Posts com a categoria ‘humanos’

30

jan

12

A rainha do Sabiá

Hoje de manhã, em Fortaleza, morreu a tia Edite, mana querida de meu pai, com quase 90 anos de idade. Ela era a última sobrevivente dos irmãos dele, depois da partida da tia Maria do Céu aos 91 no ano passado. Visitei tia Edite em abril (poucos dias depois da morte dele), no quarto-enfermaria montado no apartamento da prima Judite. Tia Edite viveu os últimos tempos sofrendo com as doenças inevitáveis da velhice, mas em relativa serenidade, no aconchego da família. Ela alternava momentos de lucidez com outros em que viajava no tempo da sua longa existência, recordando antigas rezas e canções ou conversando com seus amados que já tinham partido. Pele alva, mãozinhas encarquilhadas pelo tempo, tinha lindos olhos claros que nos encaravam com imensa doçura.

Nunca vou esquecer das férias de infância que eu passava no sítio do Sabiá, em Russas. Aquele cenário de caatinga cearense faz parte de mim. Eu brincava entre os pés de carnaúba, corria atrás das galinhas-de-angola e admirava os cachorros de cabeça grande tangerem o gado pro curral, comandados pelo tio Raimundo Cláudio. De chapéu preto, magro, forte e  calado, sempre trabalhando numa coisa ou outra, tio Raimundo Cláudio emanava uma energia silenciosa que combinava demais com o lugar. A água vinha de um riacho a alguns quilômetros, trazida em barricas pelos jumentos. Não havia luz elétrica e nenhum vizinho ao alcance da vista, só um enorme pátio com mato ressecado e a casinha de taipa abandonada ao lado, onde ela os irmãos tinham nascido. Enormes pés de tamarindo faziam a gente apertar os olhos ao olhar pra cima, seus galhos mais altos se misturando com as nuvens flocadas. Sol de torrar, banho de cuia. Depois das três da tarde, pontual, chegava o Vento Aracati pra refrescar a alma dos viventes.

Quando anoitecia, tia Edite acendia um lampião que enchia o velho casarão com cheiro de querosene e produzia um jogo impressionante de luz e sombras. A gente ensaiava a fuga, mas sabia que era inevitável: ela nos arrebanhava todos pra rezar o terço na calçada, em tamboretes e cadeiras de balanço. Eu contava os minutos pra acabar logo a reza, mas aquela ladainha era também hipnotizante, fazia a gente dar um curioso mergulho em si mesmo – anos depois, quando aprendi o que era mantra, me lembrei disso. Depois seguíamos pelo corredor comprido até a cozinha, nos fundos, e íamos jantar – comida simples, mas sempre gostosa. Às vezes aparecia uma visita que amarrava o cavalo na árvore da frente e sentava pra bater papo. Aí ficávamos ouvindo as conversas dos adultos: noivas que fugiram, bailes, crimes; comentários sobre a seca; anedotas, histórias de assombração. No céu, uma imensidão de estrelas, a não ser quando era lua cheia, outro espetáculo mágico.

Tia Edite era rainha absoluta de seus domínios, respeitadíssima por todos – e fazia um lindo par com tio Raimundo Cláudio. Ah, eu adorava as férias no Sabiá. Aos meus olhos de sete anos, tudo aquilo me parecia grandioso. Já se vão quase quarenta anos. Muita coisa mudou, outras, nem tanto. A propriedade hoje tem luz elétrica e bomba d´água, mas continua sem vizinhos próximos – e as antigas fotos de família continuam ornando as paredes. A casa de taipa onde tia Edite e os irmãos nasceram não existe mais, desabou de velhice. Permanecem de pé os carnaubais e continuam por lá as misteriosas inscrições rupestres. Os rios secos ainda transbordam na estação das chuvas, isolando a propriedade. Os pés de tamarindo também resistem ao tempo – devem ter saudade daqueles dois meninos, Janes e Jacó – meu pai e meu tio -, que subiam até os galhos mais altos pra se esconder da mãe quando aprontavam alguma presepada. Tio Raimundo morreu faz tempo e a família mora em Fortaleza. Lá vive só o primo Cláudio, poeta meio ermitão que cria uns sete gatos, faz seu próprio queijo e com quem gosto demais de prosear. Adeus, tia Edite, e obrigado por ter existido.

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31

out

11

Lula e o SUS

Acompanhei de longe a notícia sobre o câncer de Lula e os comentários sugerindo que ele devia se tratar pelo SUS. Nem me deu coceira nos dedos pra comentar, pois outros o fizeram com mais competência. Gravatai Merengue critica a mesquinharia e desmonta o raciocínio tosco que levou à impropriedade da sugestão: quem pensa que ataca o ex-presidente, está é lhe desejando boa sorte, pois os tratamentos oncológicos no sistema público são de alta qualidade – o que não isenta o SUS de ser, em geral, um show de horrores. Hoje esbarrei no Facebook com estas linhas do Gastão Cassel que reproduzo na íntegra, por expressarem o que penso e virem de quem tem excelentes qualificações biográficas pra dar pitaco no assunto. Gosto especialmente da última frase.

Lamentável a campanha “Lula, faça tratamento pelo SUS”. Primeiro, porque pressupõem que o atendimento do SUS é uma condenação à morte. Depois porque soa como se desejasse o mal de um paciente de câncer, e isto não se deseja a ninguém. Quando tratei um linfoma utilizei vários serviços do SUS e sempre fui atendido com presteza, qualidade e muita dignidade. Só quem não tem noção do que é enfrentar o câncer trata o tema com tal leviandade. Desejo sorte a todos que lutam contra o câncer em tratamentos particulares ou no SUS, os pacientes célebres e os anônimos. E para quem ainda não entendeu: a solidariedade faz bem aos pacientes… e aos solidários.

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30

out

11

Humor no twitter

Testando um widget do Twitter que permite exibir o fluxo de mensagens de listas. Selecionei a minha lista  “frasistas”, de gente que tem o dom de fazer rir – e também refletir – em até 140 caracteres. Se você tiver outras sugestões, deixe aí nos comentários.


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18

out

11

Bom dia

Bom dia ao gari Martins, de Balneário Camboriú, que todas as manhãs usa seu rastelo pra cumprimentar as pessoas com letras na areia. Leia matéria no Jornal de Santa Catarina.

Foto de Marcos Porto - Agência RBS.

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28

jun

11

Zé Dassilva no Jô Soares

O amigo Zé Dassilva, cartunista do Diário Catarinense, roteirista da Globo e um dos melhores frasistas que conheço, foi entrevistado ontem no programa do Jô que foi ao ar esta madrugada. Dei boas gargalhadas. Se ele contasse todos os causos que a gente escuta em mesa de bar, precisava de outro programa inteirinho.

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19

jun

11

Sábias palavras, Galeano

Depoimento do escritor Eduardo Galeano durante as manifestações de jovens na praça Catalunya, em Barcelona.

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13

jun

11

Os epitáfios são eternos

Norberto por ele próprio no blog Os epitáfios são eternos:
Órfão com muito orgulho, ex-agricultor, ex-engraxate, ex-vendedor de picolés, meias, pastéis, carnets, ex-garimpeiro, ex-jornalista, pai, marido, com soberba de ser poeta, com mania de ser escritor. A correr atrás do vento, através da vaidade, como todos os humanos. O sim é o sim, o não é não; quem não ajunta espalha, ying e yang é frescura, equilíbrio só existe no amor verdadeiro. Meio termo é o mal disfarçado e o Eterno, bendito seja o seu nome, é o bem e ponto final.
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13

jun

11

Adeus, Norberto

Meu amigo Norberto Well era da turma de 86 do jornalismo da UFSC e uma das primeiras pessoas que conheci no curso. A gente o chamava de Ronnie Von, pela semelhança. Ele morreu este domingo às 20 horas no Hospital Santa Isabel de Blumenau, de complicações de saúde – era transplantado de fígado.

Eu o reencontrei há 3 semanas na festa dos “dinossauros” do jornal O Estado. Estava de chapéu e mancava. Conversamos num canto do salão, olhando o movimento e colocando os assuntos em dia. Ele me contou que queria se mudar de volta pra Floripa e perguntou sobre casas pra comprar. Ficamos de continuar a conversa pelo gtalk, mas não deu tempo.

Norberto vai ser velado e sepultado hoje às 16 horas, no Cemitério Municipal de Araquari, informa a viúva, Mari Lúcia Hoff. Era um homem generoso, sempre em busca da evolução espiritual. Guardo boas lembranças de nosso acampamento na Lagoinha do Leste há vinte e muitos anos, de nossas conversas sobre crônicas, poesia e a vida. Descanse em paz.

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11

jun

11

O desafio do parquinho de Marabá

Um causo impressionante de dois amigos e colegas de profissão, narrado pelo Marques Casara:

História do Brasil caipira:

Estava outro dia com o fotógrafo Sérgio Vignes em Marabá, sul do Pará.
Depois do jantar, Sérgio disse:
_ Tem um parquinho ali na esquina, vamos lá.
No parquinho, tinha um estande de tiro ao alvo com espingarda de pressão.
No estante, tinha um cara se vangloriando que era o tal, que atirava melhor que todo mundo, coisa e tal.
O Sérgio disse pra ele:
_ Vamos fazer o seguinte: eu vou dar seis tiros. Se eu errar um tiro, você ganha, nem precisa atirar. Mas se eu acertar todos os seis tiros, ai você precisa ao menos empatar comigo.
_ Fechado!
Sergio atirou. Acertou os seis tiros.
O cara ficou passado. Pegou a espingarda.
Acertou o primeiro, o segundo. Mas errou o terceiro.
Sérgio deu uma risada na cara dele e disse:
_ Vambora Casara, esse cara não é de nada, o dia amanhã vai ser cheio.
O cara pediu revanche.
- Revanche nada, você não é de nada.
O cara ficou puto. Ficou roxo.
Voltamos pro hotel.
Isso aconteceu em março de 2011.
Hoje, Sérgio me liga e diz:
_ Sabe o cara do parquinho, do tiro ao alvo?
_ Sei….o cara que tu esculachou.
_ Tá preso em Rondônia. É o pistoleiro que matou o lider camponês que saiu nos jornais.
_ Caralho! Sérgio! Que é isso, meu? Você desafiou um pistoleiro pra uma disputa de tiro ao alvo?
_ Desafiei… E ganhei!!!
_ E deixou o cara puto da cara, soltando fogo pelas ventas.
_ Bom, isso é por conta dele…
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29

mai

11

Uma noite feliz com os dinossauros

Uns 150 “dinossauros” de várias gerações – incluindo alguns “babyssauros” de safra recente – marcaram presença ontem na churrascaria Meu Cantinho pra celebrar o reencontro dos que trabalharam no extinto jornal O Estado. Foi uma noite maravilhosa, emocionante – falo por mim, mas vi isso refletido em muitos olhos. Nestes tempos em que o sucesso se mede em cifrões e coisas consumidas, em que a desinformação e o entretenimento se embolam no mesmo balaio de negociatas, a energia emanada pelos camaradas que ousaram viver com integridade seus sonhos profissionais é um alento. Foi um privilégio ter feito parte daquele divertido laboratório de jornalismo que foi a redação do “mais antigo”.

Noite mágica, sim. Gente que eu não via há uns 25 anos se materializava na minha frente enquanto eu caminhava pelo salão. Uns vindos de Brasília, São Paulo, Porto Alegre… Outros, vivendo aqui mesmo em Floripa, cidade que já foi pequena e onde está cada vez mais difícil reencontrar as pessoas por acaso. Abraços apertados, beijos, reconhecimentos parciais (“sei que conheço esse rosto, mas o nome me escapa”) e completos.

Frank Maia, que me levou pra revisão do jornal, meu amigo-irmão até hoje. Chico Faganello, então laboratorista e depois repórter de Cultura, que muitos anos depois, se tornou parceiro no cinema. Zurildo, o chefe dos motoristas, um rosto pra não esquecer. Carlão Paniz, editor de Polícia, e Lena Obst, editora de Geral, com quem tanto aprendi. Ademar Vargas de Freitas, meu primeiro copidesque, que me mostrou o caminho das pedras com sua caneta vermelha. Jane Miklasevicius, repórter de Economia, e Raquel Wandelli, de Geral, motivações cotidianas pra eu escrever melhor. Tio Cesar Valente, maestro da redação em belas coberturas. Marco Cezar, Paulo Dutra e Gilberto Gonçalves, ases do fotojornalismo. E tantos outros. Os que subiram pro andar de cima: Bento Silvério, Miro, Beto Stodieck, Ricardo Carle, Almirzinho Casimiro, Carlos Jung… O fantástico Bonson, artista que, se não tivesse existido, precisaria ser inventado. Fui um cara de sorte por ter cruzado com essas pessoas.

Rugas, circunferências abdominais avantajadas e cabelos grisalhos nos lembravam o tempo todo que ninguém passa impune pelo tempo, mas também eram marcas de vida vivida, da felicidade de estarmos juntos. Aqui e ali, estouravam gargalhadas – piadas novas e recordações do anedotário do jornal, recontadas com prazer. Também lágrimas – furtivas ou escancaradas. Em cada humano ali, uma avalanche de lembranças ricocheteaava nas dos outros, num burburinho aconchegante, impossível de abarcar, como água escorrendo dos dedos. A foto oficial de todos juntos também não saiu, pois seria preciso uma lente grande angular gigante. Mas o essencial estava ali, sem precisar de palavras, manchetes ou fotos: a sensação de pertencimento.

Como é que se consegue reunir um grupo como este depois de tantos anos de afastamento? O esforço da comissão organizadora da festa foi fundamental, sem dúvida. O Facebook deu grande ajuda. Mas pra que esse evento tivesse acontecido com tanta intensidade, era preciso algo mais. Arrisco um palpite. O idealismo com que tocávamos o dia-a-dia do jornal o fazia uma extensão das nossas casas. Assim, sem alarde nem formalismos, fez-se uma irmandade. Às vezes conflituosa, é verdade, mas também generosa, solidária, amiga e amorosa – que o digam os casais formados na redação e adjacências. Irmandade cimentada no calor do trabalho de contar a história catarinense de cada dia; na admiração pelo talento uns dos outros; no aprendizado da arte de contar; nas aventuras e riscos compartilhados de viagem. Nas confidências de bar, no suor das sextas-feiras e das coberturas especiais.

Passei só dois anos trabalhando no jornal O Estado, 1987 e 88. Primeiro como revisor, depois como repórter das editorias de Polícia e Geral e colaborador eventual do suplemento infantil O Estadinho. Foram suficientes pra me marcar. Com certeza há outros que têm muito mais a dizer. Espero que, no devido tempo, essas saborosas histórias sejam recontadas, até como forma de compensar o melancólico fim do jornal, em que boa parte de seu acervo fotográfico foi jogada no lixo.

Obrigado, colegas dinossauros, por uma noite feliz.

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