06
May10
O que o Brasil não pode?
Com o consentimento do autor, compartilho na íntegra este texto sobre direitos humanos.
O que o Brasil não pode?
Celso Vicenzi – jornalista, assessor de imprensa do Sintrafesc e colunista do portal www.acontecendoaqui.com.br
Florianópolis-SC
Há algo de errado com um país que não consegue olhar para o seu passado.
Há algo muito errado com um país quando a sua mais alta Corte de Justiça decide não condenar aqueles que cometeram o mais hediondo de todos os crimes: a tortura de seres humanos.
Deve haver alguma coisa muito errada com um país quando é o último, no planeta, a extinguir a escravidão, um país que queimou documentos sobre este período e nunca adotou políticas públicas que pudessem redimir a injustiça praticada contra a população negra.
Há algo de feroz num país que, embora viva o mais longo período democrático ininterrupto da sua história, mostra suas garras cada vez que aqueles que sofreram e foram espezinhados clamam por algum tipo de justiça.
Há algo que não se explica num país que, teoricamente livre e democrático, considera que há assuntos que não podem ser investigados.
Há algo de profundamente desconfortável em nossa crença de cidadãos civilizados, com bons modos à mesa, quando sabemos que todos os dias, em muitas delegacias do país, seres humanos são torturados impunemente sem que a sociedade, que se uniu e se insurgiu contra a tortura aos presos políticos, agora demonstre a mesma vontade de lutar contra a tortura de presos comuns, notadamente negros e pobres.
Argentina, Chile, Bolívia, Peru e Uruguai investigaram e puniram, de alguma forma, aqueles que praticaram atrocidades durante períodos de ditadura. Trouxeram à tona acontecimentos que não devem ser esquecidos.
O Chile inaugurou no dia 11 de janeiro deste ano, o Museu da Memória e dos Direitos Humanos. “No local há fotografias das vítimas, depoimentos de homens e mulheres que foram torturados, cartas de crianças a seus pais desaparecidos e até a reprodução de uma sala de tortura com uma cama elétrica”, informa a Agência Brasil.
O que o Chile pode que o Brasil não pode?
Todos os anos, a Alemanha expia os pecados do nazismo, quase como um mantra de condenação perpétua. Ou como escreveu o New York Times, “a maioria dos países comemora os melhores momentos de sua história. A Alemanha, porém, não cansa de promover o que houve de pior na sua”.
O que pode a Alemanha, que o Brasil não pode?
Há milhões de documentos sobre as monstruosidades cometidas por Hitler e boa parte de seus seguidores, abertos a quem queira conhecer o passado. Há um gigantesco memorial do Holocausto no centro de Berlim. Campos de concentração onde judeus, ciganos, gays, crianças, mulheres e adultos foram exterminados, são preservados e mantidos abertos à visitação pública. A Alemanha trabalha agora na construção de um novo museu, onde foi a sede do partido nazista. O futuro Centro de Documentação da História do Nacional-Socialismo deve ser inaugurado em 2011, informa o jornal O Globo. Não há revanchismo nem sadismo em tudo isso. O objetivo declarado, de acordo com o site do museu, “é criar um local de aprendizagem que sirva para o futuro”.
Que lição o Brasil quer deixar para o futuro, sobre tantos episódios sangrentos e tão pouco edificantes da nossa história?
O que a Alemanha e o Chile podem, que o Brasil não pode?
Com a palavra, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que no dia 29 de abril de 2010, por 7 votos a 2, permitiram que fosse arquivada a ação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que contestava a Lei de Anistia e reivindicava o direito de processar torturadores. O direito internacional condena a tortura como “crime inafiançável”. Não é o que pensa a Justiça brasileira. O direito internacional quer banir anistias que regimes ditatoriais se autoconcedem para fugir à responsabilidade de crimes bárbaros. Representantes da Anistia Internacional, da ONU, da OEA foram unânimes em lamentar a decisão.
A nossa mais alta Corte de Justiça – num país que é um dos mais injustos e campeão da impunidade – considera que estupros, torturas, assassinatos em interrogatórios e outras violências praticadas contra pessoas indefesas são delitos políticos ou “conexos”, ou seja, vinculados a eles. Em resumo, deram uma “dimensão política” à prática da tortura. Seus nomes serão lembrados, no futuro, muito mais do que desejariam, por produzirem decisão tão lamentável.
Tim Cahil, da Anistia Internacional, resumiu a gravidade do que aconteceu: “Em um país onde não são julgados assassinatos desencadeados pela força policial e onde muitos são torturados em delegacias e prisões, essa posição é um claro sinal de que no Brasil ninguém é responsabilizado quando o Estado mata seus próprios cidadãos”.
04
May10
A vida é uma caixinha de surpresas
Quem me acompanha pelo twitter e facebook já sabe que nossa casa foi arrombada sábado à tarde, enquanto estávamos passeando com a família e amigos na Costa da Lagoa. Não preciso entrar em detalhes sobre o homem na moto preta que esperou a gente sair, estourou a janela dos fundos e fugiu com um notebook, além de miudezas como um frango caipira congelado, pacotes de macarrão e latas de óleo abertas. A sensação de violação da intimidade é pior que o sentimento de perda pelos objetos. Coisas obtidas com muita ralação, é verdade, mas só coisas.
Nos dias seguintes, comentei o fato com várias pessoas e fui me dando conta, meio bestamente, de como somos só mais um número nas estatísticas de degradação da tão falada qualidade de vida de Floripa. Na quinta passada, outra casa próxima havia sido arrombada pelo mesmo motoqueiro. Estamos no meio de uma onda de furtos e assaltos que tomou o Sul da Ilha, inédita em meus quase 25 anos na cidade. Ontem à noite o mercado Progresso, a menos de 1 km daqui de casa, foi assaltado pela gangue – que, segundo consta, está agindo em três motocicletas. Dezenas de ocorrências têm sido registradas nas últimas semanas.
Depois de quase três dias comentando o assunto e vivendo a rebordosa doméstica, estou fatigado, louco pra mudar de tema. Então, não vou escrever um libelo em defesa da paz, nem de protesto pelo absoluto descaso com que as autoridades tratam a segurança pública em Floripa. Não vou me estender sobre os efeitos psicológicos que esse arrombamento provocou nos meus filhos – nada que boas conversas não curem, mas também nada desprezíveis. Tampouco vou comentar sobre a indústria da segurança, alimentada pelo medo das pessoas, nem sobre as medidas que pretendemos tomar pra que esse fato não aconteça mais. Não é que esses assuntos tenham pouca relevância, pelo contrário. É que estou farto de pensar neles, de lembrar que nosso drama é pequeno diante dos que perderam a vida em atos violentos. Há que seguir adiante.
O que quero guardar desses momentos é uma coisa bonita, simples e grandiosa: a generosidade. Em pouco tempo fomos rodeados por uma poderosa onda de afeto e proteção da família, dos amigos e mesmo de gente que nunca encontrei pessoalmente e só converso pelas redes sociais. Solidariedade porque também já passaram pelo que passamos, claro, mas é mais que isso. Esse sentimento me faz acreditar que a humanidade evolui, apesar dos deploráveis seres que rastejam pelas janelas dos outros pra roubar silício e miojo. As demonstrações de afeto me emocionaram profundamente. Às vezes é preciso levar tombos pra conseguir enxergar além da nosso limitado e entorpecido horizonte cotidiano. Obrigado, amigas e amigos! Somos um.
p.s.: Preciso colocar tudo isso em perspectiva: havia outro drama muito mais importante se desenrolando. Na sexta à noite, meu pai foi internado em uma clínica médica de Russas, Ceará, com sintomas de diabetes e desidratação, coisa grave pra quem tem 84 anos. Vivemos uma noite de incertezas, até que no sábado ele recebeu alta e foi pra casa contando piadas.
28
Apr10
Agenda de hoje em Floripa
Uma quarta-feira animada por quatro eventos que são ótimos pretextos pros amigos se encontrarem. Os horários de alguns são mais ou menos simultâneos, o que é pena, pois eu gostaria de ir a todos.
Às 19h, na Assembleia Legislativa, um bate-papo com o escritor Flávio José Cardozo, que comemora 40 anos de seu livro de contos Singradura.
Também às 19h, na Casa da Cultura (Rua Padre Miguelinho, 58, atrás do Banco do Brasil do centro), exibição e debate do documentário Espírito de Porco, que codirigi com Chico Faganello.
Às 19h30, no espaço cultural da Assembleia Legislativa, Cesar Valente lança o livro De Olho na Capital, com os melhores momentos de sua coluna no Diarinho do Litoral.
A partir das 21h, no Let’s Rock, Lagoa da Conceição, aniversário do Frank e festa das fraldas da Clara, que tá chegando. Jam session com vários amigos músicos.
26
Apr10
Chá da Clara e festerê
Agenda de quarta-feira tá completa. Depois do lançamento do livro do Cesar tem aniversário do Frank + chá de bebê de Clara. A sonzera e as boas vibrações dos amigos prometem.
11
Apr10
Fotobiografia e lembranças babilônicas
Ayres Marques e Gigliola Capodaglio. Centro Cultural Babilônia, Ponta Negra, Natal, 1991.
Se você costuma seguir este blog, já deve ter notado que eu gosto de usar fotos como ponto de partida pra recuperar lembranças. É uma espécie de jogo de remontar e reinventar fragmentos do tempo. É o caso destas que meu amigo Ayres Marques publicou: uma fotobiografia muito legal dele próprio, com imagens desde a infância de ator-mirim de televisão até tempos recentes e com menos cabelo. Cliques que documentam sua jornada por São Paulo, Inglaterra, Itália, Alemanha, Natal e novamente Itália, onde vive hoje com Gigliola e a filha Marina. Nesta foto, de 1991, ele e Gi estão na casa deles em Natal, um lugar especialíssimo. Lá criaram a inquieta, efervescente e criativa Babilônia, um centro cultural que agitou a cidade nos anos 80 e 90, com bela vista pra praia de Ponta Negra. Babilônia foi um sonho real envolvendo poetas, pintores, videastas e escritores, que deu ao casal o título de cidadãos honorários de Natal e até hoje existe num canto especial das memórias de muita gente.
Conheci Ayres quando eu trabalhava e estudava na Cultura Inglesa. Ele havia recém-chegado a Natal e me deu aulas – aliás, foi um dos melhores professores de inglês que já tive, com seu humor peculiar, vasta cultura (a do tipo que ilumina em vez de humilhar) e uma paciência de monge beneditino pra aguentar nossas asneiras de aprendizes. Passamos muitos momentos agradáveis na Babilônia, entre partidas de xadrez e longos papos regados a vinho sob a lua cheia que refletia no mar de Ponta Negra (havia certo rito em nossos embates enxadrísticos, uma espécie de cerimônia do chá). Rimos bastante juntos e choramos com nossas perdas. As pausas serenas também foram muitas. Dizem que os grandes amigos são aqueles com quem você se sente bem em silêncio sem constrangimento. Minha amizade com Ayres só reforça essa tese.
Deixei Natal em dezembro de 1985, e eles – já com a pequena Marina, que ainda não tive a alegria de conhecer -, acho que em 2000. Levamos todos a lembrança quente da Cidade do Sol em nossos caminhos pra construir novas histórias. Dali em diante, outros silêncios se sucederam. Mas também bons momentos de reencontro em minhas férias natalenses, ou conversas a distância com direito a áudio e vídeo pelo skype – e também algumas partidas de xadrez online e brindes virtuais com vinhos tomados em garrafas distintas, mas irmanadas. Essa fotobiografia do Ayres me trouxe bons momentos e fico feliz em compartilhar aqui com vocês, pois também faz parte da minha história.
08
Apr10
Tudo começou no Cerrado
Recebi do Diógenes Botelho e compartilho com vocês essa nota sobre uma coleção que minhas amigas Adriane Adratt (a senhora Botelho) e Carol Grilo estão lançando pra homenagear o cinquentenário de Brasília.
A Yasaí Biojóias e a Fofys Factory lançam no próximo sábado, dia 10 de abril, na Feira da Lua, a Coleção “Brasília 50 anos – Tudo Começou no Cerrado”. São 50 conjuntos (colar e brinco) inspirados na flora, na fauna e nas paisagens do cerrado, criados especialmente para homenagear meio século da nova capital dos brasileiros.
frio do concreto. Nesses 50 anos resolvemos apostar e homenagear a natureza que nos rodeia, tão bela e ao mesmo tempo ameaçada pela exploração imobiliária, pelas queimadas, desmatamentos e o avanço do agronegócio”, ressalta Adriane Adratt.20
Mar10
Como nascem as ideias e tiras
Ontem à noite liguei pro Frank pra contar o argumento de uma historinha infantil bem boa de fazer menino dormir. Hoje liguei o computador e encontrei essa tira de consumo rápido.
16
Mar10
Sobe BG
O Alexandre Gonçalves me convidou e escrevi um post pro blog dele, Coluna Extra, sobre trilhas sonoras marcantes de filmes e seriados de tevê. Gostei da iniciativa e selecionei quatro – das três primeiras eu já tinha comentado aqui no blog em notas esparsas. Depois da minha participação, virão as de outros leitores do blog, todas agrupadas na tag Sobe BG - indicação técnica usada em roteiros pra sinalizar que o som ambiente aumenta.
07
Mar10
Cartografia da memória: Stavanger
Stavanger, no sudoeste da Noruega, é a terceira maior cidade do país, com 190 mil habitantes. Limpa e sossegada, com arquitetura quase frugal, nem parece fazer jus à sua fama de capital do petróleo desse país nórdico. Suas casas são quase todas de madeira, pintadas de branco ou de cores claras. A comunidade vive com conforto, mas sem sinais evidentes de ostentação.
Stavanger foi nosso ponto de partida pra uma excursão que Laura e eu fizemos na primavera de 1997 – acompanhados dos amigos Eirik e Hélène – à Preikestolen, “pedra do púlpito”. Pra chegar até lá é preciso primeiro pegar um ferry-boat, depois rodar um pouco de carro e caminhar por uma trilha de duas horas e meia, sempre subindo. Preikestolen é uma “torre” natural de granito no alto de um paredão vertical de 604 metros que bordeia o fiorde Lyse. Lugar de beleza extraordinária, onde tive um epifania que conto outra hora.
Ficamos hospedados no apartamento do simpático Kai Hennig, arquiteto amigo de Eirik e Hélène (eu o reencontrei faz pouco tempo, com a ajuda do Facebook). Fizemos muitas caminhadas pelas ruas e pelo porto. Lembro que quebrei uma taça de cristal num restaurante. De Stavanger seguimos de barco costeando os fiordes rumo a Bergen, mais ao norte.
Fotos: Laura Tuyama
28
Feb10
Um relato do terremoto
Recebi este e-mail de meu amigo argentino Jorge Guenul, que vive com a mulher e duas filhas em Villa la Angostura, próxima a Bariloche e a apenas uma hora da fronteira com o Chile.
…fue terrible yo me habia acostado a las 2,45 horas AM y el sismo fue a las 3:34 am, me despertè y se movia toda la estructura de la casa.. las chapas del techo bibraban y el piso se desplazaba, realmente una experiencia traumàtica y de dificil resoluciòn. No sabes que hacer con la familia… ellos dormian y los tuve que despertar, las niñas se asustaron mucho y nos quedamos despiertos por varias horas. Acomodamos colchones en el piso y dormimos todos juntos, preparados para salir a la calle, por las siguientes rèplicas, las que existieron en dos o tres oportunidades.
Lo màs desagradable de toda esta situaciòn es que se produce un bloqueo mental, no estas preparado, es algo inesperado, pensas que el mundo se viene abajo.
El sismo fuerte durò unos dos minutos que resultan interminables pero a la vez insuficientes para saber que hacer con tu familia. Yo vivo en el medio de la montaña rodeado por bosque, asique salir afuera es peligroso porque se te pueden venir los àrboles encima y quedarte en la casa puede resultar mortal porque la misma se puede derrumbar… como veraz, es una experiencia que traumàtica, que la verdad es difìcil de pasarla, nosotros ahora estamos mas tranquilos, pero seguimos preocupados, aunque ya un poco mas tranquilos. … un fuerte abrazo para toda la familia y gracias por tu preocupaciòn, los queremos muchos y seguramente si este terremoto no nos matò nos volveremos a encontrar en esta vida… amigos los queremos mucho.










