21
Apr10
O que mais vale: água ou fosfato?
No dia 20 de abril o Tribunal Regional Federal da 4a. Região manteve por unanimidade, mais uma vez, a decisão da Vara Federal Ambiental de Florianópolis contra o projeto da fosfateira de Anitápolis. Esta é a 12a. decisão judicial contrária ao empreendimento, que ameaça uma extensa área de mata atlântica e mananciais em Santa Catarina. Fiz quatro perguntas ao advogado Eduardo Bastos, que representa a ong Associação Montanha Viva na causa.
O que significa mais esta decisão do Judiciário contra o projeto da fosfateira?
Em termos ambientais e sociais, a manutenção da liminar concedida pela doutora Marjorie Ribeiro da Silva, juíza da Vara Federal Ambiental de Florianópolis, se reveste de grande importância. Demonstra a sensibilidade do Poder Judiciário Federal com os problemas e riscos potenciais apontados na ação. Apesar de toda complexidade da causa e dos interesses governamentais em jogo, as irregularidades constantes no EIA/RIMA [Estudo Prévio de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental] foram percebidas pelos julgadores, que, embasados nos princípios da prevenção e da precaução, decidiram em prol da sociedade e do meio ambiente.
Por que o projeto da fosfateira é danoso ao meio ambiente?
Diria que o projeto é danoso não apenas ao meio ambiente, mas à sociedade de modo geral. Ao meio ambiente pela perda de biodiversidade, por envolver a supressão de mais de 300 hectares de Mata Atlantica em estágio primário que abriga espécies em risco de extinção, pela possibilidade da contaminação das águas superficais e subterrâneas. Isso sem contar com a poluição e aniquilação do Rio dos Pinheiros, que abastece moradores de Anitápolis e de Braço do Norte. E social, pois o empreendimento coloca em xeque toda uma região que tem por vocação o turismo rural, a agricultura orgânica, inclusive recebendo recursos do governo federal para essas atividades. Em resumo, a luta que se trava é pela preservação de toda Encosta da Serra Geral.
Como tem sido a mobilização social quanto a esta causa?
A sociedade está pressionando os gestores a tomar posição. Houve três audiências públicas promovidas pela Assembleia Legislativa – a primeira em junho de 2009 em Florianópolis, a segunda em setembro, em Braço do Norte, e a terceira no dia 15 de abril, em Laguna. Nesta última, a Comissão Pastoral da Terra entregou ao prefeito 3.800 assinaturas de moradores de Laguna e Tubarão que são contra o empreendimento. O prefeito também se manifestou contrário. As prefeituras de Rancho Queimado e Braço do Norte se somaram ao protesto, ingressando na ação judicial. Mais de 20 organizações empresariais da região também são contrários. O Comitê de Bacias Hidrográficas do Rio Tubarão e Complexo Lagunar finalizou em dezembro de 2009 um parecer técnico que aponta todas as irregularidades do EIA/RIMA e diz que o empreendimento é inviável do ponto de vista ambiental, social e econômico. Há duas semanas a procuradora da República Analúcia Hartmann, do Ministério Público Federal, também requereu a entrada como co-autora no processo.
Qual será o trâmite desta ação daqui para a frente? O projeto está suspenso em definitivo?
Mantida a liminar, e após a análise do mérito nos agravos [agravo é um dos tipos de recurso existentes no processo civil brasileiro], o próximo passo a ser executado pelo governo do estado, prefeitura de Anitápolis, Fatma [Fundação do Meio Ambiente, órgão ambiental do governo de SC], União, Bunge, Yara e IFC [Indústria de Fosfatados Catarinense] pode ser a interposição de recurso no Superior Tribunal de Justiça. Ainda que o façam e em sendo mantida a decisão, o processo na Vara Federal tem seu trâmite normal, ou seja, passará a ser efetivamente julgado. Audiências e produção de provas, até a prolação da sentença. E a partir dessa, de novo o ciclo de recursos se inicia. O risco de a atividade ser viabilizada existe. Contudo, pelo que consta no processo, nos laudos e pareceres elaborados por instituições idôneas, creio que há uma sinalização pela inviabilidade do Projeto Anitápolis. Afinal, o que mais vale: água ou fosfato? Respondida essa equação simples, a decisão é mais fácil de ser tomada.
Esta entrevista está sob licença Creative Commons. Sua reprodução é permitida e incentivada.
16
Mar10
Castells: “Não há excesso de informação”
Interessante esta entrevista de Manuel Castells aos leitores da BBC Mundo. Tenho trocado ideias com amigos sobre o que ele aborda neste trecho:
A Raúl Rodon, de Panamá, le gustaría saber si usted cree que la gran cantidad de información inútil disponible a través de internet nos llevará a un nuevo oscurantismo.
No hay exceso de información.
Si voy a una biblioteca que tiene 12 millones de volúmenes, tengo mejores posibilidades de encontrar lo que busco a que si tiene un millón de volúmenes. Lo que me hace falta es tener la capacidad de saber qué busco, cómo encontrarlo y saber qué hacer con ello.
Lo que pasa es que internet exige un desarrollo mucho mayor del nivel cultural y educativo de los usuarios.
Por tanto, la verdadera brecha en relación al uso de internet es la brecha más antigua de la humanidad: la cultura y la educación.
Aquéllos más educados en la era de internet aumentan su capacidad de acción sobre la sociedad y sobre sí mismos.
Aquéllos con poca educación se dedican a hacer estupideces con internet y pierden mucho más con respecto al conjunto de la sociedad.
18
Feb10
O porco em Nota de Rodapé
Dei entrevista sobre Espírito de Porco ao jornalista Thiago Domenici, que coordena o blog coletivo Nota de Rodapé. No início de março o doc vai ser exibido em um festival de cinema em Santiago de Cuba. E pra quem ainda não teve a oportunidade de assistir na telona, estamos combinando novas exibições em março e abril em Floripa. Depois dou os detalhes.
22
Oct09
Espírito de Porco na rádio CBN
Entrevista de Chico Faganello à rádio CBN – 19out2009 by dauroveras
O radialista Luiz Carlos Prates, da rádio CBN de Florianópolis, entrevista no programa Notícia na Tarde o Chico Faganello sobre o documentário Espírito de Porco, que dirigimos juntos e vamos mostrar em Florianópolis a partir de hoje na Fundação Cultural Badesc.
19
Oct09
Castelo dos Sonhos: entrevista com Tatiana Cardeal
Há poucas semanas contei sobre um prêmio que minha amiga Tatiana Cardeal, fotógrafa documentarista, foi receber na China. Pois mal retornou ao Brasil, ela já recebeu outro: o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, em parceria com Marques Casara, com a reportagem Castelo dos Sonhos [pdf], sobre exploração sexual de crianças e adolescentes ao longo da BR-163. Nesta entrevista, Tatiana conta como foram os bastidores dessa apuração.
DVeras em Rede – Como foi o desafio de fazer uma reportagem fotográfica sobre um tema que envolve tantos aspectos delicados do ponto de vista psicológico, legal e de segurança?
Tatiana Cardeal – Foi difícil, mas desafiador, e eu gosto muito dos desafios que me trazem um sentido. Não sou exatamente uma fotojornalista, meu trabalho é mais documental e bem mais lento, então, em no início achei que poderia não funcionar bem, mas acabei me surpreendendo bastante com minhas próprias reações. Fotografar escondida ou em risco não é a minha rotina, nem algo que eu tenha prazer em fazer. Houve momentos em que tive muito medo e outros em que surpreendemente me vi coordenando a situação com certa excitação para obter a melhor momento/ângulo de uma foto. Havia uma série de cuidados sobre o que fotografar e quando fotografar, não dava pra chegar clicando. Também havia o desafio de encontrar imagens fortes e/ou sensíveis que contassem a história e que fossem publicáveis, já que não se pode expor as imagens das vítimas da exploração sexual.
O que mais a impressionou? Houve momentos em que você hesitou em clicar?
Tatiana – Muitas coisas me impressionaram. Como cena, uma das mais impressionantes foi quando chegamos e passamos pela “avenida principal” de Castelo. Um grupo de cerca de sete meninas, muito novas (acho que entre 12 e 15 anos), semivestidas, sentadas na mesa de bilhar da varanda do boteco/bordel. A ausência do poder público alí impressiona, assim como as péssimas condições da estrada de terra (foram 6 horas para cobrir os 200 km), que separa Castelo da “civilização”, uma área erma onde praticamente não se encontra nada. Como referência, a região é próxima de onde caiu o Boeing da Gol em 2006, e que foi uma enorme dificuldade de mobilidade para o próprio exército. Também me impressionou muito a cena de uma garota franzina de 12 anos amamentando seu bebê; e em especial a “normalidade cultural” com que o sexo com menores é tratado, ao mesmo tempo em que provoca vergonha e receio nas famílias da vítimas.
O momento em que hesitei não foi pela imagem da foto em si, mas pela pressão psicológica em que estava. A gente já sabia da fama violenta da cidade… um conselheiro tutelar de outra cidade entrou em pânico quando o Marques decidiu que precisávamos ir lá. Mas já em Castelo, depois de entrevistar o jornalista que estava ameaçado de morte, e ele mostrar uma série bizarra de fotos que fez dos assassinatos da região (que não aguentei ficar vendo, porque não eram somente corpos assassinados, mas mortes decorrentes de violência bizarra e brutal, com técnicas de tortura requintadas e sádicas, que expunham os corpos posteriormente como “mensagem” para a população local), e eu ainda precisava fazer duas últimas fotos, em público, na avenida principal e na delegacia. Eu estava tão chocada com o depoimento e a brutalidade das imagens do jornalista, que o Marques praticamente me empurrou pra fora do carro para fotografar.
Pode contar um pouco sobre o lado técnico de fazer uma cobertura fotográfica na umidade amazônica? Como você lida com o dilema entre a necessidade de carregar equipamento pesado e a de ser discreta?
Tatiana - Bom, a Amazônia é gigantesca, e oferece condições climáticas variadas. No caso dessa região no norte do Mato Grosso, não fomos na época das chuvas, então eu tinha mais preocupação com o poeirão vermelho da estrada de terra do que com a umidade, vivia protegendo a câmera e limpando. Já no Amazonas, em São Gabriel da Cachoeira encontramos temperaturas altíssimas com extrema umidade, a ponto de a cola do espelho da minha câmera derreter (e da filmadora parar de funcionar subitamente algumas vezes). Consegui colar novamente o espelho com uma versão enigmática de SuperBonder, a TreeBonder, única alternativa disponível na cidade indígena… por sorte colou e resolveu. Outra coisa que ajudou é ter uma mochila tropicalizada, que veda 100% contra chuva, e até protege na queda do equipamento na água (a mochila fica boiando no caso de uma voadeira virar…).
Normalmente não carrego muito equipamento. De mais pesado são duas cameras, três lentes médias e um flash. Se não ía muito longe, só uma camêra. Mas nada que não caiba em uma mochila média e que eu não possa levar.
Admiro a maneira como você reorientou a carreira bem-sucedida de diretora de arte para recomeçar – e obter reconhecimento internacional – na fotografia de temas sociais. O que moveu você nessa mudança e como ela se deu?
Tatiana – Obrigada, Dauro, mas saiba que essa mudança de carreira não foi nada muito planejado. Acho que tive uma boa dose de sorte, pois ao sair da Editora Abril eu já sabia que queria continuar na área social e não queria mais fazer revista puramente comercial. Estava fazendo uma pós graduação em Mídias Interativas, algo meio novo e experimental na época, e que me deixou bastante antenada com as possibilidades da internet. Fui publicando imagens de temas que me interessavam e pesquisas visuais que eu fazia como estudo e hobby. Aí fui recebendo um grande feedback que me encorajou a continuar produzindo mais e que aos poucos tornou-se trabalho. Ainda naquele período, algumas redes que eu frequentava e publicava só falavam em inglês, e acredito que foi aí que o trabalho ganhou alguma projeção fora daqui.
~
Leia também a entrevista com Marques Casara.
19
Oct09
Castelo dos Sonhos: entrevista com Marques Casara
Meus amigos Marques Casara e Tatiana Cardeal ganharam menção honrosa na trigésima-primeira edição do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, um dos mais conceituados do Brasil. A reportagem deles, Castelo dos Sonhos [pdf], publicada na revista da ong Childhood Brasil, desvenda uma rede criminosa de exploração sexual de crianças de adolescentes na BR 163. Nos últimos anos, Marques tem faturado vários prêmios “correndo por fora” da grande mídia. Suas reportagens investigativas bancadas por organizações do terceiro setor são um grande incentivo para quem acredita que é possível fazer jornalismo independente com qualidade. Fiz esta entrevista com ele por e-mail.
DVeras – Sobre o que é a reportagem Castelo dos Sonhos e o que ela traz de novo?
Marques Casara – A pauta foi proposta para a revista da organização não governamental Childhood Brasil, que desenvolve projetos ligados ao enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes. O objetivo seria percorrer a BR 163 e identificar locais de exploração sexual de crianças e adolescentes nas estradas, em postos de combustível e prostíbulos. O projeto foi aceito e financiado pela ONG.
Ao chegar na região Norte do Mato Grosso, a reportagem tomou outra proporção, pois identificou uma rede criminosa organizada de aliciamento de crianças e adolescentes nas cidades de Guarantã do Norte, Matupá e Peixoto Azevedo, todas localizadas próximas à divisa com o Pará. Os aliciadores levavam as adolescentes para a cidade de Castelo de Sonhos, um distrito de Altamira localizado a 1.200 km da sede do município. O lugar é de difícil acesso, o que facilita o trabalho das redes de exploração. Tem apenas 3 policiais militares e um delegado que anda a pé por falta de viatura. Uma região sem lei e onde a exploração sexual de crianças e adolescentes acontece a céu aberto. O único jornalista da cidade passou 10 dias escondido no forro de uma casa para não ser morto e hoje recebe proteção especial do governo. A reportagem serviu para alertar as autoridades e mobilizar o governo do estado a tomar providências em relação ao problema das adolescentes. Uma reportagem como essa sempre muda o cenário, alerta as autoridades e outros jornalistas.
Conte um pouco sobre como foi a apuração. Durou quanto tempo? Quais foram as principais dificuldades e surpresas?
Casara – O assunto veio à tona em conversa com uma fonte na região. A apuração durou duas semanas. Foi trabalhoso localizar as famílias das adolescentes e mais trabalhoso ainda convencer mães e avós a contar o problema. Além do medo de represálias, sempre há um certo constrangimento em admitir que uma ou mais filhas foram aliciadas por redes que lucram com a exploração sexual. As famílias moram em cidades na divisa do Mato Grosso com o Pará. Chegar a Castelo de Sonhos também foi muito trabalhoso. São 200 km de uma estrada praticamente intransponível a partir da divisa. Cerca de 40 quilômetros após a partida, estourou o amortecedor dianteiro direito. A opção era desistir ou seguir em frente. Fomos em frente, arriscamos.
Castelo de Sonhos é um lugar sem Lei, sem Poder Público, sem força policial. O lugar é muito violento. Chegamos disfarçados e passamos uma noite. Na manhã seguinte, tivemos a sorte de encontrar uma amortecedor da mesma marca e modelo do carro. Só então revelamos nossa condição de jornalistas. A partir dai, foi uma corrida contra o tempo. Em três horas visitamos os locais onde ocorrem a exploração e fizemos as entrevistas e as fotos. Precisávamos sair da cidade antes de qualquer reação. No caminho de volta fomos seguidos por cerca de 80 quilômetros por uma caminhonete ocupada por três homens. A perseguição parou quando entramos em um canteiro de obras de uma barragem que está sendo erguida na região da Serra do Navio. Paramos em frente a um restaurante. A caminhonete nos seguiu e parou a menos de 30 metros. Após alguns minutos, deu meia volta e retornou a Castelo de Sonhos. Sem sair do carro, comemos duas latas de atum com pão e guaraná. Pegamos a estrada e chegamos a Guarantã do Norte sem maiores problemas. Se não tivessemos encontrado o amortecedor certo, teríamos um pouco mais de trabalho.
Como é a logística de fazer uma reportagem investigativa na Amazônia, lidando com um tema delicado e potencialmente arriscado tanto para vítimas quanto para repórteres?
Casara – A logística é imitada pelos recursos. A apuração é limitada pelos riscos. Estávamos com um carro de passeio quando deveríamos estar em um 4×4. Isso aumenta os riscos de quebrar o carro. Também dificulta uma saída rápida em caso de necessidade. A reportagem também é limitada pelas distâncias e pelas condições das estradas, o que torna tudo mais caro e trabalhoso. O assunto é complexo, as famílias não gostam de falar sobre isso. A corrupção também dificulta a apuração e aumenta os riscos, pois autoridades ganham dinheiro acobertando criminosos.
É preciso jogar com todos esses fatores. É preciso também antever os riscos, estar sempre um passo à frente. É necessário jogar com o fator surpresa, com a rapidez e com toda a experiência acumulada. Os principais erros acontecem por causa da afobação e do medo. Os três segredos da reportagem de risco são os seguintes: 1) Mantenha a calma; 2) Mantenha a calma; 3) Mantenha a calma.
Você acredita que a reportagem de vocês pode transformar a realidade dessas adolescentes? Já transformou desde que foi publicada?
Casara - Reportagens como essa sempre mudam o cenário. Servem de alerta, inspiram novas matérias. Uma violência como essa, quando vem a tona, atrapalha a vida dos criminosos e estimula as autoridades. Algumas autoridades são estimuladas a aumentar o valor da propina, outras, honestas, são estimuladas a resolver o problema.
Este é o seu segundo prêmio Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos. O que isso representa para você como jornalista que atua com entidades do terceiro setor, sem o apoio da grande mídia?
Casara – Não me interesso mais pela grande mídia. Desde o ano 2001 atuo exclusivamente para organizações que não estão vinculadas ao jornalismo industrial. Posso fazer um jornalismo mais libertário e revolucionário. Não estou limitado pelos interesses comerciais das empresas de comunicação. Hoje, o que dá lucro para essas empresas é o jornalismo de entretenimento, mesmo quando disfarçado de “investigativo”. Desde que sai desse circuito ganhei um Prêmio Esso e dois Herzog. É um bom referencial. Estou construíndo um caminho próprio, sem holofotes mas com muita realização pessoal. Uma dica pra quem tá começando na profissão: todo jornalismo é investigativo. Se não é investigativo, não é jornalismo.
Leia também a entrevista com Tatiana Cardeal.
15
Sep09
De Dubai via SMS
Marques Casara está viajando para a China com sua mulher Tatiana Cardeal, que vai receber um prêmio internacional de fotografia. Na escala de oito horas em Dubai – onde estão neste instante – ele conversou comigo via mensagem de texto de celular.
Eu: - Conta alguma coisa daí.
Marques Casara: – Fizemos um táxi tur das 2 às 4 da manhã. No mar ilhas artificiais gigantes construídas com pedras importadas do Egito. Milhares de obras tocadas por imigrantes indianos. Palácios riquíssimos. Obras, obras, obras. Paraíso da desigualdade. Indianos erguem a cidade no deserto a 300 dólares por mês. No hotel aqui perto, diárias a 2.500, jantares a mil dólares.
- Paraíso da desigualdade? Então cês tão se sentindo quase em casa. Tou vendo Dubai no mapa. Do ladim do Irã, Arábia Saudita, Iraque, Paquistão, Índia… Nada mal pruma outra viagem.
- Cruzamos o Golfo Pérsico no início da noite de domingo. A poltrona da Emirates é uma plataforma interativa com quatro câmeras do lado de fora do avião. Centenas de filmes, música, jogos e até telefone e e-mail com cartão de crédito pra quem tem bala.
- Você compraria um terreninho em Dubai?
- Pra comprar um terreno entra na lista. A cada 17 anos escolhem os felizardos. Ap de 1 quarto em algumas ilhas a US$ 4 milhões. Para abrir um negócio, só com sócio local.
- Choque cultural?
- Aqui é cosmopolita. Miami árabe. Cidades islâmicas ao redor são hipertradicionais. Essas eu queria ver. Recebeu a foto?
- Ainda não. Tuitei: de Dubai via SMS. Um papo entrevista com Marques Casara acontecendo agora.
- Os jornais impressos vão acabar. Vi o papel digital, fosco, lindo, não cansa a vista, toca música e interage com você.
- Hahahaha. Recebi a foto. Já tá no blog.
19
Aug09
Nane e as mulheres que dizem ’sim’ pra si mesmas
Dou continuidade à série Humanos com minha amiga Eliane (Nane) Faganello de Som, catarinense de Seara que vive em Stuttgart, Alemanha, com o marido e a filha. Nane é psicóloga e faz um bonito trabalho com mulheres em situação de vulnerabilidade – principalmente as de origem turca e de outros países muçulmanos. Ao mesmo tempo em que as ajuda a se alfabetizarem em alemão, ela estimula o fortalecimento da autoestima dessas imigrantes, para que enfrentem o machismo e conquistem seu lugar no mundo. Não por acaso, usa o método Paulo Freire.
Propus entrevistá-la e ela concordou. Antes que eu fizesse as perguntas, me enviou como introdução um relato tão rico, tão impregnado de força e generosidade, que achei melhor publicar assim mesmo, em primeira pessoa. O depoimento que se segue está praticamente na íntegra. Suprimi só um ou outro detalhe agora irrelevante, como a proposta de que fizéssemos a entrevista pelo skype e a referência a férias no Brasil. “Dauro, eu não sei escrever curto e bonito, como os bons jornalistas”, me disse ela. “Também não sei pôr as vírgulas nos lugares certos e me perco em análises”. Pois eu discordo, Nane. Adorei seu texto.
p.s.: a Nane é parceirona no filme Espírito de Porco desde os primeiros passos, quando fez uma ampla pesquisa em bibliotecas alemãs. Coautora do roteiro, deu sugestões sempre pertinentes durante toda a produção e edição do documentário.
Devo dizer que não sou tão interessante como tu pensas, nem o meu trabalho tem dimensões tão grandes a ponto de eu imaginar que possa vir a melhorar o mundo. Dentro deste microuniverso em que estou envolvida faço coisas simples, que me permitem uma certa movimentação intelectual e me dão muita alegria. Sei que ajudo essas pessoas e isso me faz bem. Também eu me defronto com o novo, aprendo e me transformo. E é legal assim.Trabalho em vários lugares, ou seja, em instituições certificadas que recebem dinheiro público para projetos sociais, sobretudo na área de política de integração, que é um dos temas centrais dos últimos dez anos. O governo e a União Européia repassam o dinheiro dos projetos sociais e interculturais para essas instituições, que se encarregam de contratar pessoas e instrumentálizá-las para o trabalho. Tudo é com certificação e qualificação e acompanhado de cursos de aperfeiçoamento, certificados e coisa e tal.
Num desses lugares, trabalho com um grupo de mulheres de várias nacionalidades e religiões, como turcas muçulmanas, curdas alevitas, albanesas desorientadas e até uma brasileira mal-tratada pelo marido. São mulheres que precisam de uma certa estabilidade emocional e que ninguém, na verdade, sabe o que fazer com elas. A forma de conseguir fazer com que elas saíssem de casa foi criando um grupo de alfabetização, o que é aceito pelas famílias e legitimado pelo governo. Assim, o espaço de alfabetização é a possibilidade de sair de casa, de se defrontar com outros valores e realidades e de questionar a sua própria.
Tenho plena consciência de que muitas delas jamais abandonarão seus véus, mas também não precisam, nem essa é a proposta. O fato delas se sentirem respeitadas em sua cultura, língua e religião, faz com que aprendam a aceitar as outras culturas ao seu lado. Elas se tornam mais conscientes, tolerantes e capazes de dizer: ” Ich bin ok, wie ich bin. Du bist ok, wie du bist.” O que quer dizer: “Eu sou legal como eu sou. Você é legal como é.”
A questão central do trabalho é a alfabetização e a manutenção destas mulheres num curso ou em algum lugar onde possam se defrontar com seus próprios valores. Eu ajudo elas a pensar sobre a língua, sobre o processo de alfabetização, sobre problemas nunca tematizados e a resgatar um pouco da sua identidade.
Não posso dizer que sou alfabetizadora, porque são elas mesmas que se alfabetizam, através da leitura do seu mundo e da sua posição na história. Eu ajudo elas a se manterem no grupo, a pensarem sobre temas difíceis e complexos, como sua própria família e a realidade onde vivem. Também não posso dizer que sou psicóloga, nos modelos tradicionais. Sou uma psicóloga que trabalha com pessoas em processo de alfabetização, de aprendizagem e de reestruturação da sua própria identidade.
O grupo é bem heterogêneo e da análise da realidade individual e grupal surgem palavras para escrever (e elas escrevem desesperadamente, Dauro!). As palavras selecionadas, resultantes de nossas conversas são escritas e trabalhadas, como no método Paulo Freire e aos poucos elas conseguem ler cartazes, livros e a sua própria vida.
Normalmente surgem temas pesados para conversas, tais como Gewalt (violência), Wut (raiva), schlagen (bater) e nas últimas semanas surgiram questões belíssimas: – por que só as mulheres muçulmanas não podem casar quando o marido morre? Ou ainda, por que os homens podem casar de novo, mas as mulheres não? Por que as mulheres muçulmanas não podem freqüentar piscinas mistas, mas os homens sim?
Trabalho com este grupo duas vezes por semana e muitas das mulheres têm “desabrochado”, dia por dia, como diria o padre Pinto. Festejamos o carnaval com música árabe e saí cambaleando de tanto comer daqueles charutinhos de folha de parreira recheados com carne de ovelha, mas confesso que nunca vi aquelas mulheres tão felizes.
Uma delas perdeu a família no Iraque, trata um câncer de mama e é tiranizada pelo marido, que a controla pelo celular, chamando-a para preparar chás e coisas a fins. Na semana passada ela conseguiu dizer “não” a ele, pelo telefone, de uma forma tão serena e educada que as outras aplaudiram. Eu sinalizei, no final, que ela estava dizendo “sim” para ela mesma. Daí elas escolheram uma palavra bem bonita para trabalhar nos próximos dias: respeito.
Um abraço bem grande,
nane
11
May09
Entrevista sobre ‘Espírito de Porco’ no Mídia Mais
A repórter Gina Pontes, do jornal Mídia Mais, de Concórdia (SC), publicou entrevista comigo e o Chico Faganello sobre o documentário Espírito de Porco, que finalizamos agora e devemos lançar em junho. Saiu dia 8 na edição impressa e hoje no site. Um trecho:
(…)
MM – O porco (seus dejetos) é visto como o grande causador da poluição dos rios na região. O filme quer mostrar que a culpa não é só dele e sim dos humanos?
Chico: Não existe uma idéia de culpa, mas de responsabilidade direta, uma vez que o homem controla o porco. O porco faz o que deve ser feito na suinocultura industrial.
Dauro: Existe uma cadeia de responsabilidades neste modelo de atividade produtiva, e ela gera consequências. O consumidor final também faz parte da história, mesmo que não tenha consciência clara de seu papel e da sua força.
MM – Afinal, o documentário quer fazer com que as pessoas reflitam sobre a causa porco-poluição-desastre ambiental? Ou quer apenas divertir e mostrar o outro lado?
Chico: Os dois. O porco do filme não pede que as pessoas vejam as coisas como ele vê, apenas quer que o seu ponto de vista seja respeitado. E às vezes tentamos um tom de comédia, porque tanto humanos como porcos são bichos engraçados.
Dauro: O protagonista sintetiza essa dupla abordagem quando se refere a um chiste popular: “Se não fosse o porco não haveria merda nenhuma na região”.
MM – O documentário foi selecionado entre 556 obras de 51 países para estar na mostra oficial do Festival Internacional de Cinema Ambiental, que acontecerá em Goiás entre 21 e 26 de junho. Como é já começar a ter o reconhecimento de um trabalho bem feito?
Chico: Ficamos felizes por acreditar que, finalmente, o porco será ouvido.
Dauro: É uma rica oportunidade de debater o tema por diversos ângulos, como o bem-estar animal e a proteção dos mananciais.
(…)
14
Apr09
Trabalhadores da cana (6)
Sexta parte da série de reportagens e entrevistas sobre os impactos socioambientais da atividade sucroalcooleira no Brasil.
“Brasil precisa exigir benefícios
sociais dos investidores em etanol”
O Brasil comete um erro histórico ao não definir regras que canalizem recursos dos investidores em etanol para o desenvolvimento nacional, diz economista
A expansão dos investimentos externos no etanol brasileiro deveria ser acompanhada de contrapartidas sociais, estabelecidas pelo governo por meio de regulamentação ou mesmo tributação. Quem opina é o economista Licio da Costa Raimundo, professor da Facamp (Faculdades de Campinas, SP).
Para ele, o Brasil comete um erro histórico ao não definir regras que canalizem recursos dos investidores em etanol para o desenvolvimento nacional, como, por exemplo, na área de pesquisa tecnológica: “Sem essas regras, o país ficará apenas com os aspectos negativos do processo, como os problemas sociais e ambientais”. [entrevista realizada em junho de 2007]
Na sua opinião, o grande volume de investimentos estrangeiros para a indústria de etanol no Brasil vai se traduzir em avanços trabalhistas, sociais e ambientais?
Licio da Costa Raimundo – Certamente não. Poucas são as atividades produtivas no Brasil que exploram tanto o trabalhador e que geram tantos malefícios sociais quanto a indústria da cana, em suas várias vertentes. A única mudança sensível a ser observada nos próximos anos, provavelmente, é uma redução na prática das queimadas como fruto da maior mecanização da colheita, o que pode trazer benefícios ambientais. Não obstante, as “práticas” do setor, como, por exemplo, o uso do “triângulo” para medir o volume de cana cortada e suas inconsistências, sempre em prejuízo do trabalhador; a explosão populacional em pequenas cidades que não têm infra-estrutura para tal e os vários problemas sociais que a seguem, como o crescimento da prostituição (infantil, inclusive) e das taxas de homicídio e, finalmente, os danos ambientais de grande envergadura resultantes da larga utilização de herbicidas que possibilitam a antecipação da colheita, por exemplo, vão continuar existindo e provavelmente sendo ampliados com a ampliação do volume de capitais investidos nesse setor.
Por que, na sua avaliação, o Brasil está cometendo um “erro clássico” nas políticas nacionais de desenvolvimento quanto ao etanol?
Licio da Costa Raimundo – Porque não nos organizamos socialmente para receber os efeitos de mudanças no capitalismo mundial que já estavam anunciadas há algum tempo. Aqui no Brasil, a partir dos anos 90, nós cedemos à dominância de uma parceria inusitada: a alta finança e os grupos sociais que melhor representam o atraso. Quem são os investidores que estão despejando milhões e milhões na produção do etanol, hoje? Fundos de investimento, nacionais e estrangeiros. Recebemos, como nação, o impacto deletério (para os interesses do trabalho e do meio ambiente) desses novos atores de braços abertos, sem resistência. Eles chegaram e tomaram conta. Em outros países há resistência, inclusive por parte do Estado. Aqui fomos fracos para resistir, o que é uma aparente contradição com um país potencialmente tão rico como o nosso. (…)
Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
Arte + foto: Dauro Veras



A Raúl Rodon, de Panamá, le gustaría saber si usted cree que la gran cantidad de información inútil disponible a través de internet nos llevará a un nuevo oscurantismo.






