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Mar

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Reencontro do “mais antigo”

A Lena Obst criou no Facebook um grupo para reunir os colegas jornalistas que passaram pelo jornal O Estado. “O mais antigo”, como era conhecido o finado periódico, marcou história no jornalismo de Santa Catarina. Foi também espaço para muitas histórias que até hoje rendem risadas. Naquela redação, onde hoje está o prédio da Casa Cor, foram geradas reportagens inovadoras, fotos belíssimas, diagramações criativas, linguagens experimentais, crianças, casamentos…

Passei pelo “mais antigo” entre 1987 e 1989, levado pelo amigo Frank Maia para a revisão. Aquele universo era cintilante aos olhos de menino de 21 anos. Numa salinha minúscula, nos revezávamos passando olhos de lince sobre os textos dos colegas. O dicionário era nosso vício e nos divertíamos apostando cervejas com a grafia correta das palavras. Guardo com carinho os bons momentos com Frank, Joca Wolff, Giane Severo, Edson, Chica, Mara, o saudoso filósofo anarquista Ricardo Carle (que morreu em 2006 em Porto Alegre, em consequência de sequelas de um atropelamento sofrido em 2000), todos capitaneados pelo grande poeta Ademir Demarqui.

Depois fui ser repórter na editoria de Polícia, com o Ricardo Carle como subeditor e o Carlão Paniz editando. Às vezes fazíamos reunião de pauta na lanchonete/boteco que ficava nos fundos do prédio, onde se conversava de futilidades a profundidades entre um gole e outro. Em seguida passei à reportagem de geral, editada pela Lena durante um tempo. Ainda lembro como se fosse hoje da primeira lauda que escrevi como repórter, copidescada pelo gentil, mas rigoroso Ademar. Ele sentava ao meu lado e ia comentando as bobagens que eu redigia, assinaladas em caneta vermelha. Será que ainda se faz isso nas redações – veteranos ajudarem os colegas “focas”?

O barulho dos teclados das Olivettis e das Remingtons soava como música, em meio às conversas em voz alta, ao som do telex cuspindo despachos das agências de notícias, às tiradas engraçadíssimas do chargista Bonson, à entrada e saída dos fotógrafos com suas bolsas de equipamentos pesados, aos fragmentos de entrevistas por telefone (era ainda o tempo em que se discava). Num canto, Fábio Brüggemann acompanhava a diagramação do suplemento infantil Estadinho. Noutro, Bento Silvério apurava as notícias políticas (falecido precocemente, hoje é nome do casarão da Lagoa). A risada do brilhante colunista Beto Stodieck enchia o ar.

Fauna riquíssima, inclusive com mascotes. Tinha uma cachorra (alguém lembra o nome?) que costumava ficar na casinha do vigilante e era querida por todos. Certa vez, uma circular da direção estabeleceu, sisuda, que a cachorra fulana estava proibida de permanecer naquele local no horário de expediente.

A iniciativa da Lena destapou em mim uma avalanche de lembranças, e olha que só fiquei lá por dois anos. Imagina o que os colegas têm pra contar. Quem sabe um dia tudo isso vira livro – não conheço ninguém mais capacitado pra organizar isso que o grande colega jornalista e historiador Celso Martins, que, aliás, acompanhou em seu blog o descaso com que esse patrimônio histórico de Santa Catarina foi abandonado pelo proprietário do jornal. O Estado fez a crônica de um período riquíssimo na história de Santa Catarina e de Florianópolis. Foi uma grande escola de experimentações para muitos jornalistas e escritores. Acompanhei de longe sua lenta decadência, contemporânea da chegada da rede RBS a SC. Espero ler este livro um dia. Enquanto ele não sai, com certeza o grupo vai render muitos bons papos de boteco.

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7 Responses:

  1. Em 15/12/14, 10:04, Luciana disse:

    Olá! Espero que o blog ainda esteja em funcionamento! Pesquiso o suplemento “O Estadinho” e fiquei emocionada com os depoimentos que li. Consegui coletar aproximadamente 110 exemplares do jornal infantil e estou em busca de mais informações sobre ele e outros materiais que o compuseram, como cartas de leitores, rascunhos de matérias, depoimentos de editores, etc. Consegui um bom material com Marisa Naspolini, que gentilmente me emprestou sua bela coleção, um primor!Está sendo uma ótima experiência pesquisar esse material tão rico!E gostaria, de obter mais informações sobre ele, portanto, se alguém quiser colaborar, deixo aqui meu e-mail e já parabenizo a todos e todas que dedicaram-se a esse grande jornal infantil! luciana_espin@hotmail.com

  2. Em 11/04/11, 00:47, Nara França disse:

    Dauro, cheguei aqui pelos ventos do saudosismo… De 85 a 86, trabalhei na redação da sucursal do Jornal O Estado, em Chapecó. Minha editora (do interior) era a grande mestra Vana Goulart, que me deu total apoio, pra que eu pudesse fazer as materias de ocupação de terras, por toda a região oeste, além de outras reportagens, aventuras e experiencias inesquecíveis… saudade daquele tempo que não passa, por que continuamos vivos, colegas!…

    beijos

  3. Em 30/03/11, 19:35, Diógenes Botelho disse:

    A cadela era a “Estadinha”. Não sei se falamos da mesma (uma vira lata branca com pintas pretas), mas na minha época (93/97) também rolou um memorando limitando as regalias da bucica. Era companheira inseparável do Aranha, o porteiro “100%” do Mais Antigo.

  4. Em 20/03/11, 22:41, Fábio Brüggemann disse:

    Foi meu melhor emprego, com certeza, ter sido editor do Estadinho.
    E você lembrou do Ademar, grande copidesque. Aprendi muito com ele. Onde andará?

  5. Em 20/03/11, 21:04, GiSevero disse:

    Avalanche de sentimentos de amor e alegria. Lembras das fotos-flagrante do meu namoro com o Joca Wolff? Tenho guardadas… e virar personagem de O Estadinho pelo talento do Frank Maia, inesquecível!Leda, que virou Lima porque casou com o Fifo, amada amiga até hoje, também… Ademir Demarchi, quantas saudades…
    que delícia reviver e ver os amigos tão queridos e prósperos, cada qual com suas escolhas.

  6. Em 20/03/11, 17:31, Lena Obst disse:

    Dauro, acabo de me emocionar com o texto e com a perspectiva de que muitas e muitas histórias devem ser resgatadas e recontadas a partir daqui. Independente de quem escreva o livro de O Estado, também serei leitora e poderei mostrar para minhas filhas (que não têm a menor ideia do que seja redigir um texto em máquina de escrever, sem corretor ortográfico e a tecla de deletar)parte muito linda de minha história, de nossa história. Tenho orgulho disso.

  7. Em 20/03/11, 13:59, Cesar Valente disse:

    Agora fiquei com pena de ter abandonado o Facebook. O Estado foi meu primeiro emprego e ali vivi experiências de todo tipo. Pela importância que o jornal (e sua redação, como ambiente de vivências e experiências) teve no estado, é claro que está mais do que na hora de contar-lhe a história. E, principalmente, as histórias.


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