Posts com a categoria ‘letras’

30

May

14

No caixa eletrônico

Crônica da amiga Adriane Canan, uma mestra na arte da observação do cotidiano.

no caixa eletrônico, bem ao lado do meu:

- ai, errei de novo!
- eu disse pra ti, tu és um tanso. tásh com oitenta anos na cara e não acerta a senha uma vez. deixa pra mim que eu sou mais nova.
ela, uns 70, talvez, toma o lugar dele e começa a tocar a tela do caixa eletrônico.
- como é mesmo a senha?
ele fala baixinho no ouvido dela. ela toca a tela.
- ai, não deu outra vez. culpa tua, não me dissessi direito!
- claro que eu disse -, ele revida e dá uma tossida forte.
- agora tu vásh entrar e pagar lá dentro. três erros a máquina devolve o cartão, já sabesh. vou te esperar ali fora, naquele banquinho, no sol.
ele vai, paciente, até a porta giratória.
- João Carlos -, ela grita.
me assusto, ele também.
- já sabesh que não podes entrar por aí, né? e o marca-passo? o guarda abre pra ti, vai ali, ó.
ele vai, devagar, pra outra porta. ela olha pra mim:
- tenho que cuidar bem, tadinho.

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21

May

14

A irmandade da uva

John Fante - A irmandade da uva. Capa de livro.

Era pra ser só uma passada rapidinha na livraria, mas ele me fisgou. Recém-lançado no Brasil, The brotherhood of grape é de 1977. John Fante era o escritor favorito de Bukowski, que dele dizia: “Finalmente alguém que não tem medo da emoção”. Sem dúvida ele dominava o ofício como poucos.

O romance mais conhecido de Fante, e provavelmente o melhor, é Pergunte ao pó, em que seu alter-ego Arturo Bandini tenta fazer sucesso na Los Angeles dos anos 30, enquanto mata a fome com laranjas em um hotel barato e vive uma paixão complicada com uma garçonete mexicana. Humor e lirismo com muita arte.

O livro foi traduzido pro português por ninguém menos que Paulo Leminski, que, no prólogo, descreve a aventura dessa transcriação. Algumas sutilezas só funcionavam em inglês, lembrava Leminski, como a frase “I was twenty then”, fundamental pra definir o perfil do protagonista (“Eu tinha vinte anos então”. ou “Eu era vinte…”).

Também gosto muito de O vinho da juventude, em que ele recupera, com um tom bem-humorado e agridoce, as lembranças da infância e adolescência numa família de imigrantes italianos. E 1933 não foi um ano bom, também focado na família, com destaque para o seu pai, um pedreiro orgulhoso e durão.

Recomendo Fante a todos que gostam de ler bons romances em que o escritor coloca sua alma, sem floreios ou artifícios literários.

Depois conto o que achei deste.

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13

May

14

De Quintana, Shakespeare e leitura

- Poeta, o que devo ler para entender Shekespeare? - Shakespeare, minha filha.

– Poeta, o que devo ler para entender Shekespeare? – Shakespeare, minha filha.

Fonte: Ora Bolas – O humor de Mário Quintana. Juarez Fonseca, L&PM Pocket, 4a. edição, p. 94, maio de 2013.

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01

Dec

13

DVeras Awards 2013: livros

Chegou mais um dezembro. O blog mantém a tradição e apresenta a lista de queridinhos do ano em várias categorias. Pra quem toma contato com o DVeras Awards pela primeira vez, segue um resumo dos critérios, pelo que me lembro:

  • O único responsável pelas escolhas sou eu mesmo, ditador benevolente deste blog.
  • Em caso de empate, é utilizado o método científico do arremesso de moeda para o alto.
  • O prêmio aos contemplados é a visibilidade entre meus 17 leitores, todos formadores de opinião.
Vamos à primeira categoria: livros. Em 2013, encarei 22 livros e estou avançando em outros sete – mais que no ano anterior, menos do que eu gostaria. Nesta conta, não incluo dezenas de leituras transversais relacionadas a pesquisas de trabalho. A grande novidade do ano é o suporte tecnológico. Rendi-me ao e-book e tenho convivido com muitos livros no tablet Samsung Galaxy de sete polegadas – um formato confortável pra ler na rede, no ônibus ou numa casinha de sapê. Sem mais delongas, a lista dos contemplados é esta:
3. Vida de escritor (Gay Talese). É uma combinação de autobiografia com algumas histórias levantadas por ele que terminaram não sendo publicadas. Ou por rejeição do editor, ou porque Talese não sabia o caminho a tomar e decidiu abandonar o projeto. Ele tem fascínio por personagens anônimos e pelos que fracassam. Um resumo do posfácio de Mário Sérgio Conti: “Vida de escritor traz precisamente o que o título enuncia: um relato do calvário. … O livro não tem nada de condescendente nem conformista. Os seus assuntos são o trabalho e o fracasso. … Ao mostrar as frustrações do relato de apurar e relatar, Talese desmistifica o jornalismo”.
2. Norwegian Wood (Haruki Murakami). Uma das minhas melhores descobertas de 2013. Murakami consegue fazer uma ponte entre a cultura japonesa e a ocidental em um romance que flui como água, sem truques rebuscados de estilo. Depois do livro, vi o filme (de Tran Anh Hung) e também curti muito. Em seguida devorei a distopia 1Q84, em três volumes, e comecei Minha querida Sputnik. Uma boa síntese da narrativa de Norwegian Wood, na Wikipedia:
“No agitado Japão dos anos 60 o jovem Toru Watanabe mistura uma existência sem perspectivas às primeiras questões filosóficas e afetivas ao se envolver com a namorada de seu melhor amigo recém falecido, [com] uma estudante de ideias libertárias e [com] uma mulher mais velha. Repleto de referências pop com citações aos Beatles, Bill Evans, Miles Davis, literatura norte-americana, cinema e cultura europeia, o romance de Murakami cria um delicado – e por vezes cruel – retrato da geração que passou quebrando tabus nos anos 60 e 70 e viu todo um sonho ruim [sic; ruir, né?] nas décadas seguintes.”
E o vencedor do DVeras Awards 2013 é…
1. O sentido de um fim, de Julian Barnes. Ainda estou sob impacto desse livrinho de 160 páginas, vencedor do Man Booker Prize de 2011. As armadilhas da memória são o pano de fundo do romance. Tony Webster, um pacato sexagenário inglês, recorda os tempos de adolescência e juventude, tentando reconstituir retalhos da passagem pela escola, do relacionamento com os três amigos mais chegados, das suas primeiras experiências com mulheres. Um desencanto afetivo o acompanha e ele tenta compreender o que ocorreu, pra seguir em frente. “O que você acaba lembrando nem sempre é a mesma coisa que viu”, é uma de suas frases, mencionada na resenha da editora Rocco, que o publica no Brasil.
Este é o segundo livro de Barnes que leio – em 2001, li Do outro lado da Mancha, uma deliciosa coletânea de histórias sobre britânicos que foram viver na França. Assim como o texto do japa Murakami, o de Barnes flui sem pirotecnias, conduzindo o leitor como se cada frase fosse ligada à outra por fios invisíveis. Ao longo da leitura de O sentido de um fim, anotei trechos como estes:
“Mas o tempo… como o tempo primeiro nos prende e depois nos confunde. Nós achamos que estávamos sendo maduros quando só estávamos sendo prudentes. Nós imaginamos que estávamos sendo responsáveis, mas estávamos sendo apenas covardes. O que chamamos de realismo era apenas uma forma de evitar as coisas em vez de encará-las. O tempo… nos dá tempo suficiente para que nossas decisões mais fundamentadas pareçam hesitações, nossas certezas, meros caprichos.”
~
“Eu sem dúvida acredito que todos nós sofremos traumas, de um jeito ou de outro. Como não sofreríamos, a não ser num mundo com pais, irmãos, vizinhos e amigos perfeitos? E há também a questão, da qual tanta coisa depende, de como nós reagimos ao trauma: se o admitimos ou reprimimos, e como ele afeta a nossa forma de lidar com os outros. Alguns admitem o trauma e tentam atenuá-lo; alguns passam a vida tentando ajudar outras pessoas que foram traumatizadas; e há aqueles cuja principal preocupação é evitar sofrer mais traumas, a qualquer custo. E estes é que são cruéis, é deles que temos que nos precaver”.
~
“Naquela época, nos imaginávamos presos numa espécie de gaiola, esperando para sermos soltos na vida. E quando esse momento chegasse, as nossas vidas – e o próprio tempo – iriam se acelerar. Como poderíamos saber que nossas vidas já tinham começado, que algum benefício já havia sido obtido, algum dano já havia sido causado? E, também, que seríamos soltos numa gaiola apenas maior, cujas fronteiras a princípio seriam imperceptíveis.”

 

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01

Mar

13

Vida de Escritor

Vida de EscritorVida de Escritor by Gay Talese

My rating: 4 of 5 stars

Li e recomendo Vida de escritor, de Gay Talese. É uma combinação de autobiografia com algumas histórias levantadas por ele que terminaram não sendo publicadas. Ou por rejeição do editor, ou porque ele não sabia o caminho a tomar e decidiu abandonar o projeto. Talese tem fascínio por personagens anônimos e pelos que fracassam.

Passou meses na China pesquisando sobre uma jogadora de futebol que perdeu um pênalti na final da Copa do Mundo, numa partida que deu o título aos EUA. Durante anos, coletou informações e fez entrevistas sobre um prédio antigo em NY, onde diversos restaurantes bacanas abriram as portas e faliram em poucos meses. Também acompanhou de perto o caso de Lorena Bobbit, a equatoriana que decepou o pênis do marido. O resultado é um painel que revela muito sobre o método de trabalho dele, suas obsessões, bloqueios diante da página em branco e a paixão pela reportagem.

Do posfácio de Mario Sergio Conti: “Vida de escritor traz precisamente o que o título enuncia: um relato do calvário. … O livro não tem nada de condescendente nem conformista. Os seus assuntos são o trabalho e o fracasso. … Ao mostrar as frustrações do relato de apurar e relatar, Talese desmistifica o jornalismo”.

Conti conta ainda que Vida de Escritor, de 2006, foi o livro de Talese que teve pior recepção nos Estados Unidos. As restrições foram de duas ordens: ele seria um pot-pourri com restos de livros que goraram; e a sua construção era forçada e frágil. Conti diz que não há o que discutir quanto à primeira ressalva, mas a restrição não se sustenta, pois considera a construção do livro “altamente requintada” – labiríntica, autoquestionadora, fragmentada.

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24

Dec

12

DVeras Awards 2012: livros

Poucas e boas leituras em 2012. Vamos à retrospectiva. Em janeiro, ainda sob efeito estupefaciante de uma viagem ao sul da Argentina, devorei Fin de novela en Patagônia, de Mempo Giardinelli, de quem eu já conhecia Revolução de bicicleta e Luna caliente. Fevereiro me encontrou às voltas com Sir Richard Francis Burton, de Edward Rice, biografia do explorador, escritor e agente secreto britânico que, entre outras façanhas, foi o primeiro ocidental a fazer a peregrinação a Meca, traduziu Mil e Uma Noites e o Kama-Sutra. Em março, li o excelente livreto Wabi-sabi for Artists, Designers, Poets & Philosophers (Leonard Koren), emprestado pelo Fabrício Boppré e inspiração estética pro design deste blog. O caderno de Maya (Isabel Allende) está longe de ser o melhor da escritora chilena, mas gostei porque se passa na Ilha de Chiloé, que visitamos alguns meses antes. Junho foi um mês de dois tesouros: Coisas frágeis, ótimo livro de contos fantásticos de Neil Gaiman, e o clássico Walden, do “avô” dos ambientalistas, H.D. Thoreau.

O segundo semestre começou com o excelente A elegância do ouriço, da francesa Muriel Barbery, sobre uma culta zeladora de um prédio de classe alta em Paris, que se passa por ignorante, e seu relacionamento com uma menina que planeja se suicidar. Virou filme, que ainda não vi. Seguiram-se quatro romances policiais de Jo Nesbø e seu detetive Harry Hole – uma grata surpresa neste gênero, vinda da Noruega (dica da Regininha Carvalho e dos meus amigos noruegueses). Um livro visceral foi Gomorra, reportagem que colocou o jornalista italiano Roberto Saviano na lista dos jurados de morte da Camorra (merci Michel et Cecilia). Gostei muito de La suma de los dias, memórias de Isabel Allende. Uma das melhores surpresas literárias do ano para mim foi Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, romance ao mesmo tempo intimista e com pitadas de suspense (dica do Chico Faganello). Dele eu já tinha lido o ótimo Mãos de cavalo. Este novo romance reforçou minha impressão de que estamos diante de um grande talento e que ainda vamos ouvir falar muito dele.

Meus hábitos anárquicos e o pique de trabalho me impediram de ler vários livros de amigos, que estão na fila. Pelo que conheço do que escrevem, vão me dar bastante prazer. Comecei e deixei inacabados outros tantos: Hunger (Knut Hamsum), Autobiografia (Agatha Christie), A espuma dos dias (Boris Vian) e A marcha para o Oeste (Orlando Villas Bôas e Cláudio Villas Bôas). No momento, tenho nas mãos o saboroso Vida de Escritor, autobiografia de Gay Talese, um dos pais do new journalism americano. Que em 2013 eu tenha tempo, sorte e disciplina pra lê-los todos.

Mas vamos ao premiado. O ganhador do DVeras Awards 2012 na categoria livros é… Walden, de H.D. Thoreau, que sublinhei com deleite durante toda a leitura. Mesmo reconhecendo que o livro tem alguns trechos chatos, com excesso descritivo, recomendo pela profundidade e originalidade das ideias. É uma daquelas obras que deixam marcas no leitor que busca algo além do senso comum da existência. Em segundo lugar, Sir Richard Francis Burton, pela construção primorosa da biografia desse personagem extraordinário. E em terceiro, Barba ensopada de sangue, um romance com linguagem ágil, especialmente nos diálogos, que flui como as ondas do mar de Garopaba, onde se passa a história.

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30

Jul

12

Olavo Bilac jornalista

Recebi da Beth Karam e compartilho esta nota sobre o lançamento de um livro da talentosa colega jornalista Marta Scherer:

A Editora Unisul lança, no dia 16 de agosto, o livro “Imprensa e Belle Époque – Olavo Bilac, o jornalismo e suas histórias”, de Marta Scherer.

Jornalista, Marta Scherer debruçou-se sobre as crônicas de Olavo Bilac publicadas em jornais com a finalidade de pesquisar a imprensa para sua dissertação de mestrado (recebeu o Prêmio Adelmo Genro Filho de melhor dissertação de 2008, prêmio concedido pela Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo).

Assim, ao mesmo tempo em que resgata como era o jornalismo na Belle Époque no Brasil, a autora traz à tona uma faceta menos conhecida do autor de “Ora direis, ouvir estrelas”. Como muitos poetas e escritores da época, também Olavo Bilac viu no jornalismo uma forma mais bem remunerada para continuar escrevendo. Através de suas crônicas, ela recupera assim um pouco da história do jornalismo, desde a transformação da imprensa artesanal em profissional, mudanças técnicas, surgimento da fotografia e aumento das ilustrações, incremento da publicidade nos jornais, surgimento do repórter, profissionalização dos jornalistas, vida dos profissionais de imprensa, censura, ética jornalística.

Na obra, que faz parte da Coleção Unisul de Comunicação, as crônicas selecionadas de Olavo Bilac ressaltam, dessa forma, as mudanças que estavam em curso na imprensa do Brasil e do mundo. Os jornais deixavam de ser panfletários (ligados diretamente a partidos políticos) para falarem sobre fatos do cotidiano, tornando-se empresas independentes das correntes ideológicas. E seus cronistas retratavam essas mudanças, no jornalismo e na sociedade, registrando um Brasil que entrava na modernidade.

O livro pode ser adquirido de qualquer parte do país, pelo site www.editora.unisul.br

Lançamento

“Imprensa e Belle Époque – Olavo Bilac, o jornalismo e suas histórias”, de Marta Scherer, Editora Unisul/Coleção Unisul de Comunicação

Horário: 19h30

Local: Livraria Saraiva do Shopping Iguatemi-Fpolis

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26

Jun

12

Anotações de leitura: A elegância do ouriço

“Os favores do destino têm um preço. Para quem se beneficia das indulgências da vida, a obrigação de rigor na consideração da beleza é inegociável. A língua, essa riqueza do homem, e seus usos, essa elaboração da comunidade social, são sagradas. Que evoluam com o tempo, se transformem, se esqueçam e renasçam, enquanto, por vezes, sua transgressão torna-se fonte de uma fecundidade maior, nada muda o fato de que, para praticar com elas esse direito ao jogo e à mudança, é necessário, previamente, ter lhes declarado plena submissão. Os eleitos da sociedade, esses que o destino isenta das servidões que são o quinhão do pobre, têm, portanto, a dupla missão de adotar e respeitar o esplendor da língua”.

A zeladora Renée, irritada com uma vírgula fora do lugar em um bilhete, em A elegância do ouriço – Muriel Barbery.

“A faculdade que temos de manipular a nós mesmos para que o pedestal de nossas crenças não vacile é um fenômeno fascinante”.

Ainda Renée.

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05

Apr

12

Os defuntos do poço

Cresci ouvindo papai contar e recontar esta história. O mano Camillo também. Há algum tempo, durante o enterro de um parente, ele teve a oportunidade de ouvi-la outra vez de um primo, na porta do cemitério.

O poço

Camillo Veras

Depois de toda uma tarde modorrenta, mais que morna, o velório acabou e finalmente o caixão partiu. Nesses tempos já não era obrigação nem costume usar preto em cerimônias como essa e muitos chegaram ao local de mangas curtas. Somente as mulheres mais velhas mantinham os vestidos longos e negros. Lento, o cortejo levou quase um quarto de hora para percorrer aquelas centenas de metros entre a casa e o cemitério, encoberto pela poeira levantada pelos passos arrastados e ainda castigado pelo sol de vários meses de seca. (…)

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13

Mar

12

Sete dias entre a vida e a morte

“… todos te buscam, facho de vida, escuro e claro, todos te buscam e só alguns te acham. Alguns te acham e te perdem. Outros te acham e não te reconhecem e há os que se perdem por te achar…”

Poema de Ferreira Gullar, citado nesta magnífica crônica de Fernando Evangelista no Nota de Rodapé.

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