Posts com a tag ‘livros’

03

Mar

08

A incrível viagem de Shackleton

Lendo A incrível viagem de Shackleton, de Alfred Lansing (Sextante, 2004). O livro, escrito em 1959, conta uma história real ocorrida em 1914, quando um aventureiro britânico partiu com sua equipe para a Antártica. Sua a meta era atravessar pela primeira vez o continente gelado, usando trenós puxados por cães. Mas o navio ficou preso, foi esmagado pela pressão do gelo e os homens tiveram que passar por uma grande provação pra sobreviver.

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28

Feb

08

Os mortos na sala de jantar

Recebi hoje pelo correio e sorvi de uma tacada só Os mortos na sala de jantar, do amigo Ademir Demarchi (Realejo Edições, Santos, SP, 2007). Seu livro de poemas ficou mais de vinte anos na gaveta-tumba, até que, no ano passado, foi premiado pra publicação pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Ademir passeia por vários formatos de escrita em torno do tema da nossa finitude. Seus textos, longe de oferecer conforto, fazem refletir sobre as idéias prontas que se tem sobre bater as botas.

O poeta se vale de referências irônicas e ácidas sobre história, política, literatura e comportamento pra criticar as fantasias que escravizam as pessoas: “Combato essa sociedade que vende felicidade, vida eterna e morte assépticas conquistadas sobre muita miséria”, diz. “Por isso a poesia que faço tem a pretensão, já de saída conscientemente falimentar, de ser eminentemente crítica. … Combato também as idealizações platônicas que em geral envernizam as mentes de quem se mete com literatura, acreditando em fantasias como A Obra, O Autor, O Livro, O Poema etc.”.

No prefácio, o crítico Raul Antelo assinala que Os mortos na sala de jantar se une a uma rica tradição que inclui artistas como Rubens, Rembrandt, Delacroix, Baudelaire, Marcel Duchamp, André Breton, Drummond e tantos outros. Ele cita o crítico de arte Georges Duhuit, para quem “o cadáver arrasta consigo a evolução dos estilos, serve às experiências perspectivas, aos ajustes de tonalidades, posa para efeitos de claro-escuro, é testemunha da diferença, do sério e até mesmo da majestade de uma personagem notável, instalado, porém, no espaço da função teatral, mero reflexo esverdeado em meio aos bajuladores de um lugar deslumbrante, por onde o homem comum já não pode mais passar”.

Alguns poemas:

Da felicidade e da infelicidade

lá vai o viúvo
sorri sua mulher
morreu sua amante
~

Epitáfios

epitáfios são epígrafes
de histórias que continuam túmulo adentro
~

Leviatan

evita levita
~

Amazônia
(in memoriam)

descansa em paz
no chão e nos móveis da sala
~

Aviso

caminha com cuidado
pisa sobre teus
antepassados

O autor:
ademirdemarchi [arroba ] uol ponto com ponto br

A editora:
Realejo Edições / José Luiz Tahan
(13) 3289-4935
realejolivros [arroba] terra ponto com ponto br

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04

Feb

08

Anotação de leitura: o outro

“Mesmo o mais liberal sistema de nomenclatura psiquiátrica comete uma violência contra a essência da pessoa. Se nos relacionamos com as pessoas achando que podemos categorizá-las, não iremos nem identificar nem cuidar das partes vitais do outro que transcendem a categoria. O relacionamento possível sempre supõe que o outro jamais pode ser inteiramente conhecido.”
Irvin D. Yalon – O carrasco do amor e outras histórias sobre psicoterapia (em “Dois sorrisos”).

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31

Jan

08

Aniversário

Faço 42 hoje. Depois dos 40 – idade em que, quando eu era pequeno, achava que as pessoas ficavam velhas – passei a comemorar todo dia, então é só mais um dia extraordinário. Bem bacana, claro. Agradinhos e gentilezas dos filhos, da mulher, da família e dos amigos. Passei o dia recebendo telefonemas, e-mails, mensagens pelo orkut, twitter, msn. Ligações de Mato Grosso, Ceará, São Paulo, Argentina (valeu broders, sistas, hermanitos! Amo vocês). Almoço especial preparado pela cunhada Cristina – carne seca na moranga.

Dois presentinhos maneiros: a Laura me deu Vale Tudo, livro de Nelson Motta sobre a vida de Tim Maia – faz tempo que tou louco pra ler. Do Carlos ganhei um esperto-fone. Como sou meio lerdo pras tecnologias móveis (e também pra torneiras pingando, curtos-circuitos e origamis), ele tem dado uma força pra configurar o bicho. Já consigo telefonar, jogar sinuca e mandar e-mail. :) O grande presente ainda não chegou: uma notícia do despertar de Augusto no hospital regional de Cáceres. Mas vai chegar. Estamos a cada dia mais perto, tenho certeza.

p.s.: Um link de presente pra você. A ilustração deste post é do cartunista Marcelo de Andrade, que publica no blog É triste viver de humor. Recomendo.

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29

Jan

08

Fancaria

Fancaria: trabalho grosseiro, ordinário, mal-acabado, diz o Houaiss. Com este nome e o subtítulo “Conhecimento de araque”, o amigo e parceiro de profissão Emerson Gasperin lança seu blog. É uma espécie de retomada do Fiambres Gasperin, onde ele republicava uma coluna de jornal. Agora retorna sem o compromisso profissional e sem as amarras da crônica. Cauteloso, avisa que é um blog em permanente versão beta. Em seu primeiro texto, diz por que se rendeu à gratuidade da coisa:

… vejo que quase todos os meus amigos são blogueiros. Eles me instigam, me divertem e me confortam. Também quero viajar nesse balão. No mínimo, para retribuir em primeira pessoa o bem que me fazem.

Era isso ou ficar assistindo ao paredão inaugural do oitavo Big Brother Brasil.

Tomate, como é mais conhecido pelos amigos (ou Tommy Tomaccio no circuito DJ) é arguto observador participante da cultura pop. Devora livros e música. Tem humor sulfúrico e língua sem travas, o que às vezes provoca falsa impressão em quem o encontra pela primeira vez. Na vida real, é extremado marido e pai de família; passeia com o cachorro duas vezes por dia e, enquanto recolhe num saco plástico os comentários que o bichinho faz à administração municipal, inspira-se para escrever sobre os fatos da vida.

Há outro importante atributo a citar sobre este blogueiro recém-chegado: ele tem um dos melhores textos que conheço – se você acompanha este blog desde 2001, sabe que não desperdiço elogio, especialmente esse tipo de elogio. Portanto, não se deixe enganar pela ironia autodepreciativa no nome do blog. Gasperin é um homem que tem algo a dizer. Excepcionalmente, em Fancaria ele não cobra nada por isso. E de brinde ainda compartilha música boa com os leitores.

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23

Jan

08

Meias vermelhas & histórias inteiras

Li de uma só tacada Meias vermelhas & histórias inteiras, de Marcos Donizetti. Em 73 páginas, o autor do blog Hedonismos demonstra – sem se exibir – que tem domínio sobre a narrativa curta, aquela em que o escritor precisa vencer por nocaute, como lembra o Inagaki na introdução, citando Cortázar. As histórias fluem como conversas ao som de música. Júlia, Lurdinha, Laura, Fernanda, Débora, Ana Lúcia… Lucas, Júlio, Rodolfo, Jorge, João, Álvaro. Os personagens podiam ser nossos vizinhos, namoradas, maridos. Podiam ser nós mesmos em nossas vidas banais ou extraordinárias, dependendo do ângulo em que se veja.

Doni conhece o ofício. Ele lida bem com a passagem do tempo e com a reversão de expectativas – às vezes só pra confirmar o que o leitor já intuía. As histórias são temperadas com humor discreto, fetiches e sexo gostoso, mas o mote mesmo é amor. Com suas possibilidades e impossibilidades, palpitações, euforias e, quando acaba, seus efeitos devastadores. Quem já deu ou levou pé na bunda, quem guarda recordações agridoces de paixões da infância e adolescência vai se identificar. O livro também é flecha certeira pros que descobriram a mulher ou o homem de suas vidas.

Gostei muito do primeiro e do último conto, Júlia e A estrela é morta, que a gente lê ouvindo na cabeça a linda música de Lennon. Débora, com as pausas do narrador pra encher o copo, tá redondinho e divertido. A menina aborda a paixão platônica de uma maneira inusitada; tem uns ecos de Allan Poe. Vingança quente, conto de cinco parágrafos, é muito engraçado; pras mulheres captarem a essência, precisam se imaginar homens. Beijos foi esculpido com memória e arte; é talvez o meu favorito. Umas poucas histórias eu achei dispensáveis, dão a impressão de terem saído da incubadora antes do tempo. Mas elas não prejudicam o todo.

Guarde o nome de Marcos Donizetti. Ele ainda vai mostrar belas surpresas em forma de letra impressa (enquanto isso, dá pra apreciar o estilo do cara no seu ótimo blog). Meias vermelhas & histórias inteiras pode ser comprado pela internet na Editora Os Viralata, de literatura independente. Custa 19,90 dinheiros, já incluído o frete do correio. Você pode conferir aqui outras opiniões sobre o livro. Tem também uma comunidade no Orkut.

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23

Jan

08

Anotação de leitura: Leminski e a impermanência

Levantei os olhos devagar para o carnaval de luzes em minha volta. Tudo parecia idêntico. As mesmas pessoas. As mesmas gargalhadas. Os gestos todos certos. A certeza.

Só que tinha uma coisa errada. TUDO tinha mudado.

Por segundos girei numa vertigem, sem saber o quê, em quê, por quê. Ah, por quês?, como atingir a sabedoria sem vocês, porquês, por quês, porquês, diabólica máquina das causas e efeitos. O que tinha mudado? Nenhum POR QUÊ?, por favor. TUDO.

Paulo Leminski, Agora é que são elas.

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17

Jan

08

Os livros de auto-ajuda e a filosofia grega

Em comentário ao meu texto sobre o timing, Lígia Fascioni, comparsa no coletivo +D1, lembra que também escreveu sobre o assunto. Seu artigo O segredo do status é mais que uma crítica contundente aos livros de auto-ajuda. É uma contribuição importante pra gente refletir sobre os nossos limites. Lígia recupera alguns conceitos da filosofia grega pra alertar: desconfie quando tentam lhe convencer que a chave do sucesso só depende da sua força de vontade. Na opinião dela – concordo 100% – a auto-ajuda pode até realmente ajudar algumas pessoas (principalmente seus autores), mas contribui mesmo é pra detonar a auto-estima dos incautos. A busca por sucesso e status é angustiante porque a referência passa a ser o que os outros consideram ideal, não você.

(…) Escondida lá no fundo da livraria , a Marilena Chaui, no excelente “Convite à filosofia”, explica que um dos legados mais importantes da filosofia grega para o pensamento ocidental é a formalização da diferença entre o que é necessário (o que não pode ser senão como é) e o contingente (que pode ou não ser). Além disso, os gregos nos ensinaram que o contingente pode ser dividido entre o acaso e o possível.

Olha só: o necessário é aquilo que a gente não pode escolher, pois acontece e vai acontecer sempre, independente da nossa vontade. Assim, sempre haverá dias e noites; o tempo vai passar; todas as coisas serão atraídas pela gravidade; você vai morrer algum dia.

Já o contingente é aquilo que pode ou não acontecer na natureza ou entre os homens. Quando o contigente é do tipo acaso, também não está em nosso poder escolher. Exemplos de acaso: não posso determinar se um motorista bêbado vai ou não abalroar meu carro e provocar um acidente; não posso optar por ser ou não assaltado; também não posso arbitrar que meu pai seja ou não um jogador compulsivo nascido na Croácia.

Que coisa, heim? Então posso escolher nada? Bem, pode. É justamente por isso que existe o segundo tipo de contingente: o possível. O possível é tudo aquilo que está em meu poder mudar ou não. Posso optar por fumar ou não; posso ficar até mais tarde estudando ou vendo televisão; posso ouvir uma fofoca calada ou contar para todo mundo; posso ler o texto até o fim ou parar por aqui.

Sacou como os gregos eram espertos? Essa estrutura lógica de pensamento nos permite concluir duas coisas importantíssimas: nem somos guiados cegamente pelo destino, daquele tipo “o avião caiu porque Deus quis”, nem tampouco podemos tudo, mover céus, montanhas e mares ao sabor dos nossos desejos. Algumas coisas a gente pode mudar, outras, não! (…)

O artigo inteiro está aqui.

p.s.: Lígia cita o livro Desejo de status, de Alain de Botton, professor de filosofia da London University. Desde já, entra pra minha lista dos “a ler”. Dele li e resenhei pra editora Rocco o ótimo As consolações da filosofia.

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06

Jan

08

Leia o Mundo, p.s.

Republiquei o post anterior porque eu tinha errado no título e no texto o nome do projeto: é Biblioteca Leia o Mundo, e não Veja como tava escrito. O link permanente pra vocês passarem o recado adiante passa a ser este aqui.

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06

Jan

08

Leia o Mundo e a magia dos livros

Ontem visitamos a Biblioteca Leia o Mundo. É um projeto social desenvolvido no bairro Bom Jardim pela Afeerm – Associação das Famílias, Educadores e Educandos de Rolim de Moura (Rondônia). A iniciativa nasceu em 2001 como biblioteca itinerante que percorria comunidades pobres pra despertar nas crianças e adolescentes o gosto pela leitura (na época o material foi transportado várias vezes por meu sogro Augusto na carroceria da sua Pampa). Chegou a ser premiada pela revista Nova Escola e saiu numa reportagem da Folha de S. Paulo. Os cinco mil reais do prêmio e as doações de livros deram fôlego à pequena biblioteca, que há dois anos ganhou espaço fixo em um salão da prefeitura.

Esta semana chegou luz elétrica, importante avanço na estrutura precária – faltam banheiro e água encanada, o acervo é limitado, não há gente suficiente pra abrir as portas por mais tempo. Mesmo assim, Leia o Mundo já faz diferença no cotidiano de Bom Jardim, onde as opções de lazer e acesso a livros são quase inexistentes. O bairro é a cara do Brasil esquecido pelo país oficial: um conjunto de casas-caixotes de alvenaria, concebidas com recursos federais pela mente de algum arquiteto sádico – muitas têm puxadinhos nos fundos pra suprir a falta de espaço. Ruas esburacadas de barro vermelho, nada de saneamento. Jovens desempregados nas esquinas, mulheres com bebês no colo, crianças brincando por aí enquanto os pais tentam ganhar a vida. Fomos recebidos com muita simpatia pelos moradores.

Assim que a Valdete, presidente da Associação, abriu as portas da biblioteca, a criançada foi chegando como se atraída por mágica. Logo o ambiente era de festa. Uns meninos sentavam em banquinhos pra ler revistas em quadrinhos. Dois irmãos tentavam decifrar palavras: – Olha, tio, ele já sabe ler a palavra osso. E o pequeno, orgulhoso: – Eu tenho quatro anos, mas já vou fazer cinco. Outros mexiam nas estantes e brincavam de se esconder entre os livros. Os menorzinhos pediam papel pra desenhar – papel é material escasso aqui – e enfeitavam os braços com carimbos. Um miúdo fazia a percussão, batendo com uma colher numa panela vazia. Três adolescentes montavam um jogo de palavras cruzadas com peças móveis.

Leia o Mundo é fruto de vontade e idealismo de muita gente. A Afeerm ainda está em processo de formalização como OSCIP, pra que possa receber recursos públicos. O pessoal tem planos de melhorar o acesso à casa, construir um sanitário, instalar tevê e computador, catalogar as obras. A cada dia é adicionado um tijolinho a mais. Entre as obras encontrei Garcia Marquez, Agatha Christie e Julio Verne. Esses escritores iam gostar muito de saber que podem ser lidos no interior de Rondônia.

Na sua casa tem algum livro ou revista pra passar adiante? Pode ser leitura pra adulto, adolescente ou criança. Que tal dar uma força nesse projeto? É muito pouco pra quem dá e tem valor enorme pra quem recebe. Você pode colaborar enviando doações de livros e revistas pra

Biblioteca Leia o Mundo (a/c Valdete ou Ivone)
Rua das Violetas, 6744, Bom Jardim, Rolim de Moura-RO
CEP 78987-000

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