Defesa do meio ambiente, um projeto de vida

Germano Woehl Júnior, fundador do Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade.

Germano Woehl Júnior, fundador do Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade.

O Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade, com sede em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, foi criado em 2003 para dar continuidade institucional ao trabalho voluntário de Elza Nishimura Woehl e Germano Woehl Jr. Desde 1998 o casal desenvolve projetos de educação ambiental junto com as escolas da rede pública. Em trilhas guiadas na floresta, crianças e adolescentes aprendem sobre a importância da preservação da biodiversidade e dos mananciais.

“Nossa dedicação à causa ambiental é um projeto de vida e não um meio de vida”, diz Germano Woehl Jr., que é físico e vive do salário de pesquisador. O trabalho deles tem recebido o reconhecimento de empresas do porte da Petrobras, Johnson&Johnson e organizações como a Bolsa de Valores Sociais e Ambientais (BVSA), uma plataforma de captação de recursos para organizações do terceiro setor, vinculada à BM&FBovespa.

Entrevistei Germano por e-mail para uma publicação especial do jornal Valor Econômico sobre biodiversidade. Por motivo de espaço, usei só uma parte das informações, então compartilho aqui as perguntas e respostas da entrevista praticamente na íntegra.

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Qual foi sua motivação para construir o Instituto Rã-bugio?

Germano Woehl Jr. - O esforço para defender a natureza teve inicio na minha infância e culminou com a criação de uma ong ambientalista, no dia 5 de abril de 2003, o Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade. É uma entidade sem fins lucrativos, sediada em Jaraguá do Sul, SC, que foi a institucionalização do nosso trabalho voluntário de educação ambiental nas escolas. Focamos na conscientização das crianças e adolescentes sobre a importância dos serviços ambientais das áreas remanescentes de Mata Atlântica, sobretudo na proteção dos mananciais e, o mais importante de tudo, da riquíssima biodiversidade. Os anfíbios são uma espécie de bandeira do nosso projeto.

Que vitórias você considera mais expressivas?

GWJ – Os resultados esperados das nossas ações são de longo prazo, mas já colecionados vitórias importantes que ficarão para a história da conservação da natureza do Brasil. Já atendemos mais de 30 mil estudantes e professores em trilhas interpretativas da natureza (atividades práticas ao ar livre). Salvamos da devastação milhares de hectares de Mata Atlântica e consequentemente milhares de aves, mamíferos e outras formas de vida que vivem nestas áreas. O forte crescimento e consolidação o Instituto Rã-bugio também é uma vitória importante. Uma conquista extraordinária foi o ex-diretor superintendente da empresa Weg, Sr. Moacyr Sens, ter aceitado ser o presidente do conselho diretor. Ele está participando ativamente da gestão da ong. Estamos também conquistando a confiança da sociedade brasileira. Um dos indicadores é o grande número de pessoas que espontaneamente fazem doações em dinheiro para o Instituto Rã-bugio através do site. Isso nos dá muita motivação e aumenta também nossa responsabilidade de defender com vigor a natureza.

Elza Nishimura Woehl com crianças na Mata Atlântica. Foto: Germano Woehl Jr.

Como foi negociado o patrocínio da Bovespa e da Johnson &Johnson nos projetos de educação ambiental da sua ong?

GWJ – São os frutos de um trabalho honesto, realizado com muita seriedade e dedicação. Nossas ações são baseadas em conhecimentos científicos, seguindo a orientação de especialistas. Só ensinamos aquilo que tem fundamento científico e princípios éticos, como o respeito às outras formas de vida. A Fundação Avina, do empresário suíço Stephan Schmidheiny, que apoiou a criação e fortalecimento institucional do Rã-bugio, foi fundamental para a conquista destes patrocínios. Além do apoio financeiro para o funcionamento da ong, a Avina contratou os serviços de empresas especializadas para a capacitação na área de gestão do terceiro setor, como a parte de gestão financeira. Contratou também uma empresa de auditoria para analisar toda a prestação de contas e emitir um parecer, visando dar transparência e segurança para os patrocinadores. Tudo isso facilita a aprovação dos projetos de patrocínios. Em 2006 conquistamos também o patrocínio da Petrobras, através da seleção pública de projetos do programa Petrobras Ambiental 2006. Nosso projeto foi um dos 36 selecionados dentre os 900 inscritos de todo o Brasil.

O Instituto tem novos projetos para os quais espera obter o apoio de outras empresas?

GWJ – Sim. O tempo todo estamos buscando patrocínios de empresas e doações de pessoas físicas. Só podemos cumprir nossa missão de salvar a biodiversidade da Mata Atlântica, patrimônio de todos os brasileiros, com estes recursos financeiros das empresas para manter funcionários e estagiários, dar treinamento a eles, manter a ong, pagar fretamento de ônibus para as atividades práticas com os estudantes das escolas públicas etc. Atualmente estamos concluindo as obras de um centro da natureza, que denominamos de Centro Interpretativo da Mata Atlântica. Boa parte destas instalações foram construídas com recursos da Fundação Avina, do patrocínio da Petrobras (Seleção Pública através do Programa Petrobras Ambiental 2006), repasse do Ministério Público de Santa Catarina e doações de pessoas físicas e algumas pequenas empresas de Jaraguá do Sul. Para finalizar a obra, a Câmara Municipal de Jaraguá do Sul aprovou recentemente uma subvenção de recursos. Além das atividades de educação ambiental, o CIMA funcionará também como um centro de difusão da ciência. Muitas atividades interativas com a natureza nada mais são do que uma aula de laboratório de química e física, o que proporciona um benefício extraordinário para a sociedade, pois estamos contribuindo para a formação profissional dos estudantes envolvidos em nossos projetos.

Elza Nishimura Woehl mostra rã a crianças. Foto: Germano Woehl Jr.

Que argumentos você utiliza para tentar convencer empresários a apoiar a preservação da biodiversidade na Mata Atlântica?

GWJ – A nossa história (minha e da Elza) é o principal argumento. Embora o Instituto Rã-bugio seja uma das maiores ongs ambientalistas de Santa Catarina e esteja crescendo muito, somos ainda muito pequenos e não temos condições manter em nossos quadros profissionais de alto nível, especializados em abordar os empresários como as grandes ongs estrangeiras fazem. Então, nossa única estratégia é mostrar para esses empresários que podemos fazer melhor porque somos brasileiros e bem intencionados, nos dedicamos intensamente e tudo o que fazemos é por amor à natureza do Brasil. É um trabalho feito de coração para defender os interesses de todos os brasileiros, ou seja, da coletividade. Não recebemos remuneração da ong. Nossa fonte de renda vem de meu salário na função de pesquisador titular na área de lasers e fibras ópticas do Instituto de Estudos Avançados do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial do Comando da Aeronáutica, em São José dos Campos (SP). Nossa dedicação à causa ambiental é um projeto de vida e não um meio de vida.

Na sua avaliação, atualmente existe mais sensibilidade no meio corporativo para o tema da preservação ambiental?

GWJ – Sim, sem dúvida alguma. Muitas empresas não pensam em usar a questão ambiental apenas como uma estratégia de marketing. Como no caso do patrocínio da Johnson & Johnson, a empresa exigiu indicadores de que nosso projeto funciona, ou seja, garantias de que o dinheiro investido realmente contribui para salvar o que resta de Mata Atlântica e da biodiversidade.

Em suas conversas com as crianças e adolescentes que participam dos projetos, quais são as manifestações que mais lhe chamam a atenção?

GWJ – Após as atividades, os estudantes são estimulados pelos professores a elaborar relatórios sobre o que aprenderam. Além disso, são aplicados também testes de verificação para alguns grupos. Estes relatórios nos surpreendem e são muito estimulantes. Revelam que estamos no caminho certo. Os estudantes estão entendendo claramente a nossa mensagem, como por exemplo: desmatou, acabou (os animais não ressuscitam); a destruição é para sempre. Os desafios são grandes porque a eficácia do nosso trabalho para estimular o interesse dos estudantes pela conservação da natureza depende da qualidade da educação proporcionada pelas escolas públicas. Por outro lado, nosso projeto gera também outro grande benefício para a sociedade, que é justamente contribuir para melhorar esta qualidade ao promover a difusão da ciência e mostrar como um ecossistema funciona na prática.

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Publicado em 22 de setembro de 2010.

Crédito das fotos (exceto a primeira): Germano Woehl Jr.