17

Apr

19

A realidade não é o que parece

realidadeLeitura iniciada.

(Carlo Rovelli, Objetiva, 2017)

“O espaço e o tempo realmente existem? De que é feita a realidade? De onde vem a matéria? O cientista Carlo Rovelli passou a vida inteira investigando essas questões, tentando ampliar os limites do que sabemos. Em A realidade não é o que parece, ele revela como nossa compreensão da realidade mudou ao longo dos séculos, de Demócrito à gravidade quântica em loop. Rovelli nos guia por uma jornada maravilhosa e nos convida a imaginar um mundo completamente novo onde os buracos negros estão esperando para explodir, o espaço-tempo é feito de grãos e o infinito não existe – um vasto universo amplamente desconhecido”.

Bookmark and Share


04

Apr

19

Dois filmes bons, um filme bosta

CANDELÁRIA (2017), do diretor cubano Jhonny Hendrix, se passa no chamado “regime especial”, na década de 1990, quando o fim da União Soviética provocou penúria no país caribenho. Os aposentados Candelária e Victor Hugo quebram a rotina de privações e tédio quando ela encontra uma câmera de vídeo roubada e eles começam a filmar suas brincadeiras eróticas. Um dia a câmera desaparece, com consequências inesperadas. Trata de amor na velhice com delicadeza e talento.

MANOS SUCIAS (Mãos Sujas, 2014), do colombiano Josef Kubota Wladyka, acompanha a jornada perigosa de um pescador e seu amigo adolescente que viram “mulas” do tráfico de cocaína e transportam uma carga de barco até o Panamá pela costa do Pacífico. Tensão e suspense do princípio ao fim, numa história bem contada que mostra um pouco do cotidiano das comunidades negras locais. Ganhou o festival de Tribeca como melhor narrativa de novo diretor.

TRIPLE FRONTIER (Operação Fronteira, 2019), de J.C. Chandor. O personagem interpretado com a habitual canastrice por Ben Affleck se une a amigos mercenários pra roubar uma fortuna em dólares na casa de um traficante no Brasil. Depois de muitos tiros contra bandidos latinos estereotipados e perseguições inverossímeis, eles fogem cruzando os Andes peruanos (ok, a paisagem é linda). Clichês em abundância sobre ganância, lealdade, pecado e redenção, até o final previsível. Se você tiver algo melhor pra fazer, não perca seu tempo.

Todos estão disponíveis no Netflix. Grato ao Mauro Sniecikowski pelas duas primeiras dicas certeiras. A terceira é de minha inteira responsabilidade. :)

Bookmark and Share


14

Feb

19

O Brasil que pedala

O Brasil que pedala: a cultura da bicicleta nas cidades pequenas

Recebi da Aliança Bike este livro delicioso organizado pelos pesquisadores e cicloativistas André Soares e Daniel Guth. A equipe de autores aborda a cultura da mobilidade urbana no Brasil a partir do cotidiano de 11 cidades pequenas: Afuá (PA), Antonina (PR), Cáceres (MT), Gurupi (TO), Ilha Solteira (SP), Mambaí (GO), Pedro Leopoldo (MG), Pomerode (SC), São Fidélis (RJ), Tamandaré (PE) e Tarauacá (AC). Já estou na metade da leitura e encantado com o resultado.

“O Brasil que pedala” (ed. Jaguatirica, 2018) combina rigor metodológico e bons infográficos com crônicas sobre um Brasil profundo que se move em outro ritmo. Um país que às vezes até esquecemos que existe e resiste. O uso da bicicleta nas cidades com até 100 mil habitantes tem muito a ensinar sobre planejamento urbano nos grandes centros. Parabéns à Aliança Bike, Bicicleta para Todos, União dos Ciclistas do Brasil, Bike Anjo e a todas as organizações locais de ciclistas que viabilizaram a obra.

Bookmark and Share


19

Jan

19

Manual da faxineira

luciaberlin

Comecei bem o ano de leituras com o Manual da Faxineira, extraordinário livro de contos sugerido pela Laura. Lucia Berlin (1936-2004) escrevia de um jeito compassivo, engraçado, agridoce e direto ao leitor, não deixando nada a dever a mestres da narrativa curta como John Fante, Raymond Carver, Paul Auster, Alice Munro, Rubem Braga.
As histórias dessa coletânea, todas de inspiração autobiográfica, apresentam a vida movimentada de uma criança solitária nascida no Alasca e criada no Novo México, adolescente de elite no Chile, boêmia hipster em Nova York, enfermeira em Oakland nos 70 e, no final da vida, professora universitária. Foi também faxineira e professora de crianças, casou três vezes, teve quatro filhos, um caso tórrido com um rapaz de 17 anos, amigo de um deles, e passou anos enfrentando o alcoolismo.
Seus personagens vêm e vão ao longo das histórias, apresentados por pontos de vista diferentes em várias situações cotidianas. Um recorrente é a irmã mais nova, que está com câncer terminal e com quem ela passa um tempo na Cidade do México. A maneira como ela descreve a personalidade do seu namorado adolescente se aplica muito bem ao tom das narrativas:
“Ele não era gentil. ‘Gentil’ é uma palavra como ‘caridade’; implica um esforço. Como aquela frase de para-choque de caminhão que fala de gestos aleatórios de gentileza. Gentil deveria ser o modo como uma pessoa é sempre, não um gesto que ela opta por fazer. Jesse tinha uma curiosidade compassiva em relação a todo mundo”.
Quando eu crescer, quero escrever como Lucia Berlin.

Bookmark and Share


31

Dec

18

DVeras Awards de Literatura 2018

bookMais uma vez você não pediu, mas aqui estamos com o DVeras Awards 2018 de Literatura. Este é um concurso hedonista: participam todos os livros que li sem nenhuma obrigação, só por prazer, entre janeiro e dezembro deste ano. Ficam de fora as obras técnicas e de referência, as lidas por motivos profissionais específicos e as não concluídas até 31 de dezembro. As decisões da comissão julgadora – eu mesmo – são irrecorríveis.

Este ano a seleção dos melhores foi dificílima pela alta qualidade dos competidores, nada menos que quatro prêmios Nobel – Mario Vargas Llosa (2010), Alice Munro (2013), Svetlana Alexievitch (2015) e Kazuo Ishiguro (2017), sem falar nos quase premiados Graham Greene e Haruki Murakami, e no genial Julio Cortázar, um gigante literário ignorado pela academia sueca (aliás, na boa companhia de Kafka, Ibsen, Joyce e Nabokov).

Os autores e autoras destes 27 livros são de 13 países: Suíça, Canadá, Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, Japão, Brasil, Noruega, Argentina, Cuba, Uruguai, Peru e Bielorrúsia. Em 2018 li menos do que gostaria, e poucas mulheres, mas pude conhecer nomes relevantes, como tinha me proposto. Aceito dicas para aumentar o repertório de visões literárias femininas. Os temas e formatos variaram. De reflexões filosóficas sobre a vida amorosa a narrativas sobre a ditadura brasileira, passando por autobiografias, romances policiais e históricos, jornalismo e contos. Veja a lista e, em seguida, conheça os três agraciados:

  1. The Course of Love, Alain de Botton
  2. Amiga de juventude, Alice Munro
  3. O poder do agora, Eckhart Tolle
  4. O ministério do medo, Graham Greene
  5. Tiros na noite, Dashiell Hammett
  6. Kafka à beira-mar, Haruki Murakami
  7. A noite da espera (o lugar mais sombrio), Milton Hatoum
  8. O fim do Terceiro Reich, Ian Kershaw
  9. Midnight Sun, Jo Nesbo
  10. O livro de Jô, volume 1, Jô Soares
  11. As armas secretas, Julio Cortázar (releitura)
  12. Não me abandone jamais, Kazuo Ishiguro
  13. Noturnos, Kazuo Ishiguro
  14. A brincadeira favorita, Leonard Cohen
  15. Hereges, Leonardo Padura
  16. Máscaras (Verão), Leonardo Padura
  17. A neblina do passado, Leonardo Padura
  18. Paisagem de outono, Leonardo Padura
  19. Uma janela em Copacabana, Luiz Alfredo Garcia-Roza
  20. A borra do café, Mario Benedetti
  21. A festa do bode, Mario Vargas Llosa
  22. Tudo que é belo, The Moth (org.)
  23. Vida querida, Alice Munro
  24. In The Country of Last Things, Paul Auster
  25. Invisível, Paul Auster
  26. O rio inferior, Paul Theroux
  27. Vozes de Chernobyl: a história oral do desastre, Svetlana Alexievitch

Todos os finalistas do DVeras Awards 2018 mereciam o prêmio máximo, por seus diferentes méritos. Mas escolhas precisavam ser feitas. O resultado:

Menção honrosa – Não me abandone jamais, Kazuo Ishiguro
Inquietante, distópico, perturbador, agridoce. Estritamente falando, daria para classificar como ficção científica, embora destoasse numa prateleira do gênero. A narrativa acompanha um grupo de colegas em um colégio interno no Reino Unido que aos poucos vão descobrindo o segredo por trás de suas origens e destinos. E mais não conto, pra não dar spoiler. A história virou um filme, que ainda não vi.

Bronze – Vozes de Chernobyl: a história oral do desastre, Svetlana Alexievitch

Relato jornalístico construído a partir de entrevistas com sobreviventes da tragédia nuclear de 1986, em que eles contam suas lembranças e sensações na primeira pessoa. Confesso que levei muito tempo pra terminar – a leitura tem forte carga emocional, o que às vezes me fazia “pedir” pausas. A autora é a única jornalista até hoje premiada com o Nobel. Esta obra tem grande valor histórico e merece ser mais conhecida.

Prata – Vida querida, Alice Munro

A escritora canadense mostra que domina como poucos as artes desse ofício dificílimo que é escrever contos: graça de contar, repertório, “timing”, poder de síntese. O encadeamento narrativo desperta empatia com os personagens (gente “comum”) e vai nos conduzindo com leveza até o desfecho. Que raramente é “extraordinário” como as fórmulas gastas de reversão de expectativas, mas traz algo parecido a uma pequena epifania. Bela escritora, quero conhecer melhor.

Ouro – A borra do café, Mario Benedetti

O que dizer sobre esse autor uruguaio de incrível talento e sensibilidade, morto em 2009? A borra do café reforçou minha impressão que ele é um dos grandes. Nesta novela, Benedetti revisita com nostalgia sua infância e adolescência na Montevidéu do início do século 20, pelos olhos do protagonista Claudio. Sua família, amigos do bairro, iniciação sexual, dilemas de trabalho e carreira. E uma misteriosa mulher que aparece em uma figueira e depois retorna outras vezes, sempre no mesmo horário, às 3 e 10. A história despretensiosa esconde um sofisticado recurso narrativo, uma tensão que vai ganhando velocidade e nos faz decolar até o desfecho inesperado. Taí um livro que eu gostaria de ter escrito!

Espero que vocês apreciem essas sugestões de leitura. Recomendo também Kafka à beira-mar, de Murakami (uma espécie de realismo fantástico japonês), A festa do bode, de Vargas Llosa (relato romanceado do último dia de vida do ditador dominicano Trujillo, baseado em muita pesquisa histórica), e O poder do agora, de Eckart Tolle (traz tantos insights bacanas que seria injusto desprezar apressadamente como “auto-ajuda”). Ah, um senão: achei O ministério do medo bem fraco, Graham Greene tem outros melhores.

Bookmark and Share


28

Sep

18

Sepultura de palavras

Capa do livro Sepultura de palavras dos desaparecidosEstive ontem na Fundação Badesc no lançamento de um livro-reportagem extraordinário – e não uso essa palavra em vão. Durante três meses a jornalista catarinense Luara Wandelli Loth percorreu o estado de Guerrero, no sudoeste do México, para conhecer os bastidores do sequestro e desaparecimento de 43 estudantes normalistas de uma escola rural, em 2014. Eles iam a uma manifestação política quando foram abordados pela polícia e não foram mais vistos.

Com poucos recursos e sem contatos locais, ela se hospedou com familiares dos rapazes – uma das suas anfitriãs perdeu três filhos e um genro – e acompanhou a dolorosa busca comunitária pelos corpos em covas clandestinas. O resultado é “Sepultura de palavras para os desaparecidos” (Insular, 2018, 223 p.). A busca coletiva pela justiça e pela memória, sem data pra terminar, é apresentada no contexto da violência do Estado e do narcotráfico contra as populações empobrecidas. Preenche vazios e busca sentidos.

Formada em jornalismo pela UFSC em 2017, Luara honra a nossa profissão com seu trabalho. É preciso ter muita coragem e uma boa dose de loucura utópica para se lançar num desafio assim, em um país onde a vida dos profissionais de imprensa vale tão pouco. Já no começo da leitura, fica evidente que ela domina a arte da narrativa e tem o que dizer. Mais que uma aula de reportagem, o livro é um registro histórico que faz pontes com nossa realidade brasileira e a de tantos outros lugares onde os direitos humanos estão ameaçados. Uma obra necessária, produzida com consciência política, talento e amor.

Depois da leitura completa eu comento mais.

p.s.: Influência genética, ambiental ou ambos? O fato é que Luara é filha dos jornalistas Raquel Wandelli e Moacir Loth, fontes de inspiração pra mim e pra muitos colegas. Foi um prazer abraçar os três no lançamento do livro.

Bookmark and Share


22

Aug

18

Novos desafios

Chegou na firma e recebeu a boa notícia do chefe: iria ganhar uma oportunidade única de enfrentar novos desafios. Mais detalhes no RH. Munido de carteira de trabalho, essa herança anacrônica da era Vargas, logo soube dos detalhes. Fora promovido a gestor de home-office autônomo, um cargo de alta relevância, vinculado apenas informalmente à estrutura organizacional, para não tolher sua liberdade criativa. Em sintonia com as diretrizes modernizadoras da reforma trabalhista, precisaria rescindir o contrato de trabalho e se tornar microempreendedor para continuar prestando seus inestimáveis serviços. Assumiria, naturalmente, os custos de água, energia, internet e cafezinho, mas com toda a liberdade para escolher os fornecedores e marcas que melhor lhe aprouvessem. Afinal, paternalismo não ajuda nada a estimular o desenvolvimento profissional em um ambiente de livre mercado, e você prefere tomar arábica, não é mesmo? Outra vantagem imensurável: total controle sobre a temperatura do ambiente laboral, um grande passo na conquista da autonomia do eu.

Foi à luta. Comprou pijama novo em dez vezes, contratou contador, conseguiu CNPJ e começou a trabalhar em casa. Em pouco tempo percebeu como expandia os horizontes. Aprendeu a usar os recursos de maneira parcimoniosa e sustentável, para não aumentar a pegada ecológica. Descobriu como alongar o endividamento, como vender almoço para comprar janta. Hoje ele é o feliz CEO de uma empresa enxuta e versátil do ramo de serviços aleatórios. Para maximizar os resultados, acumula responsabilidades: é gestor da prospecção de partículas invisíveis (varre a casa); líder do board de aquisições (faz a feira); manager de recursos animais (cuida dos cachorros); barista (passa o café); alquimista com especialização em sódio (faz a comida); supervisor do fluxo de informações (pesquisa no Google, atende o telefone, recebe o carteiro). Ainda arruma tempo para fazer ginástica laboral (lava o banheiro), cultivar a network (Facebook, Whatsapp) e prestar trabalho voluntário em ações ambientais (separa o lixo e leva pra calçada). É verdade que sua empresa tem enfrentado dificuldades no fluxo de caixa, mas já disponibilizou aos credores um powerpoint com o diagnóstico tranquilizador: é só uma crise passageira nos mercados emergentes, coisas do mundo competitivo e globalizado. Nada que abale sua crença inabalável no poder da vontade.

Bookmark and Share


15

Jun

18

Digital News Reporting 2018

Saiu o Digital News Reporting 2018, estudo anual do Instituto Reuters de Estudos sobre Jornalismo da Universidade de Oxford, que envolveu 74 mil entrevistas em 37 países. Alguns destaques sobre o Brasil:
- Um terço dos entrevistados acessam notícias pelas mídias sociais, mas o uso do FB com essa finalidade caiu de 69% pra 52% em dois anos;
- 61% dos entrevistados compartilham as notícias por redes sociais ou e-mail e 38% comentam nas redes ou sites;
- o Whatsapp é fonte de acesso a notícias para 48% dos pesquisados;
- 22% pagam por notícias online, percentual estabilizado e em quarto lugar entre os 37 países pesquisados;
- o uso de adblocks aumentou em um terço, indicando preocupação maior com segurança e privacidade;
- 85% estão preocupados com o que é real e falso na internet:
- nos últimos três anos, a circulação dos 11 maiores jornais impressos pagos caiu 41,4%, enquanto a circulação digital aumentou 5,8%.
~ Dica de Breno Costa, do Brio.

Bookmark and Share


20

Mar

18

Historinha zen

O mestre chegou no salão onde seus discípulos o aguardavam e disse:
- Eu vim trazer a boa nova. Alguém sabe o que é?
Ninguém se manifestou.
- Se ninguém sabe, então eu vou embora – e saiu.
No dia seguinte voltou.
- Eu vim trazer a boa nova. Alguém sabe o que é?
Todos levantaram a mão. – Sim, sim!
- Se todo mundo sabe, então não precisam de mim – e saiu.
No terceiro dia voltou:
- Eu vim trazer a boa nova. Alguém sabe o que é?
Metade da platéia disse que sim e metade ficou quieta.
- Então quem sabe conta pra quem não sabe.
E foi embora.

Bookmark and Share


20

Mar

18

RT @alejodorowsky

“¿Maestro, cómo hacer para vivir hasta tan viejo?”

“Nunca contradigo a alguien”

“¡No es posible!”

“¡Sí, no es posible!”.

 

 

 

 

 

Bookmark and Share