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31

Dec

18

DVeras Awards de Literatura 2018

bookMais uma vez você não pediu, mas aqui estamos com o DVeras Awards 2018 de Literatura. Este é um concurso hedonista: participam todos os livros que li sem nenhuma obrigação, só por prazer, entre janeiro e dezembro deste ano. Ficam de fora as obras técnicas e de referência, as lidas por motivos profissionais específicos e as não concluídas até 31 de dezembro. As decisões da comissão julgadora – eu mesmo – são irrecorríveis.

Este ano a seleção dos melhores foi dificílima pela alta qualidade dos competidores, nada menos que quatro prêmios Nobel – Mario Vargas Llosa (2010), Alice Munro (2013), Svetlana Alexievitch (2015) e Kazuo Ishiguro (2017), sem falar nos quase premiados Graham Greene e Haruki Murakami, e no genial Julio Cortázar, um gigante literário ignorado pela academia sueca (aliás, na boa companhia de Kafka, Ibsen, Joyce e Nabokov).

Os autores e autoras destes 27 livros são de 13 países: Suíça, Canadá, Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, Japão, Brasil, Noruega, Argentina, Cuba, Uruguai, Peru e Bielorrúsia. Em 2018 li menos do que gostaria, e poucas mulheres, mas pude conhecer nomes relevantes, como tinha me proposto. Aceito dicas para aumentar o repertório de visões literárias femininas. Os temas e formatos variaram. De reflexões filosóficas sobre a vida amorosa a narrativas sobre a ditadura brasileira, passando por autobiografias, romances policiais e históricos, jornalismo e contos. Veja a lista e, em seguida, conheça os três agraciados:

  1. The Course of Love, Alain de Botton
  2. Amiga de juventude, Alice Munro
  3. O poder do agora, Eckhart Tolle
  4. O ministério do medo, Graham Greene
  5. Tiros na noite, Dashiell Hammett
  6. Kafka à beira-mar, Haruki Murakami
  7. A noite da espera (o lugar mais sombrio), Milton Hatoum
  8. O fim do Terceiro Reich, Ian Kershaw
  9. Midnight Sun, Jo Nesbo
  10. O livro de Jô, volume 1, Jô Soares
  11. As armas secretas, Julio Cortázar (releitura)
  12. Não me abandone jamais, Kazuo Ishiguro
  13. Noturnos, Kazuo Ishiguro
  14. A brincadeira favorita, Leonard Cohen
  15. Hereges, Leonardo Padura
  16. Máscaras (Verão), Leonardo Padura
  17. A neblina do passado, Leonardo Padura
  18. Paisagem de outono, Leonardo Padura
  19. Uma janela em Copacabana, Luiz Alfredo Garcia-Roza
  20. A borra do café, Mario Benedetti
  21. A festa do bode, Mario Vargas Llosa
  22. Tudo que é belo, The Moth (org.)
  23. Vida querida, Alice Munro
  24. In The Country of Last Things, Paul Auster
  25. Invisível, Paul Auster
  26. O rio inferior, Paul Theroux
  27. Vozes de Chernobyl: a história oral do desastre, Svetlana Alexievitch

Todos os finalistas do DVeras Awards 2018 mereciam o prêmio máximo, por seus diferentes méritos. Mas escolhas precisavam ser feitas. O resultado:

Menção honrosa – Não me abandone jamais, Kazuo Ishiguro
Inquietante, distópico, perturbador, agridoce. Estritamente falando, daria para classificar como ficção científica, embora destoasse numa prateleira do gênero. A narrativa acompanha um grupo de colegas em um colégio interno no Reino Unido que aos poucos vão descobrindo o segredo por trás de suas origens e destinos. E mais não conto, pra não dar spoiler. A história virou um filme, que ainda não vi.

Bronze – Vozes de Chernobyl: a história oral do desastre, Svetlana Alexievitch

Relato jornalístico construído a partir de entrevistas com sobreviventes da tragédia nuclear de 1986, em que eles contam suas lembranças e sensações na primeira pessoa. Confesso que levei muito tempo pra terminar – a leitura tem forte carga emocional, o que às vezes me fazia “pedir” pausas. A autora é a única jornalista até hoje premiada com o Nobel. Esta obra tem grande valor histórico e merece ser mais conhecida.

Prata – Vida querida, Alice Munro

A escritora canadense mostra que domina como poucos as artes desse ofício dificílimo que é escrever contos: graça de contar, repertório, “timing”, poder de síntese. O encadeamento narrativo desperta empatia com os personagens (gente “comum”) e vai nos conduzindo com leveza até o desfecho. Que raramente é “extraordinário” como as fórmulas gastas de reversão de expectativas, mas traz algo parecido a uma pequena epifania. Bela escritora, quero conhecer melhor.

Ouro – A borra do café, Mario Benedetti

O que dizer sobre esse autor uruguaio de incrível talento e sensibilidade, morto em 2009? A borra do café reforçou minha impressão que ele é um dos grandes. Nesta novela, Benedetti revisita com nostalgia sua infância e adolescência na Montevidéu do início do século 20, pelos olhos do protagonista Claudio. Sua família, amigos do bairro, iniciação sexual, dilemas de trabalho e carreira. E uma misteriosa mulher que aparece em uma figueira e depois retorna outras vezes, sempre no mesmo horário, às 3 e 10. A história despretensiosa esconde um sofisticado recurso narrativo, uma tensão que vai ganhando velocidade e nos faz decolar até o desfecho inesperado. Taí um livro que eu gostaria de ter escrito!

Espero que vocês apreciem essas sugestões de leitura. Recomendo também Kafka à beira-mar, de Murakami (uma espécie de realismo fantástico japonês), A festa do bode, de Vargas Llosa (relato romanceado do último dia de vida do ditador dominicano Trujillo, baseado em muita pesquisa histórica), e O poder do agora, de Eckart Tolle (traz tantos insights bacanas que seria injusto desprezar apressadamente como “auto-ajuda”). Ah, um senão: achei O ministério do medo bem fraco, Graham Greene tem outros melhores.

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08

Apr

15

Casais russos dormindo e esperando

Lindo projeto documental da fotógrafa Jana Romanova, de São Petersburgo. Casais russos grávidos dormindo.

Casal russo grávido dormindo. Foto de Jana Romanova

 

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19

May

14

Uma mulher à frente do seu tempo

Felícia Hatzky Schütz, primeira mulher vereadora de Rancho Queimado

Felícia Hatzky Schütz. Foto: DVeras/CC

Felícia Hatzky Schütz foi a primeira mulher vereadora de Rancho Queimado e a primeira mulher em Santa Catarina a tirar carteira de motorista. E uma das primeiras a usar calças compridas. Tirei a foto em uma exposição no Museu Hercílio Luz em Rancho Queimado. Era alemã. Chegou ao Brasil com os pais aos sete anos. Foi professora de alemão e português e desenvolveu muitas atividades ousadas pras mulheres da época. Felícia casou-se na mesma casa que já foi residência de repouso do governador Hercílio Luz e é hoje um museu, no distrito de Taquaras. Dirigiu obras de engenharia, fez a contabilidade de empreendimentos da família, coordenou atividades comunitárias, inspecionava obras a cavalo… O título da exposição, Uma mulher à frente do seu tempo, lhe faz justiça.

Felícia Schütz - cartaz com biografia

Felícia Schütz – cartaz com biografia

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09

Feb

12

Um homem extraordinário

Excelente biografia sobre um dos homens mais extraordinários do século 19: Sir Richard Francis Burton. Escritor, tradutor, poeta, militar, diplomata, explorador, agente secreto, linguista (conhecia 29 idiomas e vários dialetos), etnólogo, ele fez uma tradução das Mil e Uma Noites que chocou a sociedade vitoriana. Também levou à Europa o Kama Sutra e outras obras indianas; foi um dos primeiros ocidentais a fazer a peregrinação a Meca, disfarçado de afegão; descobriu o lago Tanganica, na África; desceu o rio São Francisco, no Brasil; cruzou o Velho Oeste dos EUA numa diligência, e conviveu com os mórmons; escreveu sobre extração de clitóris, eunuquismo e costumes sexuais de vários povos; converteu-se ao islamismo e aprofundou-se no sufismo etc. etc. Cinco estrelas.

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07

Oct

11

A coisa mais importante do mundo

Reproduzo na íntegra o discurso de Naomi Klein aos ocupantes de Wall Street, traduzido por Idelber Avelar e publicado na Revista Fórum.

A intelectual e ativista canadense fez um discurso histórico à Assembleia Geral do movimento Ocupar Wall Street.

Por Naomi Klein [07.10.2011 01h10]

Tradução e nota introdutória de Idelber Avelar

Naomi Klein é hoje uma das principais intelectuais e militantes anticapitalistas do planeta. Jovem (nasceu em 1970), apaixonada, corajosa, de brilhante trânsito por uma série de disciplinas e potente domínio da retórica, ela já se destacara como figura central nos protestos de 1999 contra a financeirização do mundo. Em 2000, lançou No Logo, uma crítica das multinacionais e do seu uso do trabalho escravo. Mas foi seu terceiro livro, A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo do Desastre, que a elevou à condição de uma das principais intelectuais de esquerda do mundo. Com capítulos sobre os EUA, a Inglaterra de Thatcher, o Chile de Pinochet, o Iraque pós-invasão, a África do Sul, a Polônia, a Rússia e os tigres asiáticos, Klein demonstra como o capitalismo contemporâneo funciona à base da produção de desgraças, apropriando-se delas para o contínuo saqueio e privatização da riqueza pública. De família judia, Klein participou, em 2009, durante o massacre israelense a Gaza, da campanha “Desinvestimento, Sanções e Boicote” (BDS) contra Israel. Num discurso em Ramalá, pediu perdão aos palestinos por não ter se juntado antes à campanha BDS.

Nesta quinta-feira, 06 de outubro, Naomi Klein compareceu, convidada, à Assembleia Geral de Nova York. A amplificação foi banida pela polícia. Não havia microfones. Num inesquecível gesto, a multidão mais próxima a Klein repetia suas frases, para que os mais distantes pudessem ouvir e, por sua vez, repeti-las também. Era o “microfone humano”. O memorável discurso de Klein foi assistido por dezenas de milhares de pessoas via internet. A Fórum publica o texto em português em primeira mão. É um comovente documento da luta de nosso tempo.

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Eu amo vocês.

E eu não digo isso só para que centenas de pessoas gritem de volta “eu também te amo”, apesar de que isso é, obviamente, um bônus do microfone humano. Diga aos outros o que você gostaria que eles dissessem a você, só que bem mais alto.

Ontem, um dos oradores na manifestação dos trabalhadores disse: “Nós nos encontramos uns aos outros”. Esse sentimento captura a beleza do que está sendo criado aqui. Um espaço aberto (e uma ideia tão grande que não pode ser contida por espaço nenhum) para que todas as pessoas que querem um mundo melhor se encontrem umas às outras. Sentimos muita gratidão.

Se há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder corporativo. Com a crise econômica, isso está acontecendo no mundo todo.

Só existe uma coisa que pode bloquear essa tática e, felizmente, é algo bastante grande: os 99%. Esses 99% estão tomando as ruas, de Madison a Madri, para dizer: “Não. Nós não vamos pagar pela sua crise”.

Esse slogan começou na Itália em 2008. Ricocheteou para Grécia, França, Irlanda e finalmente chegou a esta milha quadrada onde a crise começou.

“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”.

Muitos já estabeleceram paralelos entre o Ocupar Wall Street e os assim chamados protestos anti-globalização que conquistaram a atenção do mundo em Seattle, em 1999. Foi a última vez que um movimento descentralizado, global e juvenil fez mira direta no poder das corporações. Tenho orgulho de ter sido parte do que chamamos “o movimento dos movimentos”.

Mas também há diferenças importantes. Por exemplo, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o G-8. As cúpulas são transitórias por natureza, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos. E na histeria hiper-patriótica e nacionalista que se seguiu aos ataques de 11 de setembro, foi fácil nos varrer completamente, pelo menos na América do Norte.

O Ocupar Wall Street, por outro lado, escolheu um alvo fixo. E vocês não estabeleceram nenhuma data final para sua presença aqui. Isso é sábio. Só quando permanecemos podemos assentar raízes. Isso é fundamental. É um fato da era da informação que muitos movimentos surgem como lindas flores e morrem rapidamente. E isso ocorre porque eles não têm raízes. Não têm planos de longo prazo para se sustentar. Quando vem a tempestade, eles são alagados.

Ser horizontal e democrático é maravilhoso. Mas esses princípios são compatíveis com o trabalho duro de construir e instituições que sejam sólidas o suficiente para aguentar as tempestades que virão. Tenho muita fé que isso acontecerá.

Há outra coisa que este movimento está fazendo certo. Vocês se comprometeram com a não-violência. Vocês se recusaram a entregar à mídia as imagens de vitrines quebradas e brigas de rua que ela, mídia, tão desesperadamente deseja. E essa tremenda disciplina significou, uma e outra vez, que a história foi a brutalidade desgraçada e gratuita da polícia, da qual vimos mais exemplos na noite passada. Enquanto isso, o apoio a este movimento só cresce. Mais sabedoria.

Mas a grande diferença que uma década faz é que, em 1999, encarávamos o capitalismo no cume de um boom econômico alucinado. O desemprego era baixo, as ações subiam. A mídia estava bêbada com o dinheiro fácil. Naquela época, tudo era empreendimento, não fechamento.

Nós apontávamos que a desregulamentação por trás da loucura cobraria um preço. Que ela danificava os padrões laborais. Que ela danificava os padrões ambientais. Que as corporações eram mais fortes que os governos e que isso danificava nossas democracias. Mas, para ser honesta com vocês, enquanto os bons tempos estavam rolando, a luta contra um sistema econômico baseado na ganância era algo difícil de se vender, pelo menos nos países ricos.

Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo.

A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle. A cobiça sem limites detona a economia global. E está detonando o mundo natural também. Estamos sobrepescando nos nossos oceanos, poluindo nossas águas com fraturas hidráulicas e perfuração profunda, adotando as formas mais sujas de energia do planeta, como as areias betuminosas de Alberta. A atmosfera não dá conta de absorver a quantidade de carbono que lançamos nela, o que cria um aquecimento perigoso. A nova normalidade são os desastres em série: econômicos e ecológicos.

Estes são os fatos da realidade. Eles são tão nítidos, tão óbvios, que é muito mais fácil conectar-se com o público agora do que era em 1999, e daí construir o movimento rapidamente.

Sabemos, ou pelo menos pressentimos, que o mundo está de cabeça para baixo: nós nos comportamos como se o finito – os combustíveis fósseis e o espaço atmosférico que absorve suas emissões – não tivesse fim. E nos comportamos como se existissem limites inamovíveis e estritos para o que é, na realidade, abundante – os recursos financeiros para construir o tipo de sociedade de que precisamos.

A tarefa de nosso tempo é dar a volta nesse parafuso: apresentar o desafio à falsa tese da escassez. Insistir que temos como construir uma sociedade decente, inclusiva – e ao mesmo tempo respeitar os limites do que a Terra consegue aguentar.

A mudança climática significa que temos um prazo para fazer isso. Desta vez nosso movimento não pode se distrair, se dividir, se queimar ou ser levado pelos acontecimentos. Desta vez temos que dar certo. E não estou falando de regular os bancos e taxar os ricos, embora isso seja importante.

Estou falando de mudar os valores que governam nossa sociedade. Essa mudança é difícil de encaixar numa única reivindicação digerível para a mídia, e é difícil descobrir como realizá-la. Mas ela não é menos urgente por ser difícil.

É isso o que vejo acontecendo nesta praça. Na forma em que vocês se alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e treinamento na militância. O meu cartaz favorito aqui é o que diz “eu me importo com você”. Numa cultura que treina as pessoas para que evitem o olhar das outras, para dizer “deixe que morram”, esse cartaz é uma afirmação profundamente radical.

Algumas ideias finais. Nesta grande luta, eis aqui algumas coisas que não importam:

Nossas roupas.

Se apertamos as mãos ou fazemos sinais de paz.

Se podemos encaixar nossos sonhos de um mundo melhor numa manchete da mídia.

E eis aqui algumas coisas que, sim, importam:

Nossa coragem.

Nossa bússola moral.

Como tratamos uns aos outros.

Estamos encarando uma luta contra as forças econômicas e políticas mais poderosas do planeta. Isso é assustador. E na medida em que este movimento crescer, de força em força, ficará mais assustador. Estejam sempre conscientes de que haverá a tentação de adotar alvos menores – como, digamos, a pessoa sentada ao seu lado nesta reunião. Afinal de contas, essa será uma batalha mais fácil de ser vencida.

Não cedam a essa tentação. Não estou dizendo que vocês não devam apontar quando o outro fizer algo errado. Mas, desta vez, vamos nos tratar uns aos outros como pessoas que planejam trabalhar lado a lado durante muitos anos. Porque a tarefa que se apresenta para nós exige nada menos que isso.

Tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo. Porque ela é. De verdade, ela é. Mesmo.

Original daqui. Foto daqui.

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28

Jun

11

Semana Wikileaks

Esta semana a recém-criada agência de reportagem e jornalismo investigativo Pública está publicando uma série de reportagens inéditas sobre o Brasil, baseadas em documentos obtidos pelo Wikileaks. Uma interessante iniciativa de jornalismo independente e colaborativo. Boa parte do material se refere a despachos de embaixadas – entre elas a dos Estados Unidos – e consulados no Brasil. Compartilho o texto de apresentação:

15 repórteres, 2.500 documentos, 3 dias. O resultado são cerca de 50 matérias inéditas sobre documentos diplomáticos referentes ao Brasil obtidos pelo WikiLeaks, que serão publicados durante esta semana no site da Pública.

A Semana WikiLeaks é uma iniciativa coletiva, capitaneada pela Pública com o apoio do WikiLeaks e a participação de jornalistas independentes que acreditam que histórias de interesse público devem ser contadas.

São eles: Andrea Dip, Anselmo Massad, Tadeu Breda, Julio Cruz Neto, Jessica Santos, Mariana Simões, Igor Ojeda, Tatiana Merlino, Daniel Santini, Glauco Faria, João Perez, Natalia Viana, Débora Prado, Paula Sambo e Ana Aranha.

Nos dias 10, 11 e 12 de junho, esses jornalistas se reuniram voluntariamente na sede da Pública, na Barra Funda, para ler todos os documentos referentes ao Brasil que ainda não foram publicados no site do WikiLeaks. Além de documentos da embaixada em Brasília e consulados em São Paulo, Recife e Rio de Janeiro, a Pública também teve acesso a despachos de outras embaixadas, referentes ao Brasil.

São documentos inéditos, produzidos entre 2004 a 2010, debatendo grandes questões nacionais.

A preocupação da Pública é dar visibilidade a esses telegramas, que contam o que se discute nas relações internacionais – conversa a conversa, reunião a reunião.

Durante esta semana, os documentos originais serão publicados no site da Pública e no site do WikiLeaks. No dia 4 de julho, todos os telegramas brasileiros serão disponibilizados no site do WikiLeaks.

Todas as reportagens são em creative commons, para livre reprodução desde que citada a fonte.

“Meses depois deste vazamento tomar as manchetes da imprensa, há ainda muitas informações importantes nos documentos de todos os países. Estes documentos são mais que notícia, eles contam a história desses países. Até mesmo documentos que já foram publicados no site do WikiLeaks trazem revelações inéditas, e estão ali para serem pesquisados pelo público”, diz o porta-voz do WikiLeaks, Kristinn Hrafnsson.

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20

Mar

11

Reencontro do “mais antigo”

A Lena Obst criou no Facebook um grupo para reunir os colegas jornalistas que passaram pelo jornal O Estado. “O mais antigo”, como era conhecido o finado periódico, marcou história no jornalismo de Santa Catarina. Foi também espaço para muitas histórias que até hoje rendem risadas. Naquela redação, onde hoje está o prédio da Casa Cor, foram geradas reportagens inovadoras, fotos belíssimas, diagramações criativas, linguagens experimentais, crianças, casamentos…

Passei pelo “mais antigo” entre 1987 e 1989, levado pelo amigo Frank Maia para a revisão. Aquele universo era cintilante aos olhos de menino de 21 anos. Numa salinha minúscula, nos revezávamos passando olhos de lince sobre os textos dos colegas. O dicionário era nosso vício e nos divertíamos apostando cervejas com a grafia correta das palavras. Guardo com carinho os bons momentos com Frank, Joca Wolff, Giane Severo, Edson, Chica, Mara, o saudoso filósofo anarquista Ricardo Carle (que morreu em 2006 em Porto Alegre, em consequência de sequelas de um atropelamento sofrido em 2000), todos capitaneados pelo grande poeta Ademir Demarqui.

Depois fui ser repórter na editoria de Polícia, com o Ricardo Carle como subeditor e o Carlão Paniz editando. Às vezes fazíamos reunião de pauta na lanchonete/boteco que ficava nos fundos do prédio, onde se conversava de futilidades a profundidades entre um gole e outro. Em seguida passei à reportagem de geral, editada pela Lena durante um tempo. Ainda lembro como se fosse hoje da primeira lauda que escrevi como repórter, copidescada pelo gentil, mas rigoroso Ademar. Ele sentava ao meu lado e ia comentando as bobagens que eu redigia, assinaladas em caneta vermelha. Será que ainda se faz isso nas redações – veteranos ajudarem os colegas “focas”?

O barulho dos teclados das Olivettis e das Remingtons soava como música, em meio às conversas em voz alta, ao som do telex cuspindo despachos das agências de notícias, às tiradas engraçadíssimas do chargista Bonson, à entrada e saída dos fotógrafos com suas bolsas de equipamentos pesados, aos fragmentos de entrevistas por telefone (era ainda o tempo em que se discava). Num canto, Fábio Brüggemann acompanhava a diagramação do suplemento infantil Estadinho. Noutro, Bento Silvério apurava as notícias políticas (falecido precocemente, hoje é nome do casarão da Lagoa). A risada do brilhante colunista Beto Stodieck enchia o ar.

Fauna riquíssima, inclusive com mascotes. Tinha uma cachorra (alguém lembra o nome?) que costumava ficar na casinha do vigilante e era querida por todos. Certa vez, uma circular da direção estabeleceu, sisuda, que a cachorra fulana estava proibida de permanecer naquele local no horário de expediente.

A iniciativa da Lena destapou em mim uma avalanche de lembranças, e olha que só fiquei lá por dois anos. Imagina o que os colegas têm pra contar. Quem sabe um dia tudo isso vira livro – não conheço ninguém mais capacitado pra organizar isso que o grande colega jornalista e historiador Celso Martins, que, aliás, acompanhou em seu blog o descaso com que esse patrimônio histórico de Santa Catarina foi abandonado pelo proprietário do jornal. O Estado fez a crônica de um período riquíssimo na história de Santa Catarina e de Florianópolis. Foi uma grande escola de experimentações para muitos jornalistas e escritores. Acompanhei de longe sua lenta decadência, contemporânea da chegada da rede RBS a SC. Espero ler este livro um dia. Enquanto ele não sai, com certeza o grupo vai render muitos bons papos de boteco.

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30

Jun

10

Paredes pintadas

Este videodocumentário é o trabalho de conclusão de curso que Pedro Santos (conhecido como Mi) apresentou nesta terça-feira à banca examinadora do curso de jornalismo da UFSC. Ainda não assisti, mas quem já viu garante que é forte candidato a ganhar muitos prêmios sobre direitos humanos.

Sinopse
Em 1964, um golpe civil-militar inaugurou um período em que o Brasil seria governado pelas Forças Armadas. O documentário “Paredes Pintadas” traz as lembranças de quatro mulheres que lutaram contra o regime. Dulce Maia, Sonia Lafoz, Renata Guerra Andrade e Damáris Lucena foram militantes da organização clandestina Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Hoje, mais de quarenta anos do dia do golpe, elas se lembram do tempo em que o país estava sob o comando dos militares. Mas quando as próprias memórias vêm à tona, existe um passado que insiste em não passar…

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28

Jun

10

Cascaes 2.0

De 10 de julho a 29 de agosto, o Museu Histórico de Santa Catarina vai abrigar a exposição Franklin Cascaes: desenhos e esculturas, com curadoria de Fernando Lindote. É a primeira exposição completa da obra do artista catarinense em cinco anos. E desta vez, não há limite físico para quem quiser conhecer o universo bruxólico de Cascaes: desenhos e fotos estão expostos no flickr e, durante a exposição, novos materiais vão ser incorporados. O evento também tem presença no twitter. Franklin Cascaes (1908-1983) foi pesquisador da cultura açoriana, folclorista, ceramista, gravurista e escritor. Ele dedicou a vida ao estudo da cultura açoriana na Ilha de Santa Catarina e região.

Imagem:

Boitatá
Franklin Cascaes, 1960

Nanquim sobre papel e colagem

38,5 X 44,6cm
Acervo: Museu Universitário Professor Oswaldo Rodrigues Cabral / Secretaria de Cultura e Arte / Universidade Federal de Santa Catarina

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10

Jun

10

Contra o cassetete, a pena afiada

Reproduzo na íntegra, pela relevância e urgência, este texto que o Cesar Valente publicou hoje em seu blog, De Olho na Capital, dirigido a Leonel Pavan, governador de Santa Catarina. Trata de graves e reiteradas violações ao estado de direito que vêm sendo cometidas pela Polícia Militar catarinense. Por favor, caso queiram comentar, deixem lá também um recado pro tio Cesar.

Cartinha confidencial para o governador

Prezado governador: como estou sem seu endereço de correspondência (anotei em algum lugar, mas não encontro), tomo a liberdade de enviar, aqui pelo blog, esta cartinha confidencial. Tenho certeza que os demais leitores, muito bem educados, nem tentarão ler porque, como anunciei desde o título, trata-se de mensagem particular, de circulação restrita e destinada apenas aos olhos de V. Excia.

O bonde da História, como certamente V. Excia. não ignora, nada tem a ver com o veículo leve sobre trilhos (ou metrô de superfície) com o qual seu antecessor sonhava. Esse bonde, que todo estadista e todo político de boa índole deveria morrer de medo de perder, transporta, metaforicamente, a humanidade de um degrau a outro ou de um período a outro da… História. Quando ocorre um avanço, diz-se que partiu o bonde da História. E perde o bonde aquele que continua no patamar anterior, que ficou pra trás, que não entendeu a mudança ou que nem percebeu que tudo, a seu redor, evoluía.

Vivemos hoje, em Santa Catarina, finalmente, um desses momentos em que a cidadania começa a preparar um avanço significativo. Portanto. este bilhete secreto que lhe envio, senhor governador, tem o intuito de avisá-lo, caso algum dos seus assessores ainda não o tenha feito, que o bonde da História já está no ponto e o motorneiro toca a sineta, avisando que, dentro de pouco tempo, partirá. Fique atento para não perdê-lo. A própria História registra o que tem acontecido a homens públicos que, distraídos, desatentos ou envoltos demasiadamente em sua própria soberba, perderam o bonde.

E que tipo de coisa estaria para acontecer que levaria o bonde da História a se movimentar? A compreensão, por um amplo espectro da sociedade organizada e mesmo desorganizada, de que está ocorrendo uma grave ruptura institucional, que ameaça a todos, de todos os partidos, de todas as crenças e de todas as classes sociais. E que é preciso recolocar as coisas nos eixos, para o bem de todos e felicidade geral do estado de Santa Catarina.

Sei que V. Excia é homem prático, de vida agitada e espírito dinâmico, por isso traduzirei o hermético parágrafo anterior de forma a que as coisas fiquem mais claras.

Está prevista na Constituição e em vários regulamentos, a ação policial. Assim como está prevista na Constituição a liberdade de reunião, de expressão, etc. Confrontos entre manifestantes e polícia ocorrem em todos os países, dos mais democráticos aos mais autoritários. Mas tem-se notado, e não é de hoje, nem de ontem, que ações policiais em princípio regulares, previstas e, em alguns casos, desejadas, vêm sendo marcadas por excessos que, pela repetição e sistemática semelhança, não podem mais ser atribuídas a um ou outro desvio funcional. A manifestação pública de oficiais, em claro desafio às normas constitucionais e a conivência do senhor (e de seus antecessores) que são, afinal, os comandantes da força policial estadual, está dando a entender que há grupos armados e uniformizados que estão fora do controle institucional e prontos para rasgar a constituição, se para isso forem instados por seus superiores.

No tempo da ditadura, vimos o deputado Francisco Kuster dando de dedo na cara do comandante da Polícia Militar de então, travando uma áspera discussão em torno dos episódios depois conhecidos como “novembrada”. E o deputado não foi espancado. Respeitou-se, naquele momento, o caráter institucional de um sujeito eleito pelo povo. Agora, em que pese toda a legislação democrática que nos governa, certos grupos de repressão policial não têm o menor pudor em agredir parlamentares. Com precisão cirúrgica. De tal forma que não se possa dizer que tenha sido “acidente”.

Defende-se, a força policial, com armas que causam graves ferimentos físicos, de palavras de ordem. Nem se trata da pena contra a espada. É o verbo contra a força bruta. Por menos que se goste dos jovens manifestantes do passe livre e que tenhamos restrições à sua forma de luta, é evidentemente um exagero combater gritos e palavras com cassetete, choques elétricos e balas de borracha que, a menos de 500m, causam dano semelhante às balas de metal. E zombam, os oficiais de poucas luzes, da orgulhosa tradição democrática brasileira, segundo a qual os campi são territórios autônomos, destinados à incubação de idéias e projetos, de formação e ilustração. Permitir que a polícia estadual faça incursões diárias ao campus da principal universidade federal para perseguir e punir jovens acusados de terem opinião contrária à do prefeito ou do governador, é reinstalar a polícia política que muitos de nós julgávamos extinta.

O bonde da História, portanto, senhor governador, começa a receber passageiros. Uns detestam os jovens manifestantes da tarifa, não gostam do MST, mas percebem que se esses oficiais e seus grupos de repressão não tiverem limites, nada impedirá que, mais dia, menos dia, comecem a também a ameaçá-los. Por qualquer motivo. Ou até por nenhum motivo, apenas para mostrar quem, de fato, manda no estado. Também já estão embarcando todos os que, em algum momento, ao longo dos últimos anos, foram agredidos, ameaçados ou intimidados pela polícia que deveria ser um sinal de segurança e tranquilidade para os cidadãos cumpridores das leis. E a discussão que começou a se alastrar e que terá novos e importantes passos nos próximos dias, incluirá muito mais gente. Servidores públicos, agentes políticos, líderes sindicais das mais diversas centrais, identificados com todo tipo de ideologia, policiais militares e civis (sim, sim) que vêem por dentro como está se dando esse perigoso rompimento institucional, enfim, todos os que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir marcharão lado a lado para assegurar que se restaure o império da lei.

Seria muito saudável se o governador levasse a sério este bilhete que de engraçadinho não tem nada e procurasse se informar. Reúna, senhor governador, em um conclave discreto, o Procurador Geral de Justiça, que é tido por todos como homem sensato e correto, o presidente da OAB, reitores das universidades, e quem mais achar que seja importante ouvir. Ouça com atenção e com o espírito desarmado, para perceber que, de fato, mesmo de fontes tão descomprometidas com os protestos, emanam preocupações sérias e pertinentes. E alguma ação será necessária.

Não se trata, é claro, de reprimir a polícia e liberar a baderna, como gostam de sonhar os que fazem a apologia da violência. Trata-se, apenas de por ordem na casa. E fazer com que até mesmo os oficiais de poucas luzes percebam que ninguém está acima da lei. E que a manutenção da ordem não precisa significar a criação de um terrorismo de Estado.

É isso, então. O bonde da História vai partir. O senhor ainda tem tempo de embarcar.

Grato e ao dispor para esclarecimentos adicionais,

Cesar Valente
contribuinte/eleitor

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