Posts com a categoria ‘letras’

07

Feb

12

O povo brasileiro e o bar Savoy

Na última página de O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro, papai deixou na margem o comentário de que é um ” magnífico livro”. E também esta anotação, precedida pela observação de que não tem nada a ver com a obra:

Numa placa de bronze afixada na parede interna do último edifício da Avenida Dantas Barreto, no Recife, lê-se: ‘Por isso, no bar Savoy, o refrão tem sido assim: são trinta copos de chope, são trinta homens sentados; trezentos desejos presos, trinta mil sonhos frustrados’.
Camillo, 19/09/2007 – quinta-feira. Russas-CE, BRASIL.

Bookmark and Share


06

Dec

11

Reflexão sobre ritmo e olhar

“Sempre houve mais no mundo do que o que os homens conseguiam ver, por mais devagar que andassem. E não enxergarão nem um pouco melhor a alta velocidade. …a um homem, se ele for um homem de verdade, não prejudica em nada ir devagar, pois sua glória não está de modo algum em ir, mas em ser”.

John Ruskin, desenhista inglês no século 19, citado por Alain de Botton em A Arte de Viajar.

Bookmark and Share


01

Dec

11

DVeras Awards: livros marcantes em 2011

Este ano, por vários motivos nada edificantes, li pouco e de maneira dispersa. Mas a paixão permaneceu acesa e tive a sorte de degustar algumas obras de primeira. As mais marcantes:

5. A trégua (Primo Levi). Reminiscências da libertação do autor do campo de Auschwitz e do período que passou perambulando pelas estradas e acampamentos da Polônia e Rússia, até ser repatriado para a Itália. Um autêntico romance on the road, forte e belo.

4. O orientalista (Tom Reiss). Biografia de Lev Nussimbaum, um genial e obscuro escritor judeu que se passou por príncipe muçulmano durante o nazismo. O autor passou anos debruçado em romances, cartas e testemunhos para reconstituir a história desse sujeito extraordinário que reinventou a própria vida.

3. Mãos de cavalo (Daniel Galera). Romance bem construído com base na infância e adolescência do autor num bairro da periferia de Porto Alegre. A prosa flui solta, coloquial, os personagens são densos. Já tinha lido uns contos dele e tive ótima impressão deste livro. Galera sabe o que faz.

2. Quase Tudo (Danuza Leão). Eu gostaria imensamente de tomar champanhe com Danuza e ouvir de sua boca histórias saborosas e tocantes como as que encontrei nessas páginas. A cena final, vivida em Paris, é belíssima.

E o livro que ganha o DVeras Awards 2011 é…

O caderno vermelho: histórias reais (Paul Auster). Sou fã de Auster há tempo. Fiquei fascinado por este livrinho de histórias curtas em que ele descreve, sem pirotecnias linguísticas ou frescuras de estilo, alguns fatos bizarros e curiosos que viveu, presenciou ou ouviu dos amigos e família. Um mergulho despretensioso, conciso e bem humorado no mistério do cotidiano, dos encontros e desencontros de amantes, das coincidências, das escapadas da tragédia por um triz. Esse livro lembra um pouco um outro, de mais fôlego, que ele organizou com histórias de ouvintes do seu programa de rádio, e que também recomendo: Achei que meu pai fosse Deus.

Bookmark and Share


30

Nov

11

DVeras Awards: livros não terminados em 2011

Dezembro começa amanhã e, com ele, o curioso fenômeno da compressão do tempo, em que as pessoas tentam se livrar em duas semanas do que precisariam do mês inteiro pra fazer. Vou mais além nesse esforço em prol do verão ocioso: até o dia 10 pretendo fechar a birosca pra balanço. Isso pede o lançamento imediato de uma nova edição do DVeras Awards – a consagrada lista de top 5 sobre assuntos aleatórios, escolhida pelo júri do eu-mesmo. O prêmio aos laureados é minha eterna admiração.

Comecemos por uma nova categoria: a dos livros que não consegui terminar em 2011. Chegar à página final deles vai entrar na minha lista de modestas intenções para 2012 – nada de “resoluções” a serem esquecidas antes do carnaval. Estou amparado pelo decálogo dos direitos inalienáveis do leitor, item 3. Se você também tem pendências livrescas, meu conselho é descartar a culpa e agarrar algo melhor – até mesmo outro livro. Um dia você retoma a obra encostada. Ou ela fica pra trás e você encontra outra. Sem mais delongas, a lista:

5. O primeiro terço (Neal Cassady)

O autor, que inspirou Kerouac a criar o maravilhoso Dean Moriarty de On the road, escrevia com vitalidade. Aqui, conta a história da própria vida – curta, aliás. Ainda estou na parte dos avós e pais, bando de malucos que nasceram pra virar personagens. Esqueci o livro em algum canto da casa e ele voltou pra estante. A gente se vê por aí.

4. Hunger (Knut Hamsum)

Presente dos queridos Eirik e Hélène, junto com outros dois romances do autor norueguês. O prefácio é de Paul Auster, de quem sou fã confesso – aguarde o próximo DVeras Awards. A fome está em inglês e parece ter sido esculpido frase a frase. A capa é linda, o cheiro é bom. Comecei devagar, parando pra consultar o dicionário. Fui à geladeira e resolvi dar um tempo.

3. Walden (H.D. Thoreau)

Um clássico. Tenho um pouco de medo do seu poder subversivo mudar minha vida. Mas aí penso: como a minha vida vai mudar mesmo, com ou sem Walden, então que seja com ele.

2. Sir Richard Francis Burton (Edward Rice)

Gamei nessa biografia do aventureiro britânico que falava 29 línguas, rodou o mundo e trouxe o Kama Sutra e As mil e uma noites pra Europa. Rice pesquisou por 18 anos e refez o caminho de Burton pra escrever o livro. É meu atual companheiro de cabeceira, em doses homeopáticas pra durar mais tempo.

E o prêmio de melhor livro não lido em 2011 vai para…

Os últimos soldados da guerra fria, de Fernando Morais. Nem comecei ainda, mas deve chegar pelo correio a qualquer momento. É quase certo que vai me fazer interromper todos os outros, assim como são grandes as chances de não terminá-lo antes de 31 de dezembro. Estou em boa companhia pra começar 2012.

Bookmark and Share


25

Nov

11

Hey Jude passo a passo

Genial. Não sei o autor, se souberem me digam. Compartilhado pela Márcia Fernandes no Facebook.

Bookmark and Share


08

Oct

11

Sessão da Tarde

Meu novo ídolo, Pedrosa da Silva, colunista da Fired – uma publicação da Lhamas Imperiais Editora.

-

Um belo dia, o chefe lhe diz: “Precisamos conversar.” É o preâmbulo para uma nova e excitante fase da sua vida. Você esvazia as gavetas e escreve aquele fatídico e-mail aos colegas: “Não é um adeus, é um até logo”, etc. Em casa, explora as reentrâncias do sofá macio, folheia uma HQ e observa o gato. O felino ainda vai lhe dar muitas aulas sobre como conservar energia evitando movimentos desnecessários. Agora você está apto a praticar o nadismo, a doce arte de não fazer nada. E se transforma em potencial leitor da Fired – a revista do desempregado moderno.

Pesquisa do Sensacionalista (“um jornal isento de verdade”) revela: 75% das pessoas que vão “partir em busca de novos desafios” passarão seis meses vendo Sessão da Tarde. Isso reforça a convicção da equipe Fired de que existe um importante segmento de público a atender com informação e serviços. A revista é a sua nova aliada no enfrentamento dos mitos criados pela cultura da aceleração. Sem medo e sem culpa.

Pense nas vantagens de seu novo status. Adeus tensão de alternar rapidamente a tela do computador entre o jogo de paciência e uma planilha excel. Chega do balé dissimulado que é transportar documentos aparentando pressa, para em seguida passar meia hora na sala do cafezinho. O candidato a nadista é um ator em permanente ação de resistência – ou melhor, resistência à ação. Mas essa vida dupla cobra seu preço em úlceras ou coisa pior.

Fired investe na autoestima do ocioso criativo que sai do armário. Esqueça os rótulos de loser ou mandrião, pois essa caterva não sabe o que fala. Experimente a sensação inebriante de se autodefinir: “Sou artista conceitual”. Ou freelancer, filósofo, flâneur, como preferir. Existe um termo em alta no mercado, empreendedor, mas alguém sempre termina lhe pedindo pra descrever o projeto que desenvolve, e isso dá trabalho. Há ainda a mítica figura do consultor, um oráculo em estado de repouso, que só se mexe quando é bem pago.

Construir sua persona pós-CLT demanda rigorosos exercícios iniciáticos, tais como:

- Ir ao cinema no meio da tarde. É um passo fundamental na gênese do Novo Desempregado, o Übermensch liberto da ditadura do relógio-ponto. Dono de seu tempo, compra o ingresso sem pegar fila, escolhe a melhor poltrona e goza o momento com a consciência tranquila, inspirado no filósofo bigodudo: os remorsos são obscenos.

- Caminhar até a geladeira e pegar uma cerveja. Quando esta prática esotérica ocorre antes do meio-dia, é duplamente salutar, pois se associa ao benefício de acordar cedo (mas não cedo demais) – e assim aproveitar melhor o tempo inútil. Há quem garanta que o som da latinha sendo aberta libera endorfinas.

Criamos a Sessão da Tarde com dois objetivos: acabar de vez com as nossas dúvidas sobre a diferença entre seção e sessão; e levar dicas de joie-de-vivre ao nosso seleto público sem vínculo empregatício. O leque é amplo. De resenhas dos sucessos de Charles Bronson a indicações de lugarzinhos charmosos onde tomar um expresso sem pressa. Quem sabe, trocando olhares com uma moça bonita, enquanto vocês conversam sobre o ser e o nada. Bom proveito.

Pedrosa da Silva tem doutorado em estudos hedonísticos no Barbecue Institute of High Studies, com PhD em Morro de São Paulo. Consultor holístico e sentimental, é também especialista em redes sociais – comprou uma de casal no Ceará e garante que cabem três com folga. Os honorários recebidos por este artigo – meia mariola e duas balas chita – foram doados para o Centro de Apoio aos Dependentes do Expediente 9 às 6.

Bookmark and Share


29

Sep

11

O pedacinho que faltava da vida de Buda

Uma historinha bonita sobre coincidências e livros que a Laura me contou. A Barca dos Livros, biblioteca da Lagoa da Conceição, aqui em Floripa, tinha uma coleção quase completa de histórias em quadrinhos de Osamu Tezuka sobre a vida de Siddharta Gautama, o Buda. São 14 volumes, mas faltava o primeiro. Dia desses, um rapaz apareceu lá. Contou que tinha o volume 1 e sempre quis ter os outros. Quando ele soube que aquele era justamente o que faltava à biblioteca, fez a doação do seu. Coleção completa agora, pra todos que quiserem ler.

Bookmark and Share


19

Sep

11

O que é que a Tapera tem

Texto de Fernando Boppré publicado na coluna “Penso”, do Diário Catarinense, dia 3 de setembro.

Tapera tem sete tiros no meio da noite. O último a 1h09min da madrugada. Tapera não tem praça pública, parque, coisa alguma para criança brincar. Mas tem igreja de montão, padre e pastor que não acaba mais. Tapera tem mar calmo feito piscina, tem uma, duas ilhas bem bonitas para a gente nadar até lá. Tapera não tem ônibus “amarelinho”, não tem livraria, não tem Tay Cosméticos. Mas é repleta de bem-te-vis mais que vaidosos que se debatem contra os vidros dos carros e das janelas das casas vendo a si próprios num espelho inventado. Tapera não está nos planos das administrações públicas, mas está no Dicionário Aurélio e quer dizer “choça”, “lugar abandonado”. Quem sabe, os governantes conhecem o verbete e decidiram segui-lo a risca. Lá se está para além do abandono, aquém do arrabalde. Tapera está cheia de lajes por construir, abarrotada de pernilongos e águas paradas. Tapera tem gente branca, preta, média com leite (mais o japonês da farmácia) que insiste em ir trabalhar às 5h30min da manhã nas obras e casas de família de toda a cidade. Mas também tem gente outra que trabalha sem nota fiscal, sem carteira assinada, porque vender pó e fumo é operação rápida e rende muito mais do que qualquer trabalho besta (e nem é preciso pegar ônibus lotado e pagar absurdos R$ 3 pela passagem). Museu do nada, cinema marginal, teatro do absurdo, cultura por lá é utopia fora de propósito; ainda assim se faz de tudo porque arte maior é aquela que inventa modo digno de se viver com o pouco que se tem. Tapera é Rua do Juca, o Pedregal, a Barreira e há alguns anos um pedaço de terra sem escritura podia ser comprado por menos de mil reais. Tapera abriga carijós sepultados à beira-mar e homens desempregados que podem pagar suas contas na lotérica que acabou de abrir logo ali. Tapera tem candomblé, umbanda e gente de fé. Tapera tem barbeiro, sorveteria e loja de 1,99. Tem Hot-Dog e X-Camarão delivery. Tapera tem caminhão de lixo que desengatou a marcha, arrancou bruscamente e esmagou o trabalhador da Comcap num muro branco, num sábado de manhã. Por alguns dias, o muro fez-se salpicado de vermelho e a família enlutada ainda hoje veste preto. Morreu sem querer assim como o menino que jogava futebol no campo improvisado e esbarrou na trave que caiu sobre si a rachar-lhe a cabeça. Tapera tem céu cortado por pipas. Tem jogo de futebol em campo de terra, lances geniais que não passam ao vivo no SportTV, brigas homéricas que não chegam aos ringues oficiais. Tapera tem boteco de montão só que lá ninguém aceita Visa. Tem academia de musculação sempre cheia. As ruas não têm calçadas e os pedestres desfilam junto à pista de rodagem disputando espaço com os ônibus verdes alucinados. Tapera tem lajotas que, após a chuva, dançam sobre o mangue. E quando chove um pouco mais, tem inundações que, por sinal, são as únicas certezas por lá, ao contrário dos políticos, que só aparecem de dois em dois anos. Na Tapera, tempos atrás, havia toque de recolher, quando depois do horário noturno estipulado, nem a polícia, nem os bandidos se responsabilizavam pelos civis. Tapera tinha pizzaria, mas hoje lê-se: “Aluga-se quartos”. Quem não gosta de dizer que mora na Tapera, diz que tem casa no Ribeirão. A Tapera não dá “bom-dia” nem “boa-noite”, ela dorme cansada entre ruídos de televisão. A Tapera tem a Rua da Esperança (como em Yellow Submarine, dos Beatles) ainda que poucos acreditem nesta palavra por lá.

Bookmark and Share


16

Sep

11

Sexta de poesia

Delmar Gularte em tarde inspirada. Eu li como um rap, mas também pode dar samba…

Tem muita coisa fora do lugar/Muita gente no lugar errado/Já confundo bandido com soldado/Onde é que meu bueiro vai parar/Desgoverva o descarilado/Pega fogo o Corpo de Bombeiros/Roubaram até o delegado/Meteram a mão no meu dinheiro/Tomo dura da mílicia/Dou a cara a tabefe/Ligo pra polícia/Cai na CBF/Agora vem a FIFA/Aguenta o tranco/Sobra colarinho branco/Na tulipa/Sei lá o que vai acontecer/Não quero te ver baleado/Só não me perca o rebolado/Nem vem de cara me dizer:/Tá é com Desculpa Pra Beber/

Bookmark and Share


21

Jul

11

O poligrota

Recebi do Celso Vicenzi e passo adiante.

O POLIGROTA

É verdade matemática que ninguém pódi negá,
que essa história de gramática só serve pra atrapaiá.
Inda vem língua estrangêra ajudá a compricá.
Mió nóis cabá cum isso pra todos podê falá.

Na Ingraterra ouví dizê que um pé de sapato é xu.
Desde logo já se vê, dois pé deve sê xuxu.
Xuxu pra nóis é um legume que cresce sorto no mato.
Os ingrêis lá que se arrume, mas nóis num come sapato.

Na Itália dizem até, eu não sei por que razão,
que como mantêga é burro, se passa burro no pão.
Desse jeito pra mim chega, sarve a vida no sertão,
onde mantêga é mantêga, burro é burro e pão é pão.

Na Argentina, veja ocêis, um saco é um paletó.
Se o gringo toma chuva tem que pô o saco no sór.
E se acaso o dito encóie, a muié diz o pió:
”Teu saco ficô piqueno, vê se arranja ôtro maió!’

Na América corpo é bódi. Veja que bódi vai dá.
Conheci uma americana doida pro bódi emprestá.
Fiquei meio atrapaiado e disse pra me escapá:
ói, moça, eu não sou cabra, chega seu bódi pra lá!

Na Alemanha tudo é bundes. Bundesliga, bundesbão.
Muita bundes só confunde, disnorteia o coração.
Alemão qué inventá o que Deus criou primêro.
É pecado espaiá o que tem lugar certêro.

No Chile cueca é dança de balançá e rodá.
Lá se dança e baila cueca inté a noite acabá.
Mas se um dia um chileno vié pro Brasir dançá,
que tente mostrá a cueca pra vê onde vai pará.

Uma gravata isquisita um certo francês me deu.
Perguntei, onde se bota? E o danado respondeu.
Eu sou home confirmado, acho que num entendeu,
Seu francês mar educado, bota a gravata no seu!

Pra terminar eu confirmo, tem que se tê posição.
Ô nóis fala a nossa língua, ô num fala nada não.
O que num pode é um povo fazê papér de idiota,
dizendo tudo que é novo só pra falá poligrota.

(Autor desconhecido)

Bookmark and Share