26
Jul10
Carta ao pai
Cheguei ontem do Ceará, onde passei uma semana em Russas com meu pai, João Camillo. No dia 18 ele celebrou o aniversário de 85 anos com uma festinha pros parentes e amigos mais chegados. Na ocasião, lançou um livro, As sete capitais, em que reúne seus escritos sobre o tempo em que morou em Fortaleza, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Manaus, Natal e Florianópolis.
Meu pai está com Alzheimer e, pela primeira vez, me dei conta dos efeitos devastadores dessa doença degenerativa, que vai fazendo a memória se evaporar e o corpo enfraquecer. Sua vivacidade, o humor rápido e certeiro, a facilidade de se comunicar, o enorme arsenal de histórias com que nos brindava, tudo isso agora é só uma boa lembrança. A cada dia, mais ele mergulha no seu mundo interior, com pequenas brechas em que retoma a lucidez – como na noite do lançamento do livro, em que até fez um pequeno discurso de agradecimento.
Tenho mais a contar sobre esses dias que passei lá. Por enquanto, compartilho o texto que escrevi pro livro dele. É provável que essas palavras não cheguem mais ao seu entendimento pela via racional. Felizmente, há outras formas de dizê-las, mesmo em silêncio.
Papai,
Escrevo profissionalmente há 25 anos, mas faz dias que estou enfrentando o bloqueio da página em branco quando tento redigir estas linhas. Para superar isso, usei a seguinte estratégia: em vez de preparar um texto sobre você, vou escrever para você. Que esta seja, então, uma conversa informal, das tantas que tivemos desde que me entendo por gente. Recorri a outros dois artifícios para me ajudar: a inspiração em uma de suas citações prediletas (parece que é de Churchill): “A coragem é a principal das virtudes, pois ela garante todas as outras”; e me imaginei no seu lugar, na porta aberta de um avião, com frio na barriga, prestes a dar um daqueles seus saltos de paraquedas. Há momentos na vida em que a gente simplesmente faz o que precisa ser feito. Da melhor maneira possível, nas pequenas e grandes obras.
Ser seu filho tem sido um privilégio. Sinto isso de maneira instintiva, desde criança. Meus irmãos e eu fomos criados com afeto, bom humor e paciência gigante. Com uma grande leveza de espírito, de fato. Você resumia essa atitude diante das nossas traquinagens com alguns chistes inesquecíveis, que hoje repito com meus dois meninos: “Parece criança!” Ou então: “Chore mais um pouquinho, filho, chore…” (e parávamos, só pra contrariar). Sou muito grato por nunca ter apanhado de você. Suas repreensões em voz alta eram tão raras e respeitadas que eu poderia contá-las com os dedos de uma mão. Tempos depois, ao ler sobre os índios e a maneira tranqüila como criam os filhos com respeito e liberdade, me dei conta de como o sistema deles é semelhante ao seu.
Pai, pode ter certeza que não estou aqui idealizando um herói, e sim me referindo a um ser humano especial – falível, mas extraordinário. Você nos educou para ganhar o mundo com autonomia de pensamento, e só isso vale por um caminhão de lições. Com você descobri que a amizade, a justiça e a generosidade são valores fundamentais. Buscar a felicidade é vital. Esse tipo de coisa não se aprende com discursos, e sim pelo exemplo. O cotidiano familiar sempre esteve repleto de aulas práticas de grandeza de caráter. Ao longo de toda a minha infância e adolescência, foram tantos os que conviveram como agregados em nossa casa, às vezes por longos períodos. Tantos foram os viajantes que abrigamos. E aquela alegria rondando tudo, que bom! Grana curta, é verdade, mas nunca faltava diversão. Almoços com amigos, serestas, rodas de piadas, festas com a vizinhança… A tradicional hospitalidade nordestina elevada à máxima potência. Sim, fui uma criança feliz.
O espírito nômade e aventureiro é outra característica sua que ajudou a formar o homem que sou hoje. Quantas vezes trocamos de casa e de cidade? Nunca encarei essas mudanças como coisas desagradáveis, apesar de representarem rupturas de relacionamentos e o abandono de zonas de conforto. Pra mim sempre foram momentos de euforia pelo novo, sensações revigorantes de estar em movimento. Depois que me tornei jornalista, em minhas andanças pelo mundo, adotei o costume de lhe telefonar ou enviar postais. Formas de dizer que você viajava comigo. Nas adversidades em que fui obrigado a improvisar e acreditar no meu instinto, pensei no que você faria em meu lugar. Sim, pai, temos andado sempre juntos.
O amor pela leitura é outro legado que devo ao seu exemplo e continua em seus netos Miguel e Bruno. Presente precioso que amplia os horizontes. Certas habilidades suas eu não herdei, e lamento, mas assim é a vida. Uma delas é a inteligência fora do comum para se comunicar, travar relacionamentos, contar anedotas. O brilho do seu olhar e a magia do seu sorriso encantaram muita gente por onde você passou. Suas histórias de humor, drama ou aventura conquistaram audiências deliciadas. Como em nossa família sou um dos que vivem para contar, sinto que devo passá-las adiante de alguma forma. Admito sem constrangimento que meu talento narrativo fica muito a dever em comparação com o seu. Mas se eu começar com coragem, quem sabe… Cada um tem o salto de paraquedas que merece.
Anos depois, olhando em retrospectiva, vejo o quanto você nos educou para a impermanência. Tudo muda o tempo todo. Uns partem, outros chegam, a vida passa. Se é assim, que o momento presente seja vivido com intensidade, então. Veja que curioso: esse conceito da filosofia budista faz parte da sua vida, mesmo que você não tenha se dado conta. O desapego é um grande desafio. Nisso temos muito a avançar, pai, pois ainda sofremos demais com a partida das pessoas amadas. Esse aprendizado é inevitável para quem chega a uma idade avançada como a sua, pois é preciso se despedir de muita gente pelo caminho. Mas com certeza devo a seu exemplo o fato de não sofrer pelas coisas. Afinal, são só coisas. E as pessoas que realmente valem, essas permanecem.
Papai, eu tenho muito mais a lhe dizer, e outro dia continuo. Vou terminar esta conversa de hoje com uma lembrança de infância. Tenho oito anos e estou brincando de carrinho com meus irmãos em cima da sua barriga, enquanto você dá uma cochilada depois do almoço. A tarde segue tranqüila, preguiçosa, com uma brisa morna. Mais adiante, muito mais adiante, virão tempestades que vamos superar de um jeito ou de outro, ganhando algumas cicatrizes. Mas por enquanto, nada disso. Sua presença nos dá aconchego e paz. Seu corpo forte se transforma em estradas, viadutos, caminhos protegidos pros carrinhos transitarem em nosso mundo de fantasia. A vida é bela quando se tem um pai assim.
Um grande abraço do seu filho Dauro.
Florianópolis, 13 de junho de 2010
20
Jun10
Copa facts
Melhor seleção até agora: Alemanha.
Pior seleção até agora: Alemanha.
Torcida mais gata: Holanda (com a ajuda de modelos contratadas).
Torcida mais fiel: Coreia do Norte (com a ajuda de atores contratados).
O personagem: Dom Diego Maradona.
Melhor trilha sonora: by Coca-Cola.
Melhor discurso: Bispo Desmond Tutu.
Pior árbitro: o francês do jogo Brasil x Costa do Marfim.
Gol mais bonito: Luís Fabiano contra a Costa do Marfim, com ajuda da Mão de Deus.
Troféu Pequeno Príncipe: Dunga.
Miguel e eu acertamos o placar de hoje no http://www.bolaodaeffetiva.com.br Estamos em 62 de 598 participantes.
Miguel também ganhou o bolão familiar do placar de hoje, junto com a prima Camila. Vão dividir 10 reais.
Acertei o primeiro goleador da partida de hoje. Sem prêmios, só um título: sou o rei da cocada preta.
04
May10
A vida é uma caixinha de surpresas
Quem me acompanha pelo twitter e facebook já sabe que nossa casa foi arrombada sábado à tarde, enquanto estávamos passeando com a família e amigos na Costa da Lagoa. Não preciso entrar em detalhes sobre o homem na moto preta que esperou a gente sair, estourou a janela dos fundos e fugiu com um notebook, além de miudezas como um frango caipira congelado, pacotes de macarrão e latas de óleo abertas. A sensação de violação da intimidade é pior que o sentimento de perda pelos objetos. Coisas obtidas com muita ralação, é verdade, mas só coisas.
Nos dias seguintes, comentei o fato com várias pessoas e fui me dando conta, meio bestamente, de como somos só mais um número nas estatísticas de degradação da tão falada qualidade de vida de Floripa. Na quinta passada, outra casa próxima havia sido arrombada pelo mesmo motoqueiro. Estamos no meio de uma onda de furtos e assaltos que tomou o Sul da Ilha, inédita em meus quase 25 anos na cidade. Ontem à noite o mercado Progresso, a menos de 1 km daqui de casa, foi assaltado pela gangue – que, segundo consta, está agindo em três motocicletas. Dezenas de ocorrências têm sido registradas nas últimas semanas.
Depois de quase três dias comentando o assunto e vivendo a rebordosa doméstica, estou fatigado, louco pra mudar de tema. Então, não vou escrever um libelo em defesa da paz, nem de protesto pelo absoluto descaso com que as autoridades tratam a segurança pública em Floripa. Não vou me estender sobre os efeitos psicológicos que esse arrombamento provocou nos meus filhos – nada que boas conversas não curem, mas também nada desprezíveis. Tampouco vou comentar sobre a indústria da segurança, alimentada pelo medo das pessoas, nem sobre as medidas que pretendemos tomar pra que esse fato não aconteça mais. Não é que esses assuntos tenham pouca relevância, pelo contrário. É que estou farto de pensar neles, de lembrar que nosso drama é pequeno diante dos que perderam a vida em atos violentos. Há que seguir adiante.
O que quero guardar desses momentos é uma coisa bonita, simples e grandiosa: a generosidade. Em pouco tempo fomos rodeados por uma poderosa onda de afeto e proteção da família, dos amigos e mesmo de gente que nunca encontrei pessoalmente e só converso pelas redes sociais. Solidariedade porque também já passaram pelo que passamos, claro, mas é mais que isso. Esse sentimento me faz acreditar que a humanidade evolui, apesar dos deploráveis seres que rastejam pelas janelas dos outros pra roubar silício e miojo. As demonstrações de afeto me emocionaram profundamente. Às vezes é preciso levar tombos pra conseguir enxergar além da nosso limitado e entorpecido horizonte cotidiano. Obrigado, amigas e amigos! Somos um.
p.s.: Preciso colocar tudo isso em perspectiva: havia outro drama muito mais importante se desenrolando. Na sexta à noite, meu pai foi internado em uma clínica médica de Russas, Ceará, com sintomas de diabetes e desidratação, coisa grave pra quem tem 84 anos. Vivemos uma noite de incertezas, até que no sábado ele recebeu alta e foi pra casa contando piadas.
28
Apr10
Agenda de hoje em Floripa
Uma quarta-feira animada por quatro eventos que são ótimos pretextos pros amigos se encontrarem. Os horários de alguns são mais ou menos simultâneos, o que é pena, pois eu gostaria de ir a todos.
Às 19h, na Assembleia Legislativa, um bate-papo com o escritor Flávio José Cardozo, que comemora 40 anos de seu livro de contos Singradura.
Também às 19h, na Casa da Cultura (Rua Padre Miguelinho, 58, atrás do Banco do Brasil do centro), exibição e debate do documentário Espírito de Porco, que codirigi com Chico Faganello.
Às 19h30, no espaço cultural da Assembleia Legislativa, Cesar Valente lança o livro De Olho na Capital, com os melhores momentos de sua coluna no Diarinho do Litoral.
A partir das 21h, no Let’s Rock, Lagoa da Conceição, aniversário do Frank e festa das fraldas da Clara, que tá chegando. Jam session com vários amigos músicos.
26
Apr10
Chá da Clara e festerê
Agenda de quarta-feira tá completa. Depois do lançamento do livro do Cesar tem aniversário do Frank + chá de bebê de Clara. A sonzera e as boas vibrações dos amigos prometem.
16
Apr10
Dia da Mãe
Hoje, se estivesse aqui, minha mãe Sara completaria 70 anos. Partiu aos 50, de uma daquelas maneiras bobas (complicação anestésica em operação de sinusite) que nos ajudam a lembrar como a vida é só uma brisa rápida. Viveu com intensidade o casamento, os filhos, a profissão de enfermeira, a aventura de se embrenhar nas florestas amazônicas num navio hospital, as viagens malucas de carro pelos estradões do Brasil. Nos últimos tempos dedicava-se às aulas na UFRN e à atenção aos doentes de hanseníase e de HIV. Amava dançar tango, ouvir Piazzolla, tomar café preto bem forte, preparar feijoada, fazer artesanato, costurar vestidos coloridos (abençoados sejam os que conseguem fazer seus próprios parangolés), receber os amigos em casa (mas detestava fazer visitas), fazer passeios e viagens de improviso. A fotografia era uma de suas paixões.
E chega de lembranças por hoje, que a sexta-feira vai ser comprida e eu já tou com um cisco no olho.
Na foto, ela e eu.
11
Apr10
Fotobiografia e lembranças babilônicas
Ayres Marques e Gigliola Capodaglio. Centro Cultural Babilônia, Ponta Negra, Natal, 1991.
Se você costuma seguir este blog, já deve ter notado que eu gosto de usar fotos como ponto de partida pra recuperar lembranças. É uma espécie de jogo de remontar e reinventar fragmentos do tempo. É o caso destas que meu amigo Ayres Marques publicou: uma fotobiografia muito legal dele próprio, com imagens desde a infância de ator-mirim de televisão até tempos recentes e com menos cabelo. Cliques que documentam sua jornada por São Paulo, Inglaterra, Itália, Alemanha, Natal e novamente Itália, onde vive hoje com Gigliola e a filha Marina. Nesta foto, de 1991, ele e Gi estão na casa deles em Natal, um lugar especialíssimo. Lá criaram a inquieta, efervescente e criativa Babilônia, um centro cultural que agitou a cidade nos anos 80 e 90, com bela vista pra praia de Ponta Negra. Babilônia foi um sonho real envolvendo poetas, pintores, videastas e escritores, que deu ao casal o título de cidadãos honorários de Natal e até hoje existe num canto especial das memórias de muita gente.
Conheci Ayres quando eu trabalhava e estudava na Cultura Inglesa. Ele havia recém-chegado a Natal e me deu aulas – aliás, foi um dos melhores professores de inglês que já tive, com seu humor peculiar, vasta cultura (a do tipo que ilumina em vez de humilhar) e uma paciência de monge beneditino pra aguentar nossas asneiras de aprendizes. Passamos muitos momentos agradáveis na Babilônia, entre partidas de xadrez e longos papos regados a vinho sob a lua cheia que refletia no mar de Ponta Negra (havia certo rito em nossos embates enxadrísticos, uma espécie de cerimônia do chá). Rimos bastante juntos e choramos com nossas perdas. As pausas serenas também foram muitas. Dizem que os grandes amigos são aqueles com quem você se sente bem em silêncio sem constrangimento. Minha amizade com Ayres só reforça essa tese.
Deixei Natal em dezembro de 1985, e eles – já com a pequena Marina, que ainda não tive a alegria de conhecer -, acho que em 2000. Levamos todos a lembrança quente da Cidade do Sol em nossos caminhos pra construir novas histórias. Dali em diante, outros silêncios se sucederam. Mas também bons momentos de reencontro em minhas férias natalenses, ou conversas a distância com direito a áudio e vídeo pelo skype – e também algumas partidas de xadrez online e brindes virtuais com vinhos tomados em garrafas distintas, mas irmanadas. Essa fotobiografia do Ayres me trouxe bons momentos e fico feliz em compartilhar aqui com vocês, pois também faz parte da minha história.
18
Mar10
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