02
Dec08
Carta ao governador
Esta crônica de Felipe Lenhart, publicada ontem no Diário Catarinense, reflete a decepção de muita gente com a falta de estatura do governador do estado diante da tragédia humanitária ainda em curso. Passo adiante.
Senhor governador,Vou me apresentar: sou um turista endinheirado que mora longe da Santa e Bela Catarina. Mas visito o Estado todos os anos. Passo uma semana em Balneário Camboriú, percorro o roteiro de compras de Blumenau e Brusque, vou sempre a uma praia belíssima em Itajaí, durmo na casa de um parente distante em Bombinhas e invisto (este é o termo certo) o resto de minhas férias gastando nas boates da moda, nos restaurantes caros, nas lojas de grife e nos hotéis luxuosos de Florianópolis. Já estava tudo certo para a minha viagem de fim de ano: passagens compradas, reservas confirmadas, o convite para a festa de Réveillon aceito. Mas aí veio o cataclismo e tudo que aconteceu semana passada. E é com tristeza que lhe confesso, senhor governador: eu não irei mais a Santa Catarina esse ano, nem nos primeiros meses de 2009. Acredite: me custa muito tomar esta decisão.
Ora, o senhor deve ter lido a edição de ontem do Diário Catarinense. Eu li, e li tudo, na internet. Descobri que, neste momento, soldados, bombeiros e voluntários estão nas ruas de Santa Catarina, empunhando pás e picaretas, manejando escadas e maquinário, guiando tratores e caminhões, lutando contra a terra, o lodo e os destroços para desenterrar cadáveres, localizar desaparecidos, salvar o que restou daquele fim de semana tempestuoso. Milhares assistiram ao lar ser destruído e estão desabrigados; outros milhares abandonaram suas residências e estão desalojados. A maioria não tem o que comer e vestir. Alguns perderam familiares e amigos. Quantos mais estão sepultados sob as ruínas? Vou lhe confessar: chorei com os relatos espantosos, emocionados, desesperados. A sua gente está triste, senhor governador, abalada, pobre e enlutada.
É também por isso que lhe escrevo. Para pedir que me esqueça por um ano, senhor governador. Minha visita só atrapalharia. Verão e Réveillon tem todo ano, mas o que aconteceu em Santa Catarina não deveria sequer ter acontecido, e certamente não poderá se repetir. Portanto, senhor governador, não arrume Santa Catarina para me receber para as festas. Em vez de arrumar, conserte, resolva, dê jeito definitivo no seu Estado, para o seu povo abatido que tanto merece. Você tem muito a fazer pelos seus. Desejo-lhe fibra e sorte.
Com o forte abraço e as condolências do seu cliente mais importante.
26
Nov08
Espiral de calamidades (crônica de Felipe Lenhart)
Estou em SP a trabalho por dois dias, mas continuo acompanhando de perto os acontecimentos de Santa Catarina. Republico na íntegra esta crônica de emergência de Felipe Lenhart, que captou bem o espírito do momento.
Espiral de calamidadesSujos, sufocados e famintos, fogem os bichos de dentro das tocas, de cima dos ninhos, do meio do mato. Há muito a terra treme, desliza e se desmancha sob o seu peso. Há muito caem galhos e despencam árvores sobre a sua cabeça. A caça sumiu, a comida já não existe e o risco de virar presa assusta e enxota os bichos para fora das tocas alagadas, dos ninhos desfeitos, para longe do mato revirado e inabitável. Então eles vêm dar na rua. Rastejam pelo gramado dos quintais, escalam cercas e calçadas, pulam muros com a agilidade que a fome ainda não consumiu. Correm desembestados pelas valas, pelos córregos, pelas trilhas e picadas que levam às casas e aos edifícios, às lojas e mercearias, aos supermercados e abrigos. Está quase tudo submerso – servidões, ruas, avenidas, cruzamentos, garagens, porões -, mas para os bichos sem-teto estes lugares são pousos distantes o bastante do pesadelo do lar submetido à força hostil da enxurrada. Eles reviram a imundície das sarjetas, os dejetos nos terrenos baldios, as latas e os sacos de lixo espalhados em desordem. Penduram-se em árvores que resistiram, cavam novas tocas no terreno seco e firme que porventura descobrem em meio ao concreto encharcado da cidade. Urinam, defecam, canibalizam-se entre si, espalhando sangue, suor e excrementos na água suja de areia que viaja às correntezas por cada bueiro, por cada ruela. E é quando essa torrente podre atinge a altura do teto, depois de ter engolido as flores do jardim, o tapete da sala, os sofás, o carro na garagem, as camas e os armários, queimado eletrodomésticos, é nesse momento que, sujos, sufocados e famintos, saem os homens de dentro das tocas, de cima dos ninhos: para fora de suas casas. Não há comida há dias, nem energia elétrica para aquecer ou ligar o que for, botar em funcionamento a parafernália eletrônica que, por vezes, nos parece inútil. As encostas dos fundos do terreno já desbarrancaram, e o barro, o lodo, a massa compacta avança a cada hora, derrubando muros, forcejando portas e janelas. A chuva não dá trégua – há semanas varia da garoa ao temporal. As gosteiras se reproduzem, reproduzem-se os choros, os suspiros, o desespero. À mínima estiagem, o pai sai à rua com água quase pelo peito e se junta a outros pais. Sem o auxílio de bombeiros e de soldados, que não conseguem alcançar a rua isolada, esses homens pegarão em pás, empurrarão barreiras, erguerão caixas d’água, farão o diabo para que a enchente não mate a todos. Na outra ponta da família, as mães já não toleram a fome dos filhos. Com o olhar vidrado e carregando uma sombrinha, elas saem às ruas ao cair da noite. Investigam, pedem, negociam, por fim suplicam a quem encontram: uma caixa de leite, um saco de açúcar, um quilo de arroz. E se você, por acaso, sorte, sentido de prevenção ou classe social, não está enrodilhado nesta espiral de calamidades, vai ficar bastante impressionado quando for abordado por umas dessas mães. Porque, como os bichos, elas estarão caçando.COMO AJUDAR DESABRIGADOS E DESALOJADOS EM SC?Para doar dinheiro:
Defesa Civil
Banco do Brasil – Agência 3582-3, Conta Corrente 80.000-7.
Besc – Agência 068-0, Conta Corrente 80.000-0.
(O depósito deve ser creditado ao Fundo Estadual de Defesa Civil-Doações.)FIESC
Banco do Brasil – Agência 3425-8, Conta Corrente 21.000-5, CNPJ: 83.873.877/0001-14.Para doar alimentos, remédios, roupas, colchões e água potável:
Consulte lista de locais de doação separados por cidade no hotsite especial SOS SC do clicRBS, aqui.
10
Oct08
A mulher e seu passado
(…)
“Benditos teu pai e tua mãe; benditos os que te amaram e os que te maltrataram; bendito o artista que te adorou e te possuiu, e o pintor que te pintou nua, e o bêbedo de rua que te assustou, e o mendigo que disse uma palavra obscena; bendita a amiga que te salvou e bendita a amiga que te traiu; e o amigo de teu pai que te fitava com concupiscência quando ainda eras menina; e a corrente do mar que te ia arrastando; e o cão que uivava a noite inteira e não te deixou dormir; e o pássaro que amanheceu cantando em tua janela; e a insensata atriz inglesa que de repente te beijou na boca; e o desconhecido que passou em um trem e te acenou adeus; e teu medo e teu remorso e a primeira vez que traíste alguém; e a volúpia com que o fizeste; e a firme determinação, e o cinismo tranquilo, e o tédio; e a mulher anônima que te vociferou insultos pelo telefone; e a conquista de ti por ti mesma, para ti mesma; e os intrigantes do bairro que tentaram te envolver em suas teias escuras; e a porta que se abriu de repente sobre o mar; e a velhinha de preto que ao te ver passar disse: ‘moça linda…’; bendita a chuva que tombou de súbito em teu caminho, e bendito o raio que fez saltar teu cavalo, e o mormaço que te fez inquieta e aborrecida, e a lua que te surpreendeu nos braços de um homem escuro entre as grandes árvores azuis. Bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim. Bendita sejas tu.”
Rubem Braga
A mulher e seu passado, no lindo livro Duzentas Crônicas Escolhidas, que terminei de ler hoje.
30
Sep08
Trezentas árvores
Eu caminhava pelo quintal com Miguel. Comentei que lá nos fundos nós vamos, um dia, construir uma edícula pra instalar um pequeno escritório e uma área de serviço. Pra isso, íamos ter que sacrificar duas ou três árvores do nosso bosquezinho. Ele olhou pra elas e começou a chorar.
Por um instante me senti um ser abominável. A vontade que me deu foi dar um abraço apertado nele e dizer “é mesmo, filho, quem precisa de escritório e de área de serviço?” Mas segui com minha lógica de adulto utilitarista.
Expliquei que às vezes é preciso derrubar árvores pra usar a madeira ou construir. E que podíamos compensar replantando. Ali mesmo já tínhamos plantado várias, como o nim e o pé de araçá. Mas ele não se convenceu. Aí eu disse que, pra cada árvore derrubada, vamos plantar dez.
- Dez não. Cem!
- Tá bom. Cem.
Ele enxugou as lágrimas e continuamos o passeio. A conversa reforçou meu sentimento de que há esperança pra humanidade. Quem virá depois será muito melhor que nós. Então deixo registrado aqui o meu compromisso com o planeta e com meu fiote: plantar no mínimo trezentas árvores.
03
Sep08
Aniversários da família: felinos
A Marli Henicka me lembra que hoje é aniversário da sua gatinha tricolor Lili Marlene. Três de setembro foi a data de nascimento estimada pela veterinária quando demos a bichana de presente pra ela e pro Acácio. Isso quer dizer que o Branquito, nosso gato p&b, também aniversaria. Eles são irmãos e apareceram juntos lá em casa há cinco anos. Branquito, apesar de castrado, continua rueiro e comemorou na farra. Está com a cara inchada e foi ao veterinário hoje. O doutor Gustavo disse que deve ter sido uma unhada de gato. Vai ter que entrar no analgésico e no antibiótico. Nada grave pra quem já fincou um anzol de atum na barriga (na época tive que sair às 10 da noite, no meio de um jogo do Brasil, atrás de um veterinário de plantão).
Como apreciador de gatos desde criança, há tempos sei que é balela essa história de os bichanos serem traiçoeiros, frios e desapegados. Tudo depende da maneira como forem criados. Se receberem ca
rinho nos primeiros meses de vida – e depois também -, vão se tornar ronronantes criaturas amorosas. Se receberem pancadas ou nunca tiverem contato físico com gente, se transformam em feras – bem como os humanos, aliás. É curioso como cada animal tem personalidade distinta (a Giorgia, que cria três, e a Aline e o Gustavo são escolados nisso). O Branquito, por exemplo, adora me acordar às cinco da manhã pra que eu abra a porta pra ele sair. É meu despertador felpudo. Também é super apegado nas crianças, até sai pra passear com elas pela rua. E gosta de brincar (às vezes) com a nossa cachorra Tutu.
Ainda não comprei presente, acho que vou dar uma daquelas rações pastosas e caras que raramento compro. Mas o presente que ele mais aprecia é grátis e chega batendo as asas neste princípio de primavera que já se anuncia: os passarinhos. Todo ano, na época em que os penosinhos se reproduzem, ele abocanha vários desavisados enquanto ciscam no quintal. Às vezes conseguimos salvar alguns da boca dele, mas nem sempre. É a vida.
11
Aug08
Anotação de leitura: chuva
…
Gosto da chuva e dos vidros embaçados onde os piegas escrevem seus recados eternos que duram até o fim do calor. Calor que se mistura com água e é suor. A chuva que atrasa um compromisso e por isso há um café que pode ser degustado com mais delicadeza em cima da mesa, enquanto ela diminui o ritmo lá fora.
…
A cidade quando chove. Crônica de Rodrigo Levino em Dias Estranhos. A sensação que perpassa o texto tem tudo a ver com minha própria relação com a chuva. E com este fim de semana de inverno.
10
Aug08
Um cronista de segunda
A partir de amanhã, Felipe Lenhart brinda os leitores do Diário Catarinense com suas “crônicas de segunda”. Ironia hilária, o cara é um fera nas letrinhas.
09
Aug08
Dias estranhos
Leio Dias Estranhos (DigiZap, coleção Jovens Escribas, 2007), livro de crônicas do jornalista e escritor Rodrigo Levino. Presente do amigo Solino, que me deu a honra de um bom papo regado a cerveja de trigo quando estive em Natal em julho. Levino tem 25 anos, nasceu em Patu, RN, e escreve pra revista Piauí. Minha identificação com o cronista foi imediata. Ele aborda o mundo das miudezas significativas – as lembranças fragmentadas de infância quando mergulha no mar, as observações sobre o “tetris humano” no ônibus em Natal (também fiz tantas, percorrendo as mesmas avenidas), combinações inusitadas de vinho, macarrão e Led Zeppelin, o modo cauteloso de cortar legumes, o aconchego de uma pequena loja de discos diante da iminência de chuva forte. Sinto que, se nos encontrássemos, poderíamos passar horas falando sobre “o prazer de subverter a lógica do mundo das utilidades”, como ele coloca na crônica Deletérios. Ouro puro. Bom de ler em dias frios e chuvosos de inverno como hoje.
04
Aug08
Segundeiras
Coisas do jornalismo: passei metade da tarde numa interessante conversa sobre polímeros e reciclagem, com um especialista da Engenharia de Materiais da UFSC.
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Descobri hoje o blog do Zeca Camargo, aquele do Fantástico. Escreve bem o rapaz. Bem articulado, viajado, culto. Um tanto verborrágico pro meu gosto, mas tem o que dizer.
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O DVD Bob Esponja – O Filme, está passando uma temporada de quatro dias aqui em casa. Repetições incansáveis, entretenimento garantido.
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No fim de semana vimos Um Bonde Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire, de Elia Kazan, 1951), adaptação da peça de Tennessee Williams. Marlon Brando arrebenta.
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Terminei de ler Contos de Crime (PocketOuro, 2008), coletânea de Flávio Moreira da Costa. Muita coisa boa. Gostei muito de Marjorie Daw, de Thomas Bailey Aldrich (EUA, 1835-1907).
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Costa da Lagoa no domingo, com Miguel e com meu sobrinho Érico. Sol e vento sul, anchovinha grelhada no Bela Ilha. Caminhada curta, 40 min, e o restante de barco.
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Amar é… se molhar todo com um jato de vômito do filho e não sentir um pingo de nojo.
E vamos em frente, que a semana só começou.
23
Jul08
O aprendiz de criminoso
Aconteceu faz anos, num tempo em que até a criminalidade era mais ingênua. Conheci o personagem, mas nomes, lugares e datas não importam. No início o negócio parecia bom. Venda de comida congelada no varejo. Começou a ganhar dinheiro e o olho cresceu. Pegou empréstimo em banco, investiu pesado, ampliou o estoque. Mas logo passou a sofrer com a concorrência numerosa e hábil. Quebrou. Endividado, teve a idéia de aplicar sozinho um golpe que viria a ser conhecido como o seqüestro mais burro da crônica policial do estado.
A primeira etapa correu bem. Arrumou uma arma, rendeu um ricaço local e o levou para o cativeiro numa casa dos arredores. A partir daí as trapalhadas se sucederam. Ele escrevia bilhetes de próprio punho nas negociações. Ligava para a família do refém sempre do mesmo telefone público e ficava um tempão conversando – era um sujeito vaidoso e loquaz, não gostava que o interrompessem quando estava falando. Detalhe: o orelhão ficava pertinho do lugar do cativeiro. E mais: estacionou o carro do sequestrado no pátio da frente da casa, com a placa visível a quem passasse pela rua e desse uma olhada pelo portão gradeado.
Chegou o momento decisivo, o pagamento do resgate. Por comodidade, combinou um lugar prático para a entrega do dinheiro: um latão de lixo na calçada da casa da mãe dele. O resultado foi previsível. A polícia o pegou em flagrante. Preso, teve a sorte de não ir direto para a penitenciária, que estava lotada até a tampa. Ficou aguardando julgamento numa casa de detenção provisória, até que um dia conseguiu fugir pela porta da frente – possivelmente depois de generosa doação de sua família aos carcereiros, pois é improvável que um plano de fuga de sua lavra tivesse qualquer chance de êxito.
Livre, num raro lampejo de inteligência, intuiu que sua carreira criminosa não teria futuro. Zarpou para o exterior, onde vive até hoje, casado e com filhos. Se colocar de novo os pés no Brasil, imagino que será condenado a ver filmes policiais e ler romances de Agatha Christie por dez anos até deixar de ser burro. Woody Allen adoraria filmar a vida desse cara.







