Posts com a tag ‘contos’

29

Jul

08

Vai-e-vem de livros

Na viagem, li Dias e noites de amor e de guerra, de Eduardo Galeano. Textos curtos com recordações agridoces dos tempos da ditadura no Uruguai, Argentina e Brasil. Estou lendo Contos de crime – clássicos escolhidos, uma coletânea organizada por Flávio Moreira da Costa. Entre os selecionados, contos de Machado de Assis, Maupassant, Poe, Dostoievski, O. Henry, Robert Louis Stevenson, Conan Doyle… Só filé.

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30

Apr

08

O novo conto catarina: minha colaboração

Meu conto na antologia é este aqui:


Pura sorte

1.
Chega a pé. Sol quente, uma e meia da tarde. Casas geminadas sem jardim. Ninguém por ali, só o menino brincando com bolas de gude na calçada.
- Seu pai tá em casa?
- Tá.
Mão no bolso. Nota de cinco.
- Tome. Pra comprar de bala.
O garoto pega o dinheiro, corre para a venda e some de vista.
Sobe o degrau e empurra devagar a porta da frente, entreaberta. Na sala, um homem vê tevê sentado numa cadeira de balanço de plástico trançado. Sorri para o desconhecido, meio sem saber por quê, e se levanta.
- ‘Dia. Posso ajudar?
- Licença. O senhor é Joaquim dos Prazeres, do sindicato?
- Eu mesmo.
- Vim lhe trazer uma encomenda.
Dois tiros certeiros. Um no coração, outro na cabeça. Guarda o revólver e sai caminhando sem pressa.

2.
Demorou, mas um dia falhou. Munição velha. O sujeito reagiu, foi preciso usar arma branca. Confusão, gritaria, fuga rápida. Levou rasteira na esquina e foi algemado pelos soldados de polícia. Na prisão, o pão que o diabo. Quebraram-lhe os dedos da mão direita com cabo de fuzil, um a um. Meses depois, grade serrada e rua.

3.
Sol quente, duas da tarde. Dois meninos batem bola no campinho. Faz sinal e eles vêm.
- Conhecem Mané das Dores?
- É meu pai. Tá em casa, aquela verde ali, ó.
Duas cédulas de cinco, eles pegam rápido. O mais novo aponta a atadura na mão do homem:
- Que foi isso?
- Acidente de trabalho. Mas dei sorte. Sou canhoto.
Os meninos saem correndo para a venda. Ele caminha em direção à casa verde e empurra a porta em silêncio.

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30

Apr

08

O novo conto catarina: lançamento

Foi bem legal o lançamento do livro com a coletânea de novos contistas de Santa Catarina. O hall da reitoria da UFSC tava cheio de gente bacana que foi gostoso reencontrar. Conheci alguns companheiros da antologia, como o simpático Charles Silva. Me dei conta de que uma das autoras, a Clarmi, é a mesma com quem estudei francês na Aliança. Combinei com o Marco Vasquez mais uma anchova assada pra breve. Tinha um vinho tinto danado de bom, adequado pra noite gelada de vento sul – nesta madrugada o termômetro chegou a 11 graus em Floripa.

A jornalista Maria Odete, da TV Barriga Verde, me entrevistou e fez uma boa pergunta, embora recorrente em eventos do gênero: por que se lê tão pouco no Brasil? Não me atrevi a buscar uma resposta-síntese de 30 segundos pra uma questão de cinco séculos. Saí-me com um comentário sobre o analfabetismo funcional e sobre a importância da educação em casa. Meu recado pros telespectadores: – Pai, mãe, leiam pros seus filhos. É um presente inestimável que vocês dão pra eles.

Regininha contou algumas histórias curiosas sobre o processo de garimpagem e edição dos textos. Como a do “misterioso” Werner Neuert, de Indaial, que ela teve enorme dificuldade de localizar, inclusive tendo encontrado um homônimo que nada tinha a ver com o escritor. Até que finalmente conseguiu conversar com ele por telefone. Werner se mostrou gentil, mas como não conseguia escolher o conto, enviou um livro inteiro pra ela selecionar. Depois sumiu de novo. Rubens Lunge também enviou um livro inédito sem indicar o conto, mas por outro motivo: tinha acabado de sofrer um acidente de carro. Uma pane no computador fez metade do conto de Moacir Loth desaparecer, problema resolvido a tempo. Outro contista não teve tanta sorte: seu texto evaporou-se e a ausência só foi percebida quando o material já tinha ido pra gráfica.

Fiquei contente em estar nesse livro, principalmente porque não é uma antologia qualquer – é a escolha DA REGININHA, e quem a conhece sabe o que quero dizer.

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28

Apr

08

Livro reúne 31 contos de novos autores catarinenses

Amanhã às 19h, no hall da Reitoria da UFSC, vai ser lançado o livro O novo conto catarina, antologia organizada pela professora Regina Carvalho para fechar as comemorações dos 25 anos da Editora da UFSC. Tive a honra de ter um conto meu selecionado junto aos de outros trinta autores. Os termos “novo” e “catarina” envaidecem este pernambucano quarentão que há 22 anos adotou Santa Catarina como amado porto seguro.

Muitos dos meus companheiros de antologia eu ainda não conheço, ou posso ter encontrado por aí, já que estamos numa ilha. Uns, conheço de nome ou de ler – Dennis Radünz, Maicon Tenfen, Aleph Ozuas. Com outros convivi em situações profissionais e sociais: Raquel Wandelli, Moacir Loth, Rubens Lunge, Marco Vasquez… O Marco é um contato recente: dia desses almoçou na minha casa e fizemos uma fogueirona no quintal pra assar tainha enquanto falávamos de literatura e da vida. Estar ao lado de tantos feras é um grande estímulo pra que eu me dedique mais à ficção. É um desejo muitas vezes colocado em segundo plano por causa das correrias do jornalismo. (p.s.: será? Anotação mental: escrever sobre isso).

Meu conto nesta coletânea se chama Pura sorte e foi publicado aqui no blog em julho de 2002. É inspirado num personagem real que viveu no interior do Ceará – com boas pitadas de invencionice pra temperar o enredo. A narrativa de aldeia aborda um tema universal sempre presente nas histórias sertanejas que eu ouvia na infância: a violência e seus agentes, com todas as contradições que carregam. O protagonista é um humano da pior espécie, pistoleiro de aluguel, mas tem uma “ética” profissional – que o impede, por exemplo, de matar as vítimas na presença de crianças. Se você encontrou semelhanças de forma com Dalton Trevisan e Eduardo Galeano, não é coincidência. Sou grande admirador da prosa sintética, despojada e forte dos dois escritores, e este conto foi um exercício de aprendiz.

Seus comentários são bem-vindos. E se estiver em Floripa nesta terça, venha tomar um vinho com a gente.

Contatos com a organizadora do livro, Regina Carvalho, podem ser feitos pelos telefones (48) 3225-9706 e 9976-7567 ou pelo e-mail regininha_carvalho@yahoo.com.br. Conheça também o blog dela, Coisas de Regininha. O número da Editora da UFSC é (48) 3721-9408.

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23

Jan

08

Meias vermelhas & histórias inteiras

Li de uma só tacada Meias vermelhas & histórias inteiras, de Marcos Donizetti. Em 73 páginas, o autor do blog Hedonismos demonstra – sem se exibir – que tem domínio sobre a narrativa curta, aquela em que o escritor precisa vencer por nocaute, como lembra o Inagaki na introdução, citando Cortázar. As histórias fluem como conversas ao som de música. Júlia, Lurdinha, Laura, Fernanda, Débora, Ana Lúcia… Lucas, Júlio, Rodolfo, Jorge, João, Álvaro. Os personagens podiam ser nossos vizinhos, namoradas, maridos. Podiam ser nós mesmos em nossas vidas banais ou extraordinárias, dependendo do ângulo em que se veja.

Doni conhece o ofício. Ele lida bem com a passagem do tempo e com a reversão de expectativas – às vezes só pra confirmar o que o leitor já intuía. As histórias são temperadas com humor discreto, fetiches e sexo gostoso, mas o mote mesmo é amor. Com suas possibilidades e impossibilidades, palpitações, euforias e, quando acaba, seus efeitos devastadores. Quem já deu ou levou pé na bunda, quem guarda recordações agridoces de paixões da infância e adolescência vai se identificar. O livro também é flecha certeira pros que descobriram a mulher ou o homem de suas vidas.

Gostei muito do primeiro e do último conto, Júlia e A estrela é morta, que a gente lê ouvindo na cabeça a linda música de Lennon. Débora, com as pausas do narrador pra encher o copo, tá redondinho e divertido. A menina aborda a paixão platônica de uma maneira inusitada; tem uns ecos de Allan Poe. Vingança quente, conto de cinco parágrafos, é muito engraçado; pras mulheres captarem a essência, precisam se imaginar homens. Beijos foi esculpido com memória e arte; é talvez o meu favorito. Umas poucas histórias eu achei dispensáveis, dão a impressão de terem saído da incubadora antes do tempo. Mas elas não prejudicam o todo.

Guarde o nome de Marcos Donizetti. Ele ainda vai mostrar belas surpresas em forma de letra impressa (enquanto isso, dá pra apreciar o estilo do cara no seu ótimo blog). Meias vermelhas & histórias inteiras pode ser comprado pela internet na Editora Os Viralata, de literatura independente. Custa 19,90 dinheiros, já incluído o frete do correio. Você pode conferir aqui outras opiniões sobre o livro. Tem também uma comunidade no Orkut.

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05

Sep

07

Você precisava ver como ela tremia

Bom demais acordar dando risada. Quem me ajudou nisso hoje foi o blog de Rafael Galvão e sua enciclopédica série As alegrias que o Google me dá. Ele comenta as frases que aparecem nas estatísticas de busca (cheguei via Inagaki, que escreve aqui sobre os caça pára-quedistas do Google). Uma pequena amostra:

simpatias para homem ser só seu
Arranje um homem feio, burro e pobre. Você deve ser do tipo que prefere comer um prato de bofe sozinha a dividir uma porção de caviar.

por que o brasileiro não reconhece suas qualidades
Porque passa tanto tempo sem ver as coitadas, sem ligar para elas, sem nem saber que existem, que quando as encontra por acaso na rua não sabe mais quem são.

sorte de hoje com o amor
A sua, minha filha? Nenhuma. Nenhuma, mesmo. Jogue no bicho que você ganha mais.

manual do suicídio
Juro que se tivesse um eu te dava. Te mandava por Sedex, até entregava pessoalmente. Porque se até para se matar você precisa de um manual, a coisa está realmente feia e você não tem mais jeito.

frases no preterito mais que perfeito
O pretérito mais que perfeito é um absurdo da língua portuguesa que deveria ser imediatamente extinto. Porque não existe um passado perfeito, muito menos um “mais que perfeito”: todos eles são imperfeitos, em todos mudaríamos alguma coisa, de todos nos arrependemos.

eu quero ver fotos de goiania
Por quê? Tanta coisa bonita por aí — Paris, Roma, Praga, Salvador ou Rio — e você quer ver fotos de Goiânia. Já sei: você é michê, né?

putaria com velho
A única putaria que se pode fazer com velho é tirar a roupa na frente dele e cantar: “A pipa do vovô não sobe mais…”

pensamentos pequenos
É.

você precisava ver como ela tremia
Pois é. É nisso que dá comer velhinhas com Mal de Parkinson.

omenagem amae
O melhor presente que você pode dar a sua mãe neste Dia das Mães é tão simples, meu filho: um diploma do Mobral. Ela vai chorar de emoção, você vai ver.

basicamente o que é o racismo brasileiro
Basicamente é o seguinte: branco sacaneando preto. E se você não percebe nem isso, você está basicamente com um sério problema.

como o capitalismo influencia na minha vida?
Para que eu explique isso, é preciso que antes você faça um depósito na minha conta.

posição sexual melhor para mulher gorda
No escuro.

mulheres reclamam penis pequeno
É uma medida extremamente válida de proteção feminina contra a canalhice masculina. É usada como último recurso. Se você a tratar bem, ela vai relevar essas miudezas. Mas não apronte com ela. Porque você dificilmente sobreviverá à crueldade de uma mulher magoada.

qual o tamanho do pinto de um japones
É maior que o seu. Ou seja: nem isso você vai ter como consolo. Conforme-se.

bater punheta cresce o penis?
Diz aí: se aumentasse você hoje seria um sujeito feliz e enooooorme, não é?

como é uma vagina fotos
Quando eu parar de rir, te explico.

A diversão de Rafael também rende contos hilários, como Branca de Neve, baseado nas palavras-chave historia branca de neve contada pelo anao.

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03

Aug

07

Túnel do tempo: 25 de agosto de 2006

Anotações para um conto erótico de ficção científica

A lenta resposta do corpo em relação à velocidade do pensamento é frustrante para muitas pessoas, em especial os escritores. Esse descompasso aumentou em meados do século 21, quando o ato de blogar já havia se tornado compulsão mundial e o pensamento ganhara o aditivo das hipervitaminas – sem que, no entanto, houvesse ganho substancial na qualidade das cousas pensadas.

Foi aí que um cientista, associando a biotecnologia ao princípio das redes neurais, inventou o revolucionário Think-Blog. O pequeno aparelho, conectado por um sistema wireless ao cérebro do indivíduo, possibilitava blogar de imediato o que passasse pela cachola. E ainda projetar textos e imagens em superfícies planas, côncavas ou convexas.

Palmira foi uma das primeiras a comprar o aparelho, ainda em fase beta – sem corretor ortográfico nem editor de desejos reprimidos. Mal imaginava ela o arranca-rabo que seu holoblog iria provocar com o marido Pandolfo, com o personal-trainer Ricardito e com a sogra, dona Matilde…

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08

Jan

07

Túnel do tempo: 6 de dezembro de 2002

Argumento de um conto
Inverno rigoroso, escala de vôo numa capital do Leste Europeu. O avião não pode decolar por causa da neve. A contragosto, os passageiros precisam esperar e são levados a um hotel, pago pela companhia aérea. O homem aproveita para lembrar da família, mulher e filho pequeno que estão em Montevidéu. No dia seguinte, vai ao aeroporto e tenta embarcar, mas a tempestade de neve continua forte. Retorna ao hotel. A noite transcorre parecida com a anterior: banho, jantar e cama. De manhã cedo ele tenta mais uma vez. Novo adiamento. A rotina se repete, como num limbo. Na manhã seguinte ele retorna ao aeroporto e finalmente o informam que seu vôo vai partir. No saguão, fica próximo de um casal de adolescentes de seus 17 anos e escuta a conversa deles. Aparentemente, conheceram-se na viagem e se sentem atraídos um pelo outro. Contam suas vidas. O rapaz diz que é uruguaio e comenta: “Neste mesmo aeroporto, há muitos anos, meu pai morreu de acidente aéreo durante uma tempestade de neve”. O homem olha bem para o rosto do rapaz e toma um susto: é seu próprio filho!

O autor do conto (que é bem melhor que meu resumo) é Mário Benedetti, grande poeta e dramaturgo uruguaio. Li há seis anos, durante uma longa viagem de ônibus à Patagônia, e fiquei bastante impressionado.

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08

Dec

05

Microconto

Cliquei na foto pra ver ampliada: furei o jornal.

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