13
May08
O velho tio
Uma historinha que meu pai costuma contar. Certa vez ele recebeu a visita, por alguns dias, de um velho tio do interior. O hóspede gostava de ficar na cadeira de balanço pitando o cigarro de palha. De vez em quando limpava a garganta e dava uma cusparada grossa no chão. A empregada chegou pra ele, com todo o jeito, e disse:
- Seu fulano, não leve a mal, mas tem criança pequena engatinhando pela casa. O senhor podia evitar de cuspir no chão?
Ele pediu desculpa e concordou de imediato. Passou a cuspir na parede.
28
Apr08
Livro reúne 31 contos de novos autores catarinenses
Amanhã às 19h, no hall da Reitoria da UFSC, vai ser lançado o livro O novo conto catarina, antologia organizada pela professora Regina Carvalho para fechar as comemorações dos 25 anos da Editora da UFSC. Tive a honra de ter um conto meu selecionado junto aos de outros trinta autores. Os termos “novo” e “catarina” envaidecem este pernambucano quarentão que há 22 anos adotou Santa Catarina como amado porto seguro.
Muitos dos meus companheiros de antologia eu ainda não conheço, ou posso ter encontrado por aí, já que estamos numa ilha. Uns, conheço de nome ou de ler – Dennis Radünz, Maicon Tenfen, Aleph Ozuas. Com outros convivi em situações profissionais e sociais: Raquel Wandelli, Moacir Loth, Rubens Lunge, Marco Vasquez… O Marco é um contato recente: dia desses almoçou na minha casa e fizemos uma fogueirona no quintal pra assar tainha enquanto falávamos de literatura e da vida. Estar ao lado de tantos feras é um grande estímulo pra que eu me dedique mais à ficção. É um desejo muitas vezes colocado em segundo plano por causa das correrias do jornalismo. (p.s.: será? Anotação mental: escrever sobre isso).
Meu conto nesta coletânea se chama Pura sorte e foi publicado aqui no blog em julho de 2002. É inspirado num personagem real que viveu no interior do Ceará – com boas pitadas de invencionice pra temperar o enredo. A narrativa de aldeia aborda um tema universal sempre presente nas histórias sertanejas que eu ouvia na infância: a violência e seus agentes, com todas as contradições que carregam. O protagonista é um humano da pior espécie, pistoleiro de aluguel, mas tem uma “ética” profissional – que o impede, por exemplo, de matar as vítimas na presença de crianças. Se você encontrou semelhanças de forma com Dalton Trevisan e Eduardo Galeano, não é coincidência. Sou grande admirador da prosa sintética, despojada e forte dos dois escritores, e este conto foi um exercício de aprendiz.
Seus comentários são bem-vindos. E se estiver em Floripa nesta terça, venha tomar um vinho com a gente.
Contatos com a organizadora do livro, Regina Carvalho, podem ser feitos pelos telefones (48) 3225-9706 e 9976-7567 ou pelo e-mail regininha_carvalho@yahoo.com.br. Conheça também o blog dela, Coisas de Regininha. O número da Editora da UFSC é (48) 3721-9408.
28
Mar08
Maravilhas da História: uma gravação de 1860
Esta é a mais antiga gravação em voz conhecida. Historiadores de registros sonoros encontraram um fragmento de dez segundos, datado de 1860, em que uma pessoa canta “au clair de la lune, Pierrot repondit” (“à luz da Lua, Pierrô respondeu”). “A gravação foi realizada em 9 de abril de 1860 pelo inventor parisiense Edouard-Leon Scott de Martinville, em um aparelho que ele chamou de ‘fonautógrafo’, que gravava ondas sonoras em uma folha de papel escurecida pela fumaça de uma lâmpada a óleo”, diz matéria da Folha de SP. O registro foi feito 17 anos antes de Thomas Edison inventar o fonógrafo.
25
Mar08
100 histórias
Fernando Evangelista e Juliana Kroeger convidam para a mostra fotográfica 100 histórias, que reúne imagens da Europa, África e Oriente Médio, com destaque para fotos recentes das guerras no Iraque, Líbano e Palestina. São 50 fotos do italiano Matt Corner e 50 do espanhol Guillermo Valle.
Guerras, imigração, religião, ecologia, drogas e terrorismo são os principais temas clicados pelas lentes dos dois fotojornalistas. “A junção da informação com a arte, sem a pretensão do distanciamento ou da imparcialidade, demonstra que é possível uma abordagem jornalística mais sensível, mais contextualizada e mais humana”, diz Juliana. Ela organiza a exposição junto com Fernando (figura assídua aqui no blog como leitor e inspirador), que fez coberturas jornalísticas de conflitos internacionais junto com Matt e com Guillermo.
O lançamento é dia 31 de março, às 19h, na Assembléia Legislativa de Santa Catarina, e as fotos ficam expostas até 11 de abril, com patrocínio da Brasil Telecom e apoio da Universidade Estácio de Sá, da Associação Catarinense de Imprensa, do Sinergia, do Hotel Maria do Mar, do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, do projeto Se Essa Mídia Fosse Minha, do Instituto de Estudos Latino-Americanos e da revista Caros Amigos.
Créditos: Matt Corner (prédios) e Guillermo Valle (crianças), ambas no Líbano. Divulgação. Clique nas imagens pra vê-las ampliadas.
p.s.: No blog de Felipe Lenhart, 1 crônica por dia, tem um belo testemunho do Fernando Evangelista sobre seus dois colegas fotojornalistas.
18
Mar08
Definição da vez: originalidade
…”originalidade”, adjetivo muito usado por quem desconhece o passado…
De Jorge Furtado, aqui. Excelente artigo, aliás. Ele se refere ao “uatá-uatá-uatá” (andou-andou-andou), um elemento narrativo que, segundo Câmara Cascudo, está presente em muitos contos populares e indígenas. No cinema, equivale aos três planos de transição entre um lugar/tempo e outro. Nada se perde.
01
Mar08
A fantástica história do índio do buraco
A edição de 13 de janeiro da Washington Post Magazine traz uma grande reportagem do jornalista Monte Reel sobre os índios isolados no Brasil. Em especial, conta sobre o último remanescente de uma etnia desconhecida: um índio nômade que vive numa área de selva rodeada de fazendas, no sul de Rondônia. Não é novidade, sabe-se disso há mais de dez anos, mas a cada vez que leio, me encanto com a síntese que esse caso representa de tantas outras histórias envolvendo os primeiros donos da terra Brasil. Seus ingredientes incluem desmatamento, violência, grilagem de terra, corrupção, pressões políticas. Há também aventura, trabalho duro e paciente, reviravoltas, investigação, ciência e tecnologia – imagens de satélite, por exemplo, foram algumas das evidências utilizadas para identificar clareiras feitas pelo índio.
O índio solitário constrói cabanas improvisadas de palha e cava um buraco dentro delas pra se abrigar. Está em permanente fuga e evita o convívio humano, talvez por um forte motivo: há evidências de que seus parentes foram mortos por jagunços. Arredio e hostil, já atacou a flechadas os que chegaram muito perto. Entre seus pertences foi achado um pequeno arco que provavelmente pertenceu a uma criança.
Há dez anos, em janeiro de 1998, tive o privilégio de ouvir o início da saga do “índio do buraco” narrada por um dos principais personagens, o sertanista Marcelo dos Santos. Laura e eu passamos uma tarde conversando com ele na sua casa em Vilhena, Rondônia. Apaixonado pelo modo de vida dos indígenas, conviveu com os Nhambiquara, Mamaindê e Negarotê durante a expansão da fronteira agrícola para o Norte na década de 70. Na época em que o encontramos, Marcelo era chefe do Departamento de Índios Isolados da Funai no estado. Seu cotidiano era enfrentar dias de caminhada na selva, na tentativa de minimizar os danos do eventual contato dos nativos isolados com madeireiros e fazendeiros.
Marcelo foi um dos reponsáveis por contactar pela primeira vez os Kanoê, com somente cinco sobreviventes, e os Akuntsu, com seis. No mato ou nos gabinetes, não tinha papas na língua pra cumprir a missão. Era inevitável que entrasse em rota de colisão com corruptos do serviço público, fazendeiros gananciosos e políticos escroques. Mas voltando àquela tarde em Vilhena. Ele nos contou que fazendeiros locais tinham todo o interesse em fazer o “índio do buraco” desaparecer para evitar que a área fosse protegida como terra indígena. Por isso era imporrante documentar a existência do homem, respeitando o seu direito de permanecer isolado.
As únicas imagens disponíveis do “índio do buraco” foram obtidas depois de um susto: Marcelo e um amigo francês, o cinegrafista Vincent Carelli, se aproximaram de uma cabana onde havia sinal de vida e ficaram algumas horas tentando contato. De repente, Vincent se aproximou demais e o homem lá de dentro disparou uma flecha que passou bem perto do cinegrafista. Decidiram se afastar, mas antes amarraram a câmera ligada a um galho de árvore. Alguns minutos depois, aparecia o índio: nu, cerca de trinta anos, moreno, de bigode, segurando um arco. Desconfiado, saiu da cabana com cautela e desapareceu no mato. Com base nas imagens de vídeo e em indícios antropológicos – entre eles o de que houve um massacre de outros índios que também tinham o costume de fazer buracos no chão -, Marcelo conseguiu que a Justiça Federal concedesse liminar interditando uma área de floresta.
Seu empenho lhe rendeu inimigos poderosos. Foi considerado persona non-grata pela Assembléia Legislativa de Rondônia – para a maioria dos parlamentares, a atuação do sertanista atrapalhava o progresso. As pressões políticas o fizeram deixar o estado e sair da Funai. Mas veja as voltas que o mundo dá: em abril de 1999 ele foi condecorado pelo governo federal com a Ordem de Rio Branco, uma das mais importantes honrarias do país. Atualmente de volta à Funai, Marcelo é responsável pela Coordenação Geral de Índios Isolados – existem 46 informações sobre a possível existência desses índios, a maioria na Amazônia Legal. Graças às evidências que sua equipe recolheu em uma década, no ano passado o governo brasileiro finalmente declarou uma área de floresta mais de 20 mil acres como território protegido para o índio solitário.
Em janeiro de 2007, conta a matéria da Washington Post Magazine, uma expedição liderada pelo sertanista Altair Algayer, parceiro de longa data de Marcelo, se embrenhou na mata e encontrou sinais de que o índio continua vivo: restos de coleta de mel e uma cabana recém-construída. Desfecho feliz, por enquanto, para um símbolo de resistência.
23
Jan08
Mil tsurus

O tsuru – cegonha em japonês – é uma ave associada à juventude e à longevidade. É uma das figuras mais conhecidas da antiga arte do origami – dobradura de papel. Diz uma lenda que quem fizer mil tsurus, com o pensamento voltado para aquilo de deseja alcançar, vai alcançar seu desejo.
Uma história mais recente conta que em 1955, Sadako Sasaki, uma menina japonesa de 12 anos, teve leucemia por causa da radioatividade em Hiroshima. Sua amiga lhe contou a lenda e no hospital ela fez muitos tsurus, mas não conseguiu chegar a mil e morreu. Seus colegas de escola completaram o número e decidiram fazer uma campanha pra levantar um monumento em homenagem às crianças feridas ou mortas pelo efeito da bomba. Em 1958 foi construído em Hiroshima o Monumento das Crianças à Paz, também conhecido como Torre do Tsurus. Todos os anos, milhares de tsurus vindos de vários países são colocados no local.
Há uma semana a família Tuyama se inspirou na lenda e resolveu dobrar mil tsurus pela recuperação do marido, pai, avô e genro Augusto. Dobrar um tsuru não é coisa do outro mundo, mas também não é exatamente um trabalho fácil (colaborei mais nas primeiras fases da linha de produção, que requerem o mínimo da habilidade motora). Só que o entusiasmo com a tarefa foi tão grande que em poucos dias as mil aves de papel estavam prontas. Nem foi preciso seguir a sugestão do Carlos de fazer tsurus enormes valendo por dez cada um.
Agora eles estão sendo enfileirados em cordões e a energia gerada nesse esforço coletivo vai fazer seu efeito.
08
Jan08
Epifania na lama amazônica
Essa historinha é do início dos anos oitenta, tempo em que meu sogro Hideharu (Augusto) Tuyama fazia fretes na sua Toyota entre Rondônia, Amazonas e Acre. Na época das águas, muitas estradas da região ficam intransitáveis. As pessoas se sentem pequenas diante da força bruta da natureza e tendem a se irmanar no aperto. Nem todas. Algumas continuam se achando o máximo. Havia um caminhoneiro antipático, daqueles tipos que ignoram os outros e só querem levar vantagem. Ninguém gostava dele. Um dia o sujeito entrou num atoleiro fundo, achando que conseguia passar sozinho, mas ficou preso com lama até o eixo.
Os outros profissionais da estrada foram chegando e o comentário geral era mais ou menos nesses termos: – Deixa esse filhadaputa se lascar pra aprender. Augusto retrucou: – Vamos ajudar! Logo convenceu outras pessoas, arrumaram umas cordas e com esforço conseguiram rebocar o caminhão pra fora. O homem ficou tão agradecido e envergonhado que passou por uma transformação radical. A partir daquele dia ele se tornou um dos viajantes mais solidários, um dos que mais ajudavam os outros. Às vezes é preciso afundar na lama pra se limpar.
~
Epifania é uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência ou do significado de algo. (…)
Wikipedia
09
Nov07
Ainda não li, mas já gostei
Rilise do Sindicato dos Jornalistas de SC.
Celso Martins lança seu nono livroO jornalista e historiador Celso Martins lança hoje (09/11), no município de Irani, o livro “O mato do tigre e o campo do gato, José Fabrício das Neves e o Combate de Irani”. Amanhã, 10/11, o mesmo livro estará sendo lançado em Curitibanos, e no dia 12/11 será a vez de Concórdia.
O livro, com 128 páginas de textos e cerca de 110 fotografias antigas e atuais, “é uma homenagem a todos aqueles que um dia, por algum motivo, foram perseguidos e mortos – combatentes sociais apontados como bandidos e criminosos”, ressalta Celso Martins.
08
Nov07
Anotação de leitura: Kasparov e a infância perdida
“The loss of my childhood was the price for becoming the youngest world champion in history”, Kasparov once said. “When you have to fight everyday from a young age, your soul can be contamined. I lost my childhood. I never really had it. Today I have to be careful not to become cruel, because I became a soldier too early”.
The Tsar’s opponent. By David Remnick. The New Yorker, Oct. 1, 2007.







