24
Jun10
No mesmo time
Da Alemanha, Nane comenta o gol de Özil.
Lamentavelmente ando sem tempo para acompanhar os jogos da Copa, muito menos para pensar em comentá-los, por mais agradável que sejam estes fenômenos sociais, capazes de movimentar o mundo. Mas a partida de ontem merece dois minutos de atenção:
Ficou gelado o país durante o dia todo. Gelado, silencioso e tenso. Só mudou de cara quando o narrador da rádio italiana, na pizzaria aqui perto e provavelmente em todas as pizzarias do país, anunciou o gol do turco Özil, dois minutos antes da televisão. Junto aos gritos, abraços e apertos de mão. Abraçaram-se turcos e o restante dos habitantes deste país, como se este fosse o motivo que faltava para chegar bem perto um do outro, se olhar nos olhos e se surpreender com a revelação: estamos jogando no mesmo time!
Abs,
nane
03
Feb10
Navegações da infância
1972. Meu irmão André (à direita) e eu brincando sobre um bote salva-vidas no navio Leopoldo Peres, que descia o rio Amazonas de Manaus a Belém. Retornávamos a Recife, depois de um período de dois anos em que nossa família morou na capital amazonense. Um tempo intenso que nós, na inocência de seis e quatro anos, não conseguimos captar na totalidade (e quem consegue?). Mas intuímos nos fragmentos de conversas dos adultos, passeios de barco, cheiros de chuva, mato e frutas estranhas, reflexos de luz naquele mundo de mistérios, naufrágios e águas grandes. Arrisco dizer que muito do que sou hoje se deve às experiências vividas na infância amazônica. Manaus, na época, tinha em torno de cem mil almas – uma provinciazinha em comparação com a atual metrópole inchada de 1,7 milhão de habitantes. Os “banhos” – passeios a igarapés que nos encantavam nos fins de semana – foram engolidos pela onda urbana e estão cada vez mais distantes. Mas, na essência, a cidade continua uma ilha humana rodeada de floresta úmida e água por todos os lados. A sensação de pequenez diante do universo, de deslumbre com a enormidade da natureza, foi tão marcante que me acompanha sempre.
Uma cena que se repetiu algumas vezes na viagem me impressionava. Quando ancorávamos em algum porto, caboclinhos com a minha idade ou menos remavam em canoas até o casco do navio e pediam coisas. Os passageiros amarravam roupas, comida e dinheiro em sacos plásticos e os jogavam na água. Os meninos iam nadando como peixes e recolhiam as doações. Outra lembrança: em cima desse bote salva-vidas, ou de outro parecido, esqueci um cavalinho de borracha natural que havíamos comprado no porto de Santarém. Quando dei por mim, o bicho tinha derretido no sol forte e se transformado no que hoje me pareceria uma obra de arte conceitual. Enquanto eu enxugava as lágrimas, o navio descia a correnteza em direção ao mar, me dando as primeiras lições de transformação e impermanência. Desde então, só retornei ao Amazonas uma vez, em 1990, por alguns meses. Já tá quase na hora de ir de novo.
p.s.: Foto de Sara Veras, minha mãe, digitalizada pelo amigo Michel. O slide tinha perdido as cores originais e estava arranhado, então dei uma fotoxopada restauradora e converti pra preto e branco.
p.s.2: O navio Leopoldo Peres naufragou na década de 80, depois de uma colisão com uma fragata da Marinha.
p.s.3: Já leu Milton Hatoum? Recomendo. Literatura amazônica e universal.
p.s.4: Já contei essa história do cavalinho aqui antes, mas só por alto, sem foto. E se tem uma coisa com que não me preocupo é me repetir.
16
Oct09
O porco por Flávio José Cardozo
Estávamos na fase de conclusão do doc quando recebi um simpático e-mail de mestre Flávio José Cardozo, que honra as letras de Santa Catarina e do Brasil com seus contos, romances e crônicas. Ele disse estar curioso para ver o filme e enviou uma crônica publicada em setembro de 1991 no Diário Catarinense, reverenciando o porco. Aguardamos você lá, Flávio! Uma das cenas tem muito a ver com o seu texto.
O porco
Flávio José CardozoAlcebíades Santos, repórter de jornal, manda de Chapecó competente matéria sobre as não sei quantas utilidades que tem o porco. Relata dele tanta serventia que o leitor ponderado se constrange de já ter olhado o porco sem respeito e, pior, ter usado seu bom nome para definir um ou outro mau sujeito. Até um pensamento triste e torto cheguei a ter, confesso humildemente: da ponta do rabinho à pontinha da orelha, tintim por tintim desse vivente é 100% aproveitado – de mim que percentagem se aproveita, vivo ou morto?
Alcebíades Santos, com senso didático, retalha para nós um porco bem no ponto e faz este balanço matemático: itens industrializados são cerca de oitenta, do tipo mortadelas e salsichas; produtos congelados são uns quinze, como pernil, lombo e filé, e uns dez produtos salgados como pés, orelhas, rabo, que fazem da feijoada o encanto que ela é. E como se isso tudo não fosse já legal extraem-se ainda do dadivoso porco bondades com os quais nunca sonhou nossa vã porcologia.
Dos miolos e do reto, vejam só que chique, resultam uns peregrinos manjares que, atravessando a barreira dos mares, vão deliciar Hong-Kong. Quanto ao útero da porca, eis o seguinte: não dá só porquinhos, dá também um prato de oriental requinte. E o tesouro científico que é o porco?De seu pâncreas tiram a insulina; da mucosa intestinal, a heparina; do duodeno não ficou dito que remédio mas dele sai remédio. E nas válvulas cardíacas, ó que porco cordial! Elas dão certinho no coração humano, não há nada que melhor e por mais tempo funcione que as válvulas cardíacas do porco. Que tal, bípede mofino, saber o coração batendo aí no peito com um tique-taque suíno?
Do couro sem luxo de quem rolou na lama saem sapatos e roupas que dão gosto, e do pêlo sai pincel para ensaboar o rosto, e do casco sai cola, e dos ossos, fígado e pulmões saem rações que perpetuam o porco irmão no corpo de outros bichos.
Soubesse eu fazer orações boas, de contrição uma faria: perdão, porco, se usei mal o teu nome, perdoas?
(Diário Catarinense – 11.09.1991)
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Acompanhe o blog de lançamento do filme.
15
Oct09
Histórias do Brasil Caipira
Em homenagem ao amigo Marques Casara, aniversariante do Dia da Criança, aí vai uma crônica dele de 2000. É o piloto de uma série que se chamaria Histórias do Brasil Caipira, a ser publicada na revista digital Guru de Viagem – projeto que terminou não saindo da prancheta, por conta do estouro da bolha da internet. Fica a esperança de que essas histórias ressurjam num blog do Casara ou em outro lugar qualquer. Com certeza ele tem muito o que contar.
p.s.: Esta crônica sai do fundo do baú pelas mãos do Rogério Mosimann, pai da ideia do Guru de Viagem e de outras tantas, meu companheiro de aventuras digitais e etílicas no Rio, no Chile e em Floripa.
Viagem sem fim
Coloquei na mochila duas calças, uns três shorts, camisas, um pacote de maços de cigarro, um canivete e fui pra rodoviária começar a viagem mais longa da minha vida. A idéia era sair de Chapecó, interior de Santa Catarina, passar por São Paulo, Mato Grosso, Rondônia, conhecer a Amazônia, ver o encontro das águas no Rio Negro, visitar Belém, tomar umas cervejas em Goiás e estar de volta em 30 dias. Contornar o Brasil, encontrar pessoas, pegar muita carona e gastar o mínimo possível. Nunca mais parei de viajar desde então, 13 anos atrás. Conheci tanta gente que as agendas se perderam pelo caminho. Sobraram recordações, amores, medos e algumas alegrias.Viajar é percorrer a estrada da vida que risca o horizonte das incertezas. Pra onde vou? Sei lá… Outro dia eu estava sentado na beira de um rio no Vale do Curuçá, interiorzão da Amazônia. O barco que nos levava jazia emborcado no leito lamacento, abatido por um tronco que chegou sem anunciar-se. Eu esperava o resgate, carona que me levasse de volta pra casa. Pensava, olhando as lontras que reclamavam aos gritos da minha presença em seu mundo, que aquela viagem, iniciada há 13 anos, ainda não chegara ao fim. Nunca mais fui o mesmo depois que ajustei as cordas da mochila e dei adeus à namorada, que ficou com o coração na mão e a certeza de que eu nunca voltaria.
As estrelas de leite que iluminam a noite da floresta me tornaram contemplativo e questionador. Quando essas árvores forem devoradas pelos monstros de lata, derem lugar aos arranha-céus do apocalipse, o mundo vai virar de ponta cabeça e a dor do índio será soterrada pelo entulho concreto dos edifícios de areia. Triste sina de nosso povo, que cresceu em tecnologia mas não aprende a respeitar diferenças étnicas e culturais.
O dia clareava sobre a rodoviária quando embarcamos, eu e meu amigo, para essa viagem de um mês que ainda não acabou. O ronco do Scânia de 38 lugares ainda ressoa em algum ponto perdido da memória. Fica mais forte na medida em que puxo pela recordação, recomeço essa viagem pelo Brasil.Se quiser, venha comigo nessa boléia. Troque idéias sobre os temas que vamos encontrar pelo caminho. Uma viagem sem cinto de segurança, repleta de muita aventura e histórias curiosas. Vamos nessa! (05.12.2000)Marques Casara é jornalista e diretor de documentários. Acha que o Brasil é bem maior do que a gente pensa e por isso, sempre que pode, sai em busca de boas histórias para compartilhar com seus conterrâneos. Trabalhou para grandes revistas e emissoras de televisão. Atualmente, atua na área de projetos da Editora Abril.
06
Aug09
Enquanto o twitter não volta
Twitter “baleiou” feio hoje. É a maior instabilidade no sistema em vários meses, lembra o Mashable (citado pelo Alexandre Gonçalves no Facebook, que tá sendo usado como sucedâneo). O Facebook tá com falhas esporádicas também. Não sou de teorias da conspiração, mas a primeira coisa que pensei foi num ataque organizado pra lembrar os 64 anos de Hiroshima. Enquanto isso, aí vão três prototuitadas.
Hoje 17h na Academia Catarinense de Letras, oficina de crônicas abre com Flávio José Cardozo.
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Dia 20 a Regininha Carvalho fala sobre humor na crônica.
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Já sou avô. Meu filho Bruno, de três anos, é pai do coelhinho Fufim e do cachorrinho Cleite.
02
Aug09
Rua Major Codeceira
Aos dois anos na nossa casa no bairro da Boa Vista, em Recife. Minhas primeiras lembranças são dessa época. Tem uma história engraçada envolvendo essa casa e o nome da rua. Na real, não lembro de ter acontecido, mas foi tão contada e recontada – sempre com muitas risadas – que passou a fazer parte da crônica familiar. Uma vez um ladrão entrou lá e tentou roubar um botijão de gás (!). Minha mãe o encontrou quando ele ia saindo com o trambolho nas costas. Ele disse algo como “o doutor mandou buscar”, aí ela chamou: “Filho, vem cá”. O homem esperava um garotinho, mas surgiu meu pai, na época com um físico bem atlético. Ele foi-se esquivando, papai o segurou pela camisa e ele deu um pulo pra trás, rasgando-a. Aí papai o segurou pelo cós das calças. Outro pulo pra trás, calças rasgadas, o ladrão ficou pelado. E deu um salto enorme de gato sobre o muro alto – esse que aparece na foto -, caindo na casa vizinha.
Nesse meio tempo alguém já tinha ligado pra polícia e deu o endereço da rua: “Major Codeceira, venham logo!”. Os policiais entenderam que a casa de um major estava sendo roubada, e cercaram o quarteirão. Enquanto isso o ladrão, nuzinho, ia pulando cercas e muros de quintais arborizados com aquelas mangueiras e jaqueiras frondosas que enfeitam o Recife. Num varal, pegou um saiote e vestiu. Mas terminou sendo preso daquele jeito e virou motivo de chacota pra rua inteira. No fim das contas, meu pai disse que não queria prestar queixa e liberaram o elemento. O homem acabou esquecendo um par de chinelas havaianas no nosso quintal. Quando comparo essa historinha ingênua com as barbaridades que a gente vê na crônica policial de hoje, quanta diferença…
09
Jun09
Anotação de leitura: LLL e a notícia do acidente
De Alex Castro, um dos grandes textos da internet brasileira.
Vida Que SegueLiberal, Libertário, Libertino
Ontem de manhã, extraordinariamente, comprei o jornal. Estou procurando um apartamento pra alugar e queria ver os classificados. Em outro caderno, petrificados em fotos e condensados em resumos biográficos, estavam os mortos do acidente aéreo: o casal de noivos de Niterói, o maestro e o príncipe, a família que viajava separada justamente para que todos não morressem juntos, a mãe que perdeu a chance de ver a filha pela última vez pois ficou presa no trânsito. Li tudo aquilo com a curiosidade mórbida que caracteriza os humanos, me emocionei, considerei minha própria mortalidade, etc etc, e deixei o jornal respeitosamente à beira da cama, talvez para ler de novo. Mais tarde, houve sexo, com sua costumeira desordem viscosa. Já de madrugada, antes de dormir, fui arrumar o quarto. Em cima do jornal, tinha caído uma camisinha usada: gotas esparsas de porra e de KY manchavam o rosto do dinâmico chefe de gabinite de um jovem prefeito. Dobrei o jornal em volta da camisinha, joguei tudo fora e fui dormir.
18
Apr09
Dois jingles do tempo da República Velha
Florianópolis, cidade linda, de nome tão feio, como quem mora aqui já sabe (ou devia), foi batizada assim em 1894 como homenagem de um deputado puxa-saco ao presidente Floriano Peixoto – então ainda bem vivo -, depois que ele mandou abafar a Revolução Federalista ao custo de quase 200 fuzilamentos na Fortaleza de Anhatomirim. Li hoje uma historinha jocosa também ligada ao nome do marechal. A fonte é a biografia Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar, de Marco Antonio de Carvalho. Braga a ouviu na infância, de um parente mais velho, e anos depois contou ao sobrinho Edson, que a revelou ao biógrafo:
Na campanha presidencial que colocou Floriano contra Custódio de Melo, em 1890, os partidários de Melo cantavam, nas ruas: “Floriano, Floriano, que nome horrendo/ começa cheirando, acaba fedendo”. Mas seus adversários respondiam no mesmo tom: “Custódio, Custódio, que nome tens tu! / Acaba com ódio, começa com cu!”
19
Mar09
Crônicas da Regina
Há poucos meses ela se despediu da blogolândia pra se dedicar a escrever em voos de mais fôlego. Mas deve ter conseguido um bom arranjo no seu tempo, porque voltou! Agora em novo endereço, Regininha Carvalho compartilha com os amigos e admiradores suas crônicas saborosas sobre livros, causos, pão, artes domésticas, caminhadas, nuvens outonais e muito mais. Que bom!
11
Mar09
Mais um cronista de segunda
O título deste post é uma brincadeirinha com meu amigo e ex-colega de faculdade Norberto Well, que a partir deste mês publica às segundas-feiras suas crônicas no caderno Anexo de A Notícia. A crônica, esse gênero literário falsamente “menor” – como estão aí pra comprovar as obras-primas de Rubem Braga e Fernando Sabino -, requer capacidade de observação arguta das miudezas do cotidiano, naquilo que elas têm de humor e poesia. Sem falar no indispensável domínio do idioma e de certos recursos narrativos. Norberto acumula esses predicados e é um grande contador de histórias. Quem puder acompanhá-lo vai comprovar. Dois aperitivos:
Esse é do tempo do trema (sobre a reforma ortográfica e as armadilhas da língua)
Flores do perdão (uma aventura urbana para satisfazer a mulher amada)











