06
Aug09
Enquanto o twitter não volta
Twitter “baleiou” feio hoje. É a maior instabilidade no sistema em vários meses, lembra o Mashable (citado pelo Alexandre Gonçalves no Facebook, que tá sendo usado como sucedâneo). O Facebook tá com falhas esporádicas também. Não sou de teorias da conspiração, mas a primeira coisa que pensei foi num ataque organizado pra lembrar os 64 anos de Hiroshima. Enquanto isso, aí vão três prototuitadas.
Hoje 17h na Academia Catarinense de Letras, oficina de crônicas abre com Flávio José Cardozo.
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Dia 20 a Regininha Carvalho fala sobre humor na crônica.
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Já sou avô. Meu filho Bruno, de três anos, é pai do coelhinho Fufim e do cachorrinho Cleite.
02
Aug09
Rua Major Codeceira
Aos dois anos na nossa casa no bairro da Boa Vista, em Recife. Minhas primeiras lembranças são dessa época. Tem uma história engraçada envolvendo essa casa e o nome da rua. Na real, não lembro de ter acontecido, mas foi tão contada e recontada – sempre com muitas risadas – que passou a fazer parte da crônica familiar. Uma vez um ladrão entrou lá e tentou roubar um botijão de gás (!). Minha mãe o encontrou quando ele ia saindo com o trambolho nas costas. Ele disse algo como “o doutor mandou buscar”, aí ela chamou: “Filho, vem cá”. O homem esperava um garotinho, mas surgiu meu pai, na época com um físico bem atlético. Ele foi-se esquivando, papai o segurou pela camisa e ele deu um pulo pra trás, rasgando-a. Aí papai o segurou pelo cós das calças. Outro pulo pra trás, calças rasgadas, o ladrão ficou pelado. E deu um salto enorme de gato sobre o muro alto – esse que aparece na foto -, caindo na casa vizinha.
Nesse meio tempo alguém já tinha ligado pra polícia e deu o endereço da rua: “Major Codeceira, venham logo!”. Os policiais entenderam que a casa de um major estava sendo roubada, e cercaram o quarteirão. Enquanto isso o ladrão, nuzinho, ia pulando cercas e muros de quintais arborizados com aquelas mangueiras e jaqueiras frondosas que enfeitam o Recife. Num varal, pegou um saiote e vestiu. Mas terminou sendo preso daquele jeito e virou motivo de chacota pra rua inteira. No fim das contas, meu pai disse que não queria prestar queixa e liberaram o elemento. O homem acabou esquecendo um par de chinelas havaianas no nosso quintal. Quando comparo essa historinha ingênua com as barbaridades que a gente vê na crônica policial de hoje, quanta diferença…
09
Jun09
Anotação de leitura: LLL e a notícia do acidente
De Alex Castro, um dos grandes textos da internet brasileira.
Vida Que SegueLiberal, Libertário, Libertino
Ontem de manhã, extraordinariamente, comprei o jornal. Estou procurando um apartamento pra alugar e queria ver os classificados. Em outro caderno, petrificados em fotos e condensados em resumos biográficos, estavam os mortos do acidente aéreo: o casal de noivos de Niterói, o maestro e o príncipe, a família que viajava separada justamente para que todos não morressem juntos, a mãe que perdeu a chance de ver a filha pela última vez pois ficou presa no trânsito. Li tudo aquilo com a curiosidade mórbida que caracteriza os humanos, me emocionei, considerei minha própria mortalidade, etc etc, e deixei o jornal respeitosamente à beira da cama, talvez para ler de novo. Mais tarde, houve sexo, com sua costumeira desordem viscosa. Já de madrugada, antes de dormir, fui arrumar o quarto. Em cima do jornal, tinha caído uma camisinha usada: gotas esparsas de porra e de KY manchavam o rosto do dinâmico chefe de gabinite de um jovem prefeito. Dobrei o jornal em volta da camisinha, joguei tudo fora e fui dormir.
18
Apr09
Dois jingles do tempo da República Velha
Florianópolis, cidade linda, de nome tão feio, como quem mora aqui já sabe (ou devia), foi batizada assim em 1894 como homenagem de um deputado puxa-saco ao presidente Floriano Peixoto – então ainda bem vivo -, depois que ele mandou abafar a Revolução Federalista ao custo de quase 200 fuzilamentos na Fortaleza de Anhatomirim. Li hoje uma historinha jocosa também ligada ao nome do marechal. A fonte é a biografia Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar, de Marco Antonio de Carvalho. Braga a ouviu na infância, de um parente mais velho, e anos depois contou ao sobrinho Edson, que a revelou ao biógrafo:
Na campanha presidencial que colocou Floriano contra Custódio de Melo, em 1890, os partidários de Melo cantavam, nas ruas: “Floriano, Floriano, que nome horrendo/ começa cheirando, acaba fedendo”. Mas seus adversários respondiam no mesmo tom: “Custódio, Custódio, que nome tens tu! / Acaba com ódio, começa com cu!”
19
Mar09
Crônicas da Regina
Há poucos meses ela se despediu da blogolândia pra se dedicar a escrever em voos de mais fôlego. Mas deve ter conseguido um bom arranjo no seu tempo, porque voltou! Agora em novo endereço, Regininha Carvalho compartilha com os amigos e admiradores suas crônicas saborosas sobre livros, causos, pão, artes domésticas, caminhadas, nuvens outonais e muito mais. Que bom!
11
Mar09
Mais um cronista de segunda
O título deste post é uma brincadeirinha com meu amigo e ex-colega de faculdade Norberto Well, que a partir deste mês publica às segundas-feiras suas crônicas no caderno Anexo de A Notícia. A crônica, esse gênero literário falsamente “menor” – como estão aí pra comprovar as obras-primas de Rubem Braga e Fernando Sabino -, requer capacidade de observação arguta das miudezas do cotidiano, naquilo que elas têm de humor e poesia. Sem falar no indispensável domínio do idioma e de certos recursos narrativos. Norberto acumula esses predicados e é um grande contador de histórias. Quem puder acompanhá-lo vai comprovar. Dois aperitivos:
Esse é do tempo do trema (sobre a reforma ortográfica e as armadilhas da língua)
Flores do perdão (uma aventura urbana para satisfazer a mulher amada)
24
Feb09
Recordações de Quarta-Feira de Cinzas
Já fui bastante ligado em Carnaval. Não em clubes ou em de escolas de samba, e sim na festa de rua. Tenho belas lembranças dos blocos de sujos de Recife e Olinda da minha infância. Meus pais eram carnavalescos ativos e aqueles dias eram de uma deliciosa alegria ingênua. Primeiro, o “esquenta” em casa, com amigos e agregados. Depois saíamos atrás da muvuca nos bairros e no centro histórico. À noite os adultos deixavam as crianças em casa e iam pros bailes a fantasia, então dessa parte não tenho o que contar. Uma brincadeira comum naquele tempo era jogar água nos motoristas que passavam, usando uma espécie de “seringa” feita com um cano de PVC, um cabo de vassoura como êmbolo e um pedaço de borracha (depois foi proibida porque começaram a usar água de sarjeta e mijo, o que às vezes resultava em facadas e tiros, mas isso foi bem depois). O ritmo das bandas de frevo percorrendo a pé as ladeiras de Olinda reverberava em cada célula do corpo. As fantasias impressionavam pela criatividade. Lembro que o número de brigas era mínimo, considerando a quantidade de gente circulando.
Depois, na adolescência, descobri outros carnavais e já preferia me divertir com os amigos. Em fevereiro de 1982, aos 16 anos, fui acampar com meu irmão André e os amigos Marcello, João Augusto e Atamir em Barra de Maxaranguape, uma vila de pescadores no litoral potiguar, a uma hora de Natal. O lugar tradicionalmente pacato virava uma ferveção, tinha até trio elétrico. Andávamos descalços nas ruas de areia branca da vila, tomávamos banho de mar e misturávamos bebidas, pulando de festa em festa, dia e noite. Pra dormir, nos dividíamos: uns numa barraca no acampamento que montamos na praia, outros dentro duma Variant velha e quem sobrasse deitava numa rede no chão fofo ou ia dançar mais um pouco. Ali pertinho, a foz de um rio ladeado de coqueiros. Todos éramos lisos e desajeitados nas artes da paquera, mas tínhamos fígados novinhos e tamanha fome de viver que aquela folia entrou pra nossa história. Rolou até um diário coletivo em que íamos registrando as loucuras e piadas. Até hoje sou amigo desses caras. A gente raramente se vê, mas quando se encontra, é quase como se aquele carnaval tivesse sido ontem.
Depois disso houve vários carnavais, nenhum tão lindo, mas tiveram seu valor (destaques pra Olinda, Floripa e Laguna, em que a alegria caótica das ruas me ajudou a lidar melhor com pequenas e grandes tristezas). Aí o tempo foi passando, vieram os filhos, a preguiça aumentou exponencialmente. O fato de viver no Sul, há mais de duas décadas longe das minhas raízes carnavalescas nordestinas, talvez tenha contribuído pra esse afastamento gradativo. Agora deixo a folia passar ao largo e aproveito pra descansar, pegar praia, botar as leituras em dia. Com uma pontinha de saudosismo pelos meus velhos carnavais, mas sem a ranzinice de achar que “antigamente era melhor”. Como diz mestre Paulinho da Viola, meu tempo é hoje. Sem esquecer que o tempo passado “foi um rio que passou em minha vida/e meu coração se deixou levar“.
30
Jan09
Pílulas brasilienses
Na entrada do hotel onde tou hospedado tem uma Rural que pertenceu a JK. Conservadíssima, linda. Tenho vagas lembranças de infância de uma Rural na família, do pai ou de um tio.
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Hoje vi um cachorro preto passear de lancha e depois de jet-ski no lago Paranoá.
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Pitomba, nosso taxista cearense, contou que tem sucuri no lago. Gugleei “sucuri + paranoá” e encontrei uma matéria legal do Correio Braziliense, de 2003, sobre o que essas águas escondem.
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Semana passada o Botelho, catarinense radicado em Brasília, me contou uma história engraçada que presenciou em Salvador. Ontem ele botou no blog: Emplacamento baiano.
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Comida goiana é boa demais. Tem muita semelhança com a mineira. Mas não me arrisco no pequi, aquela armadilha espinhenta com jeitinho inocente.
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Lendo: Em águas profundas: criatividade e meditação, de David Lynch, o diretor de Veludo Azul e Mullholand Drive – Cidade dos Sonhos, dois dos filmes mais oníricos que já vi.
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O tuiteiro @tiagomx dá a dica: http://twtip.com, saite com dicas sobre Google, Photoshop, writing, life etc. In English.
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O designer João Zanatta dá esta outra: The 100 Most Popular Photoshop Tutorials 2008. Saiba como transformar uma mocréia numa sereia.
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Ei, Ana Paula, conheci uma cerveja nova hoje: Teresópolis, uma lager que vem numa garrafa gordinha. Boa. (curti o som da Amy Winehouse que você blogou; e fui atrás de outros).
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Contando as horas pra voltar pra Floripa.
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(pensando alto, depois de dois adiamentos: trilha da Lagoinha do Leste no carnaval?)
19
Jan09
O mapa das mulheres bonitas de Floripa
Vi agora no blog do Alexandre Gonçalves um vídeo bem-humorado da MTV, o Reggae de Jurerê Internacional, sobre esse “universo paralelo” de Florianópolis que ganhou destaque em matéria do New York Times, pra alegria de muitos nativos deslumbrados. Sobre isso, tem também uma crônica muito boa de Felipe Lenhart no Diário Catarinense. A teoria dele é a seguinte:
… As mulheres realmente bonitas desta cidade tão incensada por causa da beleza feminina estão concentradas é no Centro, enfiadas em lojas, escritórios, repartições e consultórios, cercadas por muito concreto e muita argamassa, e é provável que a sua figura cheia de atributos esteja sendo tratada agora mesmo com lufadas agradáveis de ar refrigerado. …
16
Dec08
De enxurrada, guerra, jornalismo e odores
No domingo concluí uma reportagem pro Valor Econômico sobre a pós-tragédia no Vale do Itajaí. Eu já tinha enviado o texto pro jornal e precisei atualizar o número de mortos – agora são 128, acharam o corpo de um homem em Ilhota. As cenas e o cheiro de destruição no Morro do Baú continuam voltando à memória sem pedir licença. Efeito colateral da atividade do repórter que vai a campo: o envolvimento emocional é inevitável porque a gente cria vínculos, mesmo que superficiais. De perto, o olhar e a respiração das pessoas deixam marcas.
A enxurrada em Santa Catarina tem sido comparada com freqüência a uma guerra. Minhas referências bélicas são só de livros, reportagens (lidas/vistas), filmes e relatos de colegas, mas imagino que não seja de todo descabido o paralelo. No estado de suspensão momentânea ou duradoura da vida normal, as pessoas passam a depender muito mais dos instintos. Surgem os atos de bravura e os abjetos casos de ruindade. Tudo demasiadamente humano, sem verniz. No meio disso tudo, os repórteres colocam sua subjetividade a serviço do desafio narrativo. De certa forma pode ser excitante, mas qualquer glamour que se enxergue nesse tipo de trabalho é pura ilusão.
Amigos repórteres que cobriram conflitos armados (Marcelo Spina, Fernando Evangelista) comentaram comigo sobre como é difícil conciliar a emoção com a obrigação de apurar e contar. Os profissionais reagem de diferentes maneiras às situações-limite. Existem os que se abrigam na proteção do humor ou do cinismo. Outros se fecham. Alguns se tornam viciados em perigo e desenvolvem a sensação de ter o corpo fechado, como contou uma vez o José Arbex, que nos 80 era correspondente da Folha de São Paulo na União Soviética e cobriu a guerra do Afeganistão.
Medo: quem tem, tem. Quem não tem, é porque falta um parafuso. Marques Casara me contou que sentiu o cheiro fedido do medo no próprio suor enquanto entrevistava, usando um microfone escondido, um chefe de esquadrão da morte no sertão nordestino. No Afeganistão, Yan Boechat se empolgou ao ver um tanque russo abandonado na margem da estrada. Foi até lá e percebeu, pelos gritos dos nativos, que tinha caminhado por um campo minado. Voltou pisando nos próprios passos e sabe-se lá que cheiro sentiu. Em Ramallah, na Palestina, Fernando Evangelista viu uma senhora ser abatida por um franco-atirador a poucos metros dele, e nada pôde fazer pra ajudá-la. Na Somália, a câmera filmadora de Marcelo Spina foi atingida na lente por um tiro de fuzil. Depois, a janela de seu quarto no hotel foi metralhada e ele, em choque, decidiu sair do país.
Jornalista, bombeiro, policial ou médico na emergência de hospital público, o profissional que lida com situações de tensão e risco precisa ter estabilidade emocional pra realizar o trabalho – e estômago pra suportar cheiros bem desagradáveis -, senão termina atrapalhando mais que ajudando. Cada um emprega os artifícios mentais de sua preferência pra manter a sanidade e seguir em frente. A correta avaliação do tamanho do próprio ego é uma garantia a mais de avançar sem muitos arranhões – embora, na vida, qualquer garantia deva ser vista com ceticismo. Coloco tudo na balança e acho que encarar o tédio dos trabalhos sem sentido é um desafio bem mais penoso.








