Posts com a categoria ‘humanos’

11

Feb

11

Minhas idiossincrasias (après Brüggemann)

Tenho atração por certas assimetrias, como quadros tortos nas paredes e pessoas ligeiramente vesgas. Gosto de arrancar ervas daninhas quando estou sentado na grama (pensando na inutilidade disso). De rasgar rótulos de cerveja começando pelos cantos. De desenhar coqueiros. Sempre corto laranjas em quatro partes, descasco e depois corto em mais quatro. Jogo fora as canetas no ato quando elas falham mais de uma vez. Nunca deixo meus chinelos virados pra baixo. Tenho certa tendência incendiária – adoro fazer fogueira, pra assar peixe ou só pra ver o fogo. Telefono pra alguns amigos em horas impróprias. Visito uns poucos em horas mais impróprias ainda. Leio vários livros ao mesmo tempo e os deixo espalhados pela casa, numa bagunça ordenada. Raramente compro o que me oferecem sem ser solicitado. Não uso relógio, anéis, brincos ou colares – mas acho bonito quem sabe usar bem. Gosto de cheiro de cabeça de neném, de livro novo, de mato molhado e de café torrando. Tenho crises de espirros com poeira. Horror a cômodos sem janelas, gente arrogante, rotina burra. Gosto de quase todas as frutas, mas se melão fosse extinto, não me faria falta alguma. Detesto fazer compras, mas curto passear em livrarias, lojas de ferragens e de traquitanas tipo 1,99. Não tomo leite nem ponho açúcar no café. Fico alterado na lua cheia. Água corrente me acalma. E por hoje chega.

Inspirado no texto sobre as idiossincrasias do Fábio Brüggemann

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29

Jan

11

Carta ao pai na UTI

Pai, escrevo esta carta sem considerar a remota hipótese de que você possa compreendê-la. Há vários meses a doença de Alzheimer lhe tirou o prazer da leitura e está passando uma borracha no seu cérebro. Mas as epístolas são um recurso de estilo adequado no nosso caso, pois fluem espontâneas. Tratamo-nos por “você” (alguns filhos lhe chamam de “senhor”, mas nunca me habituei), sem perder a reverência entre filho e pai. Presto tributo às nossas décadas de troca de correspondência e ao milagre da palavra contada, que você sempre admirou. Aproveito para informar os amigos, parentes e agregados que gravitam de maneira amorosa em nosso entorno e estão ansiosos por novidades. É um texto público que fala de um assunto privado e nada agradável à maioria dos paladares: doença e risco de morte. Natural a aversão ao tema: as pessoas tendem a fugir da dor e fingir que ela só acontece com os outros. Só vão ler minhas palavras as três dúzias de pessoas que tiverem interesse genuíno no João Camillo da Silva Filho e esbarrarem neste blog por acaso ou boca-a-boca. Os amigos, os conhecidos e os desconhecidos com quem você brindou a alegria de viver.

Aliás, abre parêntesis, vou lhe fazer uma confissão tardia: quando eu era um adolescente tímido e íamos a restaurantes e botecos, eu ficava envergonhado quando você se levantava e ia puxar assunto com gente desconhecida nas mesas vizinhas; hoje tenho vergonha de ter tido vergonha. Só as pessoas de personalidade cativante conseguem fazer o que você fazia sem serem chatas. Então, que uma vergonha cancele a outra. Fecha parêntesis.

Chegamos ontem de Fortaleza, depois de dez dias difíceis. Encontrar você em uma UTI, com pneumonia e em estado grave, foi bastante penoso pra nós todos da família. Especialmente quando a gente sabe que você sempre abominou a ideia de vegetar numa cama de hospital. Cheguei num momento crítico, em que, depois de muitas horas de espera, meus irmãos tinham conseguido vaga na UTI da Uniclinic. Era o possível no momento. Mas, em pouco tempo, informando-nos com diversos profissionais de medicina e observando a rotina hospitalar, percebemos que o lugar estava muito aquém das exigências mínimas de tratamento humanitário. Somos gratos a alguns profissionais de lá, que fizeram o possível com as condições que tinham; quanto aos arrogantes e despreparados, a gente lamenta que insistam numa profissão tão nobre como a de saúde. Movemos mundos atrás de outra vaga e finalmente conseguimos duas vitórias: a sua transferência para o Hospital São Carlos – um lugar de excelência que respeita a dignidade das pessoas, como deviam ser todos os hospitais brasileiros – e a contratação de um ótimo médico pneumologista para acompanhá-lo.

Posso afirmar sem muita chance de erro que essas duas mudanças salvaram sua vida, pai. Quando você chegou lá no São Carlos, estava nas últimas, com a infecção quase tomando conta e a pressão muito baixa. O doutor Plínio e sua equipe atuaram de imediato, mudando a medicação, introduzindo alimentação venosa, pedindo exames, combatendo uma infecção nos rins… Enfim, atacaram o caso com uma abordagem holística. Nos vários boletins que ele fez oralmente para nós, pudemos perceber seu extremo profissionalismo e respeito humano. Voz pausada, olhos nos olhos, descrição honesta e sem firulas sobre o seu estado. A possibilidade de sua morte estava ali delineada, palpável. Começamos a nos preparar para a aceitação do que fosse melhor e representasse menos sofrimento, com o consolo de que, até agora, foram 85 anos muito bem vividos (no vídeo que gravei aos seus 83 anos, você me respondeu como era ficar velho: – A vantagem é que a gente morre bem sabidinho).

Os dias se passaram e seu estado, que era “gravíssimo”, passou para “grave”. E, no momento em que escrevo, é inspirador de cuidados. A infecção nos pulmões e nos rins está cedendo. Nas palavras do médico, houve “importante melhora” (opinião de leigo: atribuo isso não só aos cuidados profissionais, como também ao seu proverbial vigor físico de ex-paraquedista e à vontade de viver). Mas ele lembra que a falência total dos órgãos ainda é uma possibilidade a rondar, pois a pressão arterial está instável e a pré-existência da doença de Alzheimer (degenerativa e irreversível) não pode ser esquecida. É importante a gente ter isso em mente pra evitar o auto-engano. Lembro que você brincava com as mentiras piedosas que as visitas costumam contar às pessoas desenganadas pela medicina: “Você está com uma ótima aparência! Vai logo ficar bom!”, enquanto o sujeito estrebuchava. Fique tranquilo. O que eu lhe disse na visita de ontem é a verdade do momento. A batalha está sendo ganha, por ora. O futuro? Quem sabe?

Miguel e Bruno passaram esses dez dias em Fortaleza sem poder lhe visitar, pois não é permitida a entrada de crianças na UTI. Fizemos o possível para entretê-los nos intervalos das duas visitas diárias e em meio à chuva que castigou a cidade por vários dias. Eles adoraram a Sorveteria 50 Sabores. Encontramos também um restaurante legal perto do apartamento da prima Abélia: tem uma área pra crianças com labirinto e cama elástica. Nos poucos dias em que o sol deu as caras, fomos duas vezes à Praia do Futuro (na segunda vez, Miguel comentou que estávamos indo “de volta para o futuro”, referência a um filme dos anos 80 que você nunca viu, pois detesta cinema). Bruno se divertiu com objetos de papelão que ele pedia pra gente recortar e depois desenhava: celular, pen-drive, cartão de memória, carteira de cédulas, carteira de identidade, volante de carro. Perguntei se ele não era muito novo pra dirigir com quatro anos. Ele respondeu: “Eu tenho 19 anos, é que sou anão”.

Pai querido, meu grande abraço.

Florianópolis, 29 de janeiro de 2010 (aniversário de Lubélia)

Outra carta ao pai, em julho de 2010

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20

Dec

10

Um brinde à amizade

Dias corridíssimos por aqui. A maior quebra da rotina está sendo a presença de nossos queridos amigos Eirik e Hélène com seus filhos Adrian, Viktor e Iseline. A meninada deles se deu muito bem com nossos meninos, apesar da barreira da língua. Em meio à salada de norueguês, francês, inglês e português, fala-se a língua universal da amizade. Pelo blog deles, The big voyage, dá pra ter uma ideia do que temos aprontado juntos, nos momentos em que consigo uma folguinha.

No fim de semana estivemos com eles na Pousada Pasárgada, em Anitápolis, acompanhados também pelo Rogério Mosimann, a Elô e o Theo. Banho de riacho, comida boa, mata atlântica, trilhas e papos deliciosos com nossos anfitriões Fernando e Regina, pessoas iluminadas por quem temos grande carinho. Um oásis de sossego em meio à loucura cotidiana.

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02

Oct

10

Viajando com Almir e Claudio

Um dos maiores prazeres do viajante é encontrar companhia agradável. O tempo passa mais rápido e o cansaço se dissolve no bom papo combinado à paisagem. Guardo impressão duradoura e boas histórias de momentos assim. Foi o que aconteceu no domingo passado, no final do Festival de Cinema Rural de Piratuba, no oeste de SC. A organização ofereceu uma camioneta pra levar os convidados ao aeroporto. Entrei no banco de trás e tive a grata surpresa de ver ao meu lado o músico Almir Sater. No banco da frente, ao lado do motorista (um galego tímido de quem infelizmente não guardei o nome), ia Claudio Savaget, produtor do programa Globo Ecologia.

Durante duas horas e meia, percorri com esses dois figuraços a estrada sinuosa entre Piratuba e Chapecó. Há tempo eu já era fã do mestre da viola, e fiquei mais ainda ao conhecer a dimensão humana do artista. Falamos de tudo um pouco: de cinema a filhos, de internet a berne de boi, de passarinhos a parcerias. Almir me recomendou um filme policial noir de Kurosawa que ele gostou muito, mas não lembrava o nome – creio que era Cão Danado, de 1949. Sugeri alguns do Woody Allen. Falamos de Pantanal, um ponto de virada na carreira dele e da dramaturgia de telenovelas brasileiras. Do fato de sua música não tocar em rádios e de ele se recusar a pagar “jabá”. Da indigência da música brasileira nos últimos tempos, assolada por cantores sertanejos de baixa qualidade. Almir contou que está preparando um disco com Renato Teixeira, parceiro de longa data, e não tem prazo pra terminar: quando tiverem meia hora de música e gostarem do resultado, fica pronto.

No banco da frente, Claudio contou que estava com saudade das filhas. O assunto pulou pra voos de avião e helicóptero – recordei do medo que senti quando visitei uma plataforma marítima da Petrobras em Itajaí. Claudio então recordou, em detalhes, uma história trágica: ele foi um dos sobreviventes do acidente de helicóptero com a equipe do Globo Ecologia no topo do Monte Roraima, em 1998, que resultou na morte do operador de áudio Ricardo Cardoso. O resgate teve momentos dramáticos, inclusive com acidente de outro helicóptero. No fim da história, ficou calado um bom tempo, emocionado. Aí mudamos de conversa e ele falou sobre suas andanças por Angola, Moçambique e Timor Leste. Almir falou dos rios em que gosta de pescar quando se entoca em sua propriedade no Mato Grosso do Sul. Contou uns causos engraçados de vaqueiros e de suas andanças fazendo shows pelo país.

De repente já estávamos em Chapecó. Atrasado, disparei pro guichê da companhia aérea e mal tivemos tempo de nos despedir. Combinei que, se perdesse o voo, iria procurá-los pra continuar a conversa. Mas o avião também estava atrasado e consegui embarcar. Cada um pro seu lado. Ficou a satisfação de ter entrado em sintonia com caras bons, de quem eu poderia ser amigo. E que gostaria de rever em outras oportunidades, embora a probabilidade seja remota. Quem sabe uma hora dessas a gente se encontra pra comer uma peixada em Floripa e continuar a prosa.

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16

Sep

10

15 amigos em 15 minutos

Recebi esse comentário do amigo Maderfrânio, que me deixou muito feliz por estar na lista. Os nomes de 6 a 15 são de irmãos dele.

15 AMIGOS EM 15 MINUTOS ( NA0 NECESSARIAMENTE NESTE ORDEM )

1- dauro veras
2- andre veras
3-camilo veras
4-flavio
5-etemistocles
6-mazotopisteles
7-mequistapache
8-marcolandio
9-merempedes
10-milhomens
11-mupamixades
12-modlipelinda
13-mansglio
14-maridinagema
15-marilandia

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06

Sep

10

Anotação de leitura: viés da confirmação

Quando estamos diante de uma ilusão – ou em qualquer momento em que tenhamos uma nova ideia -, em vez de tentarmos provar que nossas ideias estão erradas, geralmente tentamos provar que estão corretas. Os psicólogos chamam essa situação de viés da confirmação, e ela representa um grande impedimento à nossa tentativa de nos libertarmos da interpretação errônea da aleatoriedade.

… Para piorar ainda mais a questão, além de buscarmos preferenciamente as evidências que confirmam nossas noções preconcebidas, também interpretamos indícios ambíguos de modo a favorecerem nossas ideias. Isso pode ser um grande problema, pois os dados muitas vezes são ambíguos; assim, ignorando alguns padrões e enfatizando outros, nosso cérebro inteligente consegue reforçar suas crenças mesmo na ausência de dados convincentes.

O andar do bêbado. Leonard Mlodinow, Zahar, 2009.

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16

Aug

10

Sobre crianças e bolos

Uma minicrônica do vizinho Maurício Oliveira sobre o protagonista das brunitezas.

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01

Aug

10

Chegadas: Clara

Nasceu no dia 30/7, de cesariana porque foi o jeito, uma menina sortuda porque muito amada e desejada pelo seu papai Frank Maia e pela mamãe Lígia Sena: Clara! Teu papi me enviou uma fotinho sua pelo celular (até chorei um pouco, no meio do calçadão da Felipe Schmidt; sou manteiga derretida pra essas coisas), mas não mostro pra ninguém porque essa honra cabe aos que te colocaram no mundo. Como você é grande! Juro que, nos últimos meses, pensei que vinham gêmeos. Vai ser bonito te ver crescer mais ainda e te apresentar aos meus meninos. Vai, Clara, mama e dorme bastante, que o mundo é teu. Que o caminho seja iluminado e cheio de descobertas maravilhosas, garota. Conte comigo pro que precisar, sempre.

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26

Jul

10

Carta ao pai

João Camillo

Cheguei ontem do Ceará, onde passei uma semana em Russas com meu pai, João Camillo. No dia 18 ele celebrou o aniversário de 85 anos com uma festinha pros parentes e amigos mais chegados. Na ocasião, lançou um livro, As sete capitais, em que reúne seus escritos sobre o tempo em que morou em Fortaleza, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Manaus, Natal e Florianópolis.

Meu pai está com Alzheimer e, pela primeira vez, me dei conta dos efeitos devastadores dessa doença degenerativa, que vai fazendo a memória se evaporar e o corpo enfraquecer. Sua vivacidade, o humor rápido e certeiro, a facilidade de se comunicar, o enorme arsenal de histórias com que nos brindava, tudo isso agora é só uma boa lembrança. A cada dia, mais ele mergulha no seu mundo interior, com pequenas brechas em que retoma a lucidez – como na noite do lançamento do livro, em que até fez um pequeno discurso de agradecimento.

Tenho mais a contar sobre esses dias que passei lá. Por enquanto, compartilho o texto que escrevi pro livro dele. É provável que essas palavras não cheguem mais ao seu entendimento pela via racional. Felizmente, há outras formas de dizê-las, mesmo em silêncio.

Papai,

Escrevo profissionalmente há 25 anos, mas faz dias que estou enfrentando o bloqueio da página em branco quando tento redigir estas linhas. Para superar isso, usei a seguinte estratégia: em vez de preparar um texto sobre você, vou escrever para você. Que esta seja, então, uma conversa informal, das tantas que tivemos desde que me entendo por gente. Recorri a outros dois artifícios para me ajudar: a inspiração em uma de suas citações prediletas (parece que é de Churchill): “A coragem é a principal das virtudes, pois ela garante todas as outras”; e me imaginei no seu lugar, na porta aberta de um avião, com frio na barriga, prestes a dar um daqueles seus saltos de paraquedas. Há momentos na vida em que a gente simplesmente faz o que precisa ser feito. Da melhor maneira possível, nas pequenas e grandes obras.

Ser seu filho tem sido um privilégio. Sinto isso de maneira instintiva, desde criança. Meus irmãos e eu fomos criados com afeto, bom humor e paciência gigante. Com uma grande leveza de espírito, de fato. Você resumia essa atitude diante das nossas traquinagens com alguns chistes inesquecíveis, que hoje repito com meus dois meninos: “Parece criança!” Ou então: “Chore mais um pouquinho, filho, chore…” (e parávamos, só pra contrariar). Sou muito grato por nunca ter apanhado de você. Suas repreensões em voz alta eram tão raras e respeitadas que eu poderia contá-las com os dedos de uma mão. Tempos depois, ao ler sobre os índios e a maneira tranqüila como criam os filhos com respeito e liberdade, me dei conta de como o sistema deles é semelhante ao seu.

Pai, pode ter certeza que não estou aqui idealizando um herói, e sim me referindo a um ser humano especial – falível, mas extraordinário. Você nos educou para ganhar o mundo com autonomia de pensamento, e só isso vale por um caminhão de lições. Com você descobri que a amizade, a justiça e a generosidade são valores fundamentais. Buscar a felicidade é vital. Esse tipo de coisa não se aprende com discursos, e sim pelo exemplo. O cotidiano familiar sempre esteve repleto de aulas práticas de grandeza de caráter. Ao longo de toda a minha infância e adolescência, foram tantos os que conviveram como agregados em nossa casa, às vezes por longos períodos. Tantos foram os viajantes que abrigamos. E aquela alegria rondando tudo, que bom! Grana curta, é verdade, mas nunca faltava diversão. Almoços com amigos, serestas, rodas de piadas, festas com a vizinhança… A tradicional hospitalidade nordestina elevada à máxima potência. Sim, fui uma criança feliz.

O espírito nômade e aventureiro é outra característica sua que ajudou a formar o homem que sou hoje. Quantas vezes trocamos de casa e de cidade? Nunca encarei essas mudanças como coisas desagradáveis, apesar de representarem rupturas de relacionamentos e o abandono de zonas de conforto. Pra mim sempre foram momentos de euforia pelo novo, sensações revigorantes de estar em movimento. Depois que me tornei jornalista, em minhas andanças pelo mundo, adotei o costume de lhe telefonar ou enviar postais. Formas de dizer que você viajava comigo. Nas adversidades em que fui obrigado a improvisar e acreditar no meu instinto, pensei no que você faria em meu lugar. Sim, pai, temos andado sempre juntos.

O amor pela leitura é outro legado que devo ao seu exemplo e continua em seus netos Miguel e Bruno. Presente precioso que amplia os horizontes. Certas habilidades suas eu não herdei, e lamento, mas assim é a vida. Uma delas é a inteligência fora do comum para se comunicar, travar relacionamentos, contar anedotas. O brilho do seu olhar e a magia do seu sorriso encantaram muita gente por onde você passou. Suas histórias de humor, drama ou aventura conquistaram audiências deliciadas. Como em nossa família sou um dos que vivem para contar, sinto que devo passá-las adiante de alguma forma. Admito sem constrangimento que meu talento narrativo fica muito a dever em comparação com o seu. Mas se eu começar com coragem, quem sabe… Cada um tem o salto de paraquedas que merece.

Anos depois, olhando em retrospectiva, vejo o quanto você nos educou para a impermanência. Tudo muda o tempo todo. Uns partem, outros chegam, a vida passa. Se é assim, que o momento presente seja vivido com intensidade, então. Veja que curioso: esse conceito da filosofia budista faz parte da sua vida, mesmo que você não tenha se dado conta. O desapego é um grande desafio. Nisso temos muito a avançar, pai, pois ainda sofremos demais com a partida das pessoas amadas. Esse aprendizado é inevitável para quem chega a uma idade avançada como a sua, pois é preciso se despedir de muita gente pelo caminho. Mas com certeza devo a seu exemplo o fato de não sofrer pelas coisas. Afinal, são só coisas. E as pessoas que realmente valem, essas permanecem.

Papai, eu tenho muito mais a lhe dizer, e outro dia continuo. Vou terminar esta conversa de hoje com uma lembrança de infância. Tenho oito anos e estou brincando de carrinho com meus irmãos em cima da sua barriga, enquanto você dá uma cochilada depois do almoço. A tarde segue tranqüila, preguiçosa, com uma brisa morna. Mais adiante, muito mais adiante, virão tempestades que vamos superar de um jeito ou de outro, ganhando algumas cicatrizes. Mas por enquanto, nada disso. Sua presença nos dá aconchego e paz. Seu corpo forte se transforma em estradas, viadutos, caminhos protegidos pros carrinhos transitarem em nosso mundo de fantasia. A vida é bela quando se tem um pai assim.

Um grande abraço do seu filho Dauro.

Florianópolis, 13 de junho de 2010

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20

Jun

10

Copa facts

Melhor seleção até agora: Alemanha.

Pior seleção até agora: Alemanha.

Torcida mais gata: Holanda (com a ajuda de modelos contratadas).

Torcida mais fiel: Coreia do Norte (com a ajuda de atores contratados).

O personagem: Dom Diego Maradona.

Melhor trilha sonora: by Coca-Cola.

Melhor discurso: Bispo Desmond Tutu.

Pior árbitro: o francês do jogo Brasil x Costa do Marfim.

Gol mais bonito: Luís Fabiano contra a Costa do Marfim, com ajuda da Mão de Deus.

Troféu Pequeno Príncipe: Dunga.

Miguel e eu acertamos o placar de hoje no http://www.bolaodaeffetiva.com.br Estamos em 62 de 598 participantes.

Miguel também ganhou o bolão familiar do placar de hoje, junto com a prima Camila. Vão dividir 10 reais.

Acertei o primeiro goleador da partida de hoje. Sem prêmios, só um título: sou o rei da cocada preta.

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