11
Jan07
Anotação de leitura: impermanência
Mesmo que ao meio-dia a rosa perca a beleza que teve na madrugada, sua beleza naquele momento foi real. Nada no mundo é permanente, e somos tolos em desejar que uma coisa perdure, mas mais tolos ainda seríamos se não a apreciássemos enquanto a temos. Se a mutabilidade é da essência da existência, nada mais natural do que fazer dela a premissa da nossa filosofia.
Larry, protagonista de O Fio da Navalha, ao narrador-autor Somerset Maugham.
08
Jan07
Túnel do tempo: 6 de dezembro de 2002
Argumento de um conto
Inverno rigoroso, escala de vôo numa capital do Leste Europeu. O avião não pode decolar por causa da neve. A contragosto, os passageiros precisam esperar e são levados a um hotel, pago pela companhia aérea. O homem aproveita para lembrar da família, mulher e filho pequeno que estão em Montevidéu. No dia seguinte, vai ao aeroporto e tenta embarcar, mas a tempestade de neve continua forte. Retorna ao hotel. A noite transcorre parecida com a anterior: banho, jantar e cama. De manhã cedo ele tenta mais uma vez. Novo adiamento. A rotina se repete, como num limbo. Na manhã seguinte ele retorna ao aeroporto e finalmente o informam que seu vôo vai partir. No saguão, fica próximo de um casal de adolescentes de seus 17 anos e escuta a conversa deles. Aparentemente, conheceram-se na viagem e se sentem atraídos um pelo outro. Contam suas vidas. O rapaz diz que é uruguaio e comenta: “Neste mesmo aeroporto, há muitos anos, meu pai morreu de acidente aéreo durante uma tempestade de neve”. O homem olha bem para o rosto do rapaz e toma um susto: é seu próprio filho!
O autor do conto (que é bem melhor que meu resumo) é Mário Benedetti, grande poeta e dramaturgo uruguaio. Li há seis anos, durante uma longa viagem de ônibus à Patagônia, e fiquei bastante impressionado.
03
Jan07
Catálogo de livros
Librarything.com é uma ferramenta online onde você pode catalogar os seus livros, escrever comentários ou resenhas, dar ranking e trocar informações com outras pessoas que têm gostos parecidos. Muito legal! Já incluí uns vinte e poucos livros que li – boa parte, ausentes da minha estante. Eles aparecem por palavra-chave numa tagcloud aí do lado (LIDOS).
[dica da Carol]
15
Dec06
Lendo: O Fio da Navalha
Peguei esse clássico de Somerset Maugham fazendo escambo num sebo aqui no Campeche.
(…) O enredo conta a história de Larry Darnell, um jovem norte-americano rico e desportista. Darnell, depois de servir na Primeira Guerra como aviador, retorna aos Estados Unidos. No entanto, abalado pela experiência da frente de batalha, não consegue se readaptar à vida burguesa de Chicago. Abandona tudo, incluindo a noiva, e parte para a Europa em busca de vivência espiritual e aperfeiçoamento interior. Nesta busca, estuda Filosofia em Paris e trabalha nas minas de carvão na Alemanha. Acaba indo para a Índia, onde toma lições de budismo com um mestre místico e torna-se iogue. Tudo isto contado com grande riqueza de detalhes no que se refere a personagens, fatos e ambientes. (…)
05
Dec06
Lendo: Hemingway e Kaiser
Tou alternando: de manhã leio Do outro lado do rio entre as árvores, uma das obras mais intimistas de Hemingway. De noite e madrugada, ataco o dionisíaco Tempos Heróicos, de Jakzam Kaiser.
O curioso é a diferença radical de ritmos entre os dois romances. No primeiro só aconteceu basicamente isso até a metade do livro: o protagonista, coronel americano cinqüentão com doença terminal, chegou de carro em Veneza – pelo caminho veio apreciando a paisagem e recordando os tempos de guerra -, se instalou no hotel, foi a um bar, tomou martínis secos com a amada italiana de 19 anos, filosofaram sobre o amor e a vida, saíram caminhando de volta ao hotel, olharam jóias numa vitrina, ela lhe deu um brinco de esmeralda de presente, subiram pro quarto dele, se beijaram diante da janela e ela retocou a maquiagem. Agora se preparam pra jantar.
No segundo livro, também já pela metade, o protagonista, jovem estudante de Porto Alegre, já comeu várias gatas, se envolveu em brigas de rua, saiu de casa e foi morar sozinho, fez as pazes com o pai, pegou caronas, entrou de penetra em festas, acampou no litoral catarinense, fumou um monte de baseados, comeu cogumelos, virou a noite em bares, leu Bukowski e Henry Miller, participou do congresso da UNE em Salvador, apanhou da brigada militar em passeatas, pichou muros, foi preso, fez panfletagem em porta de fábrica, se apaixonou, passou no vestibular em duas faculdades, abandonou engenharia e escolheu jornalismo…
Fecho as páginas de um e retorno ao outro. Sopra um vento frio em Veneza. O jantar vai ter como entrada lagosta fria com maionese.
28
Nov06
As Pelejas de Ojuara
Solino, amigo de Natal, me deu essa dica sobre as filmagens da adaptação de As pelejas de Ojuara, de Nei Leandro de Castro, um dos livros mais hilários que já li e muito bem escrito:
as filmagens das pelejas foram por aqui mesmo, no interior, acari, nesses cantos. marcos palmeira faz o caboclo ojuara e o filme deve se chamar “o homem q desafiou o demônio”. naum sei pq naum deixaram o título original, mt mais de acordo com a história e a temática. mas eu conversei com flavio (filho de nei leandro) e ele me disse q uma vez vendidos os direitos, o pai dele naum podia mais pitacar. vamos aguardar a estréia![]()
Imagino que mudaram o nome do filme porque “Peleja” é um termo pouco usual fora da região Nordeste. O livro conta a história do caboclo Araújo, pau-mandado pela mulher e pelo sogro, que um dia, depois de muito agüentar, recebe o espírito de um guerreiro índio, muda de nome – Ojuara é Araújo de trás pra frente – e chuta o balde. Aí sai em busca de aventuras que envolvem sexo, poesia, muita risada e vários lances de realismo fantástico.
Tive a honra de conhecer um dos personagens, poeta Luís Carlos Guimarães, com quem fiz um curso de criatividade literária. Também conheci o autor, tio de um grande amigo meu, Marcello Castro. Marcello morava com seu pai, Airton, na frente da nossa casa em Ponta Negra, Natal. Os dois estão entre as pessoas mais espirituosas e pândegas que já conheci. É de família. Nei Leandro, que já colaborou nos tempos áureos do Pasquim, tem outro livro ótimo chamado O Dia das Moscas, em que um personagem tem Síndrome de Down.
~
UPDATE, 30.11.06. Jakzam observa que “peleja” é palavra bem comum aqui no Sul, sim: “Tem um ditado gaúcho que diz: não tá morto quem peleia. Este peleia é do verbo pelejar”.
23
Nov06
A Fome
O cartunista Lukas, de Maringá [dica do Adauri], comenta sobre fome, cita uma lista de bons romances sobre o tema e critica os que acusam o governo de assistencialismo.
(…) “Tio Lukas já passou fome de grudar no colchão de tanta fraqueza. A fome é horrível. Por isso eu digo pra essa turminha: deixa o homem dar comida!!”
26
Oct06
Tempos heróicos
Meu amigo Jakzam Kaiser, jornalista e sócio da editora Letras Brasileiras, lança no dia 31 na Feira do Livro de Porto Alegre seu romance Tempos Heróicos, ficção com grandes pitadas autobiográficas sobre o cotidiano de um jovem da geração política, sexo, drogas & roquenrrol. Tou curioso pra ler. Ele vem cozinhando esse texto há anos.
04
Oct06
Lendo: Agosto
Lembro que, quando este romance de Rubem Fonseca foi publicado, parte da crítica o recebeu com pé atrás, comparando-o de maneira desfavorável com o restante da obra do escritor – que considero um dos melhores contistas brasileiros. Aproveitei que saiu em edição de bolso pra conferir. Minha conclusão até agora é que talvez os críticos tenham uma ponta de razão. Não chega perto da qualidade técnica de Lúcia McCartney, O Cobrador, Feliz Ano Novo e A Grande Arte. Por outro lado Rubem Fonseca, mesmo quando é ruim, é bom. Duas coisas que me agradaram foi a reconstituição do clima político do final da era Vargas e do cotidiano dos policiais brasileiros, que o escritor conhece muito bem.
16
Sep06
Partidas: Oriana Fallaci
A jornalista e escritora italiana Oriana Fallaci morreu de câncer na quinta-feira 14, em Florença, aos 77 anos. Suas obras são leitura de alto proveito pra quem se interessa por jornalismo, política e história. Ela cobriu a guerra do Vietnã, o Oriente Médio e a América do Sul. Ficou famosa por suas entrevistas com líderes mundiais, vários do mundo árabe. Dela li só um livro, suficiente pra reconhecer sua grandeza no mundo das letras: Um homem (1979). É a história de Alexander (Alekos) Panagoulis, revolucionário grego que se opôs à ditadura militar de Papadopoulos e tentou matar o ditador em um atentado a bomba. Foi preso, torturado, exilado e perseguido, mas nunca desistiu da causa. Era respeitado pelos carcereiros por ser impossível de dobrar. A jornalista terminou se apaixonando pelo biografado e viveram juntos por um tempo, antes que ele fosse assassinado. Um belo retrato, sem retoques, de um homem digno. Nos últimos anos os escritos de Fallaci provocaram controvérsia ao criticar a cultura do islã.








