Posts com a tag ‘crônicas’

30

Oct

07

Diálogos ranzinzas: Copa de 2014

- Quando é que vão parar esse oba-oba sobre a Copa do Mundo no Brasil?
- Só em agosto. De 2014.
- Ufanismo do carai.
- Veja o lado bom: é um novo tema na roda. Quem agüenta mais seis meses de debate sobre Rolex e Tropa de Elite?
- Eu, nem mais seis segundos.
- O negócio agora é enrolex, drible, pedalada e embaixadinha.
- Bota negócio nisso. Verdade que foram doze governadores na comitiva do Lula?
- É. Pra ver de perto o que todo mundo já sabia. O Brasil era candidato único.
- Um avião desses não cai. ó mundo injusto.
- Somos o país do futebol, cumpadi. É investimento na alegria do povo.
- Bota na conta que a CPMF paga.
- Tem dezoito cidades disputando pra ser sede dos jogos. Imagina o que isso vai movimentar…
- Se isso aqui já engarrafa com joguim do Avaí, quero só ver com Alemanha e Argentina.
- Sede pequena – isso se for escolhida. Aqui deve ter tipo Jamaica e Tunísia.
- Se depender da malacada de Floripa, a torcida no Scarpelli vai ser jamaicana desde criancinha.
- Agora, paciência. Antes tem África do Sul.
- Já vejo até a propaganda Tabajara: “Se você não conseguiu juntar dinheiro prum safári na Copa de 2010, seus problemas acabaram! Embarque hoje mesmo numa excursão de ônibus pra Cuiabá”.
- Ou Natal. Ou Florianópolis.
- Seu anzol ainda tem isca?
- … Tem nada. Anchova comeu.
- Passa a marvada aí. Um queijim suíço de tira-gosto caía bem.

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26

Oct

07

A entrega do Prêmio Herzog

Marques Casara, meu convidado à cerimônia de entrega do Prêmio Herzog ontem em São Paulo, conta um pouco do que assistiu:

Três momentos de uma quinta feira chuvosa:

. Dauro Veras foi o primeiro agraciado a subir no palco do Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, durante a cerimônia do 29º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Na noite de quinta 25, recebeu menção honrosa na categoria Revista pela reportagem Madeira e Sangue, que conta a vida dos trabalhadores do setor moveleiro de Santa Catarina.

Seu nome foi anunciado pelos jornalistas Mônica Waldvogel e Heródoto Barbeiro, que o convidaram ao palco. Com a serenidade que lhe é peculiar, recebeu calmamente o diploma, fez uma reverência e estampou amplo sorriso. Nada disse e nada lhe foi perguntado.

Guardou o diploma na mochila e recostou-se na cadeira, ao lado desde jornalista e do presidente da Fenaj, Sérgio Murillo.

- Não precisei falar nada – proferiu.

Parecia aliviado ao fazer a afirmativa, afinal, o que era para ser dito estava ali, em sua reportagem.

. Caco Barcellos, um dos premiados, tomou o microfone e falou por cinco minutos. Em meia dúzia de palavras, demoliu o filme Tropa de Elite. De forma didática, revelou como as mídias constroem alianças com o que há de mais podre na sociedade. Não vou aqui reproduzir as palavras de Barcellos, pois não foram anotadas, mas não posso deixar de destacar uma frase. Disse: Na época da ditadura, os jornalistas ou eram contra os grupos de extermínio ou eram omissos. Hoje não são nem contra nem omissos. Hoje apóiam as tropas de elite, os esquadrões da morte que em seis meses matam mais do que mataram os militares da ditadura.

. Luiz Eduardo Greenhalgh, um dos mais corajosos defensores de presos políticos durante a ditadura, fez um discurso emocionado em defesa dos direitos humanos e do papel dos jornalistas como defensores da justiça e da liberdade.

Assistir a cerimônia de entrega do Prêmio Herzog é algo que todo jornalista deveria fazer. Dali saem referências que nos orientam sobre nosso papel e sobre o quanto o jornalismo é importante para a construção de um mundo melhor.

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17

Oct

07

De gato, água corrente e máquina de lavar roupa

Tenho uma teoria bizarra sobre gatos: na verdade, eles é que domesticam a gente. Tomemos o Branquito, por exemplo. Ele entra em casa e sai quando bem entende, a qualquer hora do dia ou da noite. Se as portas e janelas estiverem fechadas, simplesmente mia e mia e mia até encher o saco de alguém, que vai lá e faz sua vontade. Água de beber, pra ele só serve se for corrente ou então morna. E lá vamos nós abrir a torneira de pia do tanque quando ele tem sede, ou a porta do box do banheiro pra ele lamber o chão. Uma descoberta recente: temos que deixar a máquina de lavar roupa fora da tomada quando não está em uso. Senão, quando ele sobe nela, pisa nos botões e liga.

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08

Oct

07

Eram cinco da manhã e o sol nascia

Um amigão dos tempos potiguares, Flávio Ferreira, deixou um bonito depoimento no meu orkut e aproveitou pra lembrar que já vomitei no carro dele. Faz vinte e tantos anos. Eu achava que já tinha deletado a cena da memória. Nada como uma idônea testemunha ocular pra imprimir esta marca na minha autobiografia não-autorizada. Assumo, es verdá. Agora tudo voltou (ops!) nítido: eram cinco da manhã em Ponta Negra, sol nascendo – sempre bem cedo naquelas paragens – e chegávamos duma festança boa. Ainda tive a decência de botar a cabeça pra fora da janela, mas foi vã a tentativa de livrar a porta… Não entrarei em detalhes sórdidos sobre odor e consistência. Naquela manhã, Flávio demonstrou ser um verdadeiro brother e um gentleman, pois lavou o carro sozinho.

Isso me trouxe um monte de lembranças agridoces, engraçadas, musicais, perfumadas. É curioso, sempre que evoco minha adolescência hedonista em Natal, as cenas vêm acompanhadas de bons odores, exceto em alguns casos como o supracitado. Talvez elas sejam editadas por um superego de bom gosto, sei lá. As recordações com Flávio envolvem noitadas com violão e turma animada, pilequinhos com tira-gosto de laranja na Bodega da Praça, acampamentos enluarados em praias com coqueirais, piadas sarcásticas e comentários jocosos sobre um pouco de tudo, empurrações de carros velhos, crônica falta de dinheiro, festas e mais festas – juninas, escolares, periféricas, a fantasia, sem convite -, o ombro amigo num momento trágico, natação em riacho no fim de tarde, longas caminhadas e papos filosóficos ao sol torrante com pés descalços… Flávio me apresentou pessoas queridas e me fez enxergar mais longe – por exemplo, quando demonstrou o poder do reiki.

Faz tempo que não vomito; pra felicidade do meu fígado, nunca mais consegui tomar cachaça e outros destilados com a disposição que tinha aos 15, 18 anos. Por outro lado, quando tento recuperar a sensação de otimismo ingênuo, a onipotência, a voracidade de viver a mil que eu tinha naquela época, é como tentar segurar água corrente com as mãos abertas. A juventude só acontece uma vez. É bom que seja assim, porque o que vem depois também é precioso e depende de ter existido o antes. O que me deixa muito grato à vida é que, nesse caminho, tive a sorte de fazer amigos incríveis. Poucos, bons, divertidos. Fundamentais. A gente passa anos sem se ver, mas na essência essa riqueza está preservada. Um brinde a isso!

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27

Sep

07

Os livros, as bibliotecas e eu

Desde criança – muito antes de ter acesso ao debate sobre copyleft ou de fazer reflexões existenciais sobre o desapego – a idéia de “ter” um livro ou “ter” uma música sempre me parece estranha. Credito isso em parte ao fato de ter crescido num ambiente rodeado de música e gente: rádio ligado, irmãos cantarolando no chuveiro, LPs espalhados pela casa, fitas cassete no carro. Pra mim era mais que óbvio, o som estava no ar pra ser degustado na hora em que tocava. Cada pessoa que ouvia também passava a ser dona da música (aos seis passei a ser um dos donos dos Beatles).

Com os livros foi um pouco parecido. Tive a sorte de mergulhar cedo no mundo maravilhoso das bibliotecas. Primeiro na escola primária no Recife, numa fase introspectiva aos sete anos – logo depois de passar vergonha porque uma menina contou pra toda a turma que eu tava sem cueca por baixo do calção, mas isso não vem ao caso. O fato é que a escola tinha uma biblioteca interessante, apesar de pequena, e lá eu me refugiei por um tempo na hora do recreio. Momentos de belas descobertas, como a série francesa Petit Nicolas e os livros de Orígenes Lessa.

Aos doze, descobri na Biblioteca Pública de Natal um grande tesouro: a coleção completa de Tarzan, de Edgar Rice Burroughs. Passei tardes muito agradáveis ali, numa deliciosa solidão cheia de aventuras africanas, até ler os mais de vinte livros da série. Aí parti pras obras de Monteiro Lobato, de quem se pode dizer sem exagero: é um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. No ginásio tive um professor que escreveu certo por linhas tortas. Um dia eu fui à aula com meias verdes porque não tinha as meias pretas do uniforme. Ele me mandou de “castigo”. Adivinha pra onde?… Pra biblioteca! Não lhe guardo rancor nem o nome. Outros mestres vieram e me estimularam com mais inteligência.

Como nunca tive grana sobrando pra comprar os livros e músicas que queria, precisei buscar alternativas. Bibliotecas públicas e de amigos, trocas, fotocópias, sebos… E mais recentemente os meios que a tecnologia oferece. Hoje já posso entrar numa livraria e levar um livro novo (é incrível que no Brasil e em tantos lugares isso ainda seja quase um luxo!), embora sempre deixe pra trás uns dez que também gostaria de ter comprado. A idéia de “ter” um livro ou uma música continua me parecendo tão bizarra quanto nos tempos de criança. Minha biblioteca virtual no LibraryThing é composta na maior parte por livros que não “tenho” no sentido físico. Na verdade, são os livros que me têm.

p.s.1. Nunca roubei livros. E não foi por falta de oportunidade, e sim porque isso nunca fez sentido pra mim. Mas confesso que já tive vontade.

p.s.2. Alguns livros marcantes (“disclaimer”: lista em eterna mutação).

p.s.3. Quais são os seus cinco livros marcantes? Se quiser, conte o motivo. Lembrança de um antigo amor, de uma viagem, de um momento bacana? Presente de alguém especial?

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23

Sep

07

‘Cerveja é bom’

Nunca esqueço de um livro didático de comunicação e expressão que usei na terceira ou quarta série primária. Tinha uma crônica de um escritor brasileiro conhecido. No meio aparecia a frase “Cerveja é bom.” Mais adiante, na interpretação de texto, vinha a explicação de que essa conjugação de gênero é aceitável (o verbo “beber” ou “consumir” está implícito). Imagino que tal exemplo ia causar um escarcéu nos dias de hoje. Bom, não me tornei pinguço por causa disso. Concordo com o autor: cerveja é bom. Algumas são ótimas.

Uma lembrança puxa outra. E aquela cena do Vinícius de Moraes na tevê cantando músicas infantis, rodeado de crianças e de seu inseparável copo de uísque? Tem no youtube?

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21

Sep

07

Estação Primavera

A Primavera começa às 06h51 de 23 de setembro. Há dias ela já é anunciada pelos belíssimos ipês amarelos, pela passarinhada a procriar e outros sinais inequívocos. Tempo de guardar as roupas de frio – deixando uma jaqueta leve à mão, pras imprevistas mudanças no clima ilhéu. De pensar num retorno à natação, limpar o mato do quintal, tomar café da manhã pegando sol (hoje não, tá chovendo). Passei anos sem ligar muito pras estações. No Nordeste e no Norte é só “verão” e “inverno”, épocas seca e chuvosa. Aqui no Sul essa mudança é mais palpável e sempre me fascina. No equinócio, dia e noite têm a mesma duração. Data marcante pra criar um ritual milenar (dizem que a Páscoa surgiu assim, no equinócio de Primavera do hemisfério norte), fundar uma dinastia, comprar uma bermuda nova. Daqui pra frente os dias vão ser cada vez mais longos. E a praia, cada vez mais perto. Eba!

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13

Sep

07

A função da arte

Recebi da Adriane Canan:

Diego não conhecia o mar.
O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos.
E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!

[Eduardo Galeano, em O livro dos abraços]
~

Tou ajudando o Miguel a olhar. A piscina :)

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12

Sep

07

Flores universitárias


Quando eu tirava esta foto no campus da UFSC, um cara passou e comentou pra si mesmo, alto o bastante pra que eu ouvisse: “Mas que bobagem…”. Quero crer que ele lembrava do verso da canção de Cartola, “…as rosas não falam/simplesmente as rosas exalam/o perfume que roubam de ti”. Mas também pode ser que tenha achado bobagem fotografar flores quando eu podia documentar coisas politicamente mais relevantes. Ri pra ele, mostrando as minhas rugas de preocupação e continuei clicando. Esta aqui vai de presente pros meus amores.

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11

Sep

07

Meu 11 de setembro de 2001

Laura e eu morávamos no Rio. Os filhos ainda eram um sonho, a bolha da internet tinha estourado e nos deixado numa roubada. Eu ganhava a vida com frilas – entre eles o de resenhista de livros pra Editora Rocco, um trampo mal pago, mas delicioso de fazer. Tínhamos como hóspedes em nosso apê de Botafogo um simpático casal de cientistas franceses, Jéròme e Véronique. Tomávamos café da manhã quando o Marques Casara me ligou de São Paulo: ” – Liga a tevê!”. Ligamos e vimos o horror. Como tantos outros no mundo inteiro, acompanhamos ao vivo um avião se espatifar contra a segunda torre, imaginando que era uma reprise do primeiro. A campainha tocou. Era David, um amigo taxista nascido no Colorado, morador do Texas e apaixonado por música brasileira. Chegou transtornado. Todos ficamos suspensos num sentimento de quase irrealidade diante das novas notícias – o avião no Pentágono, o avião derrubado, os boatos. Não me lembro muito bem, mas acho que tomamos uma bebida forte. E tentamos continuar o dia na maior normalidade possível, mas com a plena consciência de que nada mais seria igual. Peguei um táxi pra Gávea e fui resolver uma burocracia de segunda via do certificado de dispensa militar, pra conseguir renovar o passaporte. Com o taxista troquei palavras de perplexidade. Lembrei de comprar os jornais no dia seguinte e guardar como documento histórico. Um mês depois nos mudamos de volta a Floripa.

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