14

Feb

19

O Brasil que pedala

O Brasil que pedala: a cultura da bicicleta nas cidades pequenas

Recebi da Aliança Bike este livro delicioso organizado pelos pesquisadores e cicloativistas André Soares e Daniel Guth. A equipe de autores aborda a cultura da mobilidade urbana no Brasil a partir do cotidiano de 11 cidades pequenas: Afuá (PA), Antonina (PR), Cáceres (MT), Gurupi (TO), Ilha Solteira (SP), Mambaí (GO), Pedro Leopoldo (MG), Pomerode (SC), São Fidélis (RJ), Tamandaré (PE) e Tarauacá (AC). Já estou na metade da leitura e encantado com o resultado.

“O Brasil que pedala” (ed. Jaguatirica, 2018) combina rigor metodológico e bons infográficos com crônicas sobre um Brasil profundo que se move em outro ritmo. Um país que às vezes até esquecemos que existe e resiste. O uso da bicicleta nas cidades com até 100 mil habitantes tem muito a ensinar sobre planejamento urbano nos grandes centros. Parabéns à Aliança Bike, Bicicleta para Todos, União dos Ciclistas do Brasil, Bike Anjo e a todas as organizações locais de ciclistas que viabilizaram a obra.

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19

Jan

19

Manual da faxineira

luciaberlin

Comecei bem o ano de leituras com o Manual da Faxineira, extraordinário livro de contos sugerido pela Laura. Lucia Berlin (1936-2004) escrevia de um jeito compassivo, engraçado, agridoce e direto ao leitor, não deixando nada a dever a mestres da narrativa curta como John Fante, Raymond Carver, Paul Auster, Alice Munro, Rubem Braga.
As histórias dessa coletânea, todas de inspiração autobiográfica, apresentam a vida movimentada de uma criança solitária nascida no Alasca e criada no Novo México, adolescente de elite no Chile, boêmia hipster em Nova York, enfermeira em Oakland nos 70 e, no final da vida, professora universitária. Foi também faxineira e professora de crianças, casou três vezes, teve quatro filhos, um caso tórrido com um rapaz de 17 anos, amigo de um deles, e passou anos enfrentando o alcoolismo.
Seus personagens vêm e vão ao longo das histórias, apresentados por pontos de vista diferentes em várias situações cotidianas. Um recorrente é a irmã mais nova, que está com câncer terminal e com quem ela passa um tempo na Cidade do México. A maneira como ela descreve a personalidade do seu namorado adolescente se aplica muito bem ao tom das narrativas:
“Ele não era gentil. ‘Gentil’ é uma palavra como ‘caridade’; implica um esforço. Como aquela frase de para-choque de caminhão que fala de gestos aleatórios de gentileza. Gentil deveria ser o modo como uma pessoa é sempre, não um gesto que ela opta por fazer. Jesse tinha uma curiosidade compassiva em relação a todo mundo”.
Quando eu crescer, quero escrever como Lucia Berlin.

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31

Dec

18

DVeras Awards de Literatura 2018

bookMais uma vez você não pediu, mas aqui estamos com o DVeras Awards 2018 de Literatura. Este é um concurso hedonista: participam todos os livros que li sem nenhuma obrigação, só por prazer, entre janeiro e dezembro deste ano. Ficam de fora as obras técnicas e de referência, as lidas por motivos profissionais específicos e as não concluídas até 31 de dezembro. As decisões da comissão julgadora – eu mesmo – são irrecorríveis.

Este ano a seleção dos melhores foi dificílima pela alta qualidade dos competidores, nada menos que quatro prêmios Nobel – Mario Vargas Llosa (2010), Alice Munro (2013), Svetlana Alexievitch (2015) e Kazuo Ishiguro (2017), sem falar nos quase premiados Graham Greene e Haruki Murakami, e no genial Julio Cortázar, um gigante literário ignorado pela academia sueca (aliás, na boa companhia de Kafka, Ibsen, Joyce e Nabokov).

Os autores e autoras destes 27 livros são de 13 países: Suíça, Canadá, Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, Japão, Brasil, Noruega, Argentina, Cuba, Uruguai, Peru e Bielorrúsia. Em 2018 li menos do que gostaria, e poucas mulheres, mas pude conhecer nomes relevantes, como tinha me proposto. Aceito dicas para aumentar o repertório de visões literárias femininas. Os temas e formatos variaram. De reflexões filosóficas sobre a vida amorosa a narrativas sobre a ditadura brasileira, passando por autobiografias, romances policiais e históricos, jornalismo e contos. Veja a lista e, em seguida, conheça os três agraciados:

  1. The Course of Love, Alain de Botton
  2. Amiga de juventude, Alice Munro
  3. O poder do agora, Eckhart Tolle
  4. O ministério do medo, Graham Greene
  5. Tiros na noite, Dashiell Hammett
  6. Kafka à beira-mar, Haruki Murakami
  7. A noite da espera (o lugar mais sombrio), Milton Hatoum
  8. O fim do Terceiro Reich, Ian Kershaw
  9. Midnight Sun, Jo Nesbo
  10. O livro de Jô, volume 1, Jô Soares
  11. As armas secretas, Julio Cortázar (releitura)
  12. Não me abandone jamais, Kazuo Ishiguro
  13. Noturnos, Kazuo Ishiguro
  14. A brincadeira favorita, Leonard Cohen
  15. Hereges, Leonardo Padura
  16. Máscaras (Verão), Leonardo Padura
  17. A neblina do passado, Leonardo Padura
  18. Paisagem de outono, Leonardo Padura
  19. Uma janela em Copacabana, Luiz Alfredo Garcia-Roza
  20. A borra do café, Mario Benedetti
  21. A festa do bode, Mario Vargas Llosa
  22. Tudo que é belo, The Moth (org.)
  23. Vida querida, Alice Munro
  24. In The Country of Last Things, Paul Auster
  25. Invisível, Paul Auster
  26. O rio inferior, Paul Theroux
  27. Vozes de Chernobyl: a história oral do desastre, Svetlana Alexievitch

Todos os finalistas do DVeras Awards 2018 mereciam o prêmio máximo, por seus diferentes méritos. Mas escolhas precisavam ser feitas. O resultado:

Menção honrosa – Não me abandone jamais, Kazuo Ishiguro
Inquietante, distópico, perturbador, agridoce. Estritamente falando, daria para classificar como ficção científica, embora destoasse numa prateleira do gênero. A narrativa acompanha um grupo de colegas em um colégio interno no Reino Unido que aos poucos vão descobrindo o segredo por trás de suas origens e destinos. E mais não conto, pra não dar spoiler. A história virou um filme, que ainda não vi.

Bronze – Vozes de Chernobyl: a história oral do desastre, Svetlana Alexievitch

Relato jornalístico construído a partir de entrevistas com sobreviventes da tragédia nuclear de 1986, em que eles contam suas lembranças e sensações na primeira pessoa. Confesso que levei muito tempo pra terminar – a leitura tem forte carga emocional, o que às vezes me fazia “pedir” pausas. A autora é a única jornalista até hoje premiada com o Nobel. Esta obra tem grande valor histórico e merece ser mais conhecida.

Prata – Vida querida, Alice Munro

A escritora canadense mostra que domina como poucos as artes desse ofício dificílimo que é escrever contos: graça de contar, repertório, “timing”, poder de síntese. O encadeamento narrativo desperta empatia com os personagens (gente “comum”) e vai nos conduzindo com leveza até o desfecho. Que raramente é “extraordinário” como as fórmulas gastas de reversão de expectativas, mas traz algo parecido a uma pequena epifania. Bela escritora, quero conhecer melhor.

Ouro – A borra do café, Mario Benedetti

O que dizer sobre esse autor uruguaio de incrível talento e sensibilidade, morto em 2009? A borra do café reforçou minha impressão que ele é um dos grandes. Nesta novela, Benedetti revisita com nostalgia sua infância e adolescência na Montevidéu do início do século 20, pelos olhos do protagonista Claudio. Sua família, amigos do bairro, iniciação sexual, dilemas de trabalho e carreira. E uma misteriosa mulher que aparece em uma figueira e depois retorna outras vezes, sempre no mesmo horário, às 3 e 10. A história despretensiosa esconde um sofisticado recurso narrativo, uma tensão que vai ganhando velocidade e nos faz decolar até o desfecho inesperado. Taí um livro que eu gostaria de ter escrito!

Espero que vocês apreciem essas sugestões de leitura. Recomendo também Kafka à beira-mar, de Murakami (uma espécie de realismo fantástico japonês), A festa do bode, de Vargas Llosa (relato romanceado do último dia de vida do ditador dominicano Trujillo, baseado em muita pesquisa histórica), e O poder do agora, de Eckart Tolle (traz tantos insights bacanas que seria injusto desprezar apressadamente como “auto-ajuda”). Ah, um senão: achei O ministério do medo bem fraco, Graham Greene tem outros melhores.

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28

Sep

18

Sepultura de palavras

Capa do livro Sepultura de palavras dos desaparecidosEstive ontem na Fundação Badesc no lançamento de um livro-reportagem extraordinário – e não uso essa palavra em vão. Durante três meses a jornalista catarinense Luara Wandelli Loth percorreu o estado de Guerrero, no sudoeste do México, para conhecer os bastidores do sequestro e desaparecimento de 43 estudantes normalistas de uma escola rural, em 2014. Eles iam a uma manifestação política quando foram abordados pela polícia e não foram mais vistos.

Com poucos recursos e sem contatos locais, ela se hospedou com familiares dos rapazes – uma das suas anfitriãs perdeu três filhos e um genro – e acompanhou a dolorosa busca comunitária pelos corpos em covas clandestinas. O resultado é “Sepultura de palavras para os desaparecidos” (Insular, 2018, 223 p.). A busca coletiva pela justiça e pela memória, sem data pra terminar, é apresentada no contexto da violência do Estado e do narcotráfico contra as populações empobrecidas. Preenche vazios e busca sentidos.

Formada em jornalismo pela UFSC em 2017, Luara honra a nossa profissão com seu trabalho. É preciso ter muita coragem e uma boa dose de loucura utópica para se lançar num desafio assim, em um país onde a vida dos profissionais de imprensa vale tão pouco. Já no começo da leitura, fica evidente que ela domina a arte da narrativa e tem o que dizer. Mais que uma aula de reportagem, o livro é um registro histórico que faz pontes com nossa realidade brasileira e a de tantos outros lugares onde os direitos humanos estão ameaçados. Uma obra necessária, produzida com consciência política, talento e amor.

Depois da leitura completa eu comento mais.

p.s.: Influência genética, ambiental ou ambos? O fato é que Luara é filha dos jornalistas Raquel Wandelli e Moacir Loth, fontes de inspiração pra mim e pra muitos colegas. Foi um prazer abraçar os três no lançamento do livro.

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22

Aug

18

Novos desafios

Chegou na firma e recebeu a boa notícia do chefe: iria ganhar uma oportunidade única de enfrentar novos desafios. Mais detalhes no RH. Munido de carteira de trabalho, essa herança anacrônica da era Vargas, logo soube dos detalhes. Fora promovido a gestor de home-office autônomo, um cargo de alta relevância, vinculado apenas informalmente à estrutura organizacional, para não tolher sua liberdade criativa. Em sintonia com as diretrizes modernizadoras da reforma trabalhista, precisaria rescindir o contrato de trabalho e se tornar microempreendedor para continuar prestando seus inestimáveis serviços. Assumiria, naturalmente, os custos de água, energia, internet e cafezinho, mas com toda a liberdade para escolher os fornecedores e marcas que melhor lhe aprouvessem. Afinal, paternalismo não ajuda nada a estimular o desenvolvimento profissional em um ambiente de livre mercado, e você prefere tomar arábica, não é mesmo? Outra vantagem imensurável: total controle sobre a temperatura do ambiente laboral, um grande passo na conquista da autonomia do eu.

Foi à luta. Comprou pijama novo em dez vezes, contratou contador, conseguiu CNPJ e começou a trabalhar em casa. Em pouco tempo percebeu como expandia os horizontes. Aprendeu a usar os recursos de maneira parcimoniosa e sustentável, para não aumentar a pegada ecológica. Descobriu como alongar o endividamento, como vender almoço para comprar janta. Hoje ele é o feliz CEO de uma empresa enxuta e versátil do ramo de serviços aleatórios. Para maximizar os resultados, acumula responsabilidades: é gestor da prospecção de partículas invisíveis (varre a casa); líder do board de aquisições (faz a feira); manager de recursos animais (cuida dos cachorros); barista (passa o café); alquimista com especialização em sódio (faz a comida); supervisor do fluxo de informações (pesquisa no Google, atende o telefone, recebe o carteiro). Ainda arruma tempo para fazer ginástica laboral (lava o banheiro), cultivar a network (Facebook, Whatsapp) e prestar trabalho voluntário em ações ambientais (separa o lixo e leva pra calçada). É verdade que sua empresa tem enfrentado dificuldades no fluxo de caixa, mas já disponibilizou aos credores um powerpoint com o diagnóstico tranquilizador: é só uma crise passageira nos mercados emergentes, coisas do mundo competitivo e globalizado. Nada que abale sua crença inabalável no poder da vontade.

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15

Jun

18

Digital News Reporting 2018

Saiu o Digital News Reporting 2018, estudo anual do Instituto Reuters de Estudos sobre Jornalismo da Universidade de Oxford, que envolveu 74 mil entrevistas em 37 países. Alguns destaques sobre o Brasil:
- Um terço dos entrevistados acessam notícias pelas mídias sociais, mas o uso do FB com essa finalidade caiu de 69% pra 52% em dois anos;
- 61% dos entrevistados compartilham as notícias por redes sociais ou e-mail e 38% comentam nas redes ou sites;
- o Whatsapp é fonte de acesso a notícias para 48% dos pesquisados;
- 22% pagam por notícias online, percentual estabilizado e em quarto lugar entre os 37 países pesquisados;
- o uso de adblocks aumentou em um terço, indicando preocupação maior com segurança e privacidade;
- 85% estão preocupados com o que é real e falso na internet:
- nos últimos três anos, a circulação dos 11 maiores jornais impressos pagos caiu 41,4%, enquanto a circulação digital aumentou 5,8%.
~ Dica de Breno Costa, do Brio.

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20

Mar

18

Historinha zen

O mestre chegou no salão onde seus discípulos o aguardavam e disse:
- Eu vim trazer a boa nova. Alguém sabe o que é?
Ninguém se manifestou.
- Se ninguém sabe, então eu vou embora – e saiu.
No dia seguinte voltou.
- Eu vim trazer a boa nova. Alguém sabe o que é?
Todos levantaram a mão. – Sim, sim!
- Se todo mundo sabe, então não precisam de mim – e saiu.
No terceiro dia voltou:
- Eu vim trazer a boa nova. Alguém sabe o que é?
Metade da platéia disse que sim e metade ficou quieta.
- Então quem sabe conta pra quem não sabe.
E foi embora.

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20

Mar

18

RT @alejodorowsky

“¿Maestro, cómo hacer para vivir hasta tan viejo?”

“Nunca contradigo a alguien”

“¡No es posible!”

“¡Sí, no es posible!”.

 

 

 

 

 

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12

Mar

18

Anotações do quintal

Um passeio pelo quintal. Verde em mudança permanente. Nos quase doze anos em que convivemos, quantas faces já teve. Vida e morte cambiantes numa dança cósmica, bem aqui neste microcosmo do sul da Ilha de Nossa Senhora dos Aterros, como diz o qrido Fabio Brüggemann. Espaço de presenças, e de presença da ausência. Como a das árvores mortas. Uma se foi de velhice. Sua filha, que vi neném, hoje é frondosa e galhuda, se exibe no outono com sementes redondas que os papagaios adoram. Árvore-aquarela com trilha de algazarra. Duas foram derrubadas pelo vento, outras quatro morreram por causa de um aterro de drenagem. Entre elas um presente do inesquecível Augusto Tuyama, a fantástica nim – suas folhas servem pra mais de cem aplicações, como xampu antipulgas e chá pra ressaca.

Tantas outras nascidas ou transplantadas. A pitangueira nativa, germinada no pé de outra árvore. As bananeiras, todas filhas da muda que nos deu o Edson Campos. A amoreira que podei com amor e cresceu linda. Já podei outras com amor e morreram, coisas da vida. Hoje com copa espalhada, é sempre generosa de frutas e tem galhos baixinhos pra criança pequena pegar. Fonte de amora pra suco, vitamina, geleia, tempero, e em breve, sorvete. Ultimamente reparo que tá tendo uma “safrinha” fora da época, observação corroborada pelo Mauro Sniecikowski, também cuidador de amoreira no Sul da Ilha. À sombra dela, nenhum mato cresce, mas uma guabiroba insiste em existir. Miúda, humilde, sempre pegou pouco sol e cresce devagar, mas sólida. Dá uns poucos frutos por ano, como que dizendo “são especiais” e, entre filosófica e irônica, “espere pra ver” e “por que você me antropomorfiza?”.

O limoeiro adolescente sem espinhas, mas com muitos espinhos, produziu seus primeiros seis limões neste verão. As primas tangerinas – uma poncã, outra montenegrina – são meninas, ainda não chegou a hora de dar frutos. O abacateiro também é fiote. Tudo a seu tempo. Tem o tempo dos saguis, ou soins, como dizem lá na minha terra. Eles vêm, acampam, têm filhotes e vão embora quando a comida acaba. Tem que ficar ligado pra não entrarem na cozinha e fazerem bagunça, né Deborah Figueiredo? Tem o tempo das aracuãs, das aves de migração. Das abelhas, das vespas. E tem os moradores fixos, por assim dizer: bem-te-vis, sabiás, curiós. Uns beija-flores que gostam de beijar uma lanterna-japonesa bem do lado da minha rede.

As formigas moram na área, mas aparecem tão pouco que quando chegam a gente pensa que é visita. Às vezes elas encasquetam com uma árvore e ficam trabalhando nela direto por dias a fio, podando as folhas. Meio estressadas, as formigas. Quintal também de minhocas e bactérias, de coisas e seres enterrados, de nosso gato Branquito que aqui descansa em paz. Quintal de Bóris, o lagarto, que morava embaixo do antigo barracão de ferramentas e anda meio sumido. De Lavínia, a lagartixa que encontrei fazendo faxina do depósito. Eu fazia a faxina, no caso. Sementes brotando, maracujás se espalhando, pimenteiras fabricando ardências e temperos. A vida pulsa no quintal e a louça espera na pia da cozinha.

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17

Jan

18

A borra do café

Ainda impactado com A Borra do Café, de Mario Benedetti, que terminei de ler esta madrugada. É uma abordagem ficcional da sua infância, adolescência e entrada na idade adulta em Montevidéu. Mudanças de casa, amigos, parentes e cotidiano do bairro, a morte da mãe, descoberta do sexo e do amor… e as misteriosas coincidências de um momento exato no relógio, 3 e 10 da tarde. Texto límpido, coloquial, bem humorado e poético. A narrativa teria tudo pra ser banal se escrita por outras mãos, mas ganha uma dimensão emocional profunda e única na voz do grande escritor uruguaio. Amei ler este livro.

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