30

Apr

15

O pit-bull e a educação

Acabo de presenciar aqui no quintal uma cena de ataque de três cachorros a uma ave nativa. Fico devendo o nome: é marrom e parece uma galinha, mas voa.* Essa, por algum motivo, não voou a tempo. Salvei a bichinha viva e assustada da boca da Tutu e coloquei ela numa forquilha de árvore pra descansar. Fui fazer outras coisas e, quando conferi, nada na árvore, só penas espalhadas no chão. Lá no fundo do terreno, Tutu comia o almoço de hoje.

Pouco antes vi o vídeo do cinegrafista da Band atacado por um pit-bull durante o massacre da PM aos professores. Quem ama e conhece os cachorros sabe que o instinto de lobo tá sempre em algum lugar neles. No Tom, é próximo a zero, ele é um urso brincalhão. A Tutu já é mais bicho do mato, desconfiada, daquelas que dormem nas moitas. Fez o que instinto mandou.

Quem coloca um pit-bull treinado pro ataque numa manifestação democrática sabe o risco que corre de ferir ou matar. É uma escolha deliberada, consciente. Quem dá a ordem tem responsabilidade maior. Se a justiça for feita, devem pagar, com as penas agravadas pela covardia.

* p.s.: Aracuã.

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09

Apr

15

Um modelo de precisão milimétrica

 

Claudio Grando e Ricardo Cunha, fundadores da Audaces. Foto: André Vanzin

Claudio Grando e Ricardo Cunha, fundadores da Audaces. Foto: André Vanzin

Um perfil de Claudio Grando e Ricardo Cunha, fundadores da Audaces, que publiquei no Valor de 30 de março. Versão em pdf

Em maio de 1992, dois estudantes universitários caminhavam descalços pela praia de Garopaba, depois de almoçarem camarão com cerveja num restaurante à beira-mar. Eles faziam uma pausa na viagem de volta a Florianópolis, depois de uma bem sucedida reunião ocorrida numa fábrica de móveis no litoral sul do estado. Claudio Grando e Ricardo Cunha comemoravam a conquista do primeiro cliente para uma solução tecnológica desenvolvida por eles em um laboratório da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Com a água do mar molhando seus pés, decidiram abrir uma empresa.

Assim nascia a Audaces, hoje uma referência global em tecnologia de ponta no segmento de moda, com 8,5 mil clientes em 70 países. “Nosso primeiro produto foi um sistema para planejamento de corte de chapas de madeira, resultado do trabalho de conclusão de curso”, conta Ricardo Cunha, diretor de pesquisa e um dos sócios majoritários da multinacional catarinense. Dois motivos os incentivaram a montar o próprio negócio: “Vimos que muitas soluções criadas na universidade não chegavam à indústria, e também queríamos trabalhar num lugar legal, com gente legal”. (…)

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08

Apr

15

Casais russos dormindo e esperando

Lindo projeto documental da fotógrafa Jana Romanova, de São Petersburgo. Casais russos grávidos dormindo.

Casal russo grávido dormindo. Foto de Jana Romanova

 

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29

Mar

15

O saldo de dez anos da “Guerra ao Terror”

A ong Physicians for Social Responsibility (PSR), prêmio Nobel da Paz em 1985, divulgou relatório com uma nova estimativa do número de mortos em dez anos de “Guerra ao Terror” promovida pelos Estados Unidos e aliados: em torno de 1 milhão de pessoas no Iraque, 220 mil no Afeganistão e 80 mil no Paquistão, somando cerca de 1,3 milhão. O número é dez vezes maior que o divulgado pela mídia e pelas principais ongs. Eles acrescentam que essa é uma estimativa conservadora: “O número total de mortos nos três países pode superar os 2 milhões, e um número inferior a 1 milhão é bastante improvável”.
~ PDF, 101 páginas. Via Glenn Greenwald e Sônia Bridi

 

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22

Mar

15

O valor estratégico da pegada hídrica

Reportagem que publiquei no Valor Econômico em 20 de março:

Arjen Hoekstra. Foto de Danielle Spoelman

Arjen Hoekstra. Foto de Danielle Spoelman

O total de água incorporada aos produtos que saem pelos portos brasileiros chega a 112 trilhões de litros anuais, equivalentes a 45 milhões de piscinas olímpicas, segundo estudo da Unesco. Esse volume coloca o Brasil em quarto lugar no ranking de exportadores brutos do recurso, atrás dos Estados Unidos, China e Índia.

Embora ainda não seja contabilizada nas trocas comerciais, a água virtual tende a ganhar valor estratégico em um cenário mundial de escassez hídrica. Isso abre oportunidades para o protagonismo do Brasil, que dispõe do recurso em abundância, mas precisa avançar na sua conservação.

Um instrumento de pesquisa relevante na área é a “pegada hídrica” (“water footprint”, em inglês), criada em 2002 pelo pesquisador Arjen Hoekstra, da Universidade de Twente, Holanda, para calcular o uso direto e indireto da água, tanto por produtores quanto por consumidores na cadeia produtiva. A pegada hídrica média do consumidor brasileiro é de 5.550 litros por dia, uma vez e meia superior à média global, principalmente por causa do grande consumo de carne. (…)

Leia mais: reportagem | entrevista com Arjen Hoekstra

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15

Mar

15

Marcelo Rubens Paiva, no sábado…

…sobre as manifestações do dia 13 e do dia 15:

 

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15

Mar

15

Anotações de leitura: cuspe bom

“Comida gostosa, apimentada, temperos fortes. Para a saúde, vai ver não fosse bom, era reimoso; mas a mulher se ria, perto dela não se podia pensar em coisas mofinas. Achava fio de cabelo dela, não tinha repugnância, não se importava. – ‘Bem: eu cuspisse dentro da sopa, você tinha escrúpulo de tomar? Você gosta de mim de todo jeito?’ Asco nenhum. O cuspe dela, no beijar, tinha pepego, regosto bom, meio salobro, cheiro de focinho de bezerro, de horta, cheiro como cresce redonda a erva-cidreira”.

~ Guimarães Rosa. Dão-Lalalão (O Devente), em Noites do Sertão.

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03

Mar

15

Cooperação Brasil-Cuba-Haiti

Bruna Canever (da UFSC, ao centro) com estudantes haitianos. Acervo do projeto

Bruna Canever (da UFSC, ao centro) com estudantes haitianos. Acervo do projeto

Um acordo de cooperação técnica entre Brasil, Cuba e Haiti está possibilitando a formação de profissionais haitianos para atuar na atenção primária à saúde neste país caribenho, o mais pobre das Américas, que foi devastado por um forte terremoto em 12 de janeiro de 2010. Em quatro anos de atividades, já foram titulados mais de 1.300 agentes de saúde comunitários, auxiliares de enfermagem, inspetores sanitários e agentes de saúde ambiental.

Da parte brasileira, a gestão é realizada pelo Ministério da Saúde, em parceria o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e com três instituições de ensino e pesquisa: a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O acordo tripartite deu continuidade à atuação solidária do Brasil com o Haiti nas áreas de segurança e reconstrução da infraestrutura, iniciada logo após o desastre sísmico.

Coube à UFSC, com apoio administrativo da Fapeu, assumir a qualificação dos recursos humanos de nível médio na área da saúde. O Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da instituição já tem um histórico de parcerias bem sucedidas com o governo federal nessa área. A UFRGS contribuiu com a organização da rede de serviços e a Fiocruz, com a atuação nos campos de epidemiologia, imunização, comunicação e informação. Em torno de R$ 5 milhões foram investidos na formação desses profissionais.

SUS é referência

Visita de delegação haitiana ao Hospital Universitário da UFSC. À direita, a coordenadora do projeto, Flávia Ramos.

Visita de delegação haitiana ao Hospital Universitário da UFSC. À dir., gestora do projeto, Flávia Ramos. Foto: Soninha Vill.

“Estamos implantando um modelo inspirado na estratégia de saúde da família no Brasil”, diz a gestora operacional do projeto e coordenadora do Departamento de Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC, Flávia Regina Ramos. Essa estratégia, adotada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), enfatiza a atenção à família no local onde ela vive, valorizando as ações de promoção e proteção da saúde, a prevenção de doenças e a atenção integral às pessoas. Ela se contrapõe ao modelo tradicional e ineficiente, focado na supervalorização da assistência curativa, especializada e hospitalar.

Flávia destaca que a tônica da ação brasileira sempre foi desenvolver um projeto estruturante, isto é, evitar ações paliativas como as que foram realizadas pontualmente por diversos países após o terremoto de 2010. O objetivo é trabalhar junto com as autoridades haitianas e os médicos cubanos para desenvolver competências locais que ajudem a restaurar o sistema de saúde do país caribenho. “Isso significa fazer junto”, afirma. Cuba tem participação fundamental na parceria, pois atua há muitos anos no Haiti, onde mantém hospitais e profissionais de saúde experientes.

Em maio de 2014, o Brasil inaugurou uma rede hospitalar no entorno de Porto Príncipe, a capital do país. Com investimento de R$ 25 milhões, ela é composta pelo Hospital Comunitário de Bon Repos, pelo Instituto Haitiano de Reabilitação e pelo Laboratório de Órteses e Próteses. Outros dois hospitais comunitários de referência estão em construção. Somados, eles podem atender 300 mil pacientes, um apoio significativo para o país de 10 milhões de habitantes, que tem o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do continente.

Bolsa de estudos

Durante o curso, os alunos recebem do governo brasileiro uma bolsa de estudos para que tenham condições de alimentação e transporte e possam se dedicar integralmente à formação. Quando eles se titulam, continuam recebendo a bolsa por seis a 12 meses, para que tenham tempo de ser inseridos profissionalmente na rede pública. “A formação é feita por haitianos, que são capacitados, supervisionados e acompanhados por brasileiros”, explica Flávia.

“A ajuda técnica e financeira do Brasil tem sido fundamental”, disse a enfermeira Guerline Bayas, especializada em saúde comunitária e diretora de uma escola técnica em Porto Príncipe. Em outubro de 2014, ela esteve em Brasília com outros dois profissionais de saúde haitianos para participar de um seminário internacional de avaliação dos quatro anos de atividades do projeto. Os resultados superam as expectativas. Em seguida, o grupo visitou uma escola técnica em Blumenau e o Hospital Universitário da UFSC em Florianópolis.

“Esperamos renovar o convênio, pois o Haiti sozinho não tem condições de construir a estrutura necessária”, afirmou, acrescentando que a meta é formar pelo menos 10 mil profissionais de saúde para oferecer cobertura em todo o país. (…)

Publiquei esta reportagem na Revista da Fapeu 2014. Leia aqui a íntegra em pdf.

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01

Mar

15

Impressões sobre Birdman

birdman

Vi Birdman ontem. Tecnicamente bem realizado, repleto de metalinguagem, referências e homenagens, roteiro bem escrito, excelentes atuações, Edward Norton e a diva Naomi Watts roubando a cena. Com tudo isso, não conquistou meu coração cinéfilo. A impressão que me deu foi a de uma overdose de recursos pra impressionar, como aqueles gifs animados dos primeiros tempos da web. O plano-sequência, interessante até os 15 minutos, começou a me cansar depois de meia hora e já tava insuportável perto do final.

Birdman não é propriamente um filme “ruim”. Tem cenas excelentes (como a do baterista, p.ex., uma autorreferência à trilha que constrói o clima, e a da briga-diálogo entre os personagens de Keaton e Norton). Mas tá mais pra lição de anatomia cinematográfica que espetáculo encantador. Bom filme pra estudar repertórios de possibilidades narrativas, mas também pra ensinar sobre os riscos de carregar nas tintas.

Peguei emprestada a foto desta ótima resenha do Zé Geraldo Couto no blog do IMS.

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25

Feb

15

Algumas impressões sobre Boyhood

Demorei um pouco pra comentar Boyhood porque estava esperando o filme “assentar” na cabeça. Vi faz uma semana e os flashes da história estão voltando de mansinho. Identificações, empatias, reconhecimento de sutilezas.

Boyhood foge dos cânones hollywoodianos de roteiro clássico. Coisas como clímax e anticlímax não têm importância alguma na história. Alguns acharam chato, eu gostei muito da sensação um tanto voyeurística de seguir a evolução dos personagens – não só o menino – numa trajetória cotidiana sem pirotecnias dramatúrgicas.

Momentos se somando ao longo dos dias e anos, fazendo sentido pelo seu conjunto de banalidades e solavancos da vida sem sentido – mas repleta de reflexões sobre isso mesmo, ao contrário de banalidades rasas e solavancos grosseiros do Big Brother.

A sensação de ser um outsider, de não se encaixar no esquema, é um tema recorrente nos filmes de Richard Linklater que acompanha o protagonista ao longo da história. Mas o menino-adolescente consegue, de um jeito ou outro, viver com isso. Me enxerguei nele.

A produção com os mesmos atores ao longo de 12 anos é muito adequada à história que o diretor contou. Carpintaria narrativa sofisticadíssima em um filme aparentemente despretensioso. Boyhood vai ser lembrado por muito tempo. Por mim, pelo menos.

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