08

Oct

07

Eram cinco da manhã e o sol nascia

Um amigão dos tempos potiguares, Flávio Ferreira, deixou um bonito depoimento no meu orkut e aproveitou pra lembrar que já vomitei no carro dele. Faz vinte e tantos anos. Eu achava que já tinha deletado a cena da memória. Nada como uma idônea testemunha ocular pra imprimir esta marca na minha autobiografia não-autorizada. Assumo, es verdá. Agora tudo voltou (ops!) nítido: eram cinco da manhã em Ponta Negra, sol nascendo – sempre bem cedo naquelas paragens – e chegávamos duma festança boa. Ainda tive a decência de botar a cabeça pra fora da janela, mas foi vã a tentativa de livrar a porta… Não entrarei em detalhes sórdidos sobre odor e consistência. Naquela manhã, Flávio demonstrou ser um verdadeiro brother e um gentleman, pois lavou o carro sozinho.

Isso me trouxe um monte de lembranças agridoces, engraçadas, musicais, perfumadas. É curioso, sempre que evoco minha adolescência hedonista em Natal, as cenas vêm acompanhadas de bons odores, exceto em alguns casos como o supracitado. Talvez elas sejam editadas por um superego de bom gosto, sei lá. As recordações com Flávio envolvem noitadas com violão e turma animada, pilequinhos com tira-gosto de laranja na Bodega da Praça, acampamentos enluarados em praias com coqueirais, piadas sarcásticas e comentários jocosos sobre um pouco de tudo, empurrações de carros velhos, crônica falta de dinheiro, festas e mais festas – juninas, escolares, periféricas, a fantasia, sem convite -, o ombro amigo num momento trágico, natação em riacho no fim de tarde, longas caminhadas e papos filosóficos ao sol torrante com pés descalços… Flávio me apresentou pessoas queridas e me fez enxergar mais longe – por exemplo, quando demonstrou o poder do reiki.

Faz tempo que não vomito; pra felicidade do meu fígado, nunca mais consegui tomar cachaça e outros destilados com a disposição que tinha aos 15, 18 anos. Por outro lado, quando tento recuperar a sensação de otimismo ingênuo, a onipotência, a voracidade de viver a mil que eu tinha naquela época, é como tentar segurar água corrente com as mãos abertas. A juventude só acontece uma vez. É bom que seja assim, porque o que vem depois também é precioso e depende de ter existido o antes. O que me deixa muito grato à vida é que, nesse caminho, tive a sorte de fazer amigos incríveis. Poucos, bons, divertidos. Fundamentais. A gente passa anos sem se ver, mas na essência essa riqueza está preservada. Um brinde a isso!

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5 Responses:

  1. Em 06/09/08, 16:23, tiago jaime machado disse:

    Que bonito.
    Quem tem amigos tem tudo.

  2. Em 10/10/07, 20:41, Jr. disse:

    A vida é isso, sempre um adquirir experiências sem que o tempo não volte. E, quando, paramos um pouco nossa correria, olhamos pra trás e nos rimos de tudo.
    Rapaz, gostei muito de seu blog, tanto que te linkei. Veja o meu, se se gostar linke =D

  3. Em 08/10/07, 23:06, julio disse:

    contabiliza-lOs. ;)

  4. Em 08/10/07, 23:05, julio disse:

    é curioso pensar que eu tenho causos do tempo da “minha vida em natal”, e que já posso contabiliza-las em anos (vários). quase uma década longe… antes parecia tudo próximo (ano retrasado, cinco anos atrás)… agora, definitivamente, já virou história.

  5. Em 08/10/07, 20:09, Aline disse:

    Brindo contigo! belo texto.


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