29

Oct

20

O novo Murakami

comendadorDia Nacional do Livro. Deixe uma sugestão de leitura e diga por que gostou.
A minha é O assassinato do comendador, de Haruki Murakami, inspirado em O grande Gatsby, de Scott Fitzgerald.
A narrativa é contada em primeira pessoa por um pintor de retratos de 36 anos que se separou da mulher. Depois de um tempo viajando de carro pelo norte do Japão, vai morar numa casa isolada no alto de uma montanha, pertencente a um pintor famoso já aposentado e senil. Um dia ele sobe ao sótão, onde encontra a pintura que dá nome ao romance.
O protagonista vive uma experiência estranha na casa: em algumas madrugadas, escuta o som de um pequeno sino vindo da floresta próxima. A maneira como ele lida com esse mistério, com a ajuda de um vizinho milionário e solitário, conduz a história a uma fascinante investigação da natureza humana e da arte, com toques de realismo fantástico.
Li em volume único na tradução em inglês, bem fácil de entender, com prosa fluida e coloquial. No original em japonês e na tradução em português, o livro é dividido em duas partes. Sem dúvida, um dos melhores de Murakami.
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21

Sep

20

Hablismo

Leitura da aula de conversação em espanhol sobre “hablismo”, uma tradução do inglês “accentism”. Como seria em português a palavra pra discriminação por sotaque? Sotaquismo?

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04

Sep

20

Ouvido não é penico

Ontem eu sintonizava a CBN no rádio do carro e mais uma vez fui recordado do motivo por que escuto rádio aberto cada vez menos. Um esquete supostamente humorístico chamado “Corneta do Tarrafa”, que faz piadas ruins apoiado no estereótipo do sotaque manezinho da ilha, apresentou um quadro infame por cerca de dois minutos.
Inspirados nos memes sobre as referências da deputada Flordelis ao som dos tiros que mataram seu marido, os dois locutores fizeram um paralelo com três jingles/músicas contendo “pá, pá, pá, pá, pá”. Da primeira vez foi bizarro, da segunda, grotesco e da terceira senti até o cheiro de esgoto.
Essa estética de comunicação focada no mundo cão, tão a gosto da indigência mental do bolsonarismo, tem produzido espetáculos constrangedores. Quem me conhece sabe que tenho uma visão bastante aberta quanto aos limites do humor, mas o gozo com a miséria humana, definitivamente, ultrapassa o tolerável.
Esquetes-lixo como esse contribuem pra afastar os ouvintes dos diversos conteúdos de qualidade que a CBN ainda tem na sua grade. Quase tão ruins quanto isso são os longos debates vazios enchendo linguiça sobre futebol. Ponto pros podcasts, em que os ouvintes têm um controle bem maior sobre a qualidade do que escutam.
p.s.: Aproveito pra recomendar o ótimo podcast Fronteiras invisíveis do futebol, um programa de História que aborda as realidades de vários países usando o esporte como pretexto.
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06

Apr

20

Coletiva de imprensa pelo Zoom é hackeada por neonazistas

BIZARRO! Coletiva de imprensa com imunologistas do Brasil e EUA, organizada pela Sociedade Brasileira de Imunologia e Agência Bori, com apoio da RedeComCiência, acaba de ser hackeada por neonazistas! Estávamos no Zoom com Karina Bortoluci, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia, Daniel Mucida, professor e líder do Laboratório de Imunologia das Mucosas da Rockefeller University; Marina Caskey, do Laboratório de Imunologia Molecular da Rockefeller University; Ana Caetano Faria, pesquisadora da UFMG; e Cristina Caldas, diretora de pesquisa científica do Instituto Serrapilheira. Aos 50 min de conferência, começaram a entrar fotos de Hitler, vozes estranhas e pichações na imagem. A conexão caiu.

Definitivamente, não usem o Zoom.

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31

Mar

20

Jornalistas divulgam material produzido sobre a ditadura militar para furar censura na EBC

Compartilhando:

~
31 de março de 2020. Há 56 anos o Brasil entrava em um dos períodos mais sombrios de sua história. Tantos anos depois, no entanto, é cada dia mais evidente que os crimes da ditadura não acabaram. Eles seguem reverberando. Afinal, a posição de membros do governo de Jair Bolsonaro é de enaltecimento das mortes, torturas e crimes da ditadura militar brasileira.
️ Na EBC, a forma que os jornalistas encontraram de furar a censura colocada na empresa – hoje impedida de se referir ao período como “ditadura militar” – foi publicar os conteúdos de quando ela era pública, pertencente à sociedade, não dirigida por militares. Abaixo, você confere uma lista com esses materiais produzidos pelos jornalistas da casa. Escolha suas preferidas e revisite a história nos termos em que ela deve ser revisitada: como ditadura militar. Para que nunca esqueçamos. Para que nunca se repita.
1) Cronologia do Golpe Militar de 1964 http://www.ebc.com.br/cronologia-do-golpe
2) Vlado: resistir é preciso http://www.ebc.com.br/vlado-resistir-e-preciso
3) Brasil, 1964. Os militares derrubam o presidente João Goulart e assumem o poder https://www.youtube.com/watch?v=ey-Wamp9M8A
4) Caminhos da Reportagem: o que sabem os jovens brasileiros sobre a ditadura militar do país? https://www.youtube.com/watch?v=63zK6DR5QBE
5) Caminhos da Reportagem: Comissão Nacional da Verdade – os crimes da ditadura https://www.youtube.com/watch?v=YgG5lN6KVvA
6) Caminhos da Reportagem: como foi o racismo durante a ditadura https://www.youtube.com/watch?v=UHCQpM2IK14&feature=emb_title
7) Especial traz seleção musical de ex-presos políticos da ditadura http://radioagencianacional.ebc.com.br/direitos-humanos/audio/2014-03/especial-traz-selecao-musical-de-ex-presos-politicos-na-ditadura
8) Máira Heinen fala sobre matéria ganhadora do Prêmio Vladimir Herzog https://www.youtube.com/watch?v=KYU57B-Tf0Y
9) Reportagem da Rádio Nacional da Amazônia ganha prêmio nacional de jornalismo http://memoria.ebc.com.br/radioagencianacional/materia/2012-10-11/reportagem-da-r%C3%A1dio-nacional-da-amaz%C3%B4nia-ganha-pr%C3%AAmio
10) Repórter da Rádio Nacional da Amazônia fala sobre conquista http://www.ebc.com.br/noticias/politica/galeria/audios/2012/10/reporter-da-radio-nacional-da-amazonia-fala-sobre-conquista
11) Ato em Salvador protesta contra impeachment com música e gritos de ordem https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2016-03/ato-em-salvador-protesta-contra-impeachment-com-musica-e-gritos-de-ordem
12) Integrantes das Mães da Praça de Maio é homenageada na universidade https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-07/integrante-das-maes-da-praca-de-maio-e-homenageada-em-universidade
13) Especial resgata histórias de centro clandestino de tortura na ditadura militar http://radioagencianacional.ebc.com.br/direitos-humanos/audio/2014-09/especial-resgata-historias-de-centro-clandestino-de-tortura-na
14) Sobreviventes apontam Major Curió como principal torturador em Marabá http://radioagencianacional.ebc.com.br/direitos-humanos/audio/2014-09/sobreviventes-apontam-major-curio-como-principal-torturador-em-maraba
15) Vítimas da ditadura eram obrigadas a ajudar militares em Marabá http://radioagencianacional.ebc.com.br/direitos-humanos/audio/2014-09/vitimas-da-ditadura-eram-obrigadas-ajudar-militares-em-maraba
16) TV Brasil: como a censura afetou o teatro durante a ditadura militar https://youtu.be/-ANFOwLUu_s
17) TV Brasil: censura do cinema durante a ditadura militar https://youtu.be/KuNw2BkjUU4
18) TV Brasil: como a censura afetou a produção musical durante a ditadura militar https://youtu.be/LPmHHH1rBh4
19) Série da TV Brasil: Semana do Proibido: último episódio https://youtu.be/5rNMVpvQAvI
20) Poemas e receitas: os protestos da imprensa contra a censura https://youtu.be/te1jTluBFvs
21) História hoje: há 48 anos campus da UnB era invadido por militares da ditadura http://radioagencianacional.ebc.com.br/geral/audio/2016-08/historia-hoje-ha-48-anos-campus-da-unb-era-invadido-por-militares-da-ditadura
22) História hoje: frei Tito foi preso político e lutou pelos direitos humanos http://radioagencianacional.ebc.com.br/geral/audio/2016-09/historia-hoje-frei-tito-foi-preso-politico-e-lutou-pelos-direito-humanos
23) História hoje: conheça a trajetória de Carlos Marighella no combate a ditadura http://radioagencianacional.ebc.com.br/politica/audio/2016-11/historia-hoje-conheca-trajetoria-de-carlos-marighella-no-combate-ditadura
24) História hoje: mortes de Edson Luis há 50 anos ficou marcada como dia nacional de luta dos estudantes http://radioagencianacional.ebc.com.br/direitos-humanos/audio/2018-03/historia-hoje-morte-de-edson-luis-ha-50-anos-ficou-marcada-como-dia
25) Comissão de Anistia pede desculpas a professores vítimas da ditadura http://radioagencianacional.ebc.com.br/geral/audio/2015-10/comissao-de-anistia-pede-desculpas-professores-vitimas-na-ditadura
26) Comissão Estadual da Verdade apresenta provas do assassinato de Rubens Paiva https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2014-02/comissao-estadual-da-verdade-apresenta-provas-do-assassinato-de
27) Debate discute resquícios da ditadura no Brasil https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-03/debate-discute-resquicios-da-ditadura-no-brasil-atual
28) Comissão da Verdade ouve agentes da repressão no Rio https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2014-07/comissao-da-verdade-ouve-agentes-da-repressao-no-rio
29) Professor diz que Anísio Teixeira pode ter sido morto por torturadores https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-03/professor-diz-que-anisio-teixeira-pode-ter-sido-morto-por-torturadores
30) Filhos e netos de perseguidos políticos debatem violência do regime militar https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2014-12/filhos-e-netos-de-perseguidos-politicos-debatem-violencia-do-regime
31) Documentos liberados provam que EUA sabiam de torturas durante ditadura militar https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2015-07/documentos-liberados-provam-que-eua-sabiam-de-torturas-durante
32) Serie: Operação Condor – https://tvbrasil.ebc.com.br/tags/serie-operacao-condor
33) Serie: Operação Condor – ep. 01 https://www.youtube.com/watch?v=IZRsz2xgtOQ
34) MPF reabre investigações sobre assassinato de Vladimir Herzog https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2018-07/mpf-reabre-investigacoes-sobre-assassinato-de-vladimir-herzog
35) MPF denuncia seis pela morte do jornalista Vladimir Herzog https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2020-03/mpf-denuncia-seis-pela-morte-do-jornalista-vladimir-herzog
36) Geisel autorizou execuções de opositores durante ditadura, diz CIA https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-05/geisel-autorizou-execucoes-de-opositores-durante-ditadura-diz-cia
37) País ainda não “passou a limpo” período da ditadura, diz procuradora https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2018-05/pais-ainda-nao-passou-limpo-periodo-da-ditadura-diz-procuradora
38) Especial Memórias Reveladas – Projeto do Arquivo Nacional amplia o acesso aos documentos da ditadura nas comemorações dos 30 anos da anistia http://memoria.ebc.com.br/radioagencianacional/materia/2009-09-06/especial-mem%C3%B3rias-reveladas-%E2%80%93-projeto-do-arquivo-nacional-amplia-o-acesso-aos-doc
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28

Mar

20

Crônicas na quarentena: dia 11

Décimo-primeiro dia da quarentena do coronavírus. Só agora começo este registro. Não sei se vai ser um diário. Talvez um devezenquandário, como tem sido a atualização deste blog há alguns anos desde que as redes sociais nos sequestraram. Os posts em blogs não voltados a propósitos comerciais se tornaram mensagens em garrafas jogadas ao mar. Talvez um dia os bilhetes sejam lidos numa praia distante, mas convém que o náufrago não coloque muitas expectativas, para evitar frustrações. Instalado em minha ilha deserta, escrevo durante a tempestade invisível da Covid-19, que no mundo inteiro já arrasta muitas embarcações para as profundezas. Em um mundo de tanta desigualdade social, os barquinhos de pesca e os veleiros são os mais vulneráveis, mas nem os transatlânticos estão seguros.

Esse início de confinamento foi de ajustes familiares à nova rotina. Como eu já trabalhava em casa há anos, pra mim foi mais fácil, mas a sensação de estar em prisão domiciliar é um tanto sufocante pra quem como eu, adora pedalar e caminhar. Continuamos dividindo os trabalhos domésticos, como sempre. Todos tentamos desenvolver projetos coletivos e individuais para vencer o tédio quando ele tenta se insinuar em nossos espíritos. Tenho estudado programação em Python pelo youtube, divulgado informações de relevância pública pelas redes e lido bastante. No momento estou concluindo o fantástico (literalmente) Murilo Rubião: obra completa e iniciando Manual prático de levitação, de José Eduardo Agualusa – nunca se sabe quando a habilidade de levitar vai ser necessária. Às vezes teclo com amigos e parentes ou fazemos conversas em vídeo.

Começamos uma pequena horta. A cada dia avançamos um pouco. Pela minha janela, enquanto escrevo, vejo duas bananeiras com cachos quase no ponto da colheita. No quintal, ao lado da rede, todos os dias um beija-flor vem fazer sua refeição nas lanternas-japonesas. Ultimamente também temos recebido visitas esporádicas de um sagui adolescente que adora goiabas e não demonstra muito medo dos humanos. As bromélias têm crescido bastante e o limoeiro promete uma safra generosa pra breve. Descrever o ambiente da nossa micro-floresta chega a soar quase uma ostentação agora. Impossível não pensar em como somos privilegiados por dispor de terra pra pisar com os pés descalços, árvores frutíferas, espaço pra se recolher em silêncio. O confinamento pra quem mora numa favela, cortiço ou apartamento minúsculo deve estar sendo de grande sofrimento.

O mundo nunca mais vai ser como antes. Novas formas de organização social e de poder estão brotando como resultado da epidemia, com consequências que nem mesmo com bola de cristal é possível prever. O discurso liberal se tornou repentinamente anacrônico diante da necessidade imperiosa de que os Estados injetem enormes recursos para salvar a economia da bancarrota. A violência e o caos podem estar na esquina, espreitando. Da capacidade de as sociedades e os indivíduos se reinventarem vai depender tanto a sobrevivência individual quanto coletiva. A solidariedade, a cooperação e a colaboração ressurgem como necessidades vitais. Trabalho remoto e ensino a distância vão ganhar força. O mito do desenvolvimentismo, do crescimento a qualquer custo, também deve sofrer um forte abalo. A cabeça roda nas noites de insônia, tentando adivinhar de onde virá o trabalho como autônomo nesse cenário de incertezas. Muitas perguntas sem resposta. Os dois cachorros e a gata ignoram solenemente a pandemia. Seguimos e resistimos.

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25

Jan

20

Adeus, irmão

camillo_armacaoEm família de jornalistas, quando um irmão dobra a esquina, o que fica precisa enxugar as lágrimas e dar a notícia. O repórter caçula foi embora, sobrou pra mim. Nosso querido Camillo Veras morreu hoje, pouco antes das 8h da manhã, no Hospital São Carlos em Fortaleza, por complicações resultantes de um AVC que teve no início de dezembro. Ele tinha 47 anos e lidava há tempo com as sequelas da radioterapia em um tumor na base da hipófise, que foi lhe prejudicando aos poucos a audição, visão e equilíbrio. Mas nunca perdeu o humor, a inteligência rápida, a generosidade e a coragem com que encarava as limitações.

Se ele pudesse me dar agora umas aspas pra colocar neste texto, diria que a morte é parte natural da vida, “é dobrar uma esquina”. E ia tentar nos alegrar com seu enorme repertório de piadas e causos. Camillo foi uma das pessoas mais incríveis, bondosas, engraçadas e tolerantes que já conheci. Para a nossa irmã Lubelia Freire, ele disse recentemente: “Eu não tenho inimigos e se vier a ter vai ser só de uma mão, de lá pra cá, porque daqui pra lá nunca…”

Deixa a companheira Aline Paiva, a quem abraço com carinho e admiração; os irmãos Lubélia, Leonardo Camillo, Dauro, André, Janara e Cristiane; a rede preferida, Estefânia; e uma legião de amigos e admiradores. Sua ex-companheira e amiga eterna Regina Luna – mãe da filha deles Bruninha, que partiu antes – nos lembra que o Camillo pediu aos amigos pra gritarem: “Companheiro, Camillo! Presente, agora e sempre!” A despedida (velório é um nome horrível, né? Outra coisa que ele diria) vai ser no Jardim Metropolitano a partir das 16h de hoje, e a cremação às 16h de amanhã.

Camillo amava viajar. O AVC o pegou no dia 12 de dezembro, em São Paulo, dois dias depois de nos encontrarmos. Ele estava a caminho de Montevidéu e Buenos Aires e na volta passaria aqui por Floripa. Há poucos dias ele mandou um recado pra mim e pro Leo: nos intimava a fazer juntos uma viagem de carro. Vamos ter que mudar os planos, maninho, mas você vai sempre nos acompanhar.

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30

Dec

19

DVeras Awards 2019: livros

Lucia Berlin, 1962. Foto: Buddy Berlin.

Lucia Berlin, 1962. Foto: Buddy Berlin.

Em sua 13a. edição, o DVeras Awards elege os três melhores livros de ficção ou não-ficção que li por prazer entre janeiro e dezembro de 2019. Breve explicação de praxe sobre as regras deste concurso hedonista: ficam de fora obras técnicas e de referência, as lidas por motivo profissional e as não concluídas até 31 de dezembro. García Márquez, Vargas Llosa e Rubem Braga são hors-concours. A comissão julgadora sou eu mesmo.
A lista de 2019 traz autores dos Estados Unidos, Brasil, Reino Unido, Itália, Colômbia, Peru, China e Argentina. Dos 17 livros relacionados, quatro foram escritos por mulheres. Em 2020, quero continuar buscando mais olhares femininos na literatura e ampliar a abrangência geográfica-temática. Agradeço a todas as pessoas que me deram sugestões e me permitiram criar conexões com elas através das letras.
  • Comecei o ano com o lindo Manual da faxineira: contos escolhidos, de Lucia Berlin (1936-2004). As histórias dessa coletânea, todas de inspiração autobiográfica, apresentam a vida movimentada de uma criança solitária nascida no Alasca e criada no Novo México, adolescente de elite no Chile, boêmia hipster em Nova York, enfermeira em Oakland nos 70 e, no final da vida, professora universitária. Foi também faxineira e professora de crianças, casou três vezes, teve quatro filhos, um caso apaixonado com um rapaz de 17 anos, amigo de um deles, e passou anos enfrentando o alcoolismo. Ela tinha o que contar e sabia como fazer.
  • Em seguida li Rio em Shamas, de Anderson França, talentoso escritor, roteirista, professor e ativista de direitos humanos nascido na zona norte do Rio de Janeiro. Ele escreve crônicas de humor ácido sobre o cotidiano de pretos e pobres da periferia, muitas vezes abordando a violência policial. Dinho, como é conhecido pelos amigos, tornou-se mais um brasileiro auto-exilado do século 21: por causa de seus escritos contundentes, foi ameaçado de morte e teve que deixar o país.
  • A invenção da natureza, da historiadora britânica Andrea Wulf, é uma biografia do extraordinário gênio alemão Alexander von Humboldt, precursor da ecologia e o primeiro a organizar evidências em torno do conceito de gaia, o planeta feito de interconexões entre todos os seres vivos. Belo livro, com passagens bacanas do encontro dele com personagens históricos como Simon Bolívar e Thomas Jefferson, sem falar nas expedições pelas montanhas do Equador, florestas colombianas e estepes russas.
  • Simpatia pelo demônio, de Bernardo Carvalho, relata a manipulação de sentimentos em uma relação homossexual abusiva entre dois intelectuais, numa história que vai e vem entre Berlim, Nova Iorque, Rio de Janeiro e Oriente Médio. Tecnicamente bem escrito, mas confesso que achei tedioso.
  • Hacks mentais: 70 hacks para produtividade, hábitos e relacionamentos, de Luiz Felipe Araújo. Curioso, mas superficial. Leitura rápida para sala de espera de médico e fila de banco.
  • Passei alguns meses fazendo uma releitura deliciosa em doses homeopáticas: Coisas simples do cotidiano, coletânea de crônicas de Rubem Braga. Mestre.
  • Em abril li A realidade não é o que parece, de Carlo Rovelli. O livro me abriu as portas pela primeira vez à gravidade quântica de maneira que quase consegui entender. Trecho da apresentação:  “O espaço e o tempo realmente existem? De que é feita a realidade? De onde vem a matéria? O cientista Carlo Rovelli passou a vida inteira investigando essas questões, tentando ampliar os limites do que sabemos. … Ele revela como nossa compreensão da realidade mudou ao longo dos séculos, de Demócrito à gravidade quântica em loop. Rovelli nos guia por uma jornada maravilhosa e nos convida a imaginar um mundo completamente novo onde os buracos negros estão esperando para explodir, o espaço-tempo é feito de grãos e o infinito não existe – um vasto universo amplamente desconhecido”.
  • Com armas sonolentas, de Carola Saavedra, conta sobre três mulheres que têm as vidas interligadas. A história passeia entre a Alemanha e o Brasil, com toques de realismo fantástico. Não é ruim, mas não conseguiu me fazer embarcar na vida das personagens.
  • A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada é um maravilhoso volume de contos fantásticos de Gabriel García Márquez que conheci só agora. O que dá nome ao livro trata de uma adolescente explorada sexualmente pela avó como prostituta itinerante. Os contos se passam no deserto colombiano e aldeias caribenhas de pescadores onde o cheiro de rosas invade as casas e vestígios de naufrágios interagem com os moradores. Impressionante.
  • Nossas noites, de Kent Haruf, relata a amizade de um casal de velhos vizinhos que resolvem começar a dormir juntos para enfrentar a solidão. Bem bonito.
  • La tía Julia y el escribidor, de Mario Vargas Llosa, conta das peripécias de uma aventura amorosa vivida em Lima pelo narrador aos 18 anos de idade com uma tia divorciada, recém-chegada da Bolívia. Divertido e muito bem contado. Como pano de fundo, acompanhamos o cotidiano de uma estação de rádio e algumas radionovelas, narradas de forma simultânea à ação principal. Leitura em espanhol.
  • A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, deu origem ao filme que representa o Brasil no Oscar 2020. História sensível e intensa sobre o cotidiano feminino num bairro periférico do Rio na década de 1950, que só poderia ter sido escrita por uma mulher. Recomendo.
  • A cidade ilhada, Milton Hatoum. Releitura de contos de um dos melhores escritores brasileiros, com personagens do universo amazônico onde ele viveu parte de sua juventude.
  • Mudança, de Mo Yan, foi uma surpresa agradável vinda da China. É um divertido livro de memórias focado nas mudanças ocorridas no país asiático durante a segunda metade do século 20.
  • The Music of Chance, de Paul Auster, conta da amizade entre dois homens bem diferentes que se conhecem na estrada, entram numa aposta de cartas com dois milionários e, por conta de uma dívida, precisam enfrentar juntos um período de servidão. Não é o meu favorito, mas como todos os livros de Auster, muito bem escrito. Leitura em inglês.
  • A uruguaia, de Pedro Mairal, foi outra agradável surpresa vinda da nova geração de escritores argentinos. O protagonista é um homem que está preso a um casamento infeliz e relata, com linguagem fluida e bem humorada, sobre sua paixão avassaladora por Guerra, uma mulher atraente que ele conhece numa viagem a Montevidéu.
  • Freakonomics, de Steven D. Levitt. Abordagem criativa da economia a partir de perguntas inusitadas. Gostei.
E o DVeras Awards 2019 vai para os seguintes livros:
  • Bronze: A uruguaia, de Pedro Mairal, pelo frescor, bom humor e vitalidade da narrativa. Quero ler mais coisas dele.
  • Prata: A invenção da natureza, de Andrea Wulf. Biografia impecável sobre um personagem interessante e um tema de extrema relevância pra sobrevivência humana no planeta.
  • Ouro: Manual da faxineira, de Lucia Berlin. Em janeiro, logo que terminei a leitura, comentei:  ”Seu estilo compassivo, engraçado, agridoce e direto ao leitor não deixa nada a dever a mestres da narrativa curta como John Fante, Raymond Carver, Paul Auster, Alice Munro, Rubem Braga”. Ela sabia escrever com emoção e, ao mesmo tempo, com uma técnica apurada sobre personagens marcantes em situações cotidianas. Para mim foi a descoberta do ano, uma preciosidade.
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22

Nov

19

Amazônia Minada

Jornalismo de dados e programação, associados às boas e velhas técnicas de reportagem, a serviço da proteção da Amazônia contra os saqueadores. Por Hyury Potter:

“Caros, hoje [21/11] lançamos o mapa #AmazoniaMinada, projeto apoiado pelo International Center for Journalists que cruza dados da ANM e do ICMBio para encontrar registros minerários dentro de unidades de conservação de proteção integral da Amazônia, algo que é proibido por lei. O mapa atualiza diariamente os dados e está hospedado no site InfoAmazonia.

# Matéria InfoAmazonia: https://bit.ly/3391NY9
# Mapa Amazônia Minada: https://bit.ly/2O828pJ

Sempre que um novo requerimento minerário dentro de UC aparecer, os dados da empresa responsável, minério e área afetada são tuitados automaticamente no perfil @amazonia_minada.  Sigam lá!

Nada disso seria possível sem a trabalheira que o Rodrigo Brabo (desenvolvedor) e a Juliana Mori (visualização de dados em mapas) tiveram nos últimos três meses. Contamos ainda com o apoio e revisão do Gustavo Faleiros (co-fundador do InfoAmazonia) e com a mentoria da Amara Aguilar pelo ICFJ.

Como estamos perto da Black Friday, ainda tem mais! Matéria publicada hoje no The Intercept Brasil, feita a partir da base de dados do #AmazoniaMinada, mostra quais são as empresas que estão de olho na mineração em áreas de proteção. A matéria contou com edição ponta firme da Paula Bianchi e de grande elenco do TIB.

# Matéria no Intercept: https://bit.ly/2QCIxja

É isso. Leiam, compartilhem, deem RT, curtam, mandem um joinha… Tá valendo tudo. Beijão! ”

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18

Nov

19

Eu tenho preconceito

Uma croniquinha que publiquei no Facebook em 2 de setembro de 2018.

~

O papo no almoço de domingo foi sobre preconceito, uma coisa que as pessoas só costumam enxergar nos outros, nunca em si mesmas. Não é o meu caso. Poderia fazer uma lista exaustiva dos meus, mas vou só resumir. Se você vestir a carapuça de algum dos que vou citar agora, não se apoquente nem reforce meus preconceitos deixando comentário desaforado. Desde já admito que a culpa é minha. Sou só um humilde aprendiz em busca de evolução espiritual nestes tempos tenebrosos de aversão à diversidade.

Pra começar, tenho preconceito contra quem tenta me vender qualquer produto ou serviço não solicitado. Isso inclui operadores de telemarketing, políticos em campanha, gerentes de banco, escritores de autoajuda, assessores de imprensa que mandam e-mail com meu endereço no campo de /cco, anúncios personalizados, testemunhas de jeová, hare khrisnas, carismáticos e evangelizadores de qualquer denominação. Abro poucas exceções: indígenas vendendo artesanato, crianças pedindo gostosuras no ralouin, mendigos pedindo um troco pra tomar cachaça. Dia desses comprei dois abacates de um casal que tocou a campainha de casa. A história deles muda a cada vez, mas são simpáticos e adoro abacate.

Tenho preconceito contra perfis de casal nas redes sociais – a gente nunca sabe com quem está falando nem a quem dar os parabéns no aniversário. Tenho um tiquinho de preconceito contra casais que vivem dizendo como seu amor é lindo – são os que mais se divorciam, mas a insegurança que revelam é tão comovente que merecem perdão. Não é o caso dos comentaristas de portal, racinha abominável. Tenho preconceito com fotos de viagens a Paris (inveja pura). No Instagram, com quem vive postando selfie ou foto de comida. Exceção pra modelos (sigo vári@s) e conhecedores da boa mesa. Também sou preconceituoso com fotos ruins de pôr do sol e lua cheia, horizontes desnivelados, rótulos de cerveja artesanal. Mas adoro vídeos de gatinho, vá entender.

Admito: muitas vezes sou intolerante. Tenho preconceito com quem vota em fascista, fiscaliza o cu dos outros, diz “o” direitos humanos como se fosse pessoa, exige ser chamado de doutor, posa de machão, exibe arma, abusa do marketing pessoal, faz piada humilhante com deficiente, caga regra à direita ou à esquerda. Com quem, sendo escolarizado, escreve “menas”, “a muito tempo”, “haviam muitas coisas”. Com colonizados que amam jargão em inglês. Meu estômago se revira quando leio “deixa eu desenhar”, “vá estudar história”, “vá pra Cuba”, “narrativa do golpe”. Tenho os dois pés atrás com aperto de mão molenga ou forte demais, com quem só tecla usando emoji, com quem fala “tá ligado?” cem vezes por dia, com motorista que não dá seta e fecha cruzamento.

Eu olho atravessado pra quem me trata bem, mas humilha o garçom; pra frases no imperativo, publicidade infantil, hamburgueria gourmet, terraplanistas e criacionistas; pra abusadores da fé alheia, sabichões do twitter, picaretas do empreendedorismo, arautos do livre mercado que sugam os serviços públicos; pra imitadores baratos de Bukowski, bêbados e abstêmios inconvenientes, gente que vem me falar mal de meus amigos como se me fizesse um favor. Tenho preconceito com vampiros emocionais, com quem só tem certezas e, confesso, um enorme preconceito com quem não ri de si próprio. Paro a lista por aqui, porque talvez alguém ache que fui longe demais e tenho preconceito com quem não gosta de textão. Prometo que vou tentar melhorar, tá?

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