Posts com a tag ‘livros’

23

May

08

Anotações de leitura: a releitura

A arte da leitura é a da releitura. Há uns poucos livros totais, uns três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem.

Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: “O que é que você leu?”. Respondi: “Dostoievski”. Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: “Que mais?”. E eu: “Dostoievski”. Teimou: “Só?”. Repeti: “Dostoievski”. O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura.

Nelson Rodrigues – O óbvio ululante

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09

May

08

órfãos do Eldorado

Li de uma sentada só, no avião (aliás, duas: trecho Floripa-Guarulhos e Guarulhos-Brasília), o novo livro de Milton Hatoum, órfãos do Eldorado. São 103 páginas que envolvem o leitor numa história de amor frustrado, conflito pai & filho, miragens e obsessão. Tudo isso ambientado às margens do rio Amazonas, no início do século vinte, entre o apogeu e a decadência do ciclo da borracha. O mito amazônico da Cidade Encantada, lenda indígena e também européia, é evocado na narrativa como possível destino de Dinaura, órfã por quem o protagonista se apaixona.

Muito bom! Não chega a ter a exuberância dos premiados Relato de um certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte. Mas é uma pequena jóia, lapidada com extrema sensibilidade e competência, que só reforça minha impressão: Hatoum é um dos melhores escritores brasileiros desta geração. órfãos do Eldorado é um “pequeno grande livro”, como diz em seu blog Daniel Piza, colunista do Estadão. Citei Milton Hatoum e a sua obra algumas vezes aqui no blog. A obra dele provoca ecos fortes em minhas memórias de infância – morei dos cinco aos seis anos em Manaus.

Um tema recorrente da obra do escritor amazonense gira em torno de afogamentos e naufrágios – a primeira cena da história marca esse tom e o naufrágio do cargueiro Eldorado tem peso concreto & simbólico na trajetória do protagonista. O recente afundamento de um barco lotado no Amazonas, com dezenas de mortes, revela como a realidade é alimentadora infinita de dramas para a literatura. Barcos que afundam por causa da ganância irresponsável de seus donos e da corrupção das autoridades são fato corriqueiro por lá. Passada a indignação momentânea e as promessas de medidas duras pra aumentar a fiscalização, tudo volta ao que era.

p.s.: o navio Leopoldo Peres, no qual viajei de Manaus a Belém em 1972, já está submerso. Afundou alguns anos depois, numa colisão com uma corveta da Marinha.

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28

Apr

08

Livro reúne 31 contos de novos autores catarinenses

Amanhã às 19h, no hall da Reitoria da UFSC, vai ser lançado o livro O novo conto catarina, antologia organizada pela professora Regina Carvalho para fechar as comemorações dos 25 anos da Editora da UFSC. Tive a honra de ter um conto meu selecionado junto aos de outros trinta autores. Os termos “novo” e “catarina” envaidecem este pernambucano quarentão que há 22 anos adotou Santa Catarina como amado porto seguro.

Muitos dos meus companheiros de antologia eu ainda não conheço, ou posso ter encontrado por aí, já que estamos numa ilha. Uns, conheço de nome ou de ler – Dennis Radünz, Maicon Tenfen, Aleph Ozuas. Com outros convivi em situações profissionais e sociais: Raquel Wandelli, Moacir Loth, Rubens Lunge, Marco Vasquez… O Marco é um contato recente: dia desses almoçou na minha casa e fizemos uma fogueirona no quintal pra assar tainha enquanto falávamos de literatura e da vida. Estar ao lado de tantos feras é um grande estímulo pra que eu me dedique mais à ficção. É um desejo muitas vezes colocado em segundo plano por causa das correrias do jornalismo. (p.s.: será? Anotação mental: escrever sobre isso).

Meu conto nesta coletânea se chama Pura sorte e foi publicado aqui no blog em julho de 2002. É inspirado num personagem real que viveu no interior do Ceará – com boas pitadas de invencionice pra temperar o enredo. A narrativa de aldeia aborda um tema universal sempre presente nas histórias sertanejas que eu ouvia na infância: a violência e seus agentes, com todas as contradições que carregam. O protagonista é um humano da pior espécie, pistoleiro de aluguel, mas tem uma “ética” profissional – que o impede, por exemplo, de matar as vítimas na presença de crianças. Se você encontrou semelhanças de forma com Dalton Trevisan e Eduardo Galeano, não é coincidência. Sou grande admirador da prosa sintética, despojada e forte dos dois escritores, e este conto foi um exercício de aprendiz.

Seus comentários são bem-vindos. E se estiver em Floripa nesta terça, venha tomar um vinho com a gente.

Contatos com a organizadora do livro, Regina Carvalho, podem ser feitos pelos telefones (48) 3225-9706 e 9976-7567 ou pelo e-mail regininha_carvalho@yahoo.com.br. Conheça também o blog dela, Coisas de Regininha. O número da Editora da UFSC é (48) 3721-9408.

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18

Apr

08

Blogagem coletiva contra o analfabetismo no Brasil

Leio agora na Georgia, do Saia Justa, que amanhã tem blogagem coletiva contra o analfabetismo no Brasil. Como é bem provável que eu dedique o sábado ao ócio offline, aproveito pra dar meu recado hoje. É o complemento de um texto que escrevi no dia 6 de janeiro.

Analfabeto não é apenas aquele que não sabe juntar A mais B nem assinar o nome. É também quem lê e não entende. É quem sabe juntar letras, palavras e frases, mas nunca pega um livro nas mãos, ou por falta de hábito, ou porque não sabe o que está perdendo, ou por dificuldade de acesso. Aí se inclui o alto custo dos livros, mas nem tanto. Faltam bibliotecas.

Um bonito trabalho vem sendo feito em Rondônia com a Biblioteca Leia o Mundo, projeto social na comunidade carente de bairro Bom Jardim, em Rolim de Moura. Tive a alegria de conhecer crianças que tiveram o primeiro contato com o fascínio das letras naquele espaço humilde, mantido pelo esforço e idealismo de um pequeno grupo de cidadãos na verdadeira acepção da palavra.

Na sua casa tem algum livro ou revista pra passar adiante? Pode ser leitura pra adulto, adolescente ou criança. Que tal dar uma força nesse projeto? É muito pouco pra quem dá e tem valor enorme pra quem recebe. Você pode colaborar enviando doações de livros e revistas pra

Biblioteca Leia o Mundo (a/c Valdete ou Ivone)
Rua das Violetas, 6744, Bom Jardim, Rolim de Moura-RO
CEP 78987-000

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09

Apr

08

Caçadas de Pedrinho

Terminei de ler Reinações de Narizinho, parte 1, um dos clássicos de Monteiro Lobato que estão sendo relançados pela Editora Globo com belas ilustrações e diagramação arejada. Agora minha leitura noturna com os meninos é Caçadas de Pedrinho. É um livro cheio de aventuras, medos e valentias vividas no Sítio do Pica-Pau Amarelo, num tempo em que as onças não eram animais em extinção e quando ainda não existia o Ibama, esclarece o texto introdutório da editora. Coitada da onça, nem queiram imaginar o que essa meninada fez com ela.

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02

Apr

08

Biografia de Rubem Braga

A propósito de Rubem Braga, Felipe Lenhart escreveu uma bela resenha sobre a recém-lançada biografia do “cronista sabiá”.

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02

Apr

08

De cronistas e passarinhos

Tou lendo 200 crônicas escolhidas – as melhores de Rubem Braga. Um encanto. Bonito e simples como um passarinho. Relatos cotidianos com toques de humor, lirismo, amor pelas pessoas e pela vida. Se alguém o descobrir depois de me ler aqui, vou considerar um presente.
~
Braga e Quintana são os grandes cronistas de passarinhos. Coincidência ou não, gosto muito dos dois. Jamais em gaiolas.
~
Vai um canto de sabiá-laranjeira aí? Cortesia do amigo Ayres Marques, que das lonjuras da Itália continua ligadão no Brasil.

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27

Mar

08

Como aprendi a escrever

O grande trio da literatura francesa, Stendhal, Balzac e Flaubert, exerceu sobre mim uma autêntica e profunda influência educativa como escritor, e recomendo insistentemente aos principiantes que leiam estes autores; são grandes artistas de gênio e os maiores mestres da forma.

Maximo Gorki, Como aprendi a escrever (Porto Alegre : Mercado Aberto, 1998)

p.s. Nota pra mim mesmo: ler Balzac. A Comédia Humana tá em algum lugar na estante.

p.s.2. Uma obra de Flaubert e uma de Stendhal estão na minha lista de 50 livros marcantes.

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21

Mar

08

Correio

Chegaram os livros.
~
Frase aleatória pinçada do Dualibi das Citações:

Um diamante é um pedaço de carvão que se saiu bem sob pressão.
Anônimo

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12

Mar

08

Banana Craft liquida livros usados


A Daniele Sinhorelli, da Banana Craft, resolveu liberar um pouco de espaço em casa e colocou à venda mais de 200 livros usados. Tem coisas muito boas. Acabamos de comprar estes aqui:

  • 200 crônicas escolhidas – Rubem Braga (R$ 10)
  • A máquina de dar beijinhos – Mempo Giardinelli (R$ 1)
  • Como aprendi a escrever – Maximo Gorki (R$ 1)
  • Dualibi das citações – Roberto Dualibi (R$ 15)
  • O despertar do Buda interior – Lama Surya Das (R$ 7)
  • O Livro das Religiões – Jostein Gaarder (R$ 7)
  • Oriente, Ocidente – Salman Rushdie (R$ 2)

Saiu tudo por R$ 55,20, incluindo R$ 12,20 de frete. Bem em conta, né?

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