Posts com a tag ‘livros’

01

Dec

11

DVeras Awards: livros marcantes em 2011

Este ano, por vários motivos nada edificantes, li pouco e de maneira dispersa. Mas a paixão permaneceu acesa e tive a sorte de degustar algumas obras de primeira. As mais marcantes:

5. A trégua (Primo Levi). Reminiscências da libertação do autor do campo de Auschwitz e do período que passou perambulando pelas estradas e acampamentos da Polônia e Rússia, até ser repatriado para a Itália. Um autêntico romance on the road, forte e belo.

4. O orientalista (Tom Reiss). Biografia de Lev Nussimbaum, um genial e obscuro escritor judeu que se passou por príncipe muçulmano durante o nazismo. O autor passou anos debruçado em romances, cartas e testemunhos para reconstituir a história desse sujeito extraordinário que reinventou a própria vida.

3. Mãos de cavalo (Daniel Galera). Romance bem construído com base na infância e adolescência do autor num bairro da periferia de Porto Alegre. A prosa flui solta, coloquial, os personagens são densos. Já tinha lido uns contos dele e tive ótima impressão deste livro. Galera sabe o que faz.

2. Quase Tudo (Danuza Leão). Eu gostaria imensamente de tomar champanhe com Danuza e ouvir de sua boca histórias saborosas e tocantes como as que encontrei nessas páginas. A cena final, vivida em Paris, é belíssima.

E o livro que ganha o DVeras Awards 2011 é…

O caderno vermelho: histórias reais (Paul Auster). Sou fã de Auster há tempo. Fiquei fascinado por este livrinho de histórias curtas em que ele descreve, sem pirotecnias linguísticas ou frescuras de estilo, alguns fatos bizarros e curiosos que viveu, presenciou ou ouviu dos amigos e família. Um mergulho despretensioso, conciso e bem humorado no mistério do cotidiano, dos encontros e desencontros de amantes, das coincidências, das escapadas da tragédia por um triz. Esse livro lembra um pouco um outro, de mais fôlego, que ele organizou com histórias de ouvintes do seu programa de rádio, e que também recomendo: Achei que meu pai fosse Deus.

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30

Nov

11

DVeras Awards: livros não terminados em 2011

Dezembro começa amanhã e, com ele, o curioso fenômeno da compressão do tempo, em que as pessoas tentam se livrar em duas semanas do que precisariam do mês inteiro pra fazer. Vou mais além nesse esforço em prol do verão ocioso: até o dia 10 pretendo fechar a birosca pra balanço. Isso pede o lançamento imediato de uma nova edição do DVeras Awards – a consagrada lista de top 5 sobre assuntos aleatórios, escolhida pelo júri do eu-mesmo. O prêmio aos laureados é minha eterna admiração.

Comecemos por uma nova categoria: a dos livros que não consegui terminar em 2011. Chegar à página final deles vai entrar na minha lista de modestas intenções para 2012 – nada de “resoluções” a serem esquecidas antes do carnaval. Estou amparado pelo decálogo dos direitos inalienáveis do leitor, item 3. Se você também tem pendências livrescas, meu conselho é descartar a culpa e agarrar algo melhor – até mesmo outro livro. Um dia você retoma a obra encostada. Ou ela fica pra trás e você encontra outra. Sem mais delongas, a lista:

5. O primeiro terço (Neal Cassady)

O autor, que inspirou Kerouac a criar o maravilhoso Dean Moriarty de On the road, escrevia com vitalidade. Aqui, conta a história da própria vida – curta, aliás. Ainda estou na parte dos avós e pais, bando de malucos que nasceram pra virar personagens. Esqueci o livro em algum canto da casa e ele voltou pra estante. A gente se vê por aí.

4. Hunger (Knut Hamsum)

Presente dos queridos Eirik e Hélène, junto com outros dois romances do autor norueguês. O prefácio é de Paul Auster, de quem sou fã confesso – aguarde o próximo DVeras Awards. A fome está em inglês e parece ter sido esculpido frase a frase. A capa é linda, o cheiro é bom. Comecei devagar, parando pra consultar o dicionário. Fui à geladeira e resolvi dar um tempo.

3. Walden (H.D. Thoreau)

Um clássico. Tenho um pouco de medo do seu poder subversivo mudar minha vida. Mas aí penso: como a minha vida vai mudar mesmo, com ou sem Walden, então que seja com ele.

2. Sir Richard Francis Burton (Edward Rice)

Gamei nessa biografia do aventureiro britânico que falava 29 línguas, rodou o mundo e trouxe o Kama Sutra e As mil e uma noites pra Europa. Rice pesquisou por 18 anos e refez o caminho de Burton pra escrever o livro. É meu atual companheiro de cabeceira, em doses homeopáticas pra durar mais tempo.

E o prêmio de melhor livro não lido em 2011 vai para…

Os últimos soldados da guerra fria, de Fernando Morais. Nem comecei ainda, mas deve chegar pelo correio a qualquer momento. É quase certo que vai me fazer interromper todos os outros, assim como são grandes as chances de não terminá-lo antes de 31 de dezembro. Estou em boa companhia pra começar 2012.

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29

Sep

11

O pedacinho que faltava da vida de Buda

Uma historinha bonita sobre coincidências e livros que a Laura me contou. A Barca dos Livros, biblioteca da Lagoa da Conceição, aqui em Floripa, tinha uma coleção quase completa de histórias em quadrinhos de Osamu Tezuka sobre a vida de Siddharta Gautama, o Buda. São 14 volumes, mas faltava o primeiro. Dia desses, um rapaz apareceu lá. Contou que tinha o volume 1 e sempre quis ter os outros. Quando ele soube que aquele era justamente o que faltava à biblioteca, fez a doação do seu. Coleção completa agora, pra todos que quiserem ler.

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13

Jul

11

Gay Talese: “O jornalismo está se tornando preguiçoso”

Gay Talese. Reprodução NY Times

Gay Talese. Reprodução NY Times

Interessante entrevista de Gay Talese aos jornalistas Fernando de Oliveira e Thiago Maurique, do Diário Regional (Santa Cruz do Sul-RS) sobre seu livro Honra teu pai. Publicado em 1971 e recém-lançado no Brasil, o livro conta a história de Joseph Bonanno, chefe mafioso de Nova York, e de seu filho Salvatore “Bill” Bonanno. Para escrevê-lo, o então repórter do New York Times precisou se tornar amigo de Bill Bonanno e esperar cinco anos para convencer o mafioso a lhe contar sua história. Trechos:

P. – O senhor acha que seria possível, hoje, escrever um livro como este?
Talese –
Sim, claro que seria possível, do mesmo jeito que eu fiz. No entanto, tem que ser gasto um bom tempo e conservar um relacionamento. Tanto nos EUA quanto no Brasil, ou em qualquer lugar do mundo, existem histórias que você pode contar se você realmente se dedicar a isso. Nunca é fácil fazer alguma coisa boa, sempre é difícil. Mas você não vai conseguir isso utilizando o Google. Nunca vai conseguir fazer isso usando um telefone celular, ou um gravador. Você tem que sair na rua e cultivar uma relação, e gastar tempo com ela. É o que eu chamo, em minhas próprias palavras de ‘The art of hanging out’ (a arte de sair por aí).

P. – A propósito, o senhor sempre defendeu que lugar de jornalista é na rua. O que o senhor pensa sobre o jornalismo que é praticado hoje, com a internet e as facilidades que esta tecnologia proporciona?
Talese -
… Os jornalistas, hoje, não estão descobrindo nada por tentativa, ou por acidente. O que estão fazendo é muito imediatista. O jornalismo tem se tornado muito previsível. Nada é profundo, pensado ou divagado. Então o jornalismo está se tornando preguiçoso, porque os jornalistas não querem se mexer. A primeira coisa que fazem quando acordam é abrir um pequeno laptop e começar a apertar botões. Então eles leem jornais, olham fotografias, jogam games ou qualquer outra coisa e, talvez, até façam entrevistas com outras pessoas, mas são pessoas que são educadas, que sabem como usar um laptop, um smartphone ou o que quer que estejam usando. E estão perdendo todo o contexto da vida. É tudo baseado em cumprir o objetivo. Eles querem ir do ponto a para o ponto b, e querem fazer isso rápido, de maneira eficiente sem perder nenhum tempo. Bom, perder tempo é muito bom. O tempo é maravilhoso quando você o perde. Quando você perde tempo você pode pensar que é um desperdício, mas não é. Às vezes você aprende com o silêncio, ou com os momentos de indecisão. Você aprende coisas que você jamais pensou que saberia, e aprende coisas sobre as quais você nunca pensou, e que nunca iria perguntar sobre. São coisas muito valiosas para a mente intelectual, e para a curiosidade intelectual que algumas pessoas têm. A internet joga contra esta curiosidade. Ela proporciona todas as respostas de maneira fácil. Você coloca o nome de alguém no google e descobre muito sobre ela. Se é verdade ou não, você não vai saber a diferença.

A íntegra aqui

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28

Jun

11

Zé Dassilva no Jô Soares

O amigo Zé Dassilva, cartunista do Diário Catarinense, roteirista da Globo e um dos melhores frasistas que conheço, foi entrevistado ontem no programa do Jô que foi ao ar esta madrugada. Dei boas gargalhadas. Se ele contasse todos os causos que a gente escuta em mesa de bar, precisava de outro programa inteirinho.

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10

May

11

Ponte Hercílio Luz – Tragédia Anunciada

Mais um livro do Maurício Oliveira na praça. Ainda não li, mas já gostei.

Amigas e amigos, na próxima sexta, aniversário de 85 anos da Ponte Hercílio Luz, estarei lançando nova edição – atualizada e ampliada – do livro “Ponte Hercílio Luz – Tragédia Anunciada”, publicado originalmente quando a ponte fez 70 anos (o convite está ao final deste e-mail – será às 19h na Feira do Livro).

Como evidencia o título, o risco de queda da ponte – tema que voltou recentemente à mídia – é antigo. E aumenta a cada ano que passa sem a reforma salvadora. Todos que amamos esta cidade sabemos muito bem que a “velha ponte” transcendeu há muito tempo a condição de simples canal de transporte entre a ilha e o continente para se tornar um ícone da cidade e do estado, um patrimônio cuja importância não pode ser medida em valor monetário.

Salvar esse patrimônio histórico é fundamental para preservar a identidade de uma cidade que se transforma cada vez mais em um centro urbano moderno, com avenidas duplicadas, viadutos e pontes de concreto, reflexo da prioridade irracional que a nossa sociedade dá aos carros e ao transporte individual.

Neste momento em que os governantes dão a entender que a construção da quarta ponte será a prioridade, o que relegaria a majestosa ponte de ferro ao desprezo – e ao inevitável fim trágico previsto no título do livro -, o relançamento pretende ser mais um elemento de conscientização sobre a importância de salvar a ponte.

Os governantes precisam ser convencidos de que a busca por soluções para o problema viário e a necessidade de conservar o patrimônio histórico são problemas distintos. Falta criatividade e empenho das autoridades na busca de soluções para o financiamento da reforma.

Creio que uma contribuição dos empresários que exploram o turismo na cidade seria justa, por exemplo. Além do mais, alguém duvida que visitantes deixariam de pagar para atravessar a ponte a pé depois de reformada? Ou que uma feira de artesanato sobre a ponte aos domingos não seria um sucesso? E as áreas sob a ponte Hercílio Luz e em torno de suas entradas, que belos espaços a serem explorados!

Com boas ideias e transparência na administração dos recursos – elementos que infelizmente nem sempre são encontrados na gestão pública -, a ponte certamente poderá ser salva antes que se canse de vez da longa espera. Espero vê-los por lá. E espalhem a notícia! Abraços! Maurício

Dia: 13 de maio (sexta-feira)
Horário: 19 horas
Local: Estande da Editora Insular
4ª Feira Catarinense do Livro
Largo da Alfândega
Florianópolis – SC

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08

May

11

A vida secreta das formigas

A vida secreta das formigas

A vida secreta das formigas

Uma parceria entre a bióloga Cristina Santos e o ilustrador Leandro Lopes resultou no belo livro A vida secreta das formigas, lançado neste sábado na Barca dos Livros, em Floripa. Classificá-lo de “livro infantil” é reduzir seu alcance, pois ele é leitura enriquecedora também para adultos. Cristina passou seis meses pesquisando estudos científicos sobre diversas espécies de formigas brasileiras, de diferentes biomas. À medida que escrevia, validava o texto com os pesquisadores e debatia com o parceiro a melhor maneira de ilustrar cada conjunto de páginas.

O resultado foi uma publicação de alta qualidade, que reproduz a vida desses insetos em seus habitats naturais e traz informações que nos ajudam a entender a sua importância para o equilíbrio da natureza. Vistas como inimigas porque destroem jardins, elas na verdade apenas reagem ao desequilíbrio ambiental. São grandes semeadoras, ao limpar os restos de frutos que recobrem as sementes e assim reduzir as chances de que apodreçam no chão úmido da mata. Na página 9, aprendemos:

Para manter viva a cultura de fungos [com que se alimentam], as formigas precisam cortar muitas folhas. No ambiente natural, como nas restingas da Ilha de Santa Catarina, as formigas-de-rodeio podem coletar pedaços de folhas e flores de mais de 50 tipos de plantas diferentes. E nenhuma planta fica completamente desfolhada. Mas, num ambiente modificado pelo homem, a vegetação mais próxima do formigueiro pode ficar totalmente sem folhas, como as verduras de uma horta.

Este livro é o primeiro de uma série em que os autores pretendem abordar os “segredos” de vários animais da fauna brasileira. O próximo será sobre primatas – área de especialidade da bióloga. Em seguida virá um sobre abelhas, onde o leitor terá a oportunidade de conhecer melhor as abelhas “indígenas”, sem ferrão, nativas da mata atlântica de Santa Catarina.

p.s.: Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o Leandro Lopes, que fez uma ilustração para o documentário Espírito de Porco, dirigido por mim e pelo Chico Faganello. Ela mostra uma “seleção de futebol” de porcos brasileiros, com diferentes espécies – a maioria, hoje extinta.

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29

Jan

11

A trégua

A TréguaA Trégua by Primo Levi

My rating: 5 of 5 stars

Belo e inspirado relato dos meses que se seguiram à libertação do autor do campo de Auschwitz, acompanhando a romaria de refugiados, primeiro na Polônia e depois na Rússia, de campo em campo, enquanto esperava a repatriação para a Itália. Ele descreve personagens fantásticos que encontrou na jornada e suas emoções desencontradas ao reconquistar a liberdade.

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27

Dec

10

DVeras Awards 2010: livros

Poucas e boas leituras em 2010. Apontar três destaques é tarefa árdua. Entre eles podiam estar os ótimos “road-books filosóficos” Um adivinho me disse, de Tiziano Terzani (indicado pela @ladyrasta) e Teoria da Viagem, de Michel Onfray, assim como o hilário infanto-juvenil A volta às aulas do Pequeno Nicolau. Mas escolhi outros três, adotando como critérios principais o impacto que as obras provocaram em mim, a importância dos temas e a qualidade das narrativas. Os finalistas são:

  • As benevolentes (Jonathan Littell)
  • O espírito do zen (Alan Watts)
  • Pobre nação: as guerras do Líbano no século XX (Robert Fisk)

As benevolentes me foi indicado pelo amigo Yan Boechat, com quem compartilho o interesse por histórias da Segunda Guerra Mundial. O romance narra, em primeira pessoa, a trajetória de um oficial SS, gay, que participa da campanha da Rússia e depois atua em campos de concentração. Um tratado sobre cinismo, loucura coletiva e personificação do mal.

O espírito do zen é um livro fininho, com uma densidade e poder de síntese impressionantes. Indicado pra quem busca as primeiras informações básicas sobre o zen – cuja compreensão no sentido mais profundo não se dá por meio do intelecto. Abriu-me as portas para novas descobertas que quero fazer nessa área.

Pobre nação é uma magistral aula de jornalismo sobre o Oriente Médio. O livro aborda os acontecimentos do Líbano no século 20, em especial nas décadas de 1970 e 80. Guerra civil entre cristãos e muçulmanos, conflito com palestinos, invasão síria, invasão israelense com apoio americano… Uma sucessão banhos de sangue cometidos em nome de conceitos fugidios como paz, segurança e combate ao “terrorismo”. Não é um livro fácil de ler. Nem tanto pelas suas quase mil páginas, mas pela intensidade e precisão às vezes dolorida – mas nunca com pieguismo – com que o jornalista faz a História passar diante dos olhos do leitor. Confesso que parei algumas vezes para intercalá-lo com leituras mais amenas, mas o volume estava sempre por perto, exercendo forte atração.

Robert Fisk morou anos em Beirute e conhece bem aquela realidade, que cobriu para a imprensa britânica enfrentando cotidianamente o risco de vida. Ao publicar seu relato detalhado sobre a tragédia libanesa e o conflito israelense-palestino, prestou tributo valioso aos milhares de inocentes que morreram e aos que continuam oprimidos. Deu também uma contribuição inestimável para que a verdade prevaleça acima dos factoides. Por esses motivos, Pobre nação é o escolhido para receber o DVeras Awards de melhor livro lido em 2010.

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06

Oct

10

A festa no céu

A festa no céu / The party in the sky. Texto de Antonio Rocha e ilustrações de Cedric Dawson

O amigo e grande mímico/contador de histórias Antonio Rocha, carioca que mora há duas décadas no Maine, EUA, acaba de estrear como escritor de livros infantis. Ele lançou a edição bilíngue A festa no céu/The party in the sky, adaptação de uma história popular que povoou minha imaginação na infância.

O livro é ilustrado por Cedrick Dawson, que mora na Flórida. Eles não se conhecem pessoalmente e fizeram todo o trabalho se comunicando a distância. “Foi um grande aprendizado”, me disse Antonio, que ficou com vontade de fazer outros.

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