05
Jan09
Nós e os livros
Li no blog do Maurício e copiei a ideia pra cá. São sete perguntas sobre leitura. As minhas respostas estão aí, mas me passei e contei bem mais do que foi pedido. Quer brincar também?
1. Livro que marcou sua infância
Tarzan, de Edgar Rice Burroughs. Li toda a coleção aos dez anos na biblioteca pública de Natal. Também adorei A chave do tamanho, de Monteiro Lobato; O pequeno Nicolau (Goscinny e Sempé); a coleção Para gostar de ler (Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade); e os quadrinhos de Asterix (Uderzo e Goscinny).
2. Livro que marcou sua adolescência
Muitos. Um dos inesquecíveis foi Nada de novo no front, de Erich Maria Remarque, sobre um soldado alemão na Primeira Guerra Mundial. Também guardo lembranças fortes de Histórias extraordinárias (Edgar Allan Poe); Huckleberry Finn (Mark Twain); toda a coleção de Sherlock Holmes (Conan Doyle) e dos livros de Agatha Christie – meus dois favoritos são O assassinato de Roger Ackroyd e Cai o pano. Um super marcante: O falecido Mattia Pascal, de Luigi Pirandello.
3. Autor que mais admira
Aí vão trinta, em diferentes gêneros e em ordem aleatória: Guimarães Rosa, García Márquez, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, John Fante, Raymond Carver, Charles Bukowski, Charles Baudelaire, Luis Fernando Verissimo, Machado de Assis, Isabel Allende, Ernest Hemingway, Dostoievski, Chekov, Manoel de Barros, Érico Verissimo, Mario Benedetti, Ítalo Calvino, Jack Kerouac, Henry Miller, Saint-Éxupery, Rubem Fonseca, Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro, J.D. Salinger, Milton Hatoum, Oriana Falacci, Joseph Conrad, Gustave Flaubert, Rubem Braga. Quando eu crescer, quero escrever que nem o Braga.
4. Autor contemporâneo
Marçal Aquino.
5. Leu e não gostou
O Guarani, de José de Alencar. Talvez porque era leitura obrigatória.
6. Lê e relê
Vários. Gosto especialmente de voltar aos contos de Guimarães Rosa e de Poe.
7. Mania
Várias: escrever listas; fuçar velhas novidades em sebos; espalhar livros pela casa.
16
Dec08
De enxurrada, guerra, jornalismo e odores
No domingo concluí uma reportagem pro Valor Econômico sobre a pós-tragédia no Vale do Itajaí. Eu já tinha enviado o texto pro jornal e precisei atualizar o número de mortos – agora são 128, acharam o corpo de um homem em Ilhota. As cenas e o cheiro de destruição no Morro do Baú continuam voltando à memória sem pedir licença. Efeito colateral da atividade do repórter que vai a campo: o envolvimento emocional é inevitável porque a gente cria vínculos, mesmo que superficiais. De perto, o olhar e a respiração das pessoas deixam marcas.
A enxurrada em Santa Catarina tem sido comparada com freqüência a uma guerra. Minhas referências bélicas são só de livros, reportagens (lidas/vistas), filmes e relatos de colegas, mas imagino que não seja de todo descabido o paralelo. No estado de suspensão momentânea ou duradoura da vida normal, as pessoas passam a depender muito mais dos instintos. Surgem os atos de bravura e os abjetos casos de ruindade. Tudo demasiadamente humano, sem verniz. No meio disso tudo, os repórteres colocam sua subjetividade a serviço do desafio narrativo. De certa forma pode ser excitante, mas qualquer glamour que se enxergue nesse tipo de trabalho é pura ilusão.
Amigos repórteres que cobriram conflitos armados (Marcelo Spina, Fernando Evangelista) comentaram comigo sobre como é difícil conciliar a emoção com a obrigação de apurar e contar. Os profissionais reagem de diferentes maneiras às situações-limite. Existem os que se abrigam na proteção do humor ou do cinismo. Outros se fecham. Alguns se tornam viciados em perigo e desenvolvem a sensação de ter o corpo fechado, como contou uma vez o José Arbex, que nos 80 era correspondente da Folha de São Paulo na União Soviética e cobriu a guerra do Afeganistão.
Medo: quem tem, tem. Quem não tem, é porque falta um parafuso. Marques Casara me contou que sentiu o cheiro fedido do medo no próprio suor enquanto entrevistava, usando um microfone escondido, um chefe de esquadrão da morte no sertão nordestino. No Afeganistão, Yan Boechat se empolgou ao ver um tanque russo abandonado na margem da estrada. Foi até lá e percebeu, pelos gritos dos nativos, que tinha caminhado por um campo minado. Voltou pisando nos próprios passos e sabe-se lá que cheiro sentiu. Em Ramallah, na Palestina, Fernando Evangelista viu uma senhora ser abatida por um franco-atirador a poucos metros dele, e nada pôde fazer pra ajudá-la. Na Somália, a câmera filmadora de Marcelo Spina foi atingida na lente por um tiro de fuzil. Depois, a janela de seu quarto no hotel foi metralhada e ele, em choque, decidiu sair do país.
Jornalista, bombeiro, policial ou médico na emergência de hospital público, o profissional que lida com situações de tensão e risco precisa ter estabilidade emocional pra realizar o trabalho – e estômago pra suportar cheiros bem desagradáveis -, senão termina atrapalhando mais que ajudando. Cada um emprega os artifícios mentais de sua preferência pra manter a sanidade e seguir em frente. A correta avaliação do tamanho do próprio ego é uma garantia a mais de avançar sem muitos arranhões – embora, na vida, qualquer garantia deva ser vista com ceticismo. Coloco tudo na balança e acho que encarar o tédio dos trabalhos sem sentido é um desafio bem mais penoso.
09
Dec08
DVeras Awards 2008: serviços na web
Menções honrosas:
- Blip.fm. Pra muita gente que ama descobrir, (re)ouvir e comentar de música, foi o achado do ano. Rendeu até algumas experiências sinestésicas, aleatórias e coletivas bacanas. Usei muito por um tempo (um grande barato dele é a integração ao twitter), depois enjoei, mas de vez em quando volto. Agora, por exemplo, tou ouvindo Buddy Guy, (You Give Me) Fever.
- Gengibre. Esse “twitter de voz” pra compartilhar na web as mensagens enviadas por celular é uma idéia matadora. Ainda não testei porque, assim como o Inagaki (que testou), acho estranho ouvir minha voz gravada. Mas só de pensar nas possibilidades pro jornalismo e educação, entre outras, já viajo. Qualquer hora dessas crio coragem e vou “aliviar a garganta” (grande slogan).
- Gmail. O webmail do Google continua imbatível e é o que melhor atende minhas necessidades. Uso o serviço há uns dois anos e ele sempre me surpreende com novidades, algumas úteis, outras irrelevantes, que posso optar por incluir ou não. Tou testando agora o novo módulo experimental Tasks, pra inclusão de listas de tarefas.
E o escolhido é…
Twitter. Tudo era apenas uma brincadeira, e foi crescendo, crescendo e, pra minha sorte, continuou brincadeira
Comecei a usar o twitter a convite do Nando, a princípio com a intenção de ver qual era a onda e sartar fora. Mas essa coisa de microblogar em 140 caracteres vicia. Como isso converge com minha busca da síntese no texto, passei a publicar uns microcontos e poemitos – às vezes do ônibus, via celular. Conheci gente legal e terminei incorporando a ferramenta na coluna à direita deste blog (seção Rapidinha). O recente uso pra divulgação instantânea de avisos de utilidade pública na enchente de SC reforçou o que eu já observava: o twitter e similares ainda vão dar muito o que falar. Não vão substituir nada, e sim se somar aos meios que já existem pra dar uma experiência mais significativa de expressão social.
17
Nov08
Gastronomia de viagem: entrada escandinava
Comi essa entrada só uma vez e o sabor ficou marcado pra todo o sempre na memória gastronômica. É um prato ao mesmo tempo simples e refinado, pois usa dois ingredientes fáceis de conseguir – cebola e creme de leite -, mais o nobre e nada acessível caviar, que pode ser substituído pelo genérico ova de peixe. Modo de fazer:
Rale uma cebola e deixe um pouco de molho na água; abra uma lata de creme de leite e uma lata de caviar (ova de peixe). Arrume os três ingredientes de maneira harmônica em pratos pequenos, sem misturar as porções. Come-se com uma colherzinha. Dá pra botar umas gotas de limão, mas nem precisa. É só isso. Vinho branco vai bem, tinto também.
A entrada acompanhou um delicioso macarrão a carbonara num alojamento de estudantes universitários em Bergen, Noruega. O nome do autor da iguaria – um amigo do casal de amigos Eirik e Hélène – me escapa agora, mas depois vou lembrar.
17
Nov08
Resposta a uma entrevista imaginária para a Playboy
- Qual foi o lugar mais estranho onde você se masturbou?
- No Laboratório Santa Luzia.
01
Nov08
Pra conferir com uma taça de Bordeaux
Que Second Life que nada. O Google Earth agora está com novas imagens de visão de ruas nas cidades francesas de Paris, Lyon, Lille, Toulouse, Marselha e Nice. Superbe! Funciona também com o Google Maps. Em alguns lugares dá pra ver em 360 graus (clicando nas setas do teclado) e navegar pelas ruas, como se a gente estivesse caminhando – sem pisar em cocô de cachorro. Encontrei o Jarry, hotelzim onde ficamos em 1997, numa ruazinha estreita perto da Gare du Nord.
19
Oct08
Ao som dos clarins de Momo…
Esse frevo-canção me traz belas lembranças. Xi, tamos em outubro e eu já pensando em carnaval…
15
Oct08
Dia do Professor
Rogério Cadengue, no jornalismo da UFRN, que me abriu os olhos pro que García Márquez chama de “a melhor profissão do mundo”. Na UFSC, Regininha, Kanitz e Gilka, guias na trilha do encantamento pela palavra. Scotto, com quem aprendi sem nunca ter frequentado suas aulas. Gatti, que me abriu as portas pra magia do cinema e da fotografia. Finco, uma luz num momento difícil. Nara, da Aliança Francesa, por seu entusiasmo contagiante. Ademar, paciente copidesque de meus toscos textos de aprendiz no jornal O Estado. Ademir, revisor-chefe e poeta. Miguel de Urabayén, jornalista espanhol. Núbia, chefe de redação do DC que apostou em minhas pautas. Caco Barcellos, por suas palestras e livros inspiradores. Augusto, o sábio mestre sorridente que nos deixou este ano, mas está sempre comigo. Renata e Vanessa, professoras queridas do Miguel; Katiúscia, ex-prof dele que se mudou e deixou saudade. Lu, a babá carinhosa e paciente dos nossos “rapazes pequenos”. E tantos outros a quem sou grato, alguns nas salas de aula da vida e de quem nunca soube o nome. Feliz Dia do Professor!
10
Oct08
Pegadinhas
Isso me lembrou uma brincadeira de infância com a turma do bairro. Grudávamos uma moeda na calçada com cola extra-forte e ficávamos escondidos por perto, só pra rir do esforço inútil das pessoas pra tentar arrancá-la do chão. É a famosa “pegadinha”, hoje banalizada em programas humorísticos de tevê, com resultados que vão do hilário ao constrangedor.
10
Oct08
A linha de sombra
Terminei ontem A linha de sombra, de Joseph Conrad, um dos escritores que mais admiro. É a história de um capitão de primeira viagem que vive uma situação-limite: comanda um navio que enfrenta calmaria e tem quase toda a tripulação afetada por uma doença tropical. No trajeto entre Bangcoc e Cingapura, ele é desafiado pelo “fantasma” do antigo capitão morto – na forma das alucinações febris do primeiro oficial – e precisa lutar contra suas próprias inseguranças. O tema de fundo é uma reflexão sobre o limiar entre a juventude e a maturidade. Encontrei o livro na estante de um café simpático no centro e o li em três sentadas. Sobre A linha de sombra, Conrad comentou:
… é experiência pessoal vista em perspectiva com o olho da mente e colorida pela emoção que alguém não pode evitar de sentir pelos acontecimentos de sua vida dos quais não tem razão alguma para envergonhar-se”.
p.s. 1: Anteontem terminei outro dele: A flecha de ouro, história autobiográfica de aventura que trata de uma avassaladora paixão de juventude do autor.
p.s. 2: Já fiz o trajeto entre Bancgoc e Cingapura. Foi de avião, sem calmarias e sem febres. Mas de certa forma, a viagem asiática me ajudou no rito de passagem que é deixar de ser jovem.







