Posts com a tag ‘memento’

07

Mar

08

Um momento especial em Pasárgada


Pousada Sítio Pasárgada, em Anitápolis, serra catarinense, 18 de agosto de 2007. Sopinha de legumes, vinho tinto e risadas. Meu pai, 82 anos de piadismo, diz: “Gosto muito de Santa Catarina; aqui as mulheres dão sopa!” Ali perto, o rio da Prata borbulha. Cheiro bom de comida caseira no fogão a lenha. Estou sentado ao lado dos dois homens com quem mais aprendi na vida. Na sala inteira, calor de gente amada. O tempo flui leve como uma pena de passarinho.

Da esquerda pra direita: Augusto, eu, Camillo, Laura, Bruno e Maria Rosa. Foto de Leonardo Camillo.

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26

Jan

08

Impressões sobre a angústia da madrugada

Um dia de cada vez. E uma noite no meio. Algumas são bem difíceis, principalmente quando a insônia ataca. Esta madrugada tive mais um flashback do acidente – às vezes isso me vem em sonho, às vezes acordado. O som da freada e do impacto, meus passos enquanto corria pro local, o resgate, as respirações ofegantes – naquelas horas críticas senti a audição ampliada e o tempo em exasperante câmera lenta. Tenho evitado comentar isso, mas o desabafo me ajuda a exorcizar a angústia. Ao olhar direto pros meus medos (= escrever sobre eles), me fortaleço. Espero que assim ajude os que também estejam precisando.

Fui pra sala. Eram três da manhã e abri o livro O carrasco do amor e outras histórias de psicoterapia, do psiquiatra Irvin D. Yalon (autor do excelente Quando Nietzsche chorou). Na introdução, ao abordar as dificuldades do duplo papel de observador e participante, ele cita uma frase que me chega como uma resposta de oráculo:

Ao escolher entrar completamente na vida de cada paciente, eu, o terapeuta, não somente fico exposto às suas mesmas questões existenciais como também devo estar preparado para examiná-las com as mesmas regras de investigação. Devo aceitar que conhecer é melhor do que não conhecer, aventurar-se é melhor do que não se aventurar; e que a magia e a ilusão, por mais magníficas e fascinantes que sejam, no final enfraquecem o espírito humano. Eu encaro com profunda seriedade as poderosas palavras de Thomas Hardy: “Se existe um caminho para o Melhor, ele exige uma visão completa do Pior”.

Nós, psicoterapeutas, não podemos simplesmente tagarelar com simpatia e exortar os pacientes a se debaterem corajosamente com os seus problemas. Nós não podemos dizer a eles vocês e os seus problemas. Ao contrário, devemos falar de nós e de nossos problemas, pois nossa vida, a nossa existência, estará sempre presa à morte, do amor à perda, da liberdade ao temor e do crescimento à separação. Nós, todos nós, estamos juntos nisso.

As madrugadas insones, os sonhos e também o sono profundo que se segue a eles nos são dados pra que a gente possa lidar sozinho com nossos fantasmas. Sem essas pausas de aguda percepção e também de esquecimento, talvez a realidade se tornasse insuportável.

Depois de um tempo voltei pro quarto e fiquei no escuro, olhando os meninos. Ri sozinho, tinham invertido as posições: Miguel, que adormecera no lado esquerdo do colchão, agora estava no direito, e Bruno tinha passado do lado direito pro esquerdo. Deitei, apaguei e acordei às oito me sentindo bem mais leve. Estamos no caminho para o Melhor.

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19

Jan

08

Onde você estava em…?

Recebi este meme do Rogério Christofoletti e repasso a outros três blogueiros: Botelho, Cris Fontinha e Ulysses. Quem mais quiser brincar de mexer nas gavetas da memória fique à vontade. São seis perguntas:

1. O que você estava fazendo em 1978 (há 30 anos)?

Tinha 12 anos e morava em Recife. Estudava no Colégio Militar e aprendia, entre outras coisas, a detestar o militarismo. Levantava às cinco pra engraxar as botas e ir à escola. Ficava acordado até tarde pra ver “O planeta dos macacos”. Jogava futebol de botão com um vizinho catarinense que tinha um time do Figueirense. Sonhava com mulheres inatingíveis. Folheava o atlas e fantasiava viagens. Vibrei com a copa do mundo da Argentina – chuva de papel picado na Bombonera, jogadores com mangas compridas, gol em curva de Nelinho, marmelada no jogo do Peru. Um momento marcante no segundo semestre foi nossa mudança pra Natal pela segunda vez – já tínhamos passado uns meses lá em 76.
(…)
Continua aqui

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17

Jan

08

Três novos blogs

Recebo hoje com alegria a notícia da criação de três novos blogs.

Botelheco, do amigo Diógenes Botelho, compartilha as pérolas da gaveta em clima de boteco, com o humor ácido que lhe é peculiar. Sua praia são causos curiosos, amenidades picantes, frases afiadas e desbocadas, fotos antigas do curso de jornalismo da UFSC, homenagens aos amigos que já se foram e aos malacos que continuam por aí – olha eu de cabelo preto. Botelho trabalha (mesmo) no Congresso, mas promete não escrever de política. Deveria. Tem cada história…

Tra-la-lá
é um blog sobre música tocado por Dorva Rezende, Fábio “Mutley” Bianchini e Renê Müller, jornalistas do Diário Catarinense. Os dois primeiros são meus amigos de longa data. Renê, vou ter o prazer de conhecer melhor agora. Eles entendem muito de música e têm intimidade com o idioma – Dorva é mestre em literatura e escreve sobre livros no jornal. Já publiquei aqui uma foto do Mutley (de preto) num dia em que brincamos de Nero no meu quintal.

Eu escolho como vou andar… é da Fernanda Costa, que não conheço pessoalmente mas me lê há um tempão – “há com H”, como ela faz questão de frisar, depois de ter escorregado no comentário; Fê, isso acontece nas melhores famílias; tá corrigido. Ano passado ela comentou pela primeira vez – sobre o momento de felicidade que foi ter conhecido o namorado no show do Roger Waters, no meio de 40 mil pessoas. O mote da Fê é a liberdade de escolha.

Já tou seguindo vocês por RSS.

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13

Dec

07

Menino olhando a chuva pela janela

Esta imagem do Bruno é um eco da minha infância. É uma das minhas primeiras lembranças. Fascínio total com a água que cai do céu.

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06

Dec

07

Bela música, linda letra

Força Estranha

Composição: Caetano Veloso

Eu vi um menino correndo
eu vi o tempo brincando ao redor
do caminho daquele menino,
eu pus os meus pés no riacho.
E acho que nunca os tirei.
O sol ainda brilha na estrada que eu nunca passei.
Eu vi a mulher preparando outra pessoa
O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga.
A vida é amiga da arte
É a parte que o sol me ensinou.
O sol que atravessa essa estrada que nunca passou.
Por isso uma força me leva a cantar,
por isso essa força estranha no ar.
Por isso é que eu canto, não posso parar.
Por isso essa voz tamanha.

Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista
o tempo não pára no entanto ele nunca envelhece.
Aquele que conhece o jogo, o jogo das coisas que são.
É o sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão.
Eu vi muitos homens brigando. Ouvi seus gritos
Estive no fundo de cada vontade encoberta,
é a coisa mais certa de todas as coisas.
Não vale um caminho sob o sol.
É o sol sobre a estrada, é o sol sobre a estrada, é o sol.
Por isso uma força me leva a cantar,
por isso essa força estranha no ar.
Por isso é que eu canto, não posso parar.
Por isso essa voz tamanha.

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02

Dec

07

Mio & Mao

Do túnel do tempo, uma animação de massinha que vi muito na infância.

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25

Nov

07

Ano de mudanças

Informo aos parceiros e clientes que desde 1º de novembro não faço mais parte da equipe do Instituto Observatório Social. É uma “separação amigável”, em que tomei a iniciativa de sair da minha zona de conforto pra enxergar outros horizontes. Foram cinco anos e um mês de aprendizado intenso sobre os direitos fundamentais dos trabalhadores e sobre como funcionam as multinacionais. Por meio do IOS fiz grandes amigos e conheci ativistas extraordinários em direitos humanos. Também vivi situações especiais que me ajudaram a compreender melhor o Brasil.

Como vou esquecer daquela noite de lua e fogueiras numa comunidade quilombola em Alcântara, Maranhão, onde o ritmo ancestral do tambor de crioula me hipnotizou? Das complexas negociações de acordos coletivos com empresas multinacionais? Da comunidade do conjunto Palmeira, em Fortaleza, usando o dinheiro “palma” em um projeto inovador de economia solidária? Das conversas com plantadores de café no Espírito Santo, com cortadores de cana no interior de São Paulo, com crianças em uma escola de circo na periferia de Recife?

Em duas décadas na profissão, o IOS foi o lugar onde mais tive liberdade de exercer o jornalismo com plenitude (eu ia escrever “jornalismo investigativo”, mas é quase uma redundância). E o melhor, com uma equipe azeitada e bem-humorada – as gargalhadas eram nosso antídoto contra o estresse. Os frutos vieram: em apenas 11 números de existência, a revista do IOS foi reconhecida com um prêmio Esso e duas menções honrosas no prêmio Herzog de direitos humanos. É possível, sim, fazer bom jornalismo com pouca grana e fora da grande mídia.

Quando eu disse tchau pros colegas, comparei minha saída com o momento em que se deixa a casa da família. Por um lado fica aquele aperto no coração, a saudade e lembranças do bem vivido. Por outro, entro num estado de excitação criativa pelo que vem. Vou continuar prestando consultoria e serviços eventuais ao IOS. Mas também é hora de meter a mão em outras mídias, xeretar novos ambientes e temas, cavoucar na terra preta do quintal, pegar a estrada. Obrigado, amigos e amigas, pela convivência.

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12

Oct

07

Barra de Punaú

Barra de Punaú – ou “do” Punaú se preferirem – fica a 80 km ao norte de Natal. É um dos lugares mais lindos que já conheci. Lá fiz acampamentos inesquecíveis, um deles na lua cheia, no tempo em que era uma praia praticamente intocada (tem uma lembrança aleatória aqui). Uma das diversões era caminhar a pé pelas dunas e depois descer boiando pelo rio morninho e limpo. Numa dessas encontrei um mamão, tinha acabado de cair n’água, e devorei ali mesmo. Hoje existe um hotel na margem do rio, perto da praia. O lugar continua lindo, como você pode ver na imagem do Google Earth, mas aquele das minhas lembranças não existe mais. Por onde andarão o pescador Zé Leiteiro e sua família?

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08

Oct

07

Eram cinco da manhã e o sol nascia

Um amigão dos tempos potiguares, Flávio Ferreira, deixou um bonito depoimento no meu orkut e aproveitou pra lembrar que já vomitei no carro dele. Faz vinte e tantos anos. Eu achava que já tinha deletado a cena da memória. Nada como uma idônea testemunha ocular pra imprimir esta marca na minha autobiografia não-autorizada. Assumo, es verdá. Agora tudo voltou (ops!) nítido: eram cinco da manhã em Ponta Negra, sol nascendo – sempre bem cedo naquelas paragens – e chegávamos duma festança boa. Ainda tive a decência de botar a cabeça pra fora da janela, mas foi vã a tentativa de livrar a porta… Não entrarei em detalhes sórdidos sobre odor e consistência. Naquela manhã, Flávio demonstrou ser um verdadeiro brother e um gentleman, pois lavou o carro sozinho.

Isso me trouxe um monte de lembranças agridoces, engraçadas, musicais, perfumadas. É curioso, sempre que evoco minha adolescência hedonista em Natal, as cenas vêm acompanhadas de bons odores, exceto em alguns casos como o supracitado. Talvez elas sejam editadas por um superego de bom gosto, sei lá. As recordações com Flávio envolvem noitadas com violão e turma animada, pilequinhos com tira-gosto de laranja na Bodega da Praça, acampamentos enluarados em praias com coqueirais, piadas sarcásticas e comentários jocosos sobre um pouco de tudo, empurrações de carros velhos, crônica falta de dinheiro, festas e mais festas – juninas, escolares, periféricas, a fantasia, sem convite -, o ombro amigo num momento trágico, natação em riacho no fim de tarde, longas caminhadas e papos filosóficos ao sol torrante com pés descalços… Flávio me apresentou pessoas queridas e me fez enxergar mais longe – por exemplo, quando demonstrou o poder do reiki.

Faz tempo que não vomito; pra felicidade do meu fígado, nunca mais consegui tomar cachaça e outros destilados com a disposição que tinha aos 15, 18 anos. Por outro lado, quando tento recuperar a sensação de otimismo ingênuo, a onipotência, a voracidade de viver a mil que eu tinha naquela época, é como tentar segurar água corrente com as mãos abertas. A juventude só acontece uma vez. É bom que seja assim, porque o que vem depois também é precioso e depende de ter existido o antes. O que me deixa muito grato à vida é que, nesse caminho, tive a sorte de fazer amigos incríveis. Poucos, bons, divertidos. Fundamentais. A gente passa anos sem se ver, mas na essência essa riqueza está preservada. Um brinde a isso!

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