanto mórbida. Prefiro vê-la como um exercício de riso filosófico — meu pai costumava fazer isso anotando as idades em que as personalidades da enciclopédia abotoaram o paletó. Na comparação, ele se considerava um homem de sorte. Cumpriu sua missão aos 85 anos, quando 70,2% das pessoas já dormiram o sono dos justos, segundo os matemáticos.

Se você só tem 25 anos, a possibilidade de esticar o pernil é de apenas 0,3%. Somos praticamente imortais nesta idade, aproveite — mas não abuse da paciência do anjo da guarda, que às vezes é ruim em matemática. Já as chances de arrefecer o céu da boca antes dos 50, idade que completo no mês que vem, são um pouco mais altas: 3,6%. Se depender de mim, não pretendo estar entre os 99,6% que já bateram biela antes de completar cem anos.

Já pensou em como pode ser reconfortante ter a consciência de que nosso corpo não foi feito pra durar? A gente pode se dedicar de alma muito mais leve aos amigos, beijos de língua, amores, viagens, atos solidários ou solitários, à realização de pequenos e grandes sonhos. E, claro, a chutar o balde do que não nos interessa. Um momento de cada vez, sem auto-ilusão e sem se estressar com o triste pio. É o que temos.

Afinal, pra que se preocupar com o dia de dar o peido mestre, sair com os pés pra frente, ter a conta feita, dar o couro às varas, fazer tijolo, ir para o jardim das tabuletas, amassar o barro com as costas, dar com a cola na cerca, morder o pó, perder a colher, colocar o pijama de madeira, esticar o alcatre, desconectar geral, mudar pra cidade dos pés juntos, se isso está fora do nosso controle? Carpe diem e feliz 2016!

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Esta crônica foi inspirada no texto Your body wasn’t built to last: a lesson from human mortality rates

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