Posts com a tag ‘livros’

27

dez

10

DVeras Awards 2010: livros

Poucas e boas leituras em 2010. Apontar três destaques é tarefa árdua. Entre eles podiam estar os ótimos “road-books filosóficos” Um adivinho me disse, de Tiziano Terzani (indicado pela @ladyrasta) e Teoria da Viagem, de Michel Onfray, assim como o hilário infanto-juvenil A volta às aulas do Pequeno Nicolau. Mas escolhi outros três, adotando como critérios principais o impacto que as obras provocaram em mim, a importância dos temas e a qualidade das narrativas. Os finalistas são:

  • As benevolentes (Jonathan Littell)
  • O espírito do zen (Alan Watts)
  • Pobre nação: as guerras do Líbano no século XX (Robert Fisk)

As benevolentes me foi indicado pelo amigo Yan Boechat, com quem compartilho o interesse por histórias da Segunda Guerra Mundial. O romance narra, em primeira pessoa, a trajetória de um oficial SS, gay, que participa da campanha da Rússia e depois atua em campos de concentração. Um tratado sobre cinismo, loucura coletiva e personificação do mal.

O espírito do zen é um livro fininho, com uma densidade e poder de síntese impressionantes. Indicado pra quem busca as primeiras informações básicas sobre o zen – cuja compreensão no sentido mais profundo não se dá por meio do intelecto. Abriu-me as portas para novas descobertas que quero fazer nessa área.

Pobre nação é uma magistral aula de jornalismo sobre o Oriente Médio. O livro aborda os acontecimentos do Líbano no século 20, em especial nas décadas de 1970 e 80. Guerra civil entre cristãos e muçulmanos, conflito com palestinos, invasão síria, invasão israelense com apoio americano… Uma sucessão banhos de sangue cometidos em nome de conceitos fugidios como paz, segurança e combate ao “terrorismo”. Não é um livro fácil de ler. Nem tanto pelas suas quase mil páginas, mas pela intensidade e precisão às vezes dolorida – mas nunca com pieguismo – com que o jornalista faz a História passar diante dos olhos do leitor. Confesso que parei algumas vezes para intercalá-lo com leituras mais amenas, mas o volume estava sempre por perto, exercendo forte atração.

Robert Fisk morou anos em Beirute e conhece bem aquela realidade, que cobriu para a imprensa britânica enfrentando cotidianamente o risco de vida. Ao publicar seu relato detalhado sobre a tragédia libanesa e o conflito israelense-palestino, prestou tributo valioso aos milhares de inocentes que morreram e aos que continuam oprimidos. Deu também uma contribuição inestimável para que a verdade prevaleça acima dos factoides. Por esses motivos, Pobre nação é o escolhido para receber o DVeras Awards de melhor livro lido em 2010.

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06

out

10

A festa no céu

A festa no céu / The party in the sky. Texto de Antonio Rocha e ilustrações de Cedric Dawson

O amigo e grande mímico/contador de histórias Antonio Rocha, carioca que mora há duas décadas no Maine, EUA, acaba de estrear como escritor de livros infantis. Ele lançou a edição bilíngue A festa no céu/The party in the sky, adaptação de uma história popular que povoou minha imaginação na infância.

O livro é ilustrado por Cedrick Dawson, que mora na Flórida. Eles não se conhecem pessoalmente e fizeram todo o trabalho se comunicando a distância. “Foi um grande aprendizado”, me disse Antonio, que ficou com vontade de fazer outros.

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17

set

10

Mais 15 livros em 15 minutos

A @anitadutra não resistiu e fez uma lista “remix” com outros 15 livros marcantes que ficaram de fora da sua primeira lista, pra que não venham mais puxar no pé dela durante o sono. Então tomo a liberdade de citar mais 15 que também podiam ter entrado na minha primeira:

1. Rayuela (Cortázar)

2. Amor nos tempos do cólera (Garcia Marquez)

3. Sagarana (Guimarães Rosa)

4. Viva o povo brasileiro (João Ubaldo Ribeiro)

5. Meu último suspiro (Luis Buñuel com Jean-Claude Charrière)

6. As flores do mal (Baudelaire)

7. Luna caliente (Mempo Giardinelli)

8. Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)

9. Nada de novo no front (Eric Maria Remarque)

10. Olhai os lírios do campo (Érico Verissimo)

11. Feliz ano novo (Rubem Fonseca)

12. O nome da rosa (Umberto Eco)

13. Conversa na catedral (Vargas Llosa)

14. O aleph (Jorge Luis Borges)

15. A invenção da solidão (Paul Auster)

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15

set

10

15 livros em 15 minutos

Mais um meme que respondi no Facebook. Mesmo esquema: escreva a nota com 15 livros marcantes, sem pensar muito, e passe nas marcações a 15 amigos, incluindo meu nome.

  • Grande sertão – veredas (Guimarães Rosa)
  • O fio da navalha (Somerset Maugham)
  • Pergunte ao pó (John Fante)
  • Misto-quente (Charles Bukowski)
  • O estrangeiro (Albert Camus)
  • O jogador (Dostoievski)
  • O pequeno príncipe (Saint-Éxupery)
  • Encontro marcado (Fernando Sabino)
  • Paula (Isabel Allende)
  • Histórias extraordinárias (Edgar Allan Poe)
  • Huckleberry Finn (Mark Twain)
  • O falecido Mattia Pascal (Luigi Pirandello)
  • Crônica de uma morte anunciada (García Márquez)
  • On the road (Jack Kerouac)
  • Relato de um certo oriente (Milton Hatoum)

“Essa lista vale um post no blog pra comentar as escolhas”, escrevi lá. Há muitas diferenças entre estilos e temas. Em comum, a emoção provocada pela leitura. E, me dou conta agora, a busca do autoconhecimento – às vezes de maneiras tortuosas. O romance de Rosa é uma catedral, das melhores obras que a literatura mundial já produziu. Os contos de Poe eu conheci na adolescência, enquanto aprendia inglês, e me impressionaram. Paula, obra forte que só o amor+dor de mãe pode produzir. Mattia Pascal e o desejo de se reinventar também me impactaram na adolescência. Ouvi ecos da Amazônia de minha infância no romance de Hatoum. Misto-quente e Pergunte ao pó têm uma simplicidade enganosa, mas foram resultado de uma hábil carpintaria narrativa. E que protagonistas! Aliás, o Larry de O fio da navalha é um personagem especial.

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06

ago

10

Um adivinho me disse

Terminei hoje, depois de uma pianíssima leitura, Um adivinho me disse, de Tiziano Terzani, que a Lady Rasta recomendou e a Laura encontrou a preço de banana numa liquidação de livraria. É o tipo de narrativa que, quando a gente chega na última página, deseja que tivesse uma parte 2, a missão. Terzani (1938-1994), jornalista italiano que passou boa parte da vida na Ásia, conta de suas mochiladas por terra e mar no continente em 1993, depois que um adivinho o advertiu que aquele seria um ano perigosíssimo pra viajar de avião. Assim, de trem, navio, carro, riquixá, lombo de mula e a pé, ele sai de sua casa em Bangcoc para uma aventura que envolve não só a descoberta de povos e paisagens, como também um mergulho na própria existência.

Da conservadora Malásia à ditadura high-tech de Cingapura; de ilhas perdidas na Indonésia à efervescência de gente na China; das planícies mongólicas à estepe russa, ele nos convida a compartilhar belezas que, nestes tempos de turismo superficial, só os viajantes sem compromisso com o relógio têm tempo de encontrar. Pelo caminho, aproveita pra consultar os mais diversos tipos de adivinhos, alguns claramente charlatães, outros, possuidores de algum tipo de poder que os faz revelar coisas impressionantes sobre a vida dele. Há alguns momentos memoráveis de jornalismo, como o relato sobre o encontro com trabalhadores escravos acorrentados num campo cambojano, e os dias que passou no “Triângulo de Ouro” – fonte da maior parte da heroína consumida no mundo, entre Tailândia e Birmânia – como convidado do chefão do tráfico.

Terzani faz reflexões interessantes e melancólicas sobre a transformação da tradicional Ásia em uma sociedade ávida por bens de consumo, que se espelha no modo de vida ocidental e assim vai perdendo suas raízes. O livro é também uma forma de reencontro consigo mesmo. Ele revela que sofreu de depressão quando vivia no Japão, e que isso o levou a trocar um cotidiano chato e previsível pelas emoções da profissão de jornalista “on the road”. Também conta sobre sua descoberta da meditação vippasanaa (que Eliane Brum descreveu em brilhante reportagem na revista Época em janeiro de 2008), com um mestre e um assistente inusitados: um ex-agente da CIA e um general tailandês aposentado.

Um adivinho me disse foi pra mim uma espécie de continuação de jornada: em 1993, mesmo ano em que o jornalista vivia sua história, viajei a trabalho por seis países asiáticos durante três semanas. Tive conversas densas com pessoas que conheciam profundamente os países que percorri, mas o tempo foi rápido demais pra mergulhar com calma naquelas culturas. Ficou a lembrança de um impactante choque cultural e um gosto de “quero mais”. Terzani satisfez parte dessa sede com talento e sensibilidade. Só que deixou em mim outra vontade: ler outros livros dele.

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07

jul

10

Anotações de leitura: inventar uma inocência

Uma das coisas encantadoras da leitura é encontrar textos que refletem, com brilho, ideias sobre as quais já matutei de maneira tosca. É o caso destes trechos em que o filósofo francês Michel Onfray se refere aos preconceitos sobre outros povos. Como antídoto, ele propõe ao viajante “deixar-se preencher pelo líquido local”; metaforicamente, é claro, mas não consigo deixar de associar a deliciosos momentos introspectivos que passei bebericando vinho ou cerveja (ou pisco, chicha, aquavit) em algum bar de lugar desconhecido, enquanto observava a multidão fluir e pensava na futilidade que é rotular as pessoas. Recomendo este livro a todos os viajantes.

Encerrar povos e países em tradições reduzidas, elas mesmas, a duas ou três pobres ideias é confortador, pois sempre tranquiliza submeter a inapreensível multiplicidade à unidade facilmente controlável: assim, africanos dotados de ritmo, chineses fanáticos por comércio, asiáticos em geral talentosos para a dissimulação, japoneses polidos ao extremo, alemães obcecados pela ordem, suíços bem conhecidos por sua limpeza, franceses arrogantes, ingleses egocêntricos, espanhóis orgulhosos e fascinados pela morte, italianos fúteis, turcos desconfiados, canadenses hospitaleiros, russos associados a um senso agudo de fatalidade, brasileiros hedonistas, argentinos roídos pelo ressentimento e pela melancolia, enquanto os magrebinos [africanos do norte] se caracterizam, evidentemente, pela hipocrisia e a delinquência.

Lançados indiscriminadamente, esses lugares-comuns permitem explicar – pelo menos é o que se crê – o jazz americano e as finanças pós-maoístas, a genealogia do fascismo europeu e a legendária neutralidade helvética, a insularidade genética dos anglo-saxões e a sangrenta tourada ibérica, a exceção nacional francesa e a dramática máfia moscovita depois da Glasnost, a imigração à América do Norte, terra de acolhida dos aventureiros e dos colonos, o corpo alegre das praias de Copacabana e a longa e glacial comoção do tango nas caves de Buenos Aires, mas também as taxas de criminalidade elevadas nos países europeus, pouco importando a verdade, contanto que haja uma aparência de sentido. Se fosse feita uma lista não-exaustiva dos julgamentos e das opiniões de uns sobre os outros, quem sairia incólume?

Um dos riscos da viagem consiste em partir para verificar por si mesmo o quanto o país visitado corresponde à ideia que se faz dele. Entre o desejo de encontrar os lugares-comuns encarnados que ocupavam o espírito e o de lançar-se numa terra absolutamente virgem, existe uma meia medida: ela supõe uma arte de viajar inspirada pelo perspectivismo nietzschiano – nada de verdades absolutas, mas verdades relativas, nada de padrão métrico ideológico, metafísico ou ontológico para medir as outras civilizações, nada de instrumentos comparativos que imponham a leitura de um lugar com os referenciais de um outro, mas a vontade de deixar-se preencher pelo líquido local, à maneira dos vasos comunicantes.

Michel Onfray, Teoria da viagem: poética da geografia, p. 55-56, L&PM, 2009.

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11

jun

10

Elogio do sotaque

Nesta segunda, 14/6, às 18h30, no auditório da Reitoria da UFSC, o escritor argentino Alan Pauls (autor de O passado, levado ao cinema por Hector Babenco) profere a conferência Elogio do sotaque. Este vai ser o quarto encontro do ciclo O Pensamento do Século XXI deste ano, que já trouxe o italiano Emanuele Coccia, a francesa Liliane Meffre e o norte-americano Christopher Dunn para debater questões emergentes da arte e do pensamento de vanguarda contemporâneos, informa a Agência de Comunicação da UFSC: “Ganhador do conceituado prêmio Herralde, de literatura em língua espanhola, com ´O passado`, Pauls tem também ´História do Pranto` traduzido no Brasil (pela Cosac Naify, em 2008) e uma obra breve, porém muito aclamada pela crítica internacional, com 11 títulos, vários deles traduzidos para o inglês, francês, alemão e outros idiomas”.

Não faço ideia do que ele vai falar, mas já me fisgou pelo título.

Mais informações aqui.

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07

jun

10

Anotações de leitura: organizar a memória

Entre a ausência de vestígio e seu excesso, a fixação dos instantes fortes e raros transforma o tempo longo do acontecimento num tempo curto e denso: o do advento estético. Trata-se de, com longas durações, produzir emoções breves e tempo concentrado no qual se comprima o máximo de emoções experimentadas pelo corpo. Um poem bem-sucedido, uma foto expressiva, uma página que fica supõem a coincidência absoluta entre a experiênca vivida, realizada, e a recordação reativada, sempre disponível não obstante o passar do tempo. De uma viagem só deveriam restar uns três ou quatro sinais, cinco ou seis, não mais que isso. Na verdade, não mais que os pontos cardeais necessários à orientação.

Michel Onfray, Teoria da viagem, p. 53.

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31

mai

10

Leituras em família

Estamos vivendo uma temporada maravilhosa aqui em casa: o despertar da paixão pela leitura nos dois meninos, em diferentes fases de desenvolvimento – alfabetização e pré-escola. É uma onda boa que chega de mansinho, sem sobressaltos, sem lembrança exata de quando começou, assim como a mudança das estações. Acontece com uma simplicidade que encanta. Às vezes me pego encarnando o papel de pai típico, ao pedir pro Miguel apagar a luz do quarto que é hora de dormir (na real sempre fui flexível com isso, acho que a hora ideal é quando dá sono, mas o dormir muito tarde tem suas inconveniências práticas). E ele, sem tirar os olhos do mangá do Naruto que lê na cama, responde, “Espera um pouco”. Debruçado no tapete, Bruno desenha letras aparentemente ao acaso, mas que pra ele fazem todo sentido. Depois recorta papeizinhos e cola com fita adesiva pelas paredes. Às vezes simplifica o processo e escreve com caneta diretamente nelas.

Os sinais se multiplicam, sutis e eloquentes. Há cada vez mais gibis da Turma da Mônica no quarto deles e no banheiro. Nossas visitas a bibliotecas e livrarias são um programa muito apreciado, comparável a ir aos parquinhos ou à praia. Aquela bagunça de livros parcialmente lidos pelos cantos da casa já não é mais privilégio dos adultos. Uma cena bonita de se ver à noite é Miguel lendo livros em voz alta pro Bruno na cama. A tevê tem deixado de oferecer tantos encantos e fica cada vez mais tempo desligada. O segredo disso tudo? Não há segredo, esse é o fato. É o bom e velho método da educação pelo exemplo. Crianças que têm pais leitores tendem a se tornar boas leitoras. Esta é uma das heranças mais preciosas que podemos deixar pra eles.

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26

mai

10

Crime e castigo, camarão e cuscuz

Ontem foi dia de boas aquisições livrescas. Comprei por impulso na banca de revista o clássico Crime e Castigo, de Dostoievski, por R$ 14,90. Mais barato que meio quilo de camarão graúdo. Ao pensar nisso, eu passava na frente duma peixaria. Parei e comprei camarão, que preparei com cuscuz pro jantar.

Ganhei da Laura Teoria da Viagem, de Michel Onfray (já escrevi aqui sobre outro livro desse filósofo francês), que o Fabrício Boppré tinha me indicado. E ela comprou pros meninos, num balaio de promoções da Livros & Livros, um de Manoel de Barros. Já temos o que fazer nos intervalos dos jogos da Copa.

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