Posts com a categoria ‘humanos’

08

Dec

20

Kjeld Jakobsen, presente!

O mundo fica mais pobre sem Kjeld Jakobsen, uma pessoa especial que a vida me deu a sorte de encontrar. Conheci o Kjeld em 2002 quando fui contratado pelo Instituto Observatório Social, que ele presidia – um belo projeto de cooperação internacional envolvendo a CUT e centrais sindicais da Holanda, Alemanha e Estados Unidos.
Em poucos meses de trabalho, me coube a missão de acompanhá-lo a Santiago do Chile para um evento de trabalhadores de países hermanos. Tempo de esperança na possível eleição de Lula, que concorria à presidência pela quarta vez, e na mudança dos ventos na América Latina, que de fato ocorreu. Tivemos longas conversas sobre geopolítica e acompanhei atento a sua participação no encontro, um grande aprendizado de como é possível focar no que aproxima as pessoas, em vez de insistir nas diferenças.
Nos quatro anos em que trabalhamos juntos, embora em cidades diferentes – ele em São Paulo, eu em Floripa – convivemos em inúmeras ocasiões. Ele tinha o o talento inato de articulador, a habilidade de mediar conflitos de forma serena e fundamentada, costurar acordos difíceis que ampliaram direitos dos trabalhadores em várias empresas multinacionais com operações no Brasil. Chefe competente e ponderado, tinha um conhecimento tão vasto quanto a sua generosidade com os colegas, sua simplicidade e vontade de fazer do mundo um lugar mais justo.
Kjeld acreditou no jornalismo como instrumento relevante pra investigação de denúncias de violações de direitos humanos. Graças ao seu apoio decisivo, publicamos várias reportagens na Revista do Observatório Social sobre temas como trabalho escravo e infantil, assédio moral, mutilação na indústria, desmatamento ilegal e exploração de imigrantes, vinculando essas violações à cadeia produtiva de grandes corporações multinacionais. Não raras vezes, o desgaste da reputação dessas empresas provocou pressões que levaram a mudanças concretas nas relações de trabalho e na vida das pessoas. Os prêmios conquistados com a revista (Esso, Vladimir Herzog e outros) foram consequência do trabalho de uma galera idealista, que vivia dando risada, sabendo que o chefe nos incentivava e apoiava. Em retrospecto, vejo hoje que foi a redação dos sonhos. E ele sonhava com a gente.
Não tenho palavras boas o bastante pra expressar a tristeza com essa perda, pra contar da importância que o Kjeld teve na minha trajetória profissional e na de tantos outros. Morreu um homem de valor, parceiro dos que resistem. Meu abraço à família e a todos que foram tocados por sua presença. Seguimos.
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25

Jan

20

Adeus, irmão

camillo_armacaoEm família de jornalistas, quando um irmão dobra a esquina, o que fica precisa enxugar as lágrimas e dar a notícia. O repórter caçula foi embora, sobrou pra mim. Nosso querido Camillo Veras morreu hoje, pouco antes das 8h da manhã, no Hospital São Carlos em Fortaleza, por complicações resultantes de um AVC que teve no início de dezembro. Ele tinha 47 anos e lidava há tempo com as sequelas da radioterapia em um tumor na base da hipófise, que foi lhe prejudicando aos poucos a audição, visão e equilíbrio. Mas nunca perdeu o humor, a inteligência rápida, a generosidade e a coragem com que encarava as limitações.

Se ele pudesse me dar agora umas aspas pra colocar neste texto, diria que a morte é parte natural da vida, “é dobrar uma esquina”. E ia tentar nos alegrar com seu enorme repertório de piadas e causos. Camillo foi uma das pessoas mais incríveis, bondosas, engraçadas e tolerantes que já conheci. Para a nossa irmã Lubelia Freire, ele disse recentemente: “Eu não tenho inimigos e se vier a ter vai ser só de uma mão, de lá pra cá, porque daqui pra lá nunca…”

Deixa a companheira Aline Paiva, a quem abraço com carinho e admiração; os irmãos Lubélia, Leonardo Camillo, Dauro, André, Janara e Cristiane; a rede preferida, Estefânia; e uma legião de amigos e admiradores. Sua ex-companheira e amiga eterna Regina Luna – mãe da filha deles Bruninha, que partiu antes – nos lembra que o Camillo pediu aos amigos pra gritarem: “Companheiro, Camillo! Presente, agora e sempre!” A despedida (velório é um nome horrível, né? Outra coisa que ele diria) vai ser no Jardim Metropolitano a partir das 16h de hoje, e a cremação às 16h de amanhã.

Camillo amava viajar. O AVC o pegou no dia 12 de dezembro, em São Paulo, dois dias depois de nos encontrarmos. Ele estava a caminho de Montevidéu e Buenos Aires e na volta passaria aqui por Floripa. Há poucos dias ele mandou um recado pra mim e pro Leo: nos intimava a fazer juntos uma viagem de carro. Vamos ter que mudar os planos, maninho, mas você vai sempre nos acompanhar.

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21

Feb

17

Mais Raduan Nassar

Agora em Lavoura Arcaica, citado no blog de Pádua Fernandes.
– E fica também mais pobre o pobre que aplaude o rico, menor o pequeno que aplaude o grande, mais baixo o baixo que aplaude o alto, e assim por diante. Imaturo ou não, não reconheço mais os valores que me esmagam [...] a vítima ruidosa que aprova seu opressor se faz duas vezes prisioneira, a menos que faça essa pantomina atirada por seu cinismo.

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20

Feb

17

Raduan Nassar e a ditadura militar

Trecho de Um copo de cólera, de Raduan Nassar, citado por Pádua Fernandes. O livro foi escrito em 1970 e publicado em 1978.
Depois de afirmar que ela se tornaria polícia feminina, é o fascista, em astuta estratégia do autor, que faz este comentário subversivo: “no abuso de poder, não vejo diferença entre um redator-chefe e um chefe de polícia, como de resto não há diferença entre dono de jornal e dono de governo, em conluio, um e outro, com donos de outros gêneros”.
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04

Aug

16

Conversas de fisioterapia

Tou fazendo fisioterapia pra umas dores de cinquentão e me divirto com as conversas dos colegas estropiados. Tem umas velhinhas que fariam a alegria da Adriane Canan e suas crônicas. Esses dias, uma senhora contou que está casada há quarenta anos. O marido é sério, “não gosta de palhaçada”, e ela tá sempre aprontando. Uma das suas diversões é ir ao Angeloni com ele e se perder de propósito. Aí ela procura a gerência e pede pra botarem um recado pro marido no sistema de som, dizendo que sua mulher o espera lá na frente. Outra: quando ele vai doar sangue no Hemocentro, ela pede pra falar com a enfermeira-chefe e pergunta na frente dele: – Depois de quanto tempo já dá pra fazer um amorzinho?

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19

Jun

15

Partidas de outono

Um outono de despedidas de pessoas especiais que fizeram a travessia. A querida amiga Elô Schefer, depois de uma longa briga contra o câncer. Tia Sara e tio Daltro, com 28 dias de intervalo entre si. Dona Terezinha, mãe do Chico Faganello, a bondade em pessoa. Fiquem em paz, sua herança está com a gente. E que venha logo o inverno. A vida segue.

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27

May

15

Conversa no supermercado

No supermercado a caixa Nathália Cruz, vinte anos se muito, dá dicas pacientes à colega em treinamento.
- Que banana é essa?
- Caturra – chuta a outra, que empacota e observa.
- Não. É prata, olha a pontinha aqui.
- Que bom que você tem uma boa professora – comento pra novata.
- Eu já estive no lugar dela – diz Nathália.
Falamos da chegada dos imigrantes haitianos e do preconceito de gente que deseja se ver livre “disso”. Ela filosofa, alma antiga:
- É típico do ser humano achar que sofre mais que os outros. Crédito ou débito?

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08

Apr

15

Casais russos dormindo e esperando

Lindo projeto documental da fotógrafa Jana Romanova, de São Petersburgo. Casais russos grávidos dormindo.

Casal russo grávido dormindo. Foto de Jana Romanova

 

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29

Mar

15

O saldo de dez anos da “Guerra ao Terror”

A ong Physicians for Social Responsibility (PSR), prêmio Nobel da Paz em 1985, divulgou relatório com uma nova estimativa do número de mortos em dez anos de “Guerra ao Terror” promovida pelos Estados Unidos e aliados: em torno de 1 milhão de pessoas no Iraque, 220 mil no Afeganistão e 80 mil no Paquistão, somando cerca de 1,3 milhão. O número é dez vezes maior que o divulgado pela mídia e pelas principais ongs. Eles acrescentam que essa é uma estimativa conservadora: “O número total de mortos nos três países pode superar os 2 milhões, e um número inferior a 1 milhão é bastante improvável”.
~ PDF, 101 páginas. Via Glenn Greenwald e Sônia Bridi

 

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01

Feb

15

49 verões

Sintam-se abraçados todos os dois milhões de amigos que me enviaram mensagens, telefonaram, tuitaram, whatsapparam e beijaram no dia do meu aniversário. Me sinto um “quirido”. Se você não lembrou, não tem importância, isso acontece comigo e com metade da torcida do Sport.

Meu natalício começou com uma restauração quebrada e uma visita ao dentista. Dente consertado, fiquei apto a fazer selfies e ser fotografado pelas ruas – nada disso aconteceu, mas é bom estar preparado. Almoçamos no bar do seu Vadinho, no Pântano do Sul, o de sempre que é a cara da Ilha de Santa Catarina: peixe frito mais peixe à doré mais cação desfiado, pirão, feijão, arroz, batatas fritas e salada. Depois um banho gostoso na Lagoa do Peri – caras, fiquei preocupado com a Lagoa do Peri, o nível da água tá baixando muito.

Já são 49 verões bem vividos. A expectativa é ter saúde e sorte pra ficar velhinho e morrer bem sabidinho, como dizia papai, um sortudo que chegou aos 85. Pelo sim, pelo não, viver com intensidade um dia de cada vez. Feliz ano novo pra vocês também.

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