Posts com a tag ‘memento’

09

Feb

07

Cem anos de frevo!

O frevo nasceu nas ruas do Recife, como resistência do povão ao carnaval dos ricaços e seus clubes de alegoria. É um dos ritmos musicais mais bonitos, alegres e eletrizantes que conheço. Fusão anárquica de marcha e maxixe com maravilhosos passos de dança de toques acrobáticos, herdados da capoeira. Vassourinhas, um som que mexe comigo de forma imblogável, é considerado o hino do carnaval de Recife e Olinda. Os frevos-canções também são lindos. Quem já passou o carnaval por aquelas bandas certamente já ouviu este aqui, de 1956, composto por Nelson Ferreira. O fim da música tem um belíssimo arranjo de instrumentos de sopro, que sacode a galera. Transição perfeita da melancolia dos versos pra alegria suada do momento presente.

“Felinto, Pedro Salgado,
Guilherme, Fenelon,
Cadê teus blocos famosos?
Bloco das Flores, Andaluzas,
Pirilampos, Apois-Fum,
Dos carnavais saudosos?

Na alta madrugada
O coro entoava
Do bloco a marcha-regresso
Que era o sucesso
Dos tempos ideais
Do velho Raul Morais:
‘Adeus, adeus, ó minha gente,
que já cantamos bastante..’
E Recife adormecia
Ficava a sonhar
Ao som da triste melodia…”

~

Em tempo: o frevo agora é “patrimônio imaterial nacional“. Bacana! Oficializou-se o que já é faz tempo.

Bookmark and Share


07

Feb

07

De movimento

Como já dizia meu avô sertanejo – que morreu em 1963, aos cem, três anos antes de eu nascer:

Tem que se mexer, senão o sangue coalha.

Bookmark and Share


06

Feb

07

Autocensura, fronteiras e lembranças aleatórias

Aline comenta em seus Pensamentos Públicos sobre o dilema da autocensura. Respondi dizendo que a autenticidade é uma das suas grandes e muitas virtudes. Todos temos um instinto de autopreservação que funciona no piloto automático. É ótimo quando a gente consegue relaxar e deixar que esse instinto dê o tom das coisas que a gente expressa. Sempre que a gente se bloqueia e limita nossas manifestações ao “socialmente aceitável”, é grande o risco de deixar algumas preciosidades trancadas no baú. Aí lembrei de Henry Miller, cujos livros autobiográficos possivelmente são os mais sinceros da literatura mundial.

Uma coisa puxa outra: lembrei também de uma cena do livro Viajante Solitário, de Jack Kerouac, que acabo de ler. Kerouac estava mochilando pela Europa e tinha acabado de entrar na Inglaterra, vindo da França de barco. Os policiais da alfândega o detiveram e começaram o interrogatório: “O que veio fazer no Reino Unido só com 15 xelins no bolso?” Ele respondeu que era escritor, ia pegar um cheque de direitos autorais e a história podia ser comprovada com o editor dele em Londres. Mas era sábado, ninguém atendeu o fone. Aí ele teve uma lembrança, revirou a mochila e pegou um recorte de revista: era um artigo assinado por ele sobre Henry Miller. O oficial disse: “Miller? Há alguns anos também foi detido por nós, escreveu um monte de coisas”. (Ih, fudeu!, K. deve ter pensado). Mas ficaram satisfeitos com a identificação e o liberaram.

Isso me lembrou um caso engraçado acontecido comigo no Rio Grande do Norte – Ayres, já te contei essa? Eu tava indo acampar em Barra do Punaú, umas três horas ao norte de Natal. Punaú é um riozinho que desagua entre dunas no meio de um coqueiral à beira-mar – descrição pobre pra um lugar paradisíaco. Ayres me recomendou falar com um pescador local amigo dele, Zé Leiteiro. Quando lá cheguei com uma galera, fui recebido por um homem com cara braba, dono do terreno que margeava o riacho. Fui logo perguntando por Zé Leiteiro e aguardando o momento propício pra pedir permissão de armar a barraca. Ele respondeu na lata: “Você é amigo de Zé Leiteiro? Já tá perdendo ponto comigo!”. (Ih, fudeu!, pensei) Mas acabou deixando a gente acampar. Eu soube depois que Zé Leiteiro era posseiro antigo de um terreninho encravado bem no meio do latifúndio do sujeito. Esse pescador nos recebeu com grande hospitalidade. A sombra dos coqueiros depois virou um hotel feioso, mas aí já é outra história.

Bookmark and Share


29

Jan

07

Sol, riacho, chuva e termas

Sábado curtimos com a criançada – filhos e sobrinhos – um passeio-delícia pra dia de sol escaldante: tomar banho das mais variadas formas. Fizemos um piquenique em Caldas da Imperatriz, a 30 km de Floripa. Lá tem um parte aquático popular – limpinho, organizado e seguro -, com toboáguas e uma piscina d´água corrente no leito do riacho que desce da mata. O calor tava tão intenso que a inevitável chuva de verão veio forte, pra felicidade do meu lado curumim. Pingos grossos ensoparam todo mundo e levantaram aquele cheiro gostoso de terra. Pra fechar o dia, nos molhamos mais nas termas: banho relaxante de banheira a 38 graus. O dia me lembrou muito a infância nos arredores de Manaus, com acampamentos perto de igarapés na mata.

Bookmark and Share


18

Jan

07

Crônicas da violência cotidiana (2)

Em janeiro de 2000, fazia duas semanas que eu me mudara pro Rio. Tinha terminado de jantar no restaurante Bella Blue, em Botafogo, e estava saindo quando me empurraram porta adentro. Três rapazes de uns 18 anos – um branco e dois negros, todos de calção, camiseta e tênis -, armados de revólveres, invadiram o restaurante:

- Perdeu, perdeu!

Foi tudo muito rápido, três ou quatro minutos. Que ninguém reagisse, senão ia ter morte. Fui confundido com o gerente porque estava na entrada. Um ficou na porta, o segundo saiu recolhendo os celulares nas mesas. O terceiro me apontou a arma e mandou abrir o cofre.

Expliquei que eu era só um cliente. Devagar, tirei vinte reais do bolso e botei na mesa. Imitando o garçom, levantei as mãos. Irritado, ele nos disse pra baixar os braços, chutou minhas costelas e mandou deitar no chão. Vi de perto seu Nike novinho e esperei o tiro.

Fugiram rápido, levando 4 mil reais e os celulares – eu tinha esquecido o meu no hotel. Desprezaram meus vinte paus. Um garçom me ofereceu gelo (depois tirei radiografia, tudo inteiro). Ainda tremendo, peguei um táxi e fui pro hotel no Catete. Lá vi que tinha esquecido a agenda. Peguei outro táxi e voltei. No caminho contei a história e o taxista comentou:

- Isso é comum aqui. Eu mesmo tenho uma bala alojada no pescoço faz cinco anos.

No restaurante o movimento tinha voltado ao normal, com novos clientes e comida quentinha. Meia hora depois do assalto, era como se nada grave tivesse acontecido. Peguei minha agenda e fui embora, pensando na banalização da violência e em como as pessoas se adaptam a tudo pra continuar vivendo.

Pensei, tenho duas opções: voltar ou insistir. Teimoso, fiquei. E vivi quase dois anos na cidade maravilhosa, sem presenciar nenhum outro incidente como esse – uma vez, na noite da Lapa, acompanhava um casal de amigos franceses e fomos seguidos, mas percebi a tempo e entramos num bar. Foram tempos divertidos, com muito cinema, samba de raiz e novos amigos. Aí voltei pra cidade-ilha em busca de sossego pra criar filho.

Nunca vou esquecer os olhos daquele rapaz que não tinha nada a perder, me apontando com raiva um 38 que podia ter interrompido toda minha história num segundo. Mas o que mais me chocou mesmo foi a atitude conformada com que as pessoas se submetem a viver um cotidiano desses. Ainda hoje penso nisso e não encontro respostas satisfatórias.

Bookmark and Share


08

Jan

07

Túnel do tempo: 6 de dezembro de 2002

Argumento de um conto
Inverno rigoroso, escala de vôo numa capital do Leste Europeu. O avião não pode decolar por causa da neve. A contragosto, os passageiros precisam esperar e são levados a um hotel, pago pela companhia aérea. O homem aproveita para lembrar da família, mulher e filho pequeno que estão em Montevidéu. No dia seguinte, vai ao aeroporto e tenta embarcar, mas a tempestade de neve continua forte. Retorna ao hotel. A noite transcorre parecida com a anterior: banho, jantar e cama. De manhã cedo ele tenta mais uma vez. Novo adiamento. A rotina se repete, como num limbo. Na manhã seguinte ele retorna ao aeroporto e finalmente o informam que seu vôo vai partir. No saguão, fica próximo de um casal de adolescentes de seus 17 anos e escuta a conversa deles. Aparentemente, conheceram-se na viagem e se sentem atraídos um pelo outro. Contam suas vidas. O rapaz diz que é uruguaio e comenta: “Neste mesmo aeroporto, há muitos anos, meu pai morreu de acidente aéreo durante uma tempestade de neve”. O homem olha bem para o rosto do rapaz e toma um susto: é seu próprio filho!

O autor do conto (que é bem melhor que meu resumo) é Mário Benedetti, grande poeta e dramaturgo uruguaio. Li há seis anos, durante uma longa viagem de ônibus à Patagônia, e fiquei bastante impressionado.

Bookmark and Share


22

Dec

06

Na blogosfera

O S.O.S. Ponta Negra é um “espaço aberto-coletivo-democrátivo-e-livre, criado em defesa do principal cartão postal de Natal, RN: a praia Ponta Negra e o Morro do Careca”, que estão sendo detonados pela especulação imobiliária. Morei anos maravilhosos da minha adolescência nessa praia linda, que hoje mal reconheço quando visito a cidade do sol.

Bookmark and Share


21

Dec

06

As mangas e eu

Tou rindo aqui sozinho com as confissões de uma desertora, em que a Dadivosa conta sobre sua relação com as ex-arquiinimigas mangas. O texto sobre sua abdução é tão delicioso quanto essas frutas – cujo único defeito, na minha opinião, é deixar fiapos nos dentes. Deixei no blog dela dois comentários com ecos da minha infância, que reproduzo aqui.

Sabe que uma de minhas primeiras lembranças de vida é comendo manga num tanque de lavar roupa? Eu devia ter uns dois anos e morava no Recife. Dizem que a melhor maneira de comer essa fruta lasciva é pelado/a, se lambuzando por inteiro. E em seguida entrar debaixo do chuveiro.

As mangas do Nordeste e do Norte são muuuuito mais saborosas, porque o calor faz elas acumularem mais açúcar. Quem nunca comeu manga dessas regiões ainda não conhece a verdadeira fruta. Minhas preferidas são manga rosa – perfumadas, boas de comer em fatias -, manga espada, ideais pra se fazer um buraquinho na casca e chupar – elas contribuíram com minha educação sentimental, pois aprendi a beijar com elas – e manga coité – enorme e suculenta, muito comum no Ceará.

Bookmark and Share


31

Oct

06

Rede movida a sol

Bacana essa notícia da Agência Brasil: comunidades do Maranhão vão ter acesso à internet alimentada por energia solar. Sou fascinado pelas fontes alternativas de energia como solar, eólica, das ondas. Se eu fosse engenheiro ia me dedicar a isso. Em 1998 Laura e eu estivemos numa comunidade de seringueiros em Rondônia, perto da fronteira boliviana, a Reserva Extrativista do Rio Cautário. Foram dois dias extraordinários subindo o rio numa lancha “voadeira”, no meio da mata fechada, num lugar tão remoto que fazia divisa com terras de índios ainda não-contactados.

Uma das casas onde pousamos era a única em toda a reserva onde havia luz elétrica. Lá funcionava um rádio amador movido a energia solar, que também alimentava uma lâmpada de 25 watts. Graças à doação de uma ong norueguesa, eles tinham esse meio de comunicação com outras comunidades de toda a Amazônia. São soluções simples, relativamente baratas e que fazem a diferença na vida das pessoas.

Bookmark and Share


02

Oct

06

Aviões e eu

O site planecrashinfo.com tem um banco de dados com informações de acidentes aéreos desde 1920. Em março de 1970, eu e minha família tínhamos passagens reservadas pra este vôo entre Fortaleza e Manaus. Cancelamos e fomos de navio. Dos 40 passageiros e tripulantes, morreram 38. Desde esse dia eu sempre durmo tranquilo em aviões. ;)

Bookmark and Share