Posts com a tag ‘zen’

26

Feb

14

Por uma vida mais off-line

Crédito da imagem: Tim Barber. Fonte: Don't Touch My MoleskineExcelente entrevista de Dani Arrais com David Baker, professor na School of Life e ex-editor da versão inglesa da Wired. Ele vive uma descoberta existencial semelhante à minha, embora em ritmos e contextos diferentes. Na pauta, o excesso de informação proporcionado pela internet, o desafio de viver a solidão (“solitude” em oposição a “loneliness”) de forma significativa e criativa, o trabalho como algo prazeroso e não escravizante, o contato face a face com as pessoas, enfim, a vida simples de quem aprendeu a valorizar as delícias do mundo analógico. ~ via Laura Tuyama e Ligia Moreiras Sena.

Trecho:

- Como você organiza sua rotina para dar conta de fazer tudo?

Acredito muito que devemos trabalhar o mínimo possível, da maneira mais esperta que der. Acho que somos capazes de coisas maravilhosas, mas, especialmente no trabalho, fazemos com que ele dure muito mais. É o sistema. Nós pagamos as pessoas por hora, dia, mês. Elas não são encorajadas a trabalhar com rapidez, mas sim devagar. Eu trabalho pra mim. Se alguém me pede pra fazer uma coisa, é uma vantagem se eu fizer rapidamente. Quanto mais espaço você tem na sua vida, mais coisas boas acontecem. Eu tomei uma decisão há alguns anos de trabalhar menos, ganhar menos e gastar menos. Vivo confortavelmente, não sou um milionário. Entre os meus amigos, provavelmente, sou o que ganha menos, mas sou o que tem mais tempo. E pra mim essa troca foi bonita. Como resultado, quando trabalho, faço isso de maneira esperta e satisfatória para mim e para as outras pessoas.

Em casa, meu ritmo. Descobri recentemente que gosto de acodar cedo. Vou para cama às 22h30, acordo às 7h. Sou inglês, preparo um chá, levo meu laptop pra cama, passo umas duas horas, faço o primeiro turno de emails. Escrevo alguma coisa. Está tudo calmo lá fora, não tem ninguém por perto. Como resultado, a maioria das coisas que preciso fazer estão acabadas às 9h. Gosto de, todo dia, estar em um lugar analógico. Gosto de nadar em água fria num lugar aberto. Pego minha bicicleta. Tem água, floresta, pássaros, é o oposto da internet, é analógico. E gosto de passar tempo nesse mundo. Quando volto, faço o segundo turno de emails e o dia chega ao fim. Em escritórios nós perdemos tempo. Não precisamos ser escravos. Especialmente pessoas que todos os dias ficam até tarde no trabalho. Eu não acredito que elas tenham tanto para fazer todos os dias.

Leia mais em Don’t Touch My Moleskine

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07

Aug

10

Perpetuar porra nenhuma

O vizinho-amigo-colegafrila Mauricio Oliveira traz em seu blog uma boa entrevista com o Morongo, criador da Mormaii – empresa que faz roupas pra surfistas na linda Garopaba (SC). Já tive oportunidade de entrevistá-lo, faz tempo, e tive ótima impressão do cara. Gostei bastante deste trecho, que é revelador sobre o espírito com que ele toca o negócio e a vida:

Quais as preocupações que você tem tido para perpetuar essa marca, fazer com que a empresa sobreviva às próximas gerações…
Olha, isso não me preocupa muito. Porque meu filho, que é budista, já me falou da lei da impermanência. Nada é eterno. Nem nosso planeta é eterno, nem o sol, nem nada. Então não tem essa noia de perpetuar. Tem só a obrigação de fazer bem feito enquanto for. Só isso. Essa noia de perpetuar é um dos grandes erros que nós, humanos, cometemos.

Você não está preocupado em criar conselho profissional de administração, trazer executivo profissional, essas coisas?
Porra nenhuma. Profissional é a nossa atitude, como um todo. Somos extremamente profissionais. Mas, acima de tudo, estou preocupado com a qualidade de vida, minha e de quem trabalha aqui.

A íntegra das dez perguntas para Morongo está no Vida de Frila.

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13

Jul

10

Pequenas delícias das tardes de inverno

A partida mais gostosa que vi nesta Copa foi, sem dúvida, a disputa do terceiro lugar, Alemanha x Uruguai. Não pela qualidade do futebol ou por alguma jogada extraordinária – se bem que aquela bola uruguaia na trave no último lance foi de disparar o coração. E sim pela maneira como vi o jogo: no sofá, em estado alfa, aconchegado entre Miguel e Bruno, nós três debaixo de um cobertor de lã. Cochilei uma boa parte do primeiro tempo, mas que delícia… Em uma palavra: comunhão.

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09

Jul

10

As quatro leis da espiritualidade

Compartilho esta mensagem que recebi do Celso Vicenzi, que a recebeu de alguém. Se você achar que faz sentido pra sua vida, bom proveito.

Na Índia, são ensinadas as “quatro leis da espiritualidade”.

A primeira diz: “A pessoa que vem é a pessoa certa”.
Ninguém entra em nossas vidas por acaso. Todas as pessoas ao nosso redor, interagindo com a gente, têm algo para nos fazer aprender e avançar em cada situação.

A segunda lei diz: “Aconteceu a única coisa que poderia ter acontecido”.
Nada, nada absolutamente nada do que acontece em nossas vidas poderia ter sido de outra forma. Mesmo o menor detalhe. Não há nenhum “se eu tivesse feito tal coisa…” ou “aconteceu que um outro …”. Não. O que aconteceu foi tudo o que poderia ter acontecido, e foi para aprendermos a lição e seguirmos em frente. Todas e cada uma das situações que acontecem em nossas vidas são perfeitas.

A terceira diz: “Toda vez que você iniciar é o momento certo”.
Tudo começa na hora certa, nem antes nem depois. Quando estamos prontos para iniciar algo novo em nossas vidas, é que as coisas acontecem.

E a quarta e última afirma: “Quando algo termina, ele termina”.
Simplesmente assim. Se algo acabou em nossas vidas é para a nossa evolução. Por isso, é melhor sair, ir em frente e se enriquecer com a experiência. Não é por acaso que estamos lendo este texto agora. Se ele vem à nossa vida hoje, é porque estamos preparados para entender que nenhum floco de neve cai no lugar errado.

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22

May

10

O paradoxo das escolhas


Este vídeo tem 19’40″ e vale cada segundo. Barry Schwartz fala no TED sobre um paradoxo da vida moderna, cujo dogma é que a felicidade está vinculada à liberdade de escolher. Para ele, o excesso de opções na verdade traz paralisia e frustração. “O segredo da felicidade está em ter baixas expectativas”, brinca, a sério. “Quanto mais opções nos são oferecidas, mais ficamos desapontados com as eventuais escolhas erradas que fizemos”, diz, lembrando que essa pressão por não falhar leva a muitos casos de depressão e suicídio. Em resumo: “Não há dúvida de que alguma escolha é melhor que nenhuma, mas isso não significa que ter mais escolhas é melhor que alguma escolha”. Schwartz aponta a falsidade do mantra moderno de que não há limites para o que podemos fazer: “A ausência de algum aquário metafórico é uma receita para a infelicidade e, eu suspeito, o desastre”. Essa análise toda se aplica, claro, ao mundo ocidental capitalista desenvolvido, pois nos lugares miseráveis do mundo, o problema é a falta do que escolher. Nesse sentido, ele também faz uma interessante sugestão: a de que distribuir renda traz felicidade tanto para as pessoas pobres quanto para as que doam, pois estas estão abrindo mão da pressão para escolher tanto.

[vi este vídeo no blog Nãoenchequejátoucheia, valeu!]

p.s.: Vídeo em inglês, com legenda em várias línguas, inclusive português do Brasil.

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16

Oct

09

Samsara

Uma dica quente do Ulysses: Samsara Blog, com textos sobre budismo tibetano. Há um botão que leva a um post aleatório – gostei disso. O primeiro que me veio foi este:

“Saiba que se você não tiver contentamento com as coisas, irá se tornar um escravo do desejo!”

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07

Apr

09

A elegância da imperfeição

There is an anecdote, told and retold through translated Japanese literature, of a Zen master who is staying with a priest at a temple close to Kyoto. The priest is having guests over that evening, and he has spent much of the day in the garden-shaping the moss, plucking weeds, and gathering up the leaves in tidy arrangements, all in order to achieve the state of perfection the temple builders had originally designed.

“Isn’t it beautiful,” the priest asked the master…

The master nodded. “Yes…your garden is beautiful; but there is something missing…”

The old gentleman walked slowly to a tree growing in the center of a harmonious rock and moss combination. It was autumn and the leaves were dying. All the master had to do was shake the tree a little and the garden was full of leaves again, spread out in haphazard patterns.

“That’s what it needed,” the master said.

-Janwillem van de Wetering, The Empty Mirror

[via A List Apart, dica de Fabrício]

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13

Mar

09

Sobre o valor subjetivo das coisas

Reproduzo do dharmalog, sem tirar nem pôr, essa reflexão valiosa. É sempre uma alegria quando percebo que algumas ideias que rumino de maneira tosca já foram aperfeiçoadas por pessoas mais evoluídas.

“É meu valor subjetivo pelas coisas que transforma um simples objeto num objeto de valor especial, um objeto peculiarmente importante pra mim. Torno-me apegado a tais objetos apenas porque me rendo a eles, não porque eles se prendam a mim. Nenhuma casa me prende, eu me prendo à casa por causa do valor subjetivo que projeto nela. Objetos não me pegam e prendem. Eu os prendo. A prisão está em mim mesmo, em meus valores subjetivos baseados na incapacidade para compreender as limitações dos objetos, sua impossibilidade de me preencherem. Quando compreendo, a prisão desaparece e vejo a coisas como são. E este estado de ver é chamado indriyartheshu vairagyam, desapego em relação aos objetos dos sentidos”.
~ Swami Dayananda Saraswati, em “O Valor dos Valores” (Vidya Mandir, 1988)

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26

Feb

09

O caminho do dragão e o céu que nos protege

Neste carnaval vi pela primeira vez um filme de Bruce Lee: Way of the dragon, filmado em 1972, um ano antes de sua morte precoce aos 32. É uma comédia de ação que se passa em Roma – escrita, dirigida e protagonizada pelo próprio -, com roteiro tosco, mas belas coreografias de luta. Uma curiosidade é que o antagonista do filme é interpretado por Chuck Norris, que foi discípulo de Lee. A história desse ator, filósofo e lutador de artes marciais que se tornou um símbolo da cultura pop nos anos setenta é fascinante, como conta a Laura sobre a biografia dele, Bruce Lee – Definitivo (Marco Antonio Lopes, editora Conrad). Por exemplo, ele já foi exímio dançarino de cha-cha-cha.

Fui atrás de mais informações na Wikipedia e um link foi me levando a outro. Em 1993 o filho dele, o também ator Brandon Lee, morreu num acidente bizarro, atingido por um tiro que era pra ser de festim durante as filmagens de O corvo. Pouco antes de sua morte, Brandon Lee havia incluído no convite de seu casamento uma citação do escritor Paul Bowles (autor de The Sheltering Sky – O céu que nos protege, que foi adaptado pro cinema por Bertolucci). A citação está gravada no seu túmulo, o que levou muitos fãs a atribuírem-na ao ator:

“Because we don’t know when we will die, we get to think of life as an inexhaustible well. And yet everything happens only a certain number of times, and a very small number really. How many more times will you remember a certain afternoon of your childhood, an afternoon that is so deeply a part of your being that you can’t even conceive of your life without it? Perhaps four, or five times more? Perhaps not even that. How many more times will you watch the full moon rise? Perhaps twenty. And yet it all seems limitless…”

[Minha tradução fast-food:

Por não sabermos quando vamos morrer, tendemos a pensar na vida como um bem inesgotável. Mas cada coisa acontece apenas um certo número de vezes, na verdade um pequeno número. Quantas vezes mais você vai lembrar de uma certa tarde da sua infância, uma tarde que pertence tão profundamente ao seu ser que você não consegue conceber sua vida sem ela? Talvez quatro ou cinco vezes mais? Talvez nem mesmo isso. Quantas vezes mais você vai ver a lua cheia nascer? Talvez vinte. E ainda assim tudo parece sem limites…” ]

p.s.: Se este post tivesse trilha sonora, seria Um Índio, de Caetano.

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17

Feb

09

Anotação de leitura: "tempo livre"

Alex Castro, no blog Liberal, Libertário, Libertino, cita Adorno:

As pessoas realmente livres não têm “tempo livre” porque não têm “tempo preso”: estão sempre trabalhando em seus próprios projetos pessoais.

São preciosas essas reflexões do filósofo alemão sobre tempo livre e, por extensão, à servidão voluntária à qual a maioria das pessoas se submete. A existência do sábado e do domingo como oposição prazerosa a cinco dias “úteis”, e de um mês de férias a cada ano “produtivo”, às vezes chega a parecer tão natural que nem lembramos disso como invenção humana.

Admiro quem consegue romper com essa lógica e valoriza o próprio tempo de maneira a lhe dar sentido. Alguns com mais equilíbrio, combinando diversão e trabalho com arte e engenho. Outros de maneira atabalhoada ou instintiva, em que a simples negação do sistema os livra de um fardo insuportável, mas os coloca em situação vulnerável, tendo de bater de frente com a sociedade que abomina os “losers”.

Esse assunto me lembra um livro de Somerset Maugham, O fio da navalha. Larry, o protagonista, resolveu viver a vida conforme seu desejo de realização plena, e não a vida que estava moldada pra ele pelo seu meio social. O tema da impermanência também se faz presente:

Mesmo que ao meio-dia a rosa perca a beleza que teve na madrugada, sua beleza naquele momento foi real. Nada no mundo é permanente, e somos tolos em desejar que uma coisa perdure, mas mais tolos ainda seríamos se não a apreciássemos enquanto a temos. Se a mutabilidade é da essência da existência, nada mais natural do que fazer dela a premissa da nossa filosofia.

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