28

Mar

21

Voluntário da Pátria: um conto de Camillo Veras

Meu bisavô cearense escapou de ser “voluntário da pátria” na guerra do Paraguai. Sua aventura é descrita neste conto escrito pelo meu irmão Camillo Veras, que morreu em 25 de janeiro de 2020. É “uma história antiga, dos tempos dos escravos”. Relendo hoje, percebo como a narrativa revela um olhar de historiador em pinceladas como a descrição da paisagem, do ambiente social onde conviviam sertanejos, índios e onças. Ele era jornalista, mas sempre gostou de História. E de contar histórias. Camarada Camillo, presente!

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Voluntário da Pátria

O sol ainda aparecia no horizonte e a lua cheia despontava, desafiando o dia. Meninos surgiam por todos os lados e iam se acomodando nas esteiras de palha estendidas, às dúzias, pelo terreiro, encostadas nas carnaúbas. Era hora de escutar história, conversas, como ainda se falava naquele tempo.
Nesta noite, a tia… (nem lembro o nome dela) ia contar mais uns causos antigos do avô dela, que ela nem lembrava direito. Nem conhecera. Olha que coisa mais velha. Se a tia já era velha, imagina o vô dela…! Bom, era uma história antiga dos tempos dos escravos…
A tropa caminhava em fila única, pela trilha entre os carnaubais, ainda enlameada da chuva da tarde. De arma em punho, que era para assustar os voluntários da pátria, que de voluntários só tinham o nome. Marchavam junto aos soldados, com as mãos amarradas para trás e um cano de espingarda cutucando as costas, de quando em quando, para lembrar que iam para a guerra defender a pátria e o Imperador. Eles nem conheciam muito dessas coisas e nunca tinham ouvido falar no Paraguai, mas com a arma engatilhada nas costas não tinham a menor vontade de reclamar ou perguntar nada.
O vento do Aracati já tinha espantado o calor daquela tarde quando o mateiro, que guiava a tropa, alertou para apressarem o passo se quisessem chegar ao rio antes de escurecer. Naquele ano o inverno tinha sido bom, ainda chovia e o Jaguaribe tinha se espalhado pela várzea. A travessia era difícil. Dormir do lado de cá ia atrasar a tropa, que ainda tinha que andar várias léguas para chegar no Aracati, de onde partiria o navio. Além disso, ainda havia algumas tribos papuias e anacés selvagens pela região e muita onça, que eram um perigo para um grupo pequeno como aquele.
Os homens estavam cansados. Eram fortes, mas o sol, o peso do equipamento e a caminhada na caatinga massacravam. Caminhavam a passos curtos. Já se enxergava a serra do Ereré, quase na margem do rio, do lado de lá, mas eles viram que não dava para chegar antes do anoitecer e o desânimo tornou o ritmo ainda mais lento.
Muitos dos soldados tinham sido recrutados do mesmo modo que os pobres coitados que eles agora caçavam nos vilarejos, mas a vida dura e a disciplina rígida os transformaram. Não eram mais povo e sim soldados. Há várias semanas andavam por vilarejos no Vale do Jaguaribe à procura de “voluntários”. Tinham ido até São Bernardo de Russas, passado por Quixeré, União, Cruz do Palhano, Rancho do Povo, Tomé Afonso e outros lugarejos perto do rio.
A rotina era a mesma. Procuravam o padre ou o intendente e anunciavam que estavam em busca de homens jovens para lutar na guerra contra o Paraguai. Defender o Império. A pátria. Alguns fazendeiros mais ricos tinham se engajado e ganhado patentes de oficial, mas a maioria dos homens de posse escondia seus filhos em idade de ir pra luta. E também as filhas, que costumavam se encantar, ou às vezes ser encantadas, por aqueles soldados. Voluntários mesmo só alguns presos e gente que não tinha o que perder. Filho de pobre ia na marra.
No final da fila, um dos voluntários começou a mancar. Levou umas coronhadas, mas conseguiu diminuir o ritmo da marcha e se afastar um pouco dos que iam à frente. Num átimo de sorte, o soldado parou para urinar e o empurrou para o lado, aproveitando a escora de uma tamarineira à beira de um barranco. A hora era aquela. O jovem preso chutou forte o soldado, que rolou pelo barranco, e aproveitou para correr.
O grito assustou os outros soldados, que voltaram e deram uns tiros às cegas. Mas ele não estava mais lá. Perderam um tempo para ajudar o colega a sair do buraco e nem pensaram em caçar o fugitivo naquela escuridão que caía. Seguiram em frente.
O voluntário correu várias horas com as mãos amarradas para trás, sem parar e nem mesmo sentir as juremas e outros arbustos espinhosos que laceravam sua pele. Segundo contou mais tarde para os amigos, “correu umas três léguas”. A escuridão já tomava conta da mata quando ele tropeçou e caiu de novo. Dessa vez num pequeno riacho, onde deslizava um filete d’água. Matou a sede e, tateando no escuro, achou uma pedra e cortou a corda que apertava seus punhos. Estava cansado, os pés ardiam depois da longa corrida e os braços doíam, após horas amarrados na mesma posição e de várias quedas. Mas ele sabia que beira de riacho não era lugar seguro para descasar numa área conhecida por ter muitas onças. Pintadas e vermelhas saiam à noite para matar a sede nos pequenos córregos como aquele, e aproveitavam para comer.
Desde pequeno ouvia falar de pintadas e vermelhas na região e sabia que nome do rio vinha de jaguar, como os índios chamavam as onças. Chamavam também de suçuarana. Ele mesmo só tinha visto uma vez, mas conhecia muita história de onça. Diziam que depois de serem massacradas pelos primeiros colonos portugueses, que criavam gado na região, elas perderam o medo e até passavam a gostar de carne de gente. Uma vez foi a uma caçada com o pai, tios e uns primos e depois de andar uma noite toda seguiram o rastro de um veado. De repente apareceu uma vermelha. A bichona também estava atrás da caça, mas se assustou com os caçadores e subiu num pau-d’arco. Ele já vinha com a arma engatilhada, mas o pai segurou seu braço e disse.
- Deixa pra lá, menino. Bicho que não serve para comer não se mata. E ela nem ia fazer nada “com nós”. Ela só queria o veado porque está com fome.
Aquela história foi uma lição para ele aprender a respeitar animal e só matar para comer.
Mas perdido no mato à noite e sozinho, a recordação deu mais medo e ele lembrou que não podia ficar ali. Procurou a alpercata, que tinha perdido depois de tropeçar, mas não achou. Seguiu com um pé calçado e outro no chão. Desde pequeno ele andava na mata, mas o chão pedregoso castigava o pé descalço. Não dava mais para correr, mas andou a noite toda, parando só para descansar e matar a sede nos riachos e olhos d’água que encontrava. Já era quase dia quando chegou perto de uma casa. Os animais alertaram e o dono deu um tiro pra cima. Pensou que eram os soldados e caiu novamente no mato.
O sol já estava claro quando ele finalmente chegou num rio. Estreito, não podia ser o Jaguaribe. Seguiu o curso da água e logo percebeu que estava novamente perto da Serra do Areré. Passara a noite caminhando em círculo. Por sorte, os soldados tinham cruzado o Jaguaribe ao por do sol. Horas antes. Agora ele sabia onde estava. Descansou e logo depois partiu, agora no claro e pela beira do rio.
Antes do meio dia estava na casa do pai, onde ficou sabendo que outra patrulha estava a procura de novos voluntários e de fugitivos. Na mesma noite, namorou, noivou e casou com a prima de treze anos, a única moça solteira e descomprometida do vilarejo. Casados não podiam ser “voluntários”, e ele escapou de ir servir a pátria. Dos que foram ao Paraguai, da sua cidade, nenhum voltou. Ele viveu quase cem anos, teve um monte de filhos e ainda contou essa história aos netos.
Camillo Veras
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15

Mar

21

Focinho de bezerro

“Comida gostosa, apimentada, temperos fortes. Para a saúde, vai ver não fosse bom, era reimoso; mas a mulher se ria, perto dela não se podia pensar em coisas mofinas. Achava fio de cabelo dela, não tinha repugnância, não se importava. – ‘Bem: eu cuspisse dentro da sopa, você tinha escrúpulo de tomar? Você gosta de mim de todo jeito?’ Asco nenhum. O cuspe dela, no beijar, tinha pepego, regosto bom, meio salobro, cheiro de focinho de bezerro, de horta, cheiro como cresce redonda a erva-cidreira”.
~ Guimarães Rosa. Dão-Lalalão (O Devente), em Noites do Sertão.
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24

Feb

21

Lendo: Up In The Old Hotel

Up In The Old Hotel. Coletânea de perfis escritos por Joseph Mitchell para a New Yorker entre o fim da década de 1930 e 1964. Uma aula de jornalismo. Dica do Yan Boechat.

mitchell

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07

Jan

21

Leituras de 2021: A invenção de Morel

morelNo Dia Nacional do Leitor, mais um registro de leitura finalizada.

3) A invenção de Morel. Este romance do argentino Adolfo Bioy Casares (1914-1999), publicado em 1940, combina realismo fantástico com ficção científica numa história que nos faz mergulhar, junto com o narrador, numa lógica alucinada. Ele é um homem condenado à prisão perpétua que foge para uma ilha deserta, famosa por conter uma praga que mata os visitantes em poucos dias. Lá, começa a encontrar várias pessoas perambulando – por uma igreja, um museu e outros espaços -,  mas não consegue fazer contato. Apaixona-se por uma das aparições, Faustine, linda mulher que vai todos os dias contemplar o mar, mas também é ignorado por ela. Esse mundo estranho tem duas luas (assim como universo paralelo da trilogia 1Q84, de Haruki Murakami), dois sóis e marés descontroladas. O homem começa a refletir sobre a sua solidão, a finitude da vida, a realidade e os simulacros. Sua busca para a explicação do que acontece é explicada pelo título. A invenção de Morel foi descrita por Jorge Luis Borges, o mestre dos labirintos metafísicos, como “perfeita”.

 

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05

Jan

21

Leituras de 2021: Um casamento americano e Paraízo-Paraguay

paraizo-paraguayComecei o ano com dois romances brilhantes, ambos relacionados a racismo em contextos bem diferentes. O primeiro, de uma autora americana negra, tem um triângulo amoroso como pano de fundo. O segundo, de um romancista estreante de Blumenau, detona a idealização do passado glorioso dos imigrantes alemães.

1) Um casamento americano (Arqueiro, 2019), de Tayari Jones, conta a história de Celestial e Roy, casal afroamericano de classe média que tem a vida virada do avesso quando ele é condenado a 12 anos de prisão por um crime que não cometeu. A outra ponta do triângulo é André, também negro, amigo de infância de Celestial, que a apresentou a Roy e conforta a amiga durante os anos de encarceramento do marido. A narrativa em primeira pessoa alterna as vozes das três personagens, acompanhando a tempestade emocional que desaba na vida delas e as escolhas difíceis que precisam tomar. Publicado em 2018, este é o quarto romance de Tayari Jones, professora universitária de Atlanta. No ano seguinte, ganhou o Women’s Prize for Fiction, um dos prêmios literários mais prestigiados do Reino Unido. A obra foi incluída no clube do livro de Oprah Winfrey e elogiada pelo ex-presidente Barack Obama.

2) Em seguida li Paraízo-Paraguay (Caiaponte, 2019), primeiro livro de prosa do blumenauense Marcelo Labes. Seu romance histórico é um mergulho incômodo na memória da imigração alemã em Santa Catarina. Acompanhamos a trajetória de Wilhelm, trambiqueiro que desembarca no Brasil em busca da fortuna e se vê obrigado a ir à Guerra do Paraguai como “voluntário da pátria”. A história é recordada por Olga, uma velha que revisita o passado enquanto agoniza, para constrangimento do filho Hans e da nora Anna. As vilanias de Wilhelm/Guilherme e seus descendentes ajudam a desmontar a idealização do passado grandioso dos colonizadores. Escravidão, massacres de indígenas, apoio ao nazismo apagado da história oficial, isolamento e flerte com a loucura, todos esses ingredientes fazem do romance de Labes uma viagem vertiginosa e necessária. Paraízo-Paraguay ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura em 2020 e o segundo lugar no Prêmio Literário da Biblioteca Nacional em 2019.

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29

Dec

20

DVeras Awards de Literatura 2020

livros2020_web

Eis uma nova edição do DVeras Awards de Literatura, há 14 anos celebrando o direito humano universal ao prazer da leitura ociosa. Li pouco neste Ano das Pestes de 2020. Acompanhar os capítulos da novela grotesca chamada Brasil me provocou certa dificuldade de concentração. Mas até mesmo num ano de merda, houve espaço pra descobertas alentadoras. Livros são grandes companheiros na tormenta, portais no espaço-tempo e vacinas antiestupidez com alta eficácia. Pelo menos, não conheço nenhum leitor voraz que seja terraplanista e faça ozonioterapia retal.

Repasso as regras deste concurso hedonista. O DVeras Awards de Literatura, promovido pelo blog DVeras em Rede (que em julho completou 20 anos), elege anualmente os melhores livros que li por prazer. Ficam excluídas as obras de propósito utilitário, as inacabadas até 31 de dezembro e as hors concours. Amigas e amigos leitores são incentivados a também compartilharem suas listas. Este ano o prêmio tem duas categorias: “ficção” e “não-ficção”, com aspas, cada uma com três nominados e um vencedor. O melhor de todos ganha o Grand Prix DVeras.

Em 2020, li 18 obras que atenderam os critérios do certame – um livro a cada três semanas, bem aquém da média usual. Os temas variaram da guerra à antropologia, da psicologia à criminalidade, da filosofia à sátira da autoajuda, da imigração à violência digital, em gêneros como realismo fantástico, jornalismo literário e divulgação científica. Os autores são de dez países: Alemanha, Angola, Argentina, Brasil, Estados Unidos, Inglaterra, Islândia, Israel, Japão e Líbano. Há somente seis mulheres na lista. Esta retrospectiva me ajuda a definir alguns desafios factíveis para 2021:

  • ler um livro por semana

  • ler mais mulheres

  • ler mais autores da América Latina e África

  • ler mais em espanhol e inglês

  • explorar mais temas e formatos

 Vamos ao que interessa:

Hors concours

Siddartha, publicado em 1922 por Herman Hesse, que ganhou o Nobel de literatura em 1946. Obra bela e poética sobre a busca de autoconhecimento de um indiano contemporâneo de Buda. Demorei anos pra encarar a leitura, o que foi bom, pois o tempo me deixou mais receptivo. Recomendo. Lido em inglês.

“Não-ficção”

  • The Last Battle. Cornelius Ryan, 1966. Relato sobre o avanço das tropas aliadas sobre a Alemanha nos últimos dias da 2a.Guerra Mundial, baseado em documentos históricos. Ajuda a entender como se deu a repartição do país entre americanos e soviéticos, que definiu a geopolítica europeia pós-guerra. Lido em inglês.

  • Rápido e devagar: duas formas de pensar, Daniel Kahneman. O psicólogo israelense, ganhador do Nobel de Economia em 2002 por suas teorias sobre economia comportamental, questiona de maneira bem fundamentada a ideia de que a nossa tomada de decisões é exclusivamente racional. Lido em inglês.

  • Você não merece ser feliz: como conseguir mesmo assim, Craque Daniel. Os humoristas Daniel Furlan e Pedro Leite, do Falha de Cobertura, criaram uma paródia de manual de autoajuda que ironiza a mania das pessoas de perseguir a felicidade. “Se você quiser, se você se esforçar, se você treinar, se você entrar de cabeça, se você se concentrar, nada garante que você vai conseguir”, resumem. Ri muito.

  • A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime, Bruno Paes Manso e Camila Caldeira Nunes Dias. Livro-reportagem sobre os bastidores do Primeiro Comando da Capital, suas disputas com outras facções criminosas, a expansão pra outros países e a falência da segurança pública no Brasil. Bem apurado, mas às vezes repetitivo.

  • Uma história da guerra, John Keegan. O historiador britânico dá uma aula sobre a natureza humana ao examinar as origens dos conflitos bélicos, suas motivações, rituais e evoluções tecnológicas, dos guerreiros de Átila aos ianomâmi, dos bôeres na África do Sul aos soldados das guerras globais do século 20.

  • Diário de Berlim Ocupada: 1945-1948, Ruth Andreas-Friedrich. Relato em primeira pessoa sobre a barbárie do pós-guerra por uma jornalista alemã. Ela se vê sitiada em situação precária num apartamento com amigos, passando fome e frio enquanto tropas russas e aliadas ocupam a cidade e a guerra fria começa a se instalar.

  • A lógica do cisne negro, Nassim Nicholas Taleb. Publicado em 2007 pelo matemático e consultor financeiro de origem libanesa, o livro mostra como estamos constantemente à mercê de acontecimentos imprevisíveis que são a base de quase tudo o que acontece no mundo. Muito atual.

  • A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital, Patrícia Campos Mello. A jornalista conta como as redes sociais são manipuladas por líderes populistas, afetando processos eleitorais e minando a democracia. A obra é uma ampliação de reportagens publicadas na Folha de S. Paulo. Leia.

  • O mundo até ontem: o que podemos aprender com as sociedades tradicionais?, Jared Diamond. O biólogo evolucionário, fisiologista e biogeógrafo nos conduz ao cotidiano de sociedades tradicionais – povos das ilhas do Pacífico e do deserto Kalahari, inuítes, índios da Amazônia, entre outros, mostrando que temos muito a aprender com eles, sem idealizar seu estilo de vida.

“Ficção”

  • Manual prático de levitação, José Eduardo Agualusa. O volume reúne 20 contos organizados em três partes: Angola, Brasil e Outros lugares de errância. Gostei demais. Tenho especial predileção pelo gênero e, neste meu primeiro contato com o autor angolano, percebi grande talento e domínio técnico. Quero mais.

  • Murilo Rubião, obra completa. Coleção dos 33 contos do brilhante autor mineiro que antecipou o gênero literário do realismo fantástico, popularizado depois por García Márquez e Julio Cortázar. Rubião passou anos reescrevendo sua obra.

  • Killing Commendatore (O assassinato do comendador, em português), Haruki Murakami. Pintor recém-separado sai numa road-trip pelo norte do Japão e depois vai morar numa casa na montanha. Lá encontra um quadro misterioso no sótão e conhece um vizinho rico solitário que guarda um segredo. Lido em inglês.

  • O álibi perfeito e outras histórias, Patricia Highsmith. Contos de uma das autoras mais reconhecidas do gênero crime e mistério. Não estão à altura dos excelentes O talentoso Ripley e O amigo americano, matérias-primas de duas boas adaptações no cinema.

  • Love, Stephen King. A viúva de um escritor famoso começa a receber ameaças de um maluco, fã do autor e obcecado pelo acervo inédito supostamente guardado por ela. King nos conduz ao passado do casal e a um segredo terrível da infância do escritor, que abre o portal para uma realidade fantástica.

  • O segredo do lago, Arnaldur Indridason. O esqueleto de um homem é encontrado no fundo de um lago islandês que começou a perder água por causa de uma fissura geológica. Junto dele está um equipamento de rádio de origem soviética. A narrativa acompanha a investigação policial do caso, que desvenda memórias da guerra fria.

  • Plata quemada, Ricardo Piglia. Ficção entre grandes aspas. O autor baseia a narrativa numa história verídica sobre assaltantes argentinos que, depois de um sangrento roubo a banco em 1965, escapam para Montevidéu. Lá são cercados em um apartamento pela polícia uruguaia e decidem resistir a bala. Lido em espanhol.

  • Intérprete de males, Jhumpa Lahiri. A autora inglesa naturalizada americana ganhou o Pulitzer de literatura em 2000 com este volume de contos, seu primeiro livro. São histórias de indianos ou descendentes tentando se adaptar à vida nos Estados Unidos ou em seu cotidiano na Índia. Bem bom.

Resultados

Na categoria “não-ficção”, foram nominados Rápido e devagar, A máquina do ódio e O mundo até ontem. O livro de Patrícia Campos Mello é fundamental pra entender o momento político que vivemos hoje no Brasil e o contexto em que isso ocorre. O de Jared Diamond é uma rica oportunidade para os interessados em antropologia conhecerem as pesquisas do autor com sociedades caçadoras-coletoras e refletir sobre o estilo de vida urbano ocidental.

E o escolhido é…

Rápido e devagar: duas formas de pensar. O psicólogo comportamental Daniel Kahneman apresenta as pesquisas sobre o funcionamento da mente que o fizeram virar referência em economia. A partir de diversos experimentos, ele mostra como tendemos a nos comportar em temas como aversão à perda, excesso de confiança em escolhas estratégicas, dificuldade de prever o que vai nos fazer felizes no futuro e identificação de riscos. Aula magna sobre a natureza humana, serve também de alerta para não apostarmos demais na intuição. Sim, a intuição falha, e mais vezes do que gostaríamos de crer. Livraço.

Na categoria “ficção”, os nominados são Murilo Rubião: obra completa, Killing Commendatore e Plata quemada. O volume de histórias fantásticas de Rubião ganhou menção honrosa, mas poderia estar tranquilamente ao lado de Siddharta como hors-concours. Dos contos, destaco o belo Bárbara, sobre a mulher que pedia coisas extravagantes ao marido, e Teleco, o coelhinho, sobre um coelho falante que muda de forma. O romance de Piglia representa a literatura argentina com louvor, bebendo do jornalismo para trazer ao leitor uma narrativa ágil e de grande interesse humano.

E o escolhido é…

Killing Commendatore, de Haruki Murakami, que também leva o Grand Prix DVeras de melhor livro lido em 2020. O autor de Kafka à beira-mar e da trilogia 1Q84 nos presenteia com sua concepção peculiar de realismo fantástico, desta vez mergulhando na pintura como forma de expressão. O assassinato do comendador se aproxima da obra de Murilo Rubião quanto à falta de espanto das personagens diante de situações extraordinárias. Seu protagonista, um pintor de retratos com 36 anos, vive uma experiência invulgar na casa isolada que alugou numa montanha: em certas madrugadas, escuta o som de um pequeno sino vindo da floresta próxima. A maneira como ele lida com esse mistério, ajudado por um vizinho milionário e solitário (ecos de O Grande Gatsby, de Fitzgerald) e por uma adolescente, conduz a história a uma fascinante investigação da natureza humana e da arte. As palavras de Murakami deslizam espontâneas como água de riacho, numa narrativa repleta de camadas de reflexão sobre o sentido da vida e da arte.

Boa leitura!

 

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08

Dec

20

Kjeld Jakobsen, presente!

O mundo fica mais pobre sem Kjeld Jakobsen, uma pessoa especial que a vida me deu a sorte de encontrar. Conheci o Kjeld em 2002 quando fui contratado pelo Instituto Observatório Social, que ele presidia – um belo projeto de cooperação internacional envolvendo a CUT e centrais sindicais da Holanda, Alemanha e Estados Unidos.
Em poucos meses de trabalho, me coube a missão de acompanhá-lo a Santiago do Chile para um evento de trabalhadores de países hermanos. Tempo de esperança na possível eleição de Lula, que concorria à presidência pela quarta vez, e na mudança dos ventos na América Latina, que de fato ocorreu. Tivemos longas conversas sobre geopolítica e acompanhei atento a sua participação no encontro, um grande aprendizado de como é possível focar no que aproxima as pessoas, em vez de insistir nas diferenças.
Nos quatro anos em que trabalhamos juntos, embora em cidades diferentes – ele em São Paulo, eu em Floripa – convivemos em inúmeras ocasiões. Ele tinha o o talento inato de articulador, a habilidade de mediar conflitos de forma serena e fundamentada, costurar acordos difíceis que ampliaram direitos dos trabalhadores em várias empresas multinacionais com operações no Brasil. Chefe competente e ponderado, tinha um conhecimento tão vasto quanto a sua generosidade com os colegas, sua simplicidade e vontade de fazer do mundo um lugar mais justo.
Kjeld acreditou no jornalismo como instrumento relevante pra investigação de denúncias de violações de direitos humanos. Graças ao seu apoio decisivo, publicamos várias reportagens na Revista do Observatório Social sobre temas como trabalho escravo e infantil, assédio moral, mutilação na indústria, desmatamento ilegal e exploração de imigrantes, vinculando essas violações à cadeia produtiva de grandes corporações multinacionais. Não raras vezes, o desgaste da reputação dessas empresas provocou pressões que levaram a mudanças concretas nas relações de trabalho e na vida das pessoas. Os prêmios conquistados com a revista (Esso, Vladimir Herzog e outros) foram consequência do trabalho de uma galera idealista, que vivia dando risada, sabendo que o chefe nos incentivava e apoiava. Em retrospecto, vejo hoje que foi a redação dos sonhos. E ele sonhava com a gente.
Não tenho palavras boas o bastante pra expressar a tristeza com essa perda, pra contar da importância que o Kjeld teve na minha trajetória profissional e na de tantos outros. Morreu um homem de valor, parceiro dos que resistem. Meu abraço à família e a todos que foram tocados por sua presença. Seguimos.
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29

Oct

20

O novo Murakami

comendadorDia Nacional do Livro. Deixe uma sugestão de leitura e diga por que gostou.
A minha é O assassinato do comendador, de Haruki Murakami, inspirado em O grande Gatsby, de Scott Fitzgerald.
A narrativa é contada em primeira pessoa por um pintor de retratos de 36 anos que se separou da mulher. Depois de um tempo viajando de carro pelo norte do Japão, vai morar numa casa isolada no alto de uma montanha, pertencente a um pintor famoso já aposentado e senil. Um dia ele sobe ao sótão, onde encontra a pintura que dá nome ao romance.
O protagonista vive uma experiência estranha na casa: em algumas madrugadas, escuta o som de um pequeno sino vindo da floresta próxima. A maneira como ele lida com esse mistério, com a ajuda de um vizinho milionário e solitário, conduz a história a uma fascinante investigação da natureza humana e da arte, com toques de realismo fantástico.
Li em volume único na tradução em inglês, bem fácil de entender, com prosa fluida e coloquial. No original em japonês e na tradução em português, o livro é dividido em duas partes. Sem dúvida, um dos melhores de Murakami.
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21

Sep

20

Hablismo

Leitura da aula de conversação em espanhol sobre “hablismo”, uma tradução do inglês “accentism”. Como seria em português a palavra pra discriminação por sotaque? Sotaquismo?

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04

Sep

20

Ouvido não é penico

Ontem eu sintonizava a CBN no rádio do carro e mais uma vez fui recordado do motivo por que escuto rádio aberto cada vez menos. Um esquete supostamente humorístico chamado “Corneta do Tarrafa”, que faz piadas ruins apoiado no estereótipo do sotaque manezinho da ilha, apresentou um quadro infame por cerca de dois minutos.
Inspirados nos memes sobre as referências da deputada Flordelis ao som dos tiros que mataram seu marido, os dois locutores fizeram um paralelo com três jingles/músicas contendo “pá, pá, pá, pá, pá”. Da primeira vez foi bizarro, da segunda, grotesco e da terceira senti até o cheiro de esgoto.
Essa estética de comunicação focada no mundo cão, tão a gosto da indigência mental do bolsonarismo, tem produzido espetáculos constrangedores. Quem me conhece sabe que tenho uma visão bastante aberta quanto aos limites do humor, mas o gozo com a miséria humana, definitivamente, ultrapassa o tolerável.
Esquetes-lixo como esse contribuem pra afastar os ouvintes dos diversos conteúdos de qualidade que a CBN ainda tem na sua grade. Quase tão ruins quanto isso são os longos debates vazios enchendo linguiça sobre futebol. Ponto pros podcasts, em que os ouvintes têm um controle bem maior sobre a qualidade do que escutam.
p.s.: Aproveito pra recomendar o ótimo podcast Fronteiras invisíveis do futebol, um programa de História que aborda as realidades de vários países usando o esporte como pretexto.
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