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20

Jun

11

O aço da devastação: entrevista à CBN

Hoje cedo o jornalista Marques Casara deu entrevista a Milton Young, da rádio CBN, sobre a pesquisa O Aço da Devastação, coordenada por ele e realizada pelo Instituto Observatório Social. A pesquisa, que vai ser lançada no dia 22, mostra que siderúrgicas do Pará usam carvão produzido com desmatamento ilegal e trabalho escravo.

O carvão, utilizado para fabricar aços especiais, é “esquentado” em esquemas fraudulentos que envolvem grandes empresas e a estrutura da Secretaria Estadual do Meio Ambiente. E não é de hoje. Essa fraude dura anos e é “apartidária”, diz Casara: “No governo do PT, ela cresceu muito no governo da Ana Júlia. E permanece no governo do PSDB. Ela transcende agremiações políticas. Ela sobrevive a partidos, a governos, a gestões”.

O colega jornalista faz importante menção ao papel que a Vale deverá adotar diante da denúncia. Como principal fornecedora de minério de ferro às siderúrgicas, a empresa tem a possibilidade real de contribuir com o enfrentamento do trabalho escravo e do desmatamento da Amazônia. Pode também fechar os olhos ao problema, o que seria lamentável, e nesse caso o Brasil vai continuar exportando aço contaminado por violações aos direitos humanos e agressões ambientais. Caso típico em que o termo “responsabilidade social” precisa ultrapassar a retórica vazia com que é tratado por muitas corporações.

Esse levantamento vem sendo realizado desde 2004, com a reportagem Escravos do Aço, que tive a satisfação de realizar junto com ele e o repórter fotográfico Sérgio Vignes. Pressionadas pela repercussão, um mês depois de publicada a reportagem as principais siderúrgicas brasileiras firmaram uma carta-compromisso pelo fim do trabalho escravo. Houve avanços nesses anos, mas a tecnologia de fraudes também evoluiu e o problema retorna novamente, na forma de empresas legalizadas que servem de fachada para as mutretas.

Clique aqui para ouvir a entrevista


20

Mar

09

As marolas do jornalismo alternativo

Recebi hoje uma mensagem do amigo Marques Casara que me deixou muito contente. Não sou de ficar relembrando sucessos passados, mas, mesmo correndo o risco de me acharem cabotino, quero compartilhar esta memória aqui – em especial com quem está começando como repórter e sente desânimo com as perspectivas da profissão.

Quase cinco anos depois, é um registro de que o jornalismo pode contribuir pra um mundo melhor. Neste caso, correndo por fora da mídia hegemônica, numa publicação de terceiro setor que teve tiragem de apenas 4 mil exemplares. Às vezes uma marolinha faz coisas que a gente nem imagina. O e-mail foi dirigido a mim e ao repórter fotográfico Sérgio Vignes, parceiro meu e do Marques nessa reportagem.

Caríssimos,
um registro para vossas memórias:

Quarta-feira, auditório da Bolsa de Valores de São Paulo. Todas as poltronas ocupadas, engravatados se espremem na porta. A estimativa era a de que 20% do PIB brasileiro estava presente. Tema do encontro: erradicação do trabalho escravo na cadeia produtiva das empresas. Atualmente, 160 grandes empresas são signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.

Abertura do evento: Caio Magri – Instituto Ethos.

Faz a apresentação e avisa que diversas empresas vão apresentar “cases” sobre como estão enfrentando o problema na cadeia produtiva. Última fala de Caio Magri:

“É necessário fazer um registro. Tudo isso está acontecendo e nós todos só estamos aqui hoje porque, em 2004, o Instituto Observatório Social publicou uma corajosa reportagem sobre o trabalho escravo na cadeia produtiva do aço. A partir daquela reportagem houve uma grande mobilização, houve o lançamento de um primeiro Pacto em Brasilia e que culminou com o Pacto que hoje está em vigor e que nós vamos conhecer aqui na Bovespa”.

Na platéia, Paulo Vanucci, ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, a cúpula da Bovespa, direção da Petrobrás, grandes siderúrgicas, as maiores cadeias varejistas do país.

Contem para seus netinhos porque vocês merecem.

abraços

Marques Casara
Papel Social Comunicação

p.s.: A “marolinha” foi a reportagem Escravos do Aço [pdf], que publicamos em junho de 2004, mostrando como as siderúrgicas se beneficiam do trabalho escravo em carvoarias da Amazônia.

p.s.2: Mais sobre trabalho escravo (e links pra outras fontes) aqui no blog.


05

Oct

11

Reportagens

Coletânea de algumas reportagens jornalísticas publicadas por mim desde 2002.

Um modelo de precisão milimétrica (Valor Econômico, 30/3/2015)
Perfil de Claudio Grando e Ricardo Cunha, fundadores da Audaces, empresa catarinense de tecnologia em moda.

O valor estratégico da pegada hídrica (Valor Econômico, 20/3/2015)
Embora ainda não seja contabilizada nas trocas comerciais, a água virtual tende a ganhar valor estratégico em um cenário mundial de escassez hídrica. Isso abre oportunidades para o protagonismo do Brasil, que dispõe do recurso em abundância, mas precisa avançar na sua conservação.

Microcervejarias ganham escala e novos mercados (Valor Econômico, 30/1/2015)
“A vida é muito curta para beber cerveja ruim”, filosofa o cartaz na Cervejaria Sambaqui, localizada no centrinho histórico do bairro Santo Antônio de Lisboa, na capital catarinense. A frase bem-humorada resume uma motivação que tem levado milhares de brasileiros a fabricar a bebida em escala artesanal.

Parceria humanitária e profissional aproxima o Brasil do Haiti (Revista da Fapeu, dezembro de 2014)
Um acordo de cooperação técnica entre Brasil, Cuba e Haiti já formou mais de 1.300 profissionais haitianos para atuar na atenção primária à saúde neste país caribenho, o mais pobre das Américas, que foi devastado por um forte terremoto em 12 de janeiro de 2010.

Complexo industrial da saúde atrai investimentos para o Brasil (Valor Econômico, 7/4/2014)
O Brasil é um destino promissor para corporações que atuam com produtos e equipamentos de saúde. Grandes grupos multinacionais têm realizado aquisições e implantado fábricas aqui para apoiar suas estratégias, o que abre oportunidades para fornecedores locais.

Inovações reduzem retrabalho no canteiro (Valor Econômico, 28/3/2014)
Novas tecnologias adotadas na construção civil estão chegando aos canteiros de obras, com benefícios para construtoras, trabalhadores e consumidores.

Inovações sobre água atraem investidores (Valor Econômico, 21/3/2014)
Inovações relacionadas à água têm despertado grande interesse de investidores. Entre as pesquisas promissoras estão as que buscam avançar em técnicas de captação e armazenamento, redução de desperdício, tratamento de efluentes e descontaminação do subsolo.

Estudante brasileiro cria filtro para despoluir poços no Camboja (Valor Econômico, 21/3/2014)
O universitário catarinense Pedro Rolan Teixeira, da UFSC, participante do programa federal de intercâmbio Ciência sem Fronteiras, desenvolveu na Coreia do Sul um projeto inovador relacionado à água: um filtro para despoluir poços contaminados por arsênio.

Computação em nuvem: soluções abertas ainda enfrentam resistência (Valor Econômico, 27/2/2014)
O uso da computação em nuvem nos negócios é uma tendência em alta no Brasil, mas as soluções abertas ainda enfrentam resistência, por temores relacionados à segurança dos dados.

Arenas de criação coletiva
Uma iniciativa inovadora de planejamento urbano participativo vem sendo desenvolvida desde outubro de 2012 em 15 cidades europeias. O movimento Cidades Inteligentes e Humanas foca no protagonismo cidadão em “arenas” – espaços onde as pessoas podem compartilhar ideias e co-criar soluções comunitárias.  (Junho de 2013)

Sucessão é momento crítico quando o sobrenome é o mesmo (Valor Econômico, 28/06/2013)
Um bom processo de governança corporativa auxilia as empresas familiares a se profissionalizar e a preparar a mudança de gerações.

Fábrica da BMW estimula a inovação em Santa Catarina (Valor Econômico, 30/05/2013)
Empresas de pequeno e médio porte investem em tecnologia, gestão e qualificação de pessoal para se beneficiar com a chegada da montadora alemã ao Brasil.

Carreiras que vão de vento em popa (Valor Econômico, 16/05/2013)
A participação da energia eólica na matriz elétrica brasileira vai passar dos atuais 2% a 5,5% em 2017. Esse crescimento já está gerando boas oportunidades de trabalho.

Iniciativa apoia 20 novatas catarinenses (Valor Econômico, 28/03/2013)
Projetos originais de base tecnológica com potencial para gerar bons negócios vão ganhar um “empurrãozinho” em Santa Catarina, por meio do programa de capacitação Startup SC.

Microrredes elevam a qualidade dos serviços (Valor Econômico, 21/03/2013)

Professor Edson Bazzo, do LabCET-UFSCConsumidores poderão se beneficiar de um modelo mais descentralizado, criando “ilhas” com autonomia energética que renderão créditos sempre que fornecerem excedentes de eletricidade ao sistema.

Cultura da inovação eleva a produtividade (Valor Econômico, 19/03/2013)
Empresários, economistas e especialistas em inovação propõem caminhos para o país superar a estagnação de três décadas no nível de produtividade.

Eletrosul terá usina fotovoltaica (Valor Econômico, 20/02/2013)
Esse será o primeiro prédio público brasileiro a utilizar o modelo BIPV – sigla em inglês para Sistema Fotovoltaico Integrado à Edificação -, em que a usina solar é conectada à rede elétrica.

Brasil inova com luz orgânica (Valor Econômico, 20/02/2013)
Uma tecnologia de iluminação que com um semicondutor orgânico, desenvolvida pela Philips em parceria com pesquisadores brasileiros da Fundação Certi, promete economia de 30% a 40% de energia e durabilidade três vezes maior que as lâmpadas fluorescentes compactas.

Eficiência energética no fogão a lenha (Valor Econômico, 23/01/2013)
Equipamento criado por inventor catarinense aquece chuveiro em regiões serranas usando o calor que seria desperdiçado na chaminé. O processo é mais eficiente que a serpentina, pois não retira calor da câmara de combustão.

Xapuri se prepara para exportar preservativos (Valor Econômico, 24/10/2012)
Uma fábrica de preservativos de borracha natural abastece o Ministério da Saúde e beneficia comunidade extrativistas em Xapuri, no Acre.

Petroleiras devem subir salários no próximo ano (Valor Econômico, 25/11/2011)
As expectativas de evolução salarial para 2012 na indústria de óleo e gás estão em alta por conta do cenário econômico favorável, da demanda aquecida e da baixa oferta de profissionais qualificados.

Verticais de negócios, a cooperação que dá resultados (Você S/A, novembro de 2011)
As verticais de negócios, modelo inovador de associativismo, têm contribuído para fortalecer o setor de T.I. em Florianópolis e abrir oportunidades de carreira. Leia aqui a íntegra da reportagem, que na revista foi condensada e titulada “Floripa high-tech”.

Montadoras disputam executivos experientes (Valor Econômico, 30/9/2011)
A expectativa é que o número de fábricas de automóveis no país salte de 26 para 35 até 2014. Profissionais com experiência em cargos de comando nesse segmento ou em áreas correlatas já estão sendo sondados pelos headhunters.

Novas oportunidades para os oceanógrafos (Valor Econômico, 17/9/2010)
A indústria do petróleo e o licenciamento e gerenciamento de atividades costeiras devem aumentar a demanda por esses profissionais nos próximos anos no Brasil.

Indústrias de móveis voltam a crescer em 2010 (Valor Econômico, 30/8/2010)
O bom desempenho é focado no mercado interno e se beneficia do crescimento da construção civil: 12,5% entre julho de 2009 e de julho de 2010, o maior entre os segmentos da economia.

Faltam profissionais qualificados para trabalhar em empresas catarinenses (Valor Econômico, 16/8/2010)
O setor de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) cresce 30% ao ano em Florianópolis e oferece boas oportunidades para investir em carreiras vinculadas à inovação.

As lições da bola (Relatório Celos, julho de 2010)

As lições da bola. Foto de Soninha VillCinco ex-jogadores de futebol profissional recordam os erros e acertos de suas carreiras e dão dicas às novas gerações.

Sul é pioneiro em políticas de apoio a APLs (Valor Econômico, 24/6/2010)
Há ênfase no apoio integrado às micro e pequenas empresas, na capacitação e na oferta de serviços para uso comum, mas são necessárias correções de rumo na atuação dos governos estaduais.

Brasília, rica e desigual (Valor Econômico, 23/4/2010)
Aos 50 anos da capital federal, os brasilienses vivem mais, tem maior escolaridade e renda superior à média brasileira, mas a desigualdade é um sério problema.

Copa e Olimpíadas agitam negócios com segurança (Valor Econômico, 26/2/2010)
Empresas brasileiras do setor preparam-se para os dois grandes eventos. Em Santa Catarina, organizaram-se na Vertical de Segurança Eletrônica.

Observatório Social Em Revista #15Devastação S/A (Observatório Social Em Revista #15, junho de 2009)
Um esquema milionário de exportação de madeira retirada ilegalmente da Floresta Amazônica, envolvendo as maiores empresas mundiais dos setores de pisos e móveis. Como funciona o comércio interno da devastação florestal. As irregularidades nos mercados de madeira, soja e pecuária no Brasil. Por André Campos, Carlos Juliano Barros, Dauro Veras, Leonardo Sakamoto, Marques Casara, Paola Bello e Sérgio Vignes.

Revista em alta resolução (pdf, 4,85 MB)

Revista em baixa resolução (pdf, 1,67 MB)

A repercussão das denúncias

Devastation Inc. (English version, pdf, 971 KB)

How the multinationals and export companies operate sending the wood unlawfully removed from the Amazon rainforest to the United States, Europe and Asia. The predatory trade involves from French “do-it-yourself” segment stores to supplier of products to North American television shows about housing reform.

Produção de hemoderivados deve dar um salto em 2011 (Valor Econômico, 19/11/2008)
Brasil avança em busca da autosuficiência de hemoderivados. O avanço dos genéricos representou economia de R$ 9,6 bi à população. Fitoterapia é mais uma opção para o Sistema Único de Saúde.

Observatório Social Em Revista #11 - outubro de 2006Madeira e Sangue (Observatório Social Em Revista #11, outubro de 2006)
[menção honrosa no 29º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos – outubro de 2007]

A indústria de móveis, somada à de madeira, é a campeã em acidentes de trabalho que provocam a incapacidade permanente em Santa Catarina, estado líder no setor moveleiro. Ações de prevenção têm sido adiadas. A reportagem apresenta vários perfis de trabalhadores que perderam dedos em acidentes de trabalho que poderiam ter sido evitados.

A revista, cujo tema são os acidentes de trabalho, pode ser baixada em quatro partes:

Parte 1 (pdf, 2.554 KB)
Parte 2 (pdf, 1.802 KB)
Parte 3 (pdf, 961 KB)
Parte 4 (pdf, 1.207 KB)

Trabalhadores da cana
Série de reportagens e entrevistas sobre os trabalhadores do setor sucroalcooleiro no Brasil, iniciada em 2004 e atualizada até julho de 2007. Trabalho financiado pela Oxfam e pelo Instituto Observatório Social.

Observatório Social Em Revista #6 - junho de 2004 - capaEscravos do Aço (Observatório Social Em Revista #6, junho de 2004)
Siderúrgicas se beneficiam de trabalho escravo em carvoarias na selva amazônica. Empresas controladas pelos grupos Queiroz Galvão e Gerdau são acusadas pelo Ministério Público Federal de se beneficiar da escravidão para produzir ferro gusa. A Companhia Vale do Rio Doce e a maior produtora de aço dos Estados Unidos, Nucor Corporation, relacionam-se comercialmente com essas empresas. Uma atividade econômica bilionária tem em sua base a violação dos direitos humanos. Por Dauro Veras e Marques Casara, fotos de Sérgio Vignes.

Revista em pdf (3 MB)

Café do BraZil: o sabor amargo da criseCafé do BraZil: o sabor amargo da crise (Observatório Social/CUT/Contg/Oxfam, setembro de 2002) (pdf, 7,7 MB)

Esta grande reportagem sobre as condições de vida e de trabalho dos cafeicultores familiares no Brasil fez parte de uma campanha da Oxfam e organizações parceiras pelo comércio justo.

Brazilian Coffee: the Bitter Taste of Crisis (English version, pdf, 3,9 MB)

[reportagens em migração do blog antigo]


26

Jun

11

Amazônia, jornalismo e interesse público

Reproduzo abaixo a íntegra de um artigo que a jornalista Miriam Leitão publicou em sua coluna de 24 de junho no Globo. Ela se refere à recente pesquisa do Instituto Observatório Social sobre o uso de carvão ilegal e trabalho escravo na cadeia produtiva do aço. No site da Papel Social há links para versão em pdf e repercussão na mídia. Esse trabalho é continuidade de um levantamento que vem sendo realizado há sete anos. Participei de etapas anteriores, a começar pela primeira denúncia, em junho de 2004, com a reportagem Escravos do Aço, que escrevi com Marques Casara e fotos de Sérgio Vignes.

É preciso tirar o chapéu pro Casara e pro Vignes, dois repórteres na verdadeira concepção da palavra. Guardadas as proporções, cobrir pautas de direitos humanos in loco na Amazônia tem semelhança com o risco de cobrir guerras. No arco do desmatamento, impera a lei da bala. Se aprovada a criação do estado de Carajás a partir do desmembramento do Pará, o novo estado será o mais violento do Brasil. Aliás, nenhum outro país tem índice comparável ao de Carajás: 68,1 assassinatos por ano para cada grupo de 100 mil habitantes, segundo dados de 2008. Por mais que a tecnologia possa e deva ser utilizada como aliada, pautas assim não se resolvem por telefone ou pelo Google em salas climatizadas. É preciso ir lá enfrentar os mosquitos, o calor e o medo; conviver com as pessoas que vivem o medo no cotidiano.

Outro ponto a destacar é a importância desse tipo de investigação bancada pelo terceiro setor. Ela aponta a viabilidade da construção de um novo modelo de jornalismo, alinhado ao interesse público e sem os vícios da mídia hegemônica – como a cobertura declaratória, o enfoque infotainement e os escusos interesses político-econômicos. O Instituto Observatório Social (IOS), para o qual tive a honra de colaborar por cinco anos, tem acertado ao investir em reportagens independentes que abordaram temas como discriminação de mulheres, exploração de bolivianos em confecções, maquiagem de acidentes de trabalho e outras do gênero. Parceira do IOS em várias ocasiões, a ong Repórter Brasil vem desempenhando há uma década um papel indispensável na defesa dos direitos humanos, em especial no enfrentamento do trabalho escravo. A Pública, agência de reportagem e jornalismo investigativo lançada este mês, promete trilhar caminho semelhante. A partir de amanhã, vai publicar uma série de reportagens baseadas em documentos inéditos do Wikileaks sobre o Brasil.

Entre os desafios de construir um fazer jornalístico alternativo estão os modelos de financiamento – há propostas bem interessantes, veja os links deste artigo de Victor Barone no Observatório da Imprensa. Outras armadilhas são a tentação do panfletarismo e a interferência de interesses políticos em detrimento dos fatos, risco nada desprezível também entre as organizações e pessoas ditas “progressistas”. Mas isso fica pra outro post – e convido meus leitores, jornalistas ou não, que tiverem interesse no assunto a dialogar sobre ele também em seus blogs.

O artigo de Miriam Leitão:

De pacto em pacto

O crime se infiltra na Amazônia, mesmo nas instituições criadas pra combatê-lo. Os elos se misturam e fortalecem a corrente que abate diariamente a floresta. A cada reportagem, um flagrante; a cada estudo, uma nova prova do velho problema: a mistura do legal com o ilegal na cadeia produtiva vai lavando os crimes. O Brasil avança no combate, mas é mais lento que o crime.

O Observatório Social divulgou esta semana outro estudo que começou num local emblemático: Nova Ipixuna, Pará. Lá, desembarcaram em março dois repórteres, Marques Casara e Sergio Vignes. Lá, em maio, foram assassinados dois ambientalistas, José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo. Os jornalistas investigavam o crime de uso de carvão vegetal ilegal na cadeia produtiva do aço, encontraram fornos ilegais e constataram, pelo cruzamento de dados, que as siderúrgicas do Pólo de Carajás estão usando carvão ilegal. José Cláudio e Maria denunciavam o desmatamento ilegal e foram mortos depois de avisarem que estavam marcados para morrer.

O país avança; aos poucos. O progresso usa a estratégia de construir redes de constrangimento e pressão sobre os criminosos. Mas os elos da cadeia do crime têm sido persistentes e há momentos em que se pensa que eles vencerão no final.

No documento do Observatório Social, como em outros que já foram divulgados com o mesmo objetivo, há motivos para desânimo e alívio. A boa notícia é que outras investigações que mostravam a conexão entre grandes empresas e os crimes trabalhistas e ambientais acabaram provocando pactos que permitiram avanços no combate ao trabalho escravo e degradante e ao desmatamento ilegal. Foi com movimentos assim que empresários, ONGs, governos, OIT, Ministério Público assinaram o pacto contra o trabalho escravo em 2004. Ele diminuiu o número de casos; mas não acabou com o absurdo. Houve denúncia contra a soja brasileira; compradores internacionais pressionaram, foi assinada a moratória da soja. Através dela as grandes empresas do setor se comprometeram a não comprar soja de área de desmatamento recente. Houve denúncias de que os grandes frigoríficos compram rebanhos que pastam em áreas desmatadas ilegalmente. Os supermercados foram cobrados pelos consumidores. Alguns aderiram ao compromisso contra a carne de desmatamento; outros, não. O Ministério Público iniciou então a campanha da Carne Legal. Impactantes anúncios mostravam a ligação entre o prato do consumidor e a prática ilegal. Tudo isso vai empurrando o país para a legalidade, apesar de todas as forças que se unem para manter o atraso.

Há casos revoltantes de políticos impunes ou cúmplices; de atrasos inaceitáveis em julgamentos; de perseguição a funcionários do Ministério do Trabalho ou do Ibama que apenas querem que a lei seja cumprida; de denúncias do Ministério Público não levadas em conta; de empresas que fazem vista grossa porque assim reduzem o preço dos seus insumos. De vez em quando o Brasil avança.

Um desses passos à frente foi dado quando houve a primeira denúncia contra trabalho escravo e desmatamento ilegal na indústria siderúrgica brasileira. O centro do problema era em Carajás. Ainda é. Foi criado depois da denúncia sobre os “Escravos do Aço” o Instituto Carvão Cidadão. O objetivo do ICC é exigir que todas as siderúrgicas de Carajás se comprometam a não comprar carvão ilegal, e a verificar se seus fornecedores respeitam as leis trabalhistas, garantem equipamentos de proteção aos operários e usam madeira de extração legal. Houve avanços.

O Observatório Social voltou lá em março e constatou que o crime continua. Marques Casara me disse no programa Espaço Aberto, da Globonews, que algumas das siderúrgicas locais não cumprem o que elas mesmas prometeram e lavam o crime na sua produção. Como? Misturando carvão legal, cascas de babaçu e carvão produzido em fornos ilegais. Tudo misturado faz a liga do ferrogusa que depois é exportado: 90% dos produtos de siderúrgicas como a Sidepar e Cosipar são comprados por grandes consumidoras e traders de aço como a ThyssenKrupp, NMT e Nucor Corporation. Empresas que fornecem para as grandes montadoras de automóveis americanas.

A diretora de sustentabilidade do Instituto Aço Brasil, Cristina Yuan, me disse que as produtoras de ferro-gusa do Pólo de Carajás não fazem parte da associação, que reúne apenas as grandes indústrias siderúrgicas do país. Ela garante que todo o carvão usado pelas empresas do Instituto Aço Brasil vem de florestas plantadas ou de manejo. E de fato não são elas as acusadas neste estudo. Para se separar das empresas desse grupo é que o antigo Instituto Brasileiro de Siderurgia trocou o nome para Instituto Aço Brasil.

Segundo Casara, a Vale foi procurada antes da divulgação do estudo. Ela é a única fornecedora de minério de ferro para as guseiras do Pará. A empresa disse que vai investigar a denúncia. Em outros momentos a Vale assinou pactos e assumiu compromissos de só fornecer a guseiras que não usam carvão ilegal. Tomara que a Vale investigue logo. Pelos dados do relatório, como se viu na imprensa, se forem cruzados os montantes de ferro-gusa produzido com o total de carvão legal registrado fica claro que grande parte do carvão é ilegal. Só em Nova Ipixuna os dois repórteres encontraram 500 fornos ilegais.

Toda vez que uma investigação ilumina a cadeia produtiva lá encontra os elos da cadeia do crime trabalhista e ambiental. A cada empurrão o Brasil avança um pouco. Essa é a esperança.


04

Mar

11

Responsabilidade solidária de siderúrgicas

Complementando o post anterior, segue a íntegra de release encaminhado pela assessoria de imprensa do PPS na Câmara Federal:

Siderúrgicas e mineradoras podem ser reponsabilizadas por trabalho escravo em carvoarias

Responsáveis por um negócio bilionário que representa 17,5% de tudo que o Brasil exportou no ano passado, mineradoras e siderúrgicas poderão ser responsabilizadas pelo trabalho escravo em centenas de carvoarias espalhadas pelo país. Hoje, a cadeia produtiva do aço e do minério de ferro compra toneladas de carvão vegetal para alimentar seus fornos mas, numa espécie de cegueira seletiva, não enxerga as condições subumanas a que são submetidos milhares de trabalhadores, principalmente na região amazônica.

Para acabar, ou pelo menos minimizar essa situação, o líder do PPS na Câmara, deputado federal Rubens Bueno (PR), apresentou na última semana um projeto de lei (PL 603/2011) que modifica a CLT (Consolidações das Leis do Trabalho) e responsabiliza empregadores e indústrias que consomem carvão vegetal por abusos contra os carvoeiros. Se o projeto for aprovado pelo Congresso Nacional, executivos de multinacionais da área flagrados adquirindo material produzido por trabalhadores submetidos a escravidão poderão ser enquadrados no artigo 149 do Código Penal Brasileiro, e sujeitos a pena de dois a oito anos de prisão, além de multa.

“A nossa intenção não é prejudicar as empresas, mas proteger os trabalhadores. O projeto estabelece a responsabilidade solidária e segue justamente o que muitas dessas indústrias pregam em seus relatórios de responsabilidade social. Se há responsabilidade social, ela tem que ser para valer e não apenas uma mera peça de marketing, de faz-de-conta”, afirma o deputado, lembrando o caso da Nike, que há alguns anos passou por sérios constrangimentos quando se descobriu que empregava em sua linha de produção mão de obra infantil. “Acredito que ninguém se sente bem, nem a empresas e nem o consumidor, em saber que o aço do carro que estão dirigindo foi forjado com o carvão produzido pelas mãos de um trabalhador explorado nos confins da Amazônia”, justica Rubens Bueno.

No Brasil, a situação de escravidão e maus tratos nas carvorias vem sendo alvo de diversas denúncias e autuações do Ministério do Trabalho. Uma das matérias jornalísticas mais contundentes sobre o tema, destaca Rubens Bueno, foi publicada pela pela revista Observatório Social em 2004. Na época, com a reportagem “Escravos do Aço”, a publicação desnudou a relação entre grandes multinacionais e a exploração criminosa de mão de obra na Amazônia (leia aqui).

Projeto estabelece regras de segurança para as carvoarias

O projeto do líder do PPS garante a formalização de contratos de trabalho, a segurança e a proteção do trabalhador. Patrões e os compradores de carvão vegetal serão responsabilizados judicialmente caso seja identificada a utilização de trabalho escravo ou condições degradantes no serviço. A ideia é comprometer toda a cadeia produtiva, do pequeno produtor de carvão até a multinacional que adquire o produto, no oferecimento de condições dignas para os trabalhadores, sob pena de condenação judicial.

A proposta do parlamentar prevê também a sinalização e demarcação dos fornos, para tornar o ambiente de trabalho mais seguro, e proíbe o acesso de pessoas não autorizadas ao local de produção. Além disso, os trabalhadores só poderão ter acesso aos fornos com a utilização de equipamentos de segurança apropriados.

Os empregados também devem ter acesso à água potável, banheiro e abrigos destinados ao descanso. O projeto prevê ainda que as carvoarias mantenham uma pessoa treinada para prestar atendimentos de primeiros socorros em caso de acidente.

“O carvão é produzido em situação de total insalubridade e em péssimas condições de higiene e conforto”, afirma Rubens Bueno, que acredita que a aprovação do projeto significaria melhoria imediata das condições de trabalho para os carvoeiros de todo o país.

A proposta apresentada pelo líder do PPS teve origem em projeto de lei do ex-deputado Juvenil (PRTB-MG), arquivado no final da legislatura passada. “Resolvi reapresentar a proposta, com algumas alterações, pois não podemos, de maneira alguma, permitir que no Brasil do século 21 seres humanos ainda sejam tratados como animais”, resumiu o parlamentar.


03

Mar

11

Projeto para mudar CLT e proteger carvoeiros

Recebi do Diógenes Botelho, assessor deste blog para assuntos aleatórios no Planalto Central, uma notícia boa da Câmara dos Deputados: a reportagem Escravos do Aço, que fiz em 2004 com o colega Marques Casara e o repórter fotográfico Sérgio Vignes, inspirou um projeto de lei “do bem”. Daí até a aprovação já são outros quinhentos, mas fico contente que o jornalismo possa inspirar parlamentares a tomar iniciativas em defesa dos direitos humanos.

Dauro e Casara,

O líder do PPS na Câmara, deputado Rubens Bueno (PPS-PR), reapresentou projeto de lei que modifica a CLT para proteger os trabalhadores das carvoarias. A proposta tem como origem a reportagem de vocês (Escravos do Aço) e estabelece a responsabilidade solidária nos contratos de trabalho das carvoarias. Ou seja, responsabiliza também as siderúrgicas pelos enventuais danos aos trabalhadores desse setor. O projeto original foi apresentado pelo deputado Juvenil Alves – PRTB-MG (aquele que foi cassado por abusos em sua campanha ). Como o PL foi arquivado no final da última legislatura, o líder do PPS resolveu reapresentá-lo no último dia 24 de fevereiro com algumas modificações. Se interessar, segue o link para o projeto e a tramitação.


15

Feb

11

Quem manda na devastação da Amazônia

Carvoaria em Açailândia, MA

Carvoaria em Açailândia, MA. Foto: Sérgio Vignes

Em junho de 2004, publiquei na revista do Observatório Social, junto com o colega Marques Casara e o repórter fotográfico Sérgio Vignes, a reportagem Escravos do Aço, sobre a vinculação entre trabalho escravo em carvoarias na Amazônia e a indústria siderúrgica. Uma das consequências imediatas foi a formalização, no mês seguinte, de um pacto de empresas siderúrgicas brasileiras contra o trabalho escravo.

Quase sete anos depois, Marques traz os resultados de novas investigações sobre o tema (como ele gosta de citar, todo jornalismo é investigativo, e se não for, não é jornalismo). Dá nome aos bois, apontando as mega-empresas que compram ferro-gusa obtido na ilegalidade. Cita também a problemática Secretaria do Meio Ambiente do estado do Pará, envolvida no esquema de corrupção para explorar madeira ilegalmente na Amazônia.

Por motivos vários, não pude dar continuidade a essa parceria específica (fizemos outras bem bacanas e vamos fazer mais). Fico contente que meus colegas não tenham “largado o osso”, pois se dependêssemos do acompanhamento desse assunto pelos jornalões e telejornais, o resultado seria nulo. Marques e Sérgio são daquele tipo raro de repórteres que, correndo à margem da imprensa industrial, acreditam que o bom jornalismo consegue fazer a diferença na vida das pessoas e do ambiente.

A revista vai ser lançada em São Paulo nesta quinta-feira, 17.

Um trecho do post do Marques no blog Contradições Tropicais no País do Futuro dá ideia do que vem por aí:

Segundo a revista Observatório Social que será lançada na próxima quinta 17, políticos e empresários do Pará montaram um consórcio para abastecer a indústria mundial do aço com carvão do desmatamento e do trabalho escravo. Fazem parte do consórcio funcionários da Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Os principais beneficiários do esquema são as companhias siderúrgicas que operam no pólo de Carajás, dentre elas a Cosipar, que em breve receberá um aporte de US$ 5 bilhões de investidores russos. Com o carvão do desmatamento fornecido pelo consórcio – e o minério de ferro da Vale, as siderúrgicas produzem ferro-gusa. Depois, vendem o produto para gigantes globais do setor de aço. São as mega empresas de aço que financiam a devastação da floresta, pois compram 90% da produção de ferro-gusa. São elas: Gerdau, TyssenKrupp, Kohler, WhirlpoolCorp, Nucor Corporation e National Material Trading Co. A Vale também é responsabilizada, ao não cumprir acordo de 2008 com o Ministério do Meio Ambiente, de só vender minério de ferro para quem usasse carvão certificado. …


04

Jan

10

Sobre mim

Em poucas palavras

Pai de dois meninos, marido, jornalista, roteirista. Pernambucano de nascimento, filho de cearenses, potiguar e catarinense por adoção. Migrante – filho de todos os cantos e de canto nenhum. Viajante apaixonado pelo Brasil e pelo mundo. Leitor e cinéfilo voraz. Amigo dos amigos. Nômade com rede no quintal. Cético por natureza e profissão, mas influenciável pela lua cheia e pela música. Cicatrizes, boas histórias e lembranças. Maravilhado com o milagre da vida.

Currículo resumido

Dauro Veras atua há 30 anos como repórter, editor e roteirista. O jornalismo e a curiosidade já o levaram à maioria dos estados brasileiros e a 30 países da América, Europa e Ásia. Escreve sobre economia, turismo, cultura, inovação e direitos humanos. Também roteiriza vídeos educacionais, ficcionais e documentais. Seu trabalho foi reconhecido em prêmios jornalísticos como o Esso e o Vladimir Herzog. O documentário “Espírito de Porco” (2009), que codirigiu, sobre os impactos da suinocultura industrial, foi premiado em festivais de cinema no Brasil, em Portugal e na Costa Rica. Mora em Florianópolis com a mulher e dois filhos.

Prêmios e destaques:

Contato

e-mail: dauroveras [arroba] gmail [ponto] com

twitter/ skype: @dauroveras

Tel.: (+55 48) 3238 9527 | 9922 9700


08

Sep

08

Trabalho escravo e prêmio internacional

Dois grandes ícones da luta contra o trabalho escravo – a Comissão Pastoral da Terra , vinculada à Igreja Católica, e a ong Repórter Brasil – vão receber o prêmio internacional concedido pela Free The Slaves – The Heroes. Reconhecimento merecido pro trabalho do jornalista e cientista social Leonardo Sakamoto, que coordena a Repórter Brasil.

O Saka nos prestou apoio fundamental em 2004 quando Marques Casara e eu fizemos a reportagem Escravos do Aço, sobre siderúrgicas que se beneficiam com o trabalho escravo em carvoarias da Amazônia. A atuação da ong tem contribuído para a libertação de muitos trabalhadores que viviam confinados nos confins da floresta, e também pra prevenção do crime, reabilitação dessas pessoas e punição dos culpados – o que tem ocorrido mais na esfera civil que na criminal. Mais recentemente, uma série de reportagens dele denunciou o crime no Paquistão.

Outro papel importante da Repórter Brasil tem sido o de articulação política para pressionar pela aprovação da PEC do Trabalho Escravo (proposta de emenda constitucional 438/2001), que prevê a expropriação de terras onde forem encontrados trabalhadores escravizados. A PEC tramita há sete anos no Congresso e sofre forte oposição da bancada ruralista.


24

May

06

Muito além da notícia

A jornalista Paola de Salvo defendeu em dezembro de 2005 no Departamento de Jornalismo da ECA-USP o TCC Muito além da notícia – A influência e o papel da imprensa no combate ao trabalho escravo no Brasil contemporâneo. Um dos seus estudos de caso é a reportagem Escravos do Aço, que Marques Casara e eu publicamos na revista do Observatório Social. A reportagem está entre as cinco mais citadas em questionário respondido por 11 atores sociais que combatem o trabalho escravo no país, por ter contribuído pra mudar a realidade. Paola aborda a emergência no Brasil do chamado “civic journalism” ou jornalismo público, em contraponto a formas convencionais que já não atendem tanto os interesses dos leitores. Cita também a ONG Repórter Brasil e a Agência Carta Maior. A íntegra do TCC, com 116 páginas em pdf, está aqui. Você pode ler também um resumo de sete páginas com a referência à matéria do Observatório.