04
May10
A vida é uma caixinha de surpresas
Quem me acompanha pelo twitter e facebook já sabe que nossa casa foi arrombada sábado à tarde, enquanto estávamos passeando com a família e amigos na Costa da Lagoa. Não preciso entrar em detalhes sobre o homem na moto preta que esperou a gente sair, estourou a janela dos fundos e fugiu com um notebook, além de miudezas como um frango caipira congelado, pacotes de macarrão e latas de óleo abertas. A sensação de violação da intimidade é pior que o sentimento de perda pelos objetos. Coisas obtidas com muita ralação, é verdade, mas só coisas.
Nos dias seguintes, comentei o fato com várias pessoas e fui me dando conta, meio bestamente, de como somos só mais um número nas estatísticas de degradação da tão falada qualidade de vida de Floripa. Na quinta passada, outra casa próxima havia sido arrombada pelo mesmo motoqueiro. Estamos no meio de uma onda de furtos e assaltos que tomou o Sul da Ilha, inédita em meus quase 25 anos na cidade. Ontem à noite o mercado Progresso, a menos de 1 km daqui de casa, foi assaltado pela gangue – que, segundo consta, está agindo em três motocicletas. Dezenas de ocorrências têm sido registradas nas últimas semanas.
Depois de quase três dias comentando o assunto e vivendo a rebordosa doméstica, estou fatigado, louco pra mudar de tema. Então, não vou escrever um libelo em defesa da paz, nem de protesto pelo absoluto descaso com que as autoridades tratam a segurança pública em Floripa. Não vou me estender sobre os efeitos psicológicos que esse arrombamento provocou nos meus filhos – nada que boas conversas não curem, mas também nada desprezíveis. Tampouco vou comentar sobre a indústria da segurança, alimentada pelo medo das pessoas, nem sobre as medidas que pretendemos tomar pra que esse fato não aconteça mais. Não é que esses assuntos tenham pouca relevância, pelo contrário. É que estou farto de pensar neles, de lembrar que nosso drama é pequeno diante dos que perderam a vida em atos violentos. Há que seguir adiante.
O que quero guardar desses momentos é uma coisa bonita, simples e grandiosa: a generosidade. Em pouco tempo fomos rodeados por uma poderosa onda de afeto e proteção da família, dos amigos e mesmo de gente que nunca encontrei pessoalmente e só converso pelas redes sociais. Solidariedade porque também já passaram pelo que passamos, claro, mas é mais que isso. Esse sentimento me faz acreditar que a humanidade evolui, apesar dos deploráveis seres que rastejam pelas janelas dos outros pra roubar silício e miojo. As demonstrações de afeto me emocionaram profundamente. Às vezes é preciso levar tombos pra conseguir enxergar além da nosso limitado e entorpecido horizonte cotidiano. Obrigado, amigas e amigos! Somos um.
p.s.: Preciso colocar tudo isso em perspectiva: havia outro drama muito mais importante se desenrolando. Na sexta à noite, meu pai foi internado em uma clínica médica de Russas, Ceará, com sintomas de diabetes e desidratação, coisa grave pra quem tem 84 anos. Vivemos uma noite de incertezas, até que no sábado ele recebeu alta e foi pra casa contando piadas.
28
Apr10
Agenda de hoje em Floripa
Uma quarta-feira animada por quatro eventos que são ótimos pretextos pros amigos se encontrarem. Os horários de alguns são mais ou menos simultâneos, o que é pena, pois eu gostaria de ir a todos.
Às 19h, na Assembleia Legislativa, um bate-papo com o escritor Flávio José Cardozo, que comemora 40 anos de seu livro de contos Singradura.
Também às 19h, na Casa da Cultura (Rua Padre Miguelinho, 58, atrás do Banco do Brasil do centro), exibição e debate do documentário Espírito de Porco, que codirigi com Chico Faganello.
Às 19h30, no espaço cultural da Assembleia Legislativa, Cesar Valente lança o livro De Olho na Capital, com os melhores momentos de sua coluna no Diarinho do Litoral.
A partir das 21h, no Let’s Rock, Lagoa da Conceição, aniversário do Frank e festa das fraldas da Clara, que tá chegando. Jam session com vários amigos músicos.
26
Apr10
Chá da Clara e festerê
Agenda de quarta-feira tá completa. Depois do lançamento do livro do Cesar tem aniversário do Frank + chá de bebê de Clara. A sonzera e as boas vibrações dos amigos prometem.
16
Apr10
Dia da Mãe
Hoje, se estivesse aqui, minha mãe Sara completaria 70 anos. Partiu aos 50, de uma daquelas maneiras bobas (complicação anestésica em operação de sinusite) que nos ajudam a lembrar como a vida é só uma brisa rápida. Viveu com intensidade o casamento, os filhos, a profissão de enfermeira, a aventura de se embrenhar nas florestas amazônicas num navio hospital, as viagens malucas de carro pelos estradões do Brasil. Nos últimos tempos dedicava-se às aulas na UFRN e à atenção aos doentes de hanseníase e de HIV. Amava dançar tango, ouvir Piazzolla, tomar café preto bem forte, preparar feijoada, fazer artesanato, costurar vestidos coloridos (abençoados sejam os que conseguem fazer seus próprios parangolés), receber os amigos em casa (mas detestava fazer visitas), fazer passeios e viagens de improviso. A fotografia era uma de suas paixões.
E chega de lembranças por hoje, que a sexta-feira vai ser comprida e eu já tou com um cisco no olho.
Na foto, ela e eu.
11
Apr10
Fotobiografia e lembranças babilônicas
Ayres Marques e Gigliola Capodaglio. Centro Cultural Babilônia, Ponta Negra, Natal, 1991.
Se você costuma seguir este blog, já deve ter notado que eu gosto de usar fotos como ponto de partida pra recuperar lembranças. É uma espécie de jogo de remontar e reinventar fragmentos do tempo. É o caso destas que meu amigo Ayres Marques publicou: uma fotobiografia muito legal dele próprio, com imagens desde a infância de ator-mirim de televisão até tempos recentes e com menos cabelo. Cliques que documentam sua jornada por São Paulo, Inglaterra, Itália, Alemanha, Natal e novamente Itália, onde vive hoje com Gigliola e a filha Marina. Nesta foto, de 1991, ele e Gi estão na casa deles em Natal, um lugar especialíssimo. Lá criaram a inquieta, efervescente e criativa Babilônia, um centro cultural que agitou a cidade nos anos 80 e 90, com bela vista pra praia de Ponta Negra. Babilônia foi um sonho real envolvendo poetas, pintores, videastas e escritores, que deu ao casal o título de cidadãos honorários de Natal e até hoje existe num canto especial das memórias de muita gente.
Conheci Ayres quando eu trabalhava e estudava na Cultura Inglesa. Ele havia recém-chegado a Natal e me deu aulas – aliás, foi um dos melhores professores de inglês que já tive, com seu humor peculiar, vasta cultura (a do tipo que ilumina em vez de humilhar) e uma paciência de monge beneditino pra aguentar nossas asneiras de aprendizes. Passamos muitos momentos agradáveis na Babilônia, entre partidas de xadrez e longos papos regados a vinho sob a lua cheia que refletia no mar de Ponta Negra (havia certo rito em nossos embates enxadrísticos, uma espécie de cerimônia do chá). Rimos bastante juntos e choramos com nossas perdas. As pausas serenas também foram muitas. Dizem que os grandes amigos são aqueles com quem você se sente bem em silêncio sem constrangimento. Minha amizade com Ayres só reforça essa tese.
Deixei Natal em dezembro de 1985, e eles – já com a pequena Marina, que ainda não tive a alegria de conhecer -, acho que em 2000. Levamos todos a lembrança quente da Cidade do Sol em nossos caminhos pra construir novas histórias. Dali em diante, outros silêncios se sucederam. Mas também bons momentos de reencontro em minhas férias natalenses, ou conversas a distância com direito a áudio e vídeo pelo skype – e também algumas partidas de xadrez online e brindes virtuais com vinhos tomados em garrafas distintas, mas irmanadas. Essa fotobiografia do Ayres me trouxe bons momentos e fico feliz em compartilhar aqui com vocês, pois também faz parte da minha história.
18
Mar10
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Mar10
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Mar10
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Mar10
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Mar10
Cartografia da memória: igarapés
A foto é de 1970. Este é meu pai, João Camillo, aos 45 anos, fazendo pose em um igarapé nos arredores de Manaus. Os “banhos” – equivalentes às praias – são uma deliciosa lembrança do período amazônico de minha infância. Íamos bastante nos fins de semana. Às vezes em balneários com piscinas de água corrente e estrutura pra churrascos. Outras – minhas favoritas -, em igarapés na floresta, em acampamentos improvisados onde a comida era preparada em fogo de chão. Momentos de boêmia florestal cheios de risadas, pelo que me lembro. De vez em quando caíam uns pés d’água fortes e rápidos. Logo eram sucedidos pelo sol ardido que evaporava toda a chuva, deixando um intenso cheiro de mato. Hoje estou quase com a idade de papai nesta foto. E ele, com quase 85 – um sobrevivente, como costuma dizer. As lembranças de embaralham, algumas se esvaem, como as cores desse slide. Mas a essência delas permanece em algum lugar. Porque o vivido, mesmo que esquecido, não se apaga nunca.
p.s. 1: Foto de Sara Veras (ela se foi em 1990, mas deixou um rico legado de imagens que aos poucos estou tirando do baú e recuperando no fotoxop)
p.s. Neste post correlato que escrevi em agosto de 2006 – Os igarapés da memória -, comento um belo texto de Milton Hatoum sobre sua iniciação sexual nos igarapés de Manaus. Minha iniciação nesses riachos foi de outra natureza: a percepção da coisa antes da palavra, a sinestesia atordoante dos sentidos, o riso infantil de liberdade.














