Posts com a tag ‘crônicas’

04

Aug

16

Conversas de fisioterapia

Tou fazendo fisioterapia pra umas dores de cinquentão e me divirto com as conversas dos colegas estropiados. Tem umas velhinhas que fariam a alegria da Adriane Canan e suas crônicas. Esses dias, uma senhora contou que está casada há quarenta anos. O marido é sério, “não gosta de palhaçada”, e ela tá sempre aprontando. Uma das suas diversões é ir ao Angeloni com ele e se perder de propósito. Aí ela procura a gerência e pede pra botarem um recado pro marido no sistema de som, dizendo que sua mulher o espera lá na frente. Outra: quando ele vai doar sangue no Hemocentro, ela pede pra falar com a enfermeira-chefe e pergunta na frente dele: – Depois de quanto tempo já dá pra fazer um amorzinho?

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12

Sep

15

Correria de sexta-feira

Narceja, 9 meses

Chego em casa, o telefone tocando, o alarme entra na contagem regressiva de 30 segundos pra disparar, desligo o alarme e corro pra atender, aí um aviso começa a piscar no micro – restam 5% de bateria, a tomada tá mal colocada -, procuro os óculos e falo amenidades enquanto tento ligar a pessoa ao projeto correto (quem nunca?), a gata começa a miar, encontro os óculos, abro uma planilha e busco por palavra-chave, 4%, consigo fazer a conexão pessoa-projeto, a gata continua miando, 3%, me agacho pra ajeitar o plugue na tomada embaixo da mesa sem soltar o telefone, mais miados, fim do telefonema. Bem-vinda, tarde de sexta-feira no home-office. Vou ali botar a comida da gata.

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27

May

15

Conversa no supermercado

No supermercado a caixa Nathália Cruz, vinte anos se muito, dá dicas pacientes à colega em treinamento.
- Que banana é essa?
- Caturra – chuta a outra, que empacota e observa.
- Não. É prata, olha a pontinha aqui.
- Que bom que você tem uma boa professora – comento pra novata.
- Eu já estive no lugar dela – diz Nathália.
Falamos da chegada dos imigrantes haitianos e do preconceito de gente que deseja se ver livre “disso”. Ela filosofa, alma antiga:
- É típico do ser humano achar que sofre mais que os outros. Crédito ou débito?

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13

Jul

14

Copa 2014, um roteiro dos deuses

E hoje termina a Copa do Mundo de 2014. Lá no Olimpo da bola, os deuses roteiristas deste mundial estão inspirados. Derrubaram dois ou três monstros sagrados, elevaram seleções inexpressivas ao estrelato, adicionaram pitadas de canibalismo, traves no meio do caminho, injustiças, oportunismo político, apelo ao heroísmo, reversões de expectativas, lágrimas e consolações, piadas incríveis, thriller policial com fuga, teorias da conspiração, atos covardes e generosos, jogadas de marketing, pedidos de asilo, belíssimas panorâmicas com figurantes de todas as cores e sotaques. E bom futebol. Vi várias partidas bem jogadas – nenhuma foi do Brasil. Considerando o conjunto da obra, não dá pra me queixar. Que venha neste domingo um epílogo de tirar o fôlego. Sei que a memória é fraca e seletiva, mas espero lembrar da Copa de 2014 não só como a da destruição do mito da invencibilidade canarinha, que já não nos serve faz tempo, mas como um grande espetáculo.

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30

May

14

No caixa eletrônico

Crônica da amiga Adriane Canan, uma mestra na arte da observação do cotidiano.

no caixa eletrônico, bem ao lado do meu:

- ai, errei de novo!
- eu disse pra ti, tu és um tanso. tásh com oitenta anos na cara e não acerta a senha uma vez. deixa pra mim que eu sou mais nova.
ela, uns 70, talvez, toma o lugar dele e começa a tocar a tela do caixa eletrônico.
- como é mesmo a senha?
ele fala baixinho no ouvido dela. ela toca a tela.
- ai, não deu outra vez. culpa tua, não me dissessi direito!
- claro que eu disse -, ele revida e dá uma tossida forte.
- agora tu vásh entrar e pagar lá dentro. três erros a máquina devolve o cartão, já sabesh. vou te esperar ali fora, naquele banquinho, no sol.
ele vai, paciente, até a porta giratória.
- João Carlos -, ela grita.
me assusto, ele também.
- já sabesh que não podes entrar por aí, né? e o marca-passo? o guarda abre pra ti, vai ali, ó.
ele vai, devagar, pra outra porta. ela olha pra mim:
- tenho que cuidar bem, tadinho.

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28

Mar

13

Um barraco no supermercado

Entrei no supermercado e uma cliente esbravejava na fila. Fiz as compras e, na saída, escolhi a mesma caixa, com quem soube dos detalhes. A cliente tinha vindo com a mãe idosa e ficou indignada porque havia outra mulher na frente delas na fila preferencial. Exigiu prioridade, mas a outra disse que estava grávida.
- Pois prove que você está grávida, prove!
A outra disse que não ia dar a vez e pronto. Aí a incomodada foi reclamar com o gerente, mas ficou tudo por isso mesmo.
Enquanto me contava o ocorrido, a caixa, em período de experiência, ainda tremia um pouco as mãos de nervosa. Outra caixa mais experiente, que ajudava a embalar as compras, tentava acalmá-la.
- Minha filha, você não viu nada ainda. Ontem uma senhora veio reclamar comigo que o atendimento na padaria tinha sido RÁPIDO demais!

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15

Sep

12

Fênix, Luz e o paiaço

Fênix é um lindo menino equatoriano de quatro anos, que toca flauta, se equilibra na corda bamba, ajuda o pai nas esculturas de madeira e adora manga. A irmã Luz, uma gracinha nascida na Colômbia, tem cinco anos, gosta de cupuaçu e de pintura. O pai deles, peruano que vou chamar de Juan porque esqueci o nome, é o palhaço da trupe, que agora se apresenta sem música. Seu trombone foi furtado por um noiado na rodoviária de Rio Branco. A mãe das crianças, que não chegamos a encontrar, é brasileira. Eles estão viajando há um tempão e a qualquer hora podem cruzar novamente os nossos caminhos pelo Brasil. Nós os conhecemos no centro histórico à margem do rio Acre, e por breves momentos compartilhamos em portunhol uma bonita integração latino-americana. Felicidades, família.

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13

Mar

12

Sete dias entre a vida e a morte

“… todos te buscam, facho de vida, escuro e claro, todos te buscam e só alguns te acham. Alguns te acham e te perdem. Outros te acham e não te reconhecem e há os que se perdem por te achar…”

Poema de Ferreira Gullar, citado nesta magnífica crônica de Fernando Evangelista no Nota de Rodapé.

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01

Oct

11

No tempo em que não havia ultrassom

Meu amigo João Augusto Dantas, de Natal, que faz aniversário hoje (“pedalei 98 km de manhã, fui a Nísia Floresta e voltei”), me contou uma história que meu pai contava e eu nem lembrava mais:

No tempo em que não havia ultrassom, um médico de Recife ficou famoso por adivinhar o sexo do bebê ainda na barriga das mães, só de tocar no umbigo delas. Todas as grávidas queriam fazer pré-natal com ele. Até que um dia o médico brigou com a enfermeira e o segredo de seu dom veio a público.

No exame, ele previa: “É um menino”. Mas depois falava pra enfermeira anotar “menina” na ficha, e acertava 50% das vezes. Quando o bebê nascia, algumas mãe reclamavam: “Mas doutor, o senhor disse que era menino, fiz todo o enxoval azul e veio menina!”. Ele, rápido: “Vamos consultar a ficha. Viu aqui? Menina. Foi o que eu tinha dito, mas a senhora, emocionada, se confundiu”.

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19

Sep

11

O que é que a Tapera tem

Texto de Fernando Boppré publicado na coluna “Penso”, do Diário Catarinense, dia 3 de setembro.

Tapera tem sete tiros no meio da noite. O último a 1h09min da madrugada. Tapera não tem praça pública, parque, coisa alguma para criança brincar. Mas tem igreja de montão, padre e pastor que não acaba mais. Tapera tem mar calmo feito piscina, tem uma, duas ilhas bem bonitas para a gente nadar até lá. Tapera não tem ônibus “amarelinho”, não tem livraria, não tem Tay Cosméticos. Mas é repleta de bem-te-vis mais que vaidosos que se debatem contra os vidros dos carros e das janelas das casas vendo a si próprios num espelho inventado. Tapera não está nos planos das administrações públicas, mas está no Dicionário Aurélio e quer dizer “choça”, “lugar abandonado”. Quem sabe, os governantes conhecem o verbete e decidiram segui-lo a risca. Lá se está para além do abandono, aquém do arrabalde. Tapera está cheia de lajes por construir, abarrotada de pernilongos e águas paradas. Tapera tem gente branca, preta, média com leite (mais o japonês da farmácia) que insiste em ir trabalhar às 5h30min da manhã nas obras e casas de família de toda a cidade. Mas também tem gente outra que trabalha sem nota fiscal, sem carteira assinada, porque vender pó e fumo é operação rápida e rende muito mais do que qualquer trabalho besta (e nem é preciso pegar ônibus lotado e pagar absurdos R$ 3 pela passagem). Museu do nada, cinema marginal, teatro do absurdo, cultura por lá é utopia fora de propósito; ainda assim se faz de tudo porque arte maior é aquela que inventa modo digno de se viver com o pouco que se tem. Tapera é Rua do Juca, o Pedregal, a Barreira e há alguns anos um pedaço de terra sem escritura podia ser comprado por menos de mil reais. Tapera abriga carijós sepultados à beira-mar e homens desempregados que podem pagar suas contas na lotérica que acabou de abrir logo ali. Tapera tem candomblé, umbanda e gente de fé. Tapera tem barbeiro, sorveteria e loja de 1,99. Tem Hot-Dog e X-Camarão delivery. Tapera tem caminhão de lixo que desengatou a marcha, arrancou bruscamente e esmagou o trabalhador da Comcap num muro branco, num sábado de manhã. Por alguns dias, o muro fez-se salpicado de vermelho e a família enlutada ainda hoje veste preto. Morreu sem querer assim como o menino que jogava futebol no campo improvisado e esbarrou na trave que caiu sobre si a rachar-lhe a cabeça. Tapera tem céu cortado por pipas. Tem jogo de futebol em campo de terra, lances geniais que não passam ao vivo no SportTV, brigas homéricas que não chegam aos ringues oficiais. Tapera tem boteco de montão só que lá ninguém aceita Visa. Tem academia de musculação sempre cheia. As ruas não têm calçadas e os pedestres desfilam junto à pista de rodagem disputando espaço com os ônibus verdes alucinados. Tapera tem lajotas que, após a chuva, dançam sobre o mangue. E quando chove um pouco mais, tem inundações que, por sinal, são as únicas certezas por lá, ao contrário dos políticos, que só aparecem de dois em dois anos. Na Tapera, tempos atrás, havia toque de recolher, quando depois do horário noturno estipulado, nem a polícia, nem os bandidos se responsabilizavam pelos civis. Tapera tinha pizzaria, mas hoje lê-se: “Aluga-se quartos”. Quem não gosta de dizer que mora na Tapera, diz que tem casa no Ribeirão. A Tapera não dá “bom-dia” nem “boa-noite”, ela dorme cansada entre ruídos de televisão. A Tapera tem a Rua da Esperança (como em Yellow Submarine, dos Beatles) ainda que poucos acreditem nesta palavra por lá.

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