Posts com a tag ‘reportagem’

31

Oct

11

Conversa Pública sobre o Haiti

Compartilhando:

CONVITE: CONVERSA PÚBLICA SOBRE O HAITI

COM KIM YVES E DAN COUGHLIN

A Agência Pública de reportagem e jornalismo investigativo vai receber dois grandes jornalistas que cobrem o Haiti para uma conversa aberta e franca com o público.

Os dois foram responsáveis pela publicação dos documentos do WikiLeaks no Haiti, que revelaram entre outras coisas o lobby dos Estados Unidos para frear o aumento do salário mínimo para 5 dólares por dia e a articulação para manter Aristide fora do país.

Na Conversa Pública eles vão falar também sobre o atual governo e os protestos contra a Minustah, a força de paz da ONU comandada pelo Brasil desde 2004. O papo será mediado por Natalia Viana.

Dan Coughlin faz reportagens sobre o Haiti desde 1992. Ele foi correspondente do Inter Press Service e director da radio independente Pacifica Network, nos EUA. Hoje em dia colabora com o The Nation, que foi parceiro do Haiti Liberte para a publicação dos documentos do WikiLeaks sobre oi Haiti.

Kim Ives é editor do jornal Haiti Liberté, que circula no Haiti e nas comunidades de imigrantes haitianos nos Estados Unidos. Ele comanda um programa semanal na radio publica WBAI-FM, nos EUA, e já dirigiu e produziu diversos documentários sobre o Haiti.

SERVIÇO:

CONVERSA PÚBLICA – HAITI
Dia 06 de novembro às 14 horas
Rua Vitorino Carmilo, 459 – Barra Funda – São Paulo – TEL: +55 (11) 3661 3887
Entrada Franca

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24

Aug

11

Ong quer Refúgio de Vida Silvestre no lugar de fosfateira

Está em análise pela autarquia federal ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) um pedido protocolado em julho pela Associação Montanha Viva para criação de uma Unidade de Conservação no município catarinense de Anitápolis, a 100 km de Florianópolis. Com a categoria de Refúgio da Vida Silvestre, a unidade seria demarcada exatamente na área do polêmico Projeto Anitápolis, da Indústria de Fosfatados Catarinense (IFC), que prevê a construção de uma fosfateira em área de mata atlântica. Estudo realizado pelas consultorias Caruso Júnior e Prominer Projetos aponta a existência no local de pelo menos 32 espécies de mamíferos, 168 de aves e 94 de plantas protegidas pela legislação.

“A maior diversidade de mamíferos nativos foi encontrada justamente no local onde está sendo projetada a barragem de rejeitos de jusante”, conta o advogado da Montanha Viva, Eduardo Bastos Moreira Lima. “O estudo encontrou vestígios de espécie não identificada de Felidae, provavelmente o gato do mato pequeno ou jaguarundi”. Das 168 espécies de aves identificadas, 141 estão dentro da área do empreendimento e 70 no entorno. Entre as ameaçadas de extinção estão o papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea) e a águia cinzenta (Harpyhaliaetus coronatus). Duas ações civis públicas tramitam na Justiça Federal contra o empreendimento – uma proposta em 2009 pela Montanha Viva e a outra pela Defensoria Pública da União/SC.

No dia 13 de julho, a Polícia Federal abriu inquérito para apurar denúncia da Associação (feita em 2009) e do Ministério Público Federal (MPF) de suspostos delitos apontados no Parecer Técnico do Comitê de Bacias Hidrográficas do Rio Tubarão: diversas irregularidades nos estudos ambientais e supressão não-autorizada de vegetação. Uma vistoria técnica realizada em 28 de agosto de 2009 constatou indícios de crime ambiental, o “anelamento” de araucárias. A prática consiste em descascar a base do tronco para obstruir a passagem de seiva e assim matar a árvore. “Pelo que se depreende das análises, o empreendimento causará grandes prejuízos à flora e à fauna local e, em muitos pontos, será de forma irreversível”, diz o relatório, que dá parecer contrário à construção da fosfateira. Existem outros três pareceres técnicos contrários ao empreendimento.

Outra representação junto ao MPF levou à abertura de inquérito civil para apurar a possível aquisição dos ativos da Bunge e Yara pela Companhia Vale e seus impactos face à concentração de mercado. O inquérito também pretende apurar a eventual caducidade do direito de lavra na área de propriedade da Bunge e Yara em Anitápolis.

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13

Jul

11

Gay Talese: “O jornalismo está se tornando preguiçoso”

Gay Talese. Reprodução NY Times

Gay Talese. Reprodução NY Times

Interessante entrevista de Gay Talese aos jornalistas Fernando de Oliveira e Thiago Maurique, do Diário Regional (Santa Cruz do Sul-RS) sobre seu livro Honra teu pai. Publicado em 1971 e recém-lançado no Brasil, o livro conta a história de Joseph Bonanno, chefe mafioso de Nova York, e de seu filho Salvatore “Bill” Bonanno. Para escrevê-lo, o então repórter do New York Times precisou se tornar amigo de Bill Bonanno e esperar cinco anos para convencer o mafioso a lhe contar sua história. Trechos:

P. – O senhor acha que seria possível, hoje, escrever um livro como este?
Talese –
Sim, claro que seria possível, do mesmo jeito que eu fiz. No entanto, tem que ser gasto um bom tempo e conservar um relacionamento. Tanto nos EUA quanto no Brasil, ou em qualquer lugar do mundo, existem histórias que você pode contar se você realmente se dedicar a isso. Nunca é fácil fazer alguma coisa boa, sempre é difícil. Mas você não vai conseguir isso utilizando o Google. Nunca vai conseguir fazer isso usando um telefone celular, ou um gravador. Você tem que sair na rua e cultivar uma relação, e gastar tempo com ela. É o que eu chamo, em minhas próprias palavras de ‘The art of hanging out’ (a arte de sair por aí).

P. – A propósito, o senhor sempre defendeu que lugar de jornalista é na rua. O que o senhor pensa sobre o jornalismo que é praticado hoje, com a internet e as facilidades que esta tecnologia proporciona?
Talese -
… Os jornalistas, hoje, não estão descobrindo nada por tentativa, ou por acidente. O que estão fazendo é muito imediatista. O jornalismo tem se tornado muito previsível. Nada é profundo, pensado ou divagado. Então o jornalismo está se tornando preguiçoso, porque os jornalistas não querem se mexer. A primeira coisa que fazem quando acordam é abrir um pequeno laptop e começar a apertar botões. Então eles leem jornais, olham fotografias, jogam games ou qualquer outra coisa e, talvez, até façam entrevistas com outras pessoas, mas são pessoas que são educadas, que sabem como usar um laptop, um smartphone ou o que quer que estejam usando. E estão perdendo todo o contexto da vida. É tudo baseado em cumprir o objetivo. Eles querem ir do ponto a para o ponto b, e querem fazer isso rápido, de maneira eficiente sem perder nenhum tempo. Bom, perder tempo é muito bom. O tempo é maravilhoso quando você o perde. Quando você perde tempo você pode pensar que é um desperdício, mas não é. Às vezes você aprende com o silêncio, ou com os momentos de indecisão. Você aprende coisas que você jamais pensou que saberia, e aprende coisas sobre as quais você nunca pensou, e que nunca iria perguntar sobre. São coisas muito valiosas para a mente intelectual, e para a curiosidade intelectual que algumas pessoas têm. A internet joga contra esta curiosidade. Ela proporciona todas as respostas de maneira fácil. Você coloca o nome de alguém no google e descobre muito sobre ela. Se é verdade ou não, você não vai saber a diferença.

A íntegra aqui

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28

Jun

11

Semana Wikileaks

Esta semana a recém-criada agência de reportagem e jornalismo investigativo Pública está publicando uma série de reportagens inéditas sobre o Brasil, baseadas em documentos obtidos pelo Wikileaks. Uma interessante iniciativa de jornalismo independente e colaborativo. Boa parte do material se refere a despachos de embaixadas – entre elas a dos Estados Unidos – e consulados no Brasil. Compartilho o texto de apresentação:

15 repórteres, 2.500 documentos, 3 dias. O resultado são cerca de 50 matérias inéditas sobre documentos diplomáticos referentes ao Brasil obtidos pelo WikiLeaks, que serão publicados durante esta semana no site da Pública.

A Semana WikiLeaks é uma iniciativa coletiva, capitaneada pela Pública com o apoio do WikiLeaks e a participação de jornalistas independentes que acreditam que histórias de interesse público devem ser contadas.

São eles: Andrea Dip, Anselmo Massad, Tadeu Breda, Julio Cruz Neto, Jessica Santos, Mariana Simões, Igor Ojeda, Tatiana Merlino, Daniel Santini, Glauco Faria, João Perez, Natalia Viana, Débora Prado, Paula Sambo e Ana Aranha.

Nos dias 10, 11 e 12 de junho, esses jornalistas se reuniram voluntariamente na sede da Pública, na Barra Funda, para ler todos os documentos referentes ao Brasil que ainda não foram publicados no site do WikiLeaks. Além de documentos da embaixada em Brasília e consulados em São Paulo, Recife e Rio de Janeiro, a Pública também teve acesso a despachos de outras embaixadas, referentes ao Brasil.

São documentos inéditos, produzidos entre 2004 a 2010, debatendo grandes questões nacionais.

A preocupação da Pública é dar visibilidade a esses telegramas, que contam o que se discute nas relações internacionais – conversa a conversa, reunião a reunião.

Durante esta semana, os documentos originais serão publicados no site da Pública e no site do WikiLeaks. No dia 4 de julho, todos os telegramas brasileiros serão disponibilizados no site do WikiLeaks.

Todas as reportagens são em creative commons, para livre reprodução desde que citada a fonte.

“Meses depois deste vazamento tomar as manchetes da imprensa, há ainda muitas informações importantes nos documentos de todos os países. Estes documentos são mais que notícia, eles contam a história desses países. Até mesmo documentos que já foram publicados no site do WikiLeaks trazem revelações inéditas, e estão ali para serem pesquisados pelo público”, diz o porta-voz do WikiLeaks, Kristinn Hrafnsson.

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27

Jun

11

Carvão: relatório corrobora denúncia de mortes

O assunto tratado no post de ontem está em matéria da Folha de S. Paulo de hoje, seção Ambiente.

Relatório sobre carvão ilegal corrobora denúncia de mortes no PA

JOÃO CARLOS MAGALHÃES
FILIPE COUTINHO
DE BRASÍLIA

Produtoras de ferro-gusa do polo de Carajás, na Amazônia, continuam usando carvão de origem ilegal, burlando um instituto que elas mesmas criaram há sete anos para fiscalizar a produção do insumo.

A conclusão é de um relatório produzido pela ONG Observatório Social, que desde 2004 investiga a produção de gusa no polo siderúrgico –o maior do país depois do de Minas Gerais.

O documento corrobora denúncias feitas recentemente pelo casal de líderes extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, cujos assassinatos no final de maio em Nova Ipixuna (PA) levaram o governo federal a montar uma operação para brecar a violência rural na Amazônia.

No relatório, a ONG comparou a produção real de gusa no ano passado e a produção possível com o carvão fiscalizado pelo ICC (Instituto Carvão Cidadão).

O instituto foi criado pelas empresas em 2004 para auditar as carvoarias, em resposta a uma pesquisa do próprio Observatório Social daquele ano, que diagnosticou trabalho análogo ao escravo na produção carvoeira.

O resultado da comparação foi que, no caso de metade das guseiras avaliadas (quatro), a produção real excedeu a produção possível em até 155%. (…)

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26

Jun

11

Amazônia, jornalismo e interesse público

Reproduzo abaixo a íntegra de um artigo que a jornalista Miriam Leitão publicou em sua coluna de 24 de junho no Globo. Ela se refere à recente pesquisa do Instituto Observatório Social sobre o uso de carvão ilegal e trabalho escravo na cadeia produtiva do aço. No site da Papel Social há links para versão em pdf e repercussão na mídia. Esse trabalho é continuidade de um levantamento que vem sendo realizado há sete anos. Participei de etapas anteriores, a começar pela primeira denúncia, em junho de 2004, com a reportagem Escravos do Aço, que escrevi com Marques Casara e fotos de Sérgio Vignes.

É preciso tirar o chapéu pro Casara e pro Vignes, dois repórteres na verdadeira concepção da palavra. Guardadas as proporções, cobrir pautas de direitos humanos in loco na Amazônia tem semelhança com o risco de cobrir guerras. No arco do desmatamento, impera a lei da bala. Se aprovada a criação do estado de Carajás a partir do desmembramento do Pará, o novo estado será o mais violento do Brasil. Aliás, nenhum outro país tem índice comparável ao de Carajás: 68,1 assassinatos por ano para cada grupo de 100 mil habitantes, segundo dados de 2008. Por mais que a tecnologia possa e deva ser utilizada como aliada, pautas assim não se resolvem por telefone ou pelo Google em salas climatizadas. É preciso ir lá enfrentar os mosquitos, o calor e o medo; conviver com as pessoas que vivem o medo no cotidiano.

Outro ponto a destacar é a importância desse tipo de investigação bancada pelo terceiro setor. Ela aponta a viabilidade da construção de um novo modelo de jornalismo, alinhado ao interesse público e sem os vícios da mídia hegemônica – como a cobertura declaratória, o enfoque infotainement e os escusos interesses político-econômicos. O Instituto Observatório Social (IOS), para o qual tive a honra de colaborar por cinco anos, tem acertado ao investir em reportagens independentes que abordaram temas como discriminação de mulheres, exploração de bolivianos em confecções, maquiagem de acidentes de trabalho e outras do gênero. Parceira do IOS em várias ocasiões, a ong Repórter Brasil vem desempenhando há uma década um papel indispensável na defesa dos direitos humanos, em especial no enfrentamento do trabalho escravo. A Pública, agência de reportagem e jornalismo investigativo lançada este mês, promete trilhar caminho semelhante. A partir de amanhã, vai publicar uma série de reportagens baseadas em documentos inéditos do Wikileaks sobre o Brasil.

Entre os desafios de construir um fazer jornalístico alternativo estão os modelos de financiamento – há propostas bem interessantes, veja os links deste artigo de Victor Barone no Observatório da Imprensa. Outras armadilhas são a tentação do panfletarismo e a interferência de interesses políticos em detrimento dos fatos, risco nada desprezível também entre as organizações e pessoas ditas “progressistas”. Mas isso fica pra outro post – e convido meus leitores, jornalistas ou não, que tiverem interesse no assunto a dialogar sobre ele também em seus blogs.

O artigo de Miriam Leitão:

De pacto em pacto

O crime se infiltra na Amazônia, mesmo nas instituições criadas pra combatê-lo. Os elos se misturam e fortalecem a corrente que abate diariamente a floresta. A cada reportagem, um flagrante; a cada estudo, uma nova prova do velho problema: a mistura do legal com o ilegal na cadeia produtiva vai lavando os crimes. O Brasil avança no combate, mas é mais lento que o crime.

O Observatório Social divulgou esta semana outro estudo que começou num local emblemático: Nova Ipixuna, Pará. Lá, desembarcaram em março dois repórteres, Marques Casara e Sergio Vignes. Lá, em maio, foram assassinados dois ambientalistas, José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo. Os jornalistas investigavam o crime de uso de carvão vegetal ilegal na cadeia produtiva do aço, encontraram fornos ilegais e constataram, pelo cruzamento de dados, que as siderúrgicas do Pólo de Carajás estão usando carvão ilegal. José Cláudio e Maria denunciavam o desmatamento ilegal e foram mortos depois de avisarem que estavam marcados para morrer.

O país avança; aos poucos. O progresso usa a estratégia de construir redes de constrangimento e pressão sobre os criminosos. Mas os elos da cadeia do crime têm sido persistentes e há momentos em que se pensa que eles vencerão no final.

No documento do Observatório Social, como em outros que já foram divulgados com o mesmo objetivo, há motivos para desânimo e alívio. A boa notícia é que outras investigações que mostravam a conexão entre grandes empresas e os crimes trabalhistas e ambientais acabaram provocando pactos que permitiram avanços no combate ao trabalho escravo e degradante e ao desmatamento ilegal. Foi com movimentos assim que empresários, ONGs, governos, OIT, Ministério Público assinaram o pacto contra o trabalho escravo em 2004. Ele diminuiu o número de casos; mas não acabou com o absurdo. Houve denúncia contra a soja brasileira; compradores internacionais pressionaram, foi assinada a moratória da soja. Através dela as grandes empresas do setor se comprometeram a não comprar soja de área de desmatamento recente. Houve denúncias de que os grandes frigoríficos compram rebanhos que pastam em áreas desmatadas ilegalmente. Os supermercados foram cobrados pelos consumidores. Alguns aderiram ao compromisso contra a carne de desmatamento; outros, não. O Ministério Público iniciou então a campanha da Carne Legal. Impactantes anúncios mostravam a ligação entre o prato do consumidor e a prática ilegal. Tudo isso vai empurrando o país para a legalidade, apesar de todas as forças que se unem para manter o atraso.

Há casos revoltantes de políticos impunes ou cúmplices; de atrasos inaceitáveis em julgamentos; de perseguição a funcionários do Ministério do Trabalho ou do Ibama que apenas querem que a lei seja cumprida; de denúncias do Ministério Público não levadas em conta; de empresas que fazem vista grossa porque assim reduzem o preço dos seus insumos. De vez em quando o Brasil avança.

Um desses passos à frente foi dado quando houve a primeira denúncia contra trabalho escravo e desmatamento ilegal na indústria siderúrgica brasileira. O centro do problema era em Carajás. Ainda é. Foi criado depois da denúncia sobre os “Escravos do Aço” o Instituto Carvão Cidadão. O objetivo do ICC é exigir que todas as siderúrgicas de Carajás se comprometam a não comprar carvão ilegal, e a verificar se seus fornecedores respeitam as leis trabalhistas, garantem equipamentos de proteção aos operários e usam madeira de extração legal. Houve avanços.

O Observatório Social voltou lá em março e constatou que o crime continua. Marques Casara me disse no programa Espaço Aberto, da Globonews, que algumas das siderúrgicas locais não cumprem o que elas mesmas prometeram e lavam o crime na sua produção. Como? Misturando carvão legal, cascas de babaçu e carvão produzido em fornos ilegais. Tudo misturado faz a liga do ferrogusa que depois é exportado: 90% dos produtos de siderúrgicas como a Sidepar e Cosipar são comprados por grandes consumidoras e traders de aço como a ThyssenKrupp, NMT e Nucor Corporation. Empresas que fornecem para as grandes montadoras de automóveis americanas.

A diretora de sustentabilidade do Instituto Aço Brasil, Cristina Yuan, me disse que as produtoras de ferro-gusa do Pólo de Carajás não fazem parte da associação, que reúne apenas as grandes indústrias siderúrgicas do país. Ela garante que todo o carvão usado pelas empresas do Instituto Aço Brasil vem de florestas plantadas ou de manejo. E de fato não são elas as acusadas neste estudo. Para se separar das empresas desse grupo é que o antigo Instituto Brasileiro de Siderurgia trocou o nome para Instituto Aço Brasil.

Segundo Casara, a Vale foi procurada antes da divulgação do estudo. Ela é a única fornecedora de minério de ferro para as guseiras do Pará. A empresa disse que vai investigar a denúncia. Em outros momentos a Vale assinou pactos e assumiu compromissos de só fornecer a guseiras que não usam carvão ilegal. Tomara que a Vale investigue logo. Pelos dados do relatório, como se viu na imprensa, se forem cruzados os montantes de ferro-gusa produzido com o total de carvão legal registrado fica claro que grande parte do carvão é ilegal. Só em Nova Ipixuna os dois repórteres encontraram 500 fornos ilegais.

Toda vez que uma investigação ilumina a cadeia produtiva lá encontra os elos da cadeia do crime trabalhista e ambiental. A cada empurrão o Brasil avança um pouco. Essa é a esperança.

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20

Jun

11

O aço da devastação: entrevista à CBN

Hoje cedo o jornalista Marques Casara deu entrevista a Milton Young, da rádio CBN, sobre a pesquisa O Aço da Devastação, coordenada por ele e realizada pelo Instituto Observatório Social. A pesquisa, que vai ser lançada no dia 22, mostra que siderúrgicas do Pará usam carvão produzido com desmatamento ilegal e trabalho escravo.

O carvão, utilizado para fabricar aços especiais, é “esquentado” em esquemas fraudulentos que envolvem grandes empresas e a estrutura da Secretaria Estadual do Meio Ambiente. E não é de hoje. Essa fraude dura anos e é “apartidária”, diz Casara: “No governo do PT, ela cresceu muito no governo da Ana Júlia. E permanece no governo do PSDB. Ela transcende agremiações políticas. Ela sobrevive a partidos, a governos, a gestões”.

O colega jornalista faz importante menção ao papel que a Vale deverá adotar diante da denúncia. Como principal fornecedora de minério de ferro às siderúrgicas, a empresa tem a possibilidade real de contribuir com o enfrentamento do trabalho escravo e do desmatamento da Amazônia. Pode também fechar os olhos ao problema, o que seria lamentável, e nesse caso o Brasil vai continuar exportando aço contaminado por violações aos direitos humanos e agressões ambientais. Caso típico em que o termo “responsabilidade social” precisa ultrapassar a retórica vazia com que é tratado por muitas corporações.

Esse levantamento vem sendo realizado desde 2004, com a reportagem Escravos do Aço, que tive a satisfação de realizar junto com ele e o repórter fotográfico Sérgio Vignes. Pressionadas pela repercussão, um mês depois de publicada a reportagem as principais siderúrgicas brasileiras firmaram uma carta-compromisso pelo fim do trabalho escravo. Houve avanços nesses anos, mas a tecnologia de fraudes também evoluiu e o problema retorna novamente, na forma de empresas legalizadas que servem de fachada para as mutretas.

Clique aqui para ouvir a entrevista

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23

Mar

11

A guerra contra as mulheres

O dia do aniversário de Floripa começou com algumas boas descobertas na web.

La guerra contra las mujeres, documentário do ítalo-argentino Hernán Zin sobre violação sexual nas guerras, teve o primeiro corte concluído este mês. Foi filmado em sete países ao longo de três anos, com mais de 100 entrevistas em uma dúzia de línguas. O autor considera esta a mais complicada das produções audiovisuais e livros que já fez. Tema delicado e doloroso para as vítimas, é um acompanhante quase que indissociável dos conflitos armados desde o início da história humana.

Cheguei a esta notícia por meio do site The BOBs, prêmio da Deutsche Welle para os melhores blogs do mundo. Aliás, o excelente Blog do Sakamoto concorre na categoria Direitos Humanos – entrei lá justamente pra dar meu voto. Se você ainda não teve a chance de conhecer o trabalho e o excelente texto do Leo Sakamoto, coordenador da ong Repórter Brasil (uma parceira que já citei muitas vezes aqui), recomendo.

Depois que votei, dei uma zapeada nas outras categorias e encontrei Viaje a la guerra, que concorre ao prêmio de Melhor Blog. Nele, Hernán Zin narra suas coberturas como repórter, documentarista e escritor por diversos países em conflito (“Afeganistão, Sudão, Uganda, Israel, Palestina, Líbano, Argélia, Ruanda, Congo, África do Sul, Índia, Etiópia, Nicarágua, Quênia, as favelas do Rio de Janeiro…”). Jornalismo de primeiríssima qualidade, do tipo que é difícil de encontrar, pois envolve alto risco pessoal do viajante, somado a talento de repórter e bagagem humanística.

Falar nisso, esbarrei hoje, via blog Substantivo Plural, do amigo Tácito Costa, com um artigo do grande jornalista Robert Fisk que vale a pena ler: No mundo árabe, liberdade é agora uma possibilidade.

E ainda nem são 11 da manhã… Vamos à preparação do almoço.

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03

Mar

11

Projeto para mudar CLT e proteger carvoeiros

Recebi do Diógenes Botelho, assessor deste blog para assuntos aleatórios no Planalto Central, uma notícia boa da Câmara dos Deputados: a reportagem Escravos do Aço, que fiz em 2004 com o colega Marques Casara e o repórter fotográfico Sérgio Vignes, inspirou um projeto de lei “do bem”. Daí até a aprovação já são outros quinhentos, mas fico contente que o jornalismo possa inspirar parlamentares a tomar iniciativas em defesa dos direitos humanos.

Dauro e Casara,

O líder do PPS na Câmara, deputado Rubens Bueno (PPS-PR), reapresentou projeto de lei que modifica a CLT para proteger os trabalhadores das carvoarias. A proposta tem como origem a reportagem de vocês (Escravos do Aço) e estabelece a responsabilidade solidária nos contratos de trabalho das carvoarias. Ou seja, responsabiliza também as siderúrgicas pelos enventuais danos aos trabalhadores desse setor. O projeto original foi apresentado pelo deputado Juvenil Alves – PRTB-MG (aquele que foi cassado por abusos em sua campanha ). Como o PL foi arquivado no final da última legislatura, o líder do PPS resolveu reapresentá-lo no último dia 24 de fevereiro com algumas modificações. Se interessar, segue o link para o projeto e a tramitação.

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15

Feb

11

Quem manda na devastação da Amazônia

Carvoaria em Açailândia, MA

Carvoaria em Açailândia, MA. Foto: Sérgio Vignes

Em junho de 2004, publiquei na revista do Observatório Social, junto com o colega Marques Casara e o repórter fotográfico Sérgio Vignes, a reportagem Escravos do Aço, sobre a vinculação entre trabalho escravo em carvoarias na Amazônia e a indústria siderúrgica. Uma das consequências imediatas foi a formalização, no mês seguinte, de um pacto de empresas siderúrgicas brasileiras contra o trabalho escravo.

Quase sete anos depois, Marques traz os resultados de novas investigações sobre o tema (como ele gosta de citar, todo jornalismo é investigativo, e se não for, não é jornalismo). Dá nome aos bois, apontando as mega-empresas que compram ferro-gusa obtido na ilegalidade. Cita também a problemática Secretaria do Meio Ambiente do estado do Pará, envolvida no esquema de corrupção para explorar madeira ilegalmente na Amazônia.

Por motivos vários, não pude dar continuidade a essa parceria específica (fizemos outras bem bacanas e vamos fazer mais). Fico contente que meus colegas não tenham “largado o osso”, pois se dependêssemos do acompanhamento desse assunto pelos jornalões e telejornais, o resultado seria nulo. Marques e Sérgio são daquele tipo raro de repórteres que, correndo à margem da imprensa industrial, acreditam que o bom jornalismo consegue fazer a diferença na vida das pessoas e do ambiente.

A revista vai ser lançada em São Paulo nesta quinta-feira, 17.

Um trecho do post do Marques no blog Contradições Tropicais no País do Futuro dá ideia do que vem por aí:

Segundo a revista Observatório Social que será lançada na próxima quinta 17, políticos e empresários do Pará montaram um consórcio para abastecer a indústria mundial do aço com carvão do desmatamento e do trabalho escravo. Fazem parte do consórcio funcionários da Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Os principais beneficiários do esquema são as companhias siderúrgicas que operam no pólo de Carajás, dentre elas a Cosipar, que em breve receberá um aporte de US$ 5 bilhões de investidores russos. Com o carvão do desmatamento fornecido pelo consórcio – e o minério de ferro da Vale, as siderúrgicas produzem ferro-gusa. Depois, vendem o produto para gigantes globais do setor de aço. São as mega empresas de aço que financiam a devastação da floresta, pois compram 90% da produção de ferro-gusa. São elas: Gerdau, TyssenKrupp, Kohler, WhirlpoolCorp, Nucor Corporation e National Material Trading Co. A Vale também é responsabilizada, ao não cumprir acordo de 2008 com o Ministério do Meio Ambiente, de só vender minério de ferro para quem usasse carvão certificado. …

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