Posts com a categoria ‘artes’

09

Mar

17

Paterson e a beleza do cotidiano

patersonA poesia das pequenas coisas é o mote desse filme de Jim Jarmusch, um diretor sempre presente nas minhas mutantes listas de 5+. A história se passa ao longo de uma semana, num compasso descansado. Acompanhamos o cotidiano do casal e seu buldogue inglês. Paterson é motorista de ônibus e escreve poesia. Laura faz cookies, cria arte em pb e sonha em ser uma cantora country. A cada dia da narrativa, acordamos junto com eles, em diferentes momentos de intimidade à cama, enxergados pelo mesmo ângulo da foto do cartaz. Ritmo contemplativo, pra ver sem pressa e sem sono. Pra mim foi arrebatador.

 

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25

Aug

16

Os 10 melhores filmes do século XXI

Via Vincent Pasquier.
Os 10 melhores filmes do século XXI segundo 177 críticos do mundo todo:

1. Mulholland Drive (David Lynch, 2001)
2. In the Mood for Love (Wong Kar-wai, 2000)
3. There Will Be Blood (Paul Thomas Anderson, 2007)
4. Le Voyage de Chihiro (Hayao Miyazaki, 2001)
5. Boyhood (Richard Linklater, 2014)
6. Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Michel Gondry, 2004)
7. The Tree of Life (Terrence Malick, 2011)
8. Yi Yi (Edward Yang, 2000)
9. Une Séparation (Asghar Farhadi, 2011)
10. No Country for Old Men (Joel and Ethan Coen, 2007)

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16

Dec

15

Minhas impressões sobre Oração do amor selvagem

Ivo Muller e Chico Diaz. Crédito: Sabrina Bertolini

Ivo Muller e Chico Diaz. Crédito: Sabrina Bertolini

Não sou crítico profissional de cinema. O que sei é quando gosto ou não gosto de um filme, embora a maior parte dos motivos pra isso provavelmente esteja além da avaliação racional. Se gosto, recomendo. Se não, fico na minha, ou em casos extremos, comento com os mais chegados — acredito que mesmo um filme ruim pode ensinar. De tanto vê-los desde os sete anos de idade e por também trabalhar com roteiros, aprendi uma coisinha ou outra sobre a combinação de técnica e arte envolvida na construção de uma obra audiovisual. Assim, posso ir além da platitude de dizer que gostei “porque sim”, como martela o bordão daquela cerveja ruim. Pois bem, gostei muito de Oração do amor selvagem, dirigido por Chico Faganello, que estreou semana passada. Compartilho minhas impressões, consciente de que é só uma opinião e que, mais seguro que confiar na minha, é melhor você ver o filme e formar a sua.

Antes de prosseguir, aviso que minha avaliação é suspeitíssima, pois sou amigo do Chico há trinta anos. Já fizemos várias parcerias profissionais, conheço seu método de trabalho e vi filmes dele que não gostei, ou não entendi direito. Assim, me sinto bem à vontade pra afirmar que esta obra é uma mostra inequívoca do seu amadurecimento como cineasta. Oração do amor selvagem faz uma reflexão porrada sobre intolerância religiosa em uma pequena comunidade do interior de Santa Catarina, que poderia ser qualquer lugar do mundo. É contada com sensibilidade, roteiro competente, atores bons e entrosados, fotografia e trilha sonora marcantes, áudio de qualidade. Saí impactado da sala de cinema e decidi esperar dois dias antes de escrever, pra digerir melhor. Nem sempre os grandes impactos são sinônimos de qualidade, já dizia a parede esburacada pra furadeira elétrica. Neste caso, é.

Um dos grandes méritos de Oração é ter conseguido resgatar a química das narrativas contadas ao pé do fogo desde sempre. Sem maneirismos estilísticos. Complexa e cheia de camadas, mas com a simplicidade dos bons causos com cor local e eco universal. A trajetória do caboclo Thiago — incorporado de maneira quase sobrenatural por Chico Diaz — avança num ritmo seguro, que começa lento e vai pegando embalo, nos envolvendo na correnteza. Não é um “filme de autor”. A gente percebe a marca do trabalho de equipe o tempo inteiro, tanto nas vigas-mestras quanto nos detalhes — a camisa puída que o protagonista abotoa, os diálogos e as pausas, os gestos que expressam a dúvida existencial, a busca da felicidade e da paz/redenção. Há um denso subtexto, quase nada está ali por acaso.

Fiquei impressionado com o talento do ator Ivo Müller na interpretação do pastor obcecado pela irmã e pelas ideias distorcidas sobre religião. Antagonista poderoso, é ao mesmo tempo repulsivo e digno de pena. Como bem lembrou a Adriane Canan, embora o filme tenha homens como personagens centrais do conflito, as personagens femininas são fundamentais pra mover esse drama de amor e ódio. Mulheres que buscam a felicidade em meio à repressão. Sandra Corveloni interpreta a viúva Anita e sua bondade ambígua na medida certa. Camila Hubner convence como a irmã do pastor, oscilante entre a castidade e o desejo. A menina Camilla Araújo, que faz a filha de Thiago, é um destaque à parte com aqueles olhos lindos onde cabe um mundo.

Gostei muito da fotografia do Marx Vamerlatti, que aproveitou ao máximo a luz natural, inspirado na pintura de Vermeer e em Sangue Negro de Paul Thomas Anderson, como nos contou no debate mediado por Jose Geraldo Couto, logo depois da sessão. A trilha de Zeca Baleiro e o coral da cidade de Antônio Carlos, onde foram feitas as filmagens, foram vitais pra criar o clima. Minha cena preferida, sem spoiler? A da chuva vista da janela. Não só por ser síntese do espírito libertário do protagonista. É um eco da minha primeira lembrança de infância (e lá se vai o racional pras cucuias). Falhas? Achei a atuação dos policiais pouco convincente e algumas cenas da primeira parte podiam ter sido cortadas sem prejuízo da narrativa — nada que tenha comprometido a verossimilhança ou a qualidade da montagem.

Oração do amor selvagem merece ser visto com atenção. O tema é da hora e é de sempre: a relação do humano com o divino e como isso às vezes descamba para a violência obscena. Adorei ver Santa Catarina retratada com tanta competência no cinema, numa história xucra como a vida e doce como o amor.

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21

Jun

15

FAM 2015: amor, arte, sonhos e resistência

Sábado de fortes emoções no ‪‎FAM‬, em dois filmes que dialogam entre si ao falar de amor, arte, sonhos e resistência. Primeiro, Desculpe pelo transtorno: o Bar do Chico. Debulhei lágrimas vendo a história desse homem querido que aglutinou tanta gente boa. Seu Chico e o bar já não estão mais aqui, mas viraram símbolo da luta de todos os que amam Floripa contra os que só amam o dinheiro. História local com ecos universais, o documentário já está inscrito em mais de 40 festivais pelo mundo.

À noite, vimos Los Hongos, belíssimo filme colombiano sobre dois adolescentes no mundo de hip-hop, skate e grafiti de Cali. A trilha é excelente (uma palhinha no trailer oficial aí embaixo), o clima é pra cima, o roteiro, repleto de subtextos sem ser chato, e os personagens, bem construídos. Tem uma abuelita encantadora que faz quimio, ganha massagens na cabeça do neto e dá um conselho pra ele e pro amigo: “Meninos, vocês deviam acordar mais cedo. Assim sobra mais tempo pra vagabundar”. Saí da sala ainda mais apaixonado pelo cinema.
#FAMdetodos

Os trailers

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08

Apr

15

Casais russos dormindo e esperando

Lindo projeto documental da fotógrafa Jana Romanova, de São Petersburgo. Casais russos grávidos dormindo.

Casal russo grávido dormindo. Foto de Jana Romanova

 

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01

Mar

15

Impressões sobre Birdman

birdman

Vi Birdman ontem. Tecnicamente bem realizado, repleto de metalinguagem, referências e homenagens, roteiro bem escrito, excelentes atuações, Edward Norton e a diva Naomi Watts roubando a cena. Com tudo isso, não conquistou meu coração cinéfilo. A impressão que me deu foi a de uma overdose de recursos pra impressionar, como aqueles gifs animados dos primeiros tempos da web. O plano-sequência, interessante até os 15 minutos, começou a me cansar depois de meia hora e já tava insuportável perto do final.

Birdman não é propriamente um filme “ruim”. Tem cenas excelentes (como a do baterista, p.ex., uma autorreferência à trilha que constrói o clima, e a da briga-diálogo entre os personagens de Keaton e Norton). Mas tá mais pra lição de anatomia cinematográfica que espetáculo encantador. Bom filme pra estudar repertórios de possibilidades narrativas, mas também pra ensinar sobre os riscos de carregar nas tintas.

Peguei emprestada a foto desta ótima resenha do Zé Geraldo Couto no blog do IMS.

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25

Feb

15

Algumas impressões sobre Boyhood

Demorei um pouco pra comentar Boyhood porque estava esperando o filme “assentar” na cabeça. Vi faz uma semana e os flashes da história estão voltando de mansinho. Identificações, empatias, reconhecimento de sutilezas.

Boyhood foge dos cânones hollywoodianos de roteiro clássico. Coisas como clímax e anticlímax não têm importância alguma na história. Alguns acharam chato, eu gostei muito da sensação um tanto voyeurística de seguir a evolução dos personagens – não só o menino – numa trajetória cotidiana sem pirotecnias dramatúrgicas.

Momentos se somando ao longo dos dias e anos, fazendo sentido pelo seu conjunto de banalidades e solavancos da vida sem sentido – mas repleta de reflexões sobre isso mesmo, ao contrário de banalidades rasas e solavancos grosseiros do Big Brother.

A sensação de ser um outsider, de não se encaixar no esquema, é um tema recorrente nos filmes de Richard Linklater que acompanha o protagonista ao longo da história. Mas o menino-adolescente consegue, de um jeito ou outro, viver com isso. Me enxerguei nele.

A produção com os mesmos atores ao longo de 12 anos é muito adequada à história que o diretor contou. Carpintaria narrativa sofisticadíssima em um filme aparentemente despretensioso. Boyhood vai ser lembrado por muito tempo. Por mim, pelo menos.

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20

Feb

15

The City of Your Final Destination

Vi ontem The City of Your Final Destination (James Ivory, 2009). Quase passei batido por ele no Netflix, por causa do título bobo em português (Em busca do amor, ou algo parecido). Mas a presença de Anthony Hopkins e Charlotte Gainsbourg no elenco, a trilha de Jorge Drexler e a ambientação no interior do Uruguai me chamaram a atenção. Muito bom! A história acompanha Omar, um tímido estudante americano de pós-graduação que quer escrever a biografia de um escritor já falecido. Seu desafio é convencer os herdeiros – a viúva, a amante e o irmão, que vivem na mesma propriedade rural – a autorizar a obra. Não chega a ser daqueles filmes inesquecíveis, mas é muito bem construído, com personagens marcantes – incluindo a namorada controladora de Omar e a lembrança do escritor Jules Gund, idolatrado pelas mulheres. Recomendo.

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06

Sep

14

Duke e a intolerância

charge_duke_2014-09-06

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01

Jan

14

DVeras Awards 2013: séries de TV

Dezembro passou voando e já chegamos a 2014, mas ainda temos DVeras Awards. Não sou muito de ver séries de TV, mas em 2013 tive a oportunidade de acompanhar algumas de alto nível. Seus roteiros, casting e fotografia nada deixam a dever às boas produções cinematográficas. Gostei destas em especial:

4) Lilyhammer é uma divertida produção ficcional norueguesa sobre um mafioso de Nova York – interpretado pelo ator e músico Steven Van Zandt – que delata um chefão e se refugia nessa pequena cidade nórdica. A primeira temporada da série estreou em 2012 e foi vista por quase um milhão de pessoas na Noruega, um quinto da população do país. Depois de uma pausa para Van Zandt participar da turnê de Bruce Springsteen, foi gravada a segunda temporada e a terceira deve começar a ser produzida este mês. Lylehammer é a primeira série original da Nefflix, empresa americana de TV por internet. Ponto alto: as estranhezas do choque entre culturas bem distintas.

3) The Newsroom é uma série da HBO que mostra os bastidores de uma emissora noticiosa de TV a cabo. Gostei do ritmo rápido, com diálogos mordazes e inteligentes, e da representação mais ou menos fiel do estresse do jornalismo diário, com dilemas que precisam ser resolvidos de imediato e quase sempre são esquecidos no dia seguinte (a “cachaça” do jornalismo). Os episódios enfocam temas de relevância nacional (deles, americanos) e internacional, além das questões profissionais e pessoais dos jornalistas e empresários da comunicação – namoros, puxadas de tapete, alianças, chantagens, traições. Jane Fonda faz uma ponta como dona do canal.

2) House of Cards conta a história de um ambicioso congressista americano que, junto com sua mulher, faz manobras políticas escusas para passar a perna nos desafetos e conquistar o poder. Kevin Spacey está em excelente forma, destilando cinismo por todos os poros. Há uma personagem coadjuvante que vale a menção: uma jornalista que dá tudo de si pra conquistar a fonte privilegiada no Congresso e ascender na carreira. Produzida pela Netflix, House of Cards é uma adaptação de um romance homônimo e de uma série britânica.

E o campeão incontestável do ano nesta categoria é…

1) Breaking Bad. Essa história sobre um professor de química que se descobre com câncer e decide fabricar metanfetamina tem sido referida como a melhor série de TV de todos os tempos. E não sou eu quem vai dizer o contrário. Assisti do início ao fim e tiro o chapéu pro argumento, pro roteiro, pra “química” entre os atores, pra trilha sonora e pra fotografia de alta qualidade. Breaking Bad foi criada e produzida por Vince Gilligan para o canal americano AMC. Cada episódio é uma pequena obra-prima bem encadeada nos demais. Aqui e ali há algumas forçadas de barra na verossimilhança, mas a competência com que o público vai sendo conquistado ao longo da narrativa faz esses escorregões se tornarem irrelevantes. A trajetória do pacato Walter White até se transformar no temível Heisenberg fisga o espectador como os melhores folhetins vêm fazendo ao longo dos séculos (curiosidade: em Portugal a série foi traduzida como Ruptura Total). Bryan Cranston, que interpreta o protagonista, já amealhou vários prêmios. Talvez o mais expressivo tenha sido informal: uma carta enviada por Anthony Hopkins, elogiando seu trabalho e dizendo que Cranston é o melhor ator que já conheceu. Desde já, um clássico que trouxe vida inteligente às telas.

Em tempo: se você ainda não viu ou está começando a ver Breaking Bad, uma dica é acompanhar também o podcast That is Veggie Bacon, gravado por um grupo de amigos brasileiros ao longo da série pra comentar os episódios que acabaram de assistir. Muito bom.

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