01
Dec13
DVeras Awards 2013: livros
Chegou mais um dezembro. O blog mantém a tradição e apresenta a lista de queridinhos do ano em várias categorias. Pra quem toma contato com o DVeras Awards pela primeira vez, segue um resumo dos critérios, pelo que me lembro:
- O único responsável pelas escolhas sou eu mesmo, ditador benevolente deste blog.
- Em caso de empate, é utilizado o método científico do arremesso de moeda para o alto.
- O prêmio aos contemplados é a visibilidade entre meus 17 leitores, todos formadores de opinião.
“No agitado Japão dos anos 60 o jovem Toru Watanabe mistura uma existência sem perspectivas às primeiras questões filosóficas e afetivas ao se envolver com a namorada de seu melhor amigo recém falecido, [com] uma estudante de ideias libertárias e [com] uma mulher mais velha. Repleto de referências pop com citações aos Beatles, Bill Evans, Miles Davis, literatura norte-americana, cinema e cultura europeia, o romance de Murakami cria um delicado – e por vezes cruel – retrato da geração que passou quebrando tabus nos anos 60 e 70 e viu todo um sonho ruim [sic; ruir, né?] nas décadas seguintes.”
“Mas o tempo… como o tempo primeiro nos prende e depois nos confunde. Nós achamos que estávamos sendo maduros quando só estávamos sendo prudentes. Nós imaginamos que estávamos sendo responsáveis, mas estávamos sendo apenas covardes. O que chamamos de realismo era apenas uma forma de evitar as coisas em vez de encará-las. O tempo… nos dá tempo suficiente para que nossas decisões mais fundamentadas pareçam hesitações, nossas certezas, meros caprichos.”~“Eu sem dúvida acredito que todos nós sofremos traumas, de um jeito ou de outro. Como não sofreríamos, a não ser num mundo com pais, irmãos, vizinhos e amigos perfeitos? E há também a questão, da qual tanta coisa depende, de como nós reagimos ao trauma: se o admitimos ou reprimimos, e como ele afeta a nossa forma de lidar com os outros. Alguns admitem o trauma e tentam atenuá-lo; alguns passam a vida tentando ajudar outras pessoas que foram traumatizadas; e há aqueles cuja principal preocupação é evitar sofrer mais traumas, a qualquer custo. E estes é que são cruéis, é deles que temos que nos precaver”.~“Naquela época, nos imaginávamos presos numa espécie de gaiola, esperando para sermos soltos na vida. E quando esse momento chegasse, as nossas vidas – e o próprio tempo – iriam se acelerar. Como poderíamos saber que nossas vidas já tinham começado, que algum benefício já havia sido obtido, algum dano já havia sido causado? E, também, que seríamos soltos numa gaiola apenas maior, cujas fronteiras a princípio seriam imperceptíveis.”
01
Mar13
Vida de Escritor
Vida de Escritor by Gay Talese
My rating: 4 of 5 stars
Li e recomendo Vida de escritor, de Gay Talese. É uma combinação de autobiografia com algumas histórias levantadas por ele que terminaram não sendo publicadas. Ou por rejeição do editor, ou porque ele não sabia o caminho a tomar e decidiu abandonar o projeto. Talese tem fascínio por personagens anônimos e pelos que fracassam.
Passou meses na China pesquisando sobre uma jogadora de futebol que perdeu um pênalti na final da Copa do Mundo, numa partida que deu o título aos EUA. Durante anos, coletou informações e fez entrevistas sobre um prédio antigo em NY, onde diversos restaurantes bacanas abriram as portas e faliram em poucos meses. Também acompanhou de perto o caso de Lorena Bobbit, a equatoriana que decepou o pênis do marido. O resultado é um painel que revela muito sobre o método de trabalho dele, suas obsessões, bloqueios diante da página em branco e a paixão pela reportagem.
Do posfácio de Mario Sergio Conti: “Vida de escritor traz precisamente o que o título enuncia: um relato do calvário. … O livro não tem nada de condescendente nem conformista. Os seus assuntos são o trabalho e o fracasso. … Ao mostrar as frustrações do relato de apurar e relatar, Talese desmistifica o jornalismo”.
Conti conta ainda que Vida de Escritor, de 2006, foi o livro de Talese que teve pior recepção nos Estados Unidos. As restrições foram de duas ordens: ele seria um pot-pourri com restos de livros que goraram; e a sua construção era forçada e frágil. Conti diz que não há o que discutir quanto à primeira ressalva, mas a restrição não se sustenta, pois considera a construção do livro “altamente requintada” – labiríntica, autoquestionadora, fragmentada.
24
Dec12
DVeras Awards 2012: livros
Poucas e boas leituras em 2012. Vamos à retrospectiva. Em janeiro, ainda sob efeito estupefaciante de uma viagem ao sul da Argentina, devorei Fin de novela en Patagônia, de Mempo Giardinelli, de quem eu já conhecia Revolução de bicicleta e Luna caliente. Fevereiro me encontrou às voltas com Sir Richard Francis Burton, de Edward Rice, biografia do explorador, escritor e agente secreto britânico que, entre outras façanhas, foi o primeiro ocidental a fazer a peregrinação a Meca, traduziu Mil e Uma Noites e o Kama-Sutra. Em março, li o excelente livreto Wabi-sabi for Artists, Designers, Poets & Philosophers (Leonard Koren), emprestado pelo Fabrício Boppré e inspiração estética pro design deste blog. O caderno de Maya (Isabel Allende) está longe de ser o melhor da escritora chilena, mas gostei porque se passa na Ilha de Chiloé, que visitamos alguns meses antes. Junho foi um mês de dois tesouros: Coisas frágeis, ótimo livro de contos fantásticos de Neil Gaiman, e o clássico Walden, do “avô” dos ambientalistas, H.D. Thoreau.
O segundo semestre começou com o excelente A elegância do ouriço, da francesa Muriel Barbery, sobre uma culta zeladora de um prédio de classe alta em Paris, que se passa por ignorante, e seu relacionamento com uma menina que planeja se suicidar. Virou filme, que ainda não vi. Seguiram-se quatro romances policiais de Jo Nesbø e seu detetive Harry Hole – uma grata surpresa neste gênero, vinda da Noruega (dica da Regininha Carvalho e dos meus amigos noruegueses). Um livro visceral foi Gomorra, reportagem que colocou o jornalista italiano Roberto Saviano na lista dos jurados de morte da Camorra (merci Michel et Cecilia). Gostei muito de La suma de los dias, memórias de Isabel Allende. Uma das melhores surpresas literárias do ano para mim foi Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, romance ao mesmo tempo intimista e com pitadas de suspense (dica do Chico Faganello). Dele eu já tinha lido o ótimo Mãos de cavalo. Este novo romance reforçou minha impressão de que estamos diante de um grande talento e que ainda vamos ouvir falar muito dele.
Meus hábitos anárquicos e o pique de trabalho me impediram de ler vários livros de amigos, que estão na fila. Pelo que conheço do que escrevem, vão me dar bastante prazer. Comecei e deixei inacabados outros tantos: Hunger (Knut Hamsum), Autobiografia (Agatha Christie), A espuma dos dias (Boris Vian) e A marcha para o Oeste (Orlando Villas Bôas e Cláudio Villas Bôas). No momento, tenho nas mãos o saboroso Vida de Escritor, autobiografia de Gay Talese, um dos pais do new journalism americano. Que em 2013 eu tenha tempo, sorte e disciplina pra lê-los todos.
Mas vamos ao premiado. O ganhador do DVeras Awards 2012 na categoria livros é… Walden, de H.D. Thoreau, que sublinhei com deleite durante toda a leitura. Mesmo reconhecendo que o livro tem alguns trechos chatos, com excesso descritivo, recomendo pela profundidade e originalidade das ideias. É uma daquelas obras que deixam marcas no leitor que busca algo além do senso comum da existência. Em segundo lugar, Sir Richard Francis Burton, pela construção primorosa da biografia desse personagem extraordinário. E em terceiro, Barba ensopada de sangue, um romance com linguagem ágil, especialmente nos diálogos, que flui como as ondas do mar de Garopaba, onde se passa a história.
30
Nov12
Tela a presença
Compartilho o convite pro lançamento do livro do Lau Santos.
Sobre o autor:
30
Jul12
Olavo Bilac jornalista
Recebi da Beth Karam e compartilho esta nota sobre o lançamento de um livro da talentosa colega jornalista Marta Scherer:
A Editora Unisul lança, no dia 16 de agosto, o livro “Imprensa e Belle Époque – Olavo Bilac, o jornalismo e suas histórias”, de Marta Scherer.
Jornalista, Marta Scherer debruçou-se sobre as crônicas de Olavo Bilac publicadas em jornais com a finalidade de pesquisar a imprensa para sua dissertação de mestrado (recebeu o Prêmio Adelmo Genro Filho de melhor dissertação de 2008, prêmio concedido pela Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo).
Assim, ao mesmo tempo em que resgata como era o jornalismo na Belle Époque no Brasil, a autora traz à tona uma faceta menos conhecida do autor de “Ora direis, ouvir estrelas”. Como muitos poetas e escritores da época, também Olavo Bilac viu no jornalismo uma forma mais bem remunerada para continuar escrevendo. Através de suas crônicas, ela recupera assim um pouco da história do jornalismo, desde a transformação da imprensa artesanal em profissional, mudanças técnicas, surgimento da fotografia e aumento das ilustrações, incremento da publicidade nos jornais, surgimento do repórter, profissionalização dos jornalistas, vida dos profissionais de imprensa, censura, ética jornalística.
Na obra, que faz parte da Coleção Unisul de Comunicação, as crônicas selecionadas de Olavo Bilac ressaltam, dessa forma, as mudanças que estavam em curso na imprensa do Brasil e do mundo. Os jornais deixavam de ser panfletários (ligados diretamente a partidos políticos) para falarem sobre fatos do cotidiano, tornando-se empresas independentes das correntes ideológicas. E seus cronistas retratavam essas mudanças, no jornalismo e na sociedade, registrando um Brasil que entrava na modernidade.
O livro pode ser adquirido de qualquer parte do país, pelo site www.editora.unisul.br
Lançamento
“Imprensa e Belle Époque – Olavo Bilac, o jornalismo e suas histórias”, de Marta Scherer, Editora Unisul/Coleção Unisul de Comunicação
Horário: 19h30
Local: Livraria Saraiva do Shopping Iguatemi-Fpolis
18
Jul12
On The Road no cinema
Vi ontem On the road, a adaptação de Walter Salles do famoso livro de Jack Kerouac. Inevitável comparar as duas obras, mesmo correndo o risco de cometer uma injustiça com o filme (gostaria de saber a opinião de quem o viu, mas ainda não leu o romance). Reconheço o mérito de Salles pela coragem de ter encarado o projeto de levar pra telona um dos ícones da literatura americana. Botar a cara a tapa merece o nosso respeito. E o resultado está longe de ser um fracasso. Ficou bacana, bem realizado. Mas…
Confesso que o filme não me fisgou pela emoção, ao contrário do efeito arrebatador e apaixonante do romance de Kerouac. O filme é tecnicamente sofisticado, fiel à história, as locações são lindas, os atores convencem, o ritmo é ágil como o jazz que embalou aquelas aventuras. Mas faltou algo que é até difícil definir. É como comparar a euforia de estar na estrada com a descrição da euforia. Talvez tenha faltado um mergulho mais radical na psicologia de Sal e Dean. E você, o que achou?
26
Jun12
Anotações de leitura: A elegância do ouriço
“Os favores do destino têm um preço. Para quem se beneficia das indulgências da vida, a obrigação de rigor na consideração da beleza é inegociável. A língua, essa riqueza do homem, e seus usos, essa elaboração da comunidade social, são sagradas. Que evoluam com o tempo, se transformem, se esqueçam e renasçam, enquanto, por vezes, sua transgressão torna-se fonte de uma fecundidade maior, nada muda o fato de que, para praticar com elas esse direito ao jogo e à mudança, é necessário, previamente, ter lhes declarado plena submissão. Os eleitos da sociedade, esses que o destino isenta das servidões que são o quinhão do pobre, têm, portanto, a dupla missão de adotar e respeitar o esplendor da língua”.
A zeladora Renée, irritada com uma vírgula fora do lugar em um bilhete, em A elegância do ouriço – Muriel Barbery.
“A faculdade que temos de manipular a nós mesmos para que o pedestal de nossas crenças não vacile é um fenômeno fascinante”.
Ainda Renée.
20
Jun12
Fim de leitura: Walden
“Aprendi com minha experiência pelo menos isto: se o homem segue confiante rumo a seus sonhos e se empenha em viver a vida que imaginou, ele terá um sucesso inesperado em momentos comuns. Deixará algumas coisas para trás, cruzará uma fronteira invisível; novas leis universais e mais liberais começarão a se estabelecer por si sós ao redor e dentro dele; ou as velhas leis se ampliarão e serão interpretadas em seu favor em um sentido mais liberal, e ele viverá com a licença de uma ordem superior de seres. À medida que ele simplifica sua vida, as leis do universo se mostrarão menos complexas, e a solidão não será solidão, nem a pobreza pobreza, nem a fraqueza fraqueza. Se você tiver construído castelos no ar, não será trabalho perdido; é ali mesmo que eles devem estar. Agora ponha-lhes os alicerces”.
H.D. Thoreau
09
Feb12
Um homem extraordinário
Excelente biografia sobre um dos homens mais extraordinários do século 19: Sir Richard Francis Burton. Escritor, tradutor, poeta, militar, diplomata, explorador, agente secreto, linguista (conhecia 29 idiomas e vários dialetos), etnólogo, ele fez uma tradução das Mil e Uma Noites que chocou a sociedade vitoriana. Também levou à Europa o Kama Sutra e outras obras indianas; foi um dos primeiros ocidentais a fazer a peregrinação a Meca, disfarçado de afegão; descobriu o lago Tanganica, na África; desceu o rio São Francisco, no Brasil; cruzou o Velho Oeste dos EUA numa diligência, e conviveu com os mórmons; escreveu sobre extração de clitóris, eunuquismo e costumes sexuais de vários povos; converteu-se ao islamismo e aprofundou-se no sufismo etc. etc. Cinco estrelas.
07
Feb12
O povo brasileiro e o bar Savoy
Na última página de O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro, papai deixou na margem o comentário de que é um ” magnífico livro”. E também esta anotação, precedida pela observação de que não tem nada a ver com a obra:
Numa placa de bronze afixada na parede interna do último edifício da Avenida Dantas Barreto, no Recife, lê-se: ‘Por isso, no bar Savoy, o refrão tem sido assim: são trinta copos de chope, são trinta homens sentados; trezentos desejos presos, trinta mil sonhos frustrados’.
Camillo, 19/09/2007 – quinta-feira. Russas-CE, BRASIL.









