29
Jun07
Partidas: NoMínimo
Cinco anos, 150 mil assinantes, 3 milhões de acessos. Com esses números e uma lista de colaboradores de alto naipe, a revista digital NoMínimo resistiu até hoje. Um editorial anuncia oficialmente o fim do projeto, pede desculpas pela falta de espírito empreendedor e agradece os leitores.
(…) Seus realizadores também sentem muito o triste fim desse espaço livre, democrático e criativo de trabalho, mas se despedem com a sensação de dever cumprido com o jornalismo e a camaradagem que nos une. Foi bom, foi muito bom enquanto durou. Quantos no país têm a oportunidade de tocar seus próprios projetos com prazer, independência e alegria? (…)
Vai fazer falta. Mas o prazer, independência e alegria vão germinar em outras paragens, espero.
26
Jun07
Uma campanha para os pouco avantajados
Da BBC Brasil/UOL: na Austrália, uma campanha publicitária está associando alta velocidade a pênis pequeno. A idéia surgiu da constatação de que a estratégia de mostrar desastres e feridos não estava surtindo muito efeito entre os motoristas jovens – acostumados à violência na mídia e em jogos de computador. Faz parte da campanha um anúncio na internet oferecendo camisinhas “extra extra pequenas” aos que se excedem na velocidade. A idéia é tornar o ato de pisar fundo no acelerador um comportamento socialmente inaceitável. Olha só a expressão de desdém da mulher da foto
23
Jun07
Partidas: Olívio Lamas, repórter fotográfico
Encontrei Hermínio no CIC e ele me deu a notícia triste: o Lamas morreu hoje de manhã em sua casa em Garopaba. Pessoa extraordinária e um dos melhores repórteres fotográficos que já conheci. Há meses lutava contra o câncer. Este texto do colega Celso Martins, publicado na revista Mural, de março de 2007, dá a dimensão da estatura do homem.
Convivi pouco com ele, sou de uma geração mais nova – ou menos velha. Mas há tempos já o conhecia de nome e fama. Repórter fotográfico de olhar sensível e atento, sempre pronto a aproveitar as oportunidades para registrar os dramas humanos, as injustiças, os ângulos inusitados dos fatos relevantes e cotidianos. Não por acaso juntou um monte de prêmios na trajetória profissional.
Uma vez, numa festa beneficente, comprei uma foto do Lamas. Um barquinho ancorado na água tranqüila da Lagoa de Ibiraquera – onde ele morava – sob uma luz maravilhosa. Minha intenção era emoldurar e botar na parede da sala, mas as constantes mudanças de casa adiaram o plano. A foto está guardada em alguma caixa, esperando o dia em que eu remexa os papéis e a reencontre. Sempre que eu avistar um barquinho com aquela luz, vou lembrar dele.
18
Jun07
Dinheiro público e monopólio da mídia impressa
Cesar Valente, em sua coluna De Olho na Capital de sexta-feira no Diário do Litoral, informa que, na edição de 15 de junho do Diário Oficial de SC, página 35, está publicado o ato de “inexegibilidade 001″, da Secretaria de Estado da Educação. As assinaturas dos jornais Diário Catarinense e A Notícia, do grupo RBS, são renovadas por dois milhões de reais (!) para distribuição nas escolas públicas. Não há informação sobre tempo de assinatura nem número de exemplares. Como o grupo RBS detém o virtual monopólio da mídia impressa em Santa Catarina, fica justificada assim a dispensa de licitação ou coleta de preços. Comenta Cesar:
Paga-se o que foi pedido e colabora-se para consolidar o monopólio, mostrando às pobres crianças catarinenses que não existem outras fontes de informação. Tudo feito com o nosso dinheiro, que só anda escasso para abastecer as viaturas policiais e para fazer os serviços do Estado funcionarem adequadamente.
Numa conta rápida, com esse valor poderiam ser comprados 80 mil livros de R$ 25 cada para distribuir nas escolas.
12
Jun07
Os comentários e a liberdade de expressão
Leio agora que o jornalista Paulo Alceu parou de publicar em seu saite a coluna Sem Cortes, existente há mais de dois anos, onde abria espaço para a livre manifestação dos leitores. Ele está sendo processado pelo deputado Djalma Berger (PSB) por causa de um comentário de leitor em novembro de 2006 – já retirado do ar por ordem judicial. O parlamentar quer calar o mensageiro: demanda que o jornalista lhe pague R$ 100 mil de indenização por danos morais.
Em setembro de 2004, Alexandre Inagaki já comentava sobre a ameaça à liberdade de expressão na internet. Citou o primeiro caso de um blog retirado do ar em processo judicial motivado por um comentário de leitor. Precedentes perigosos. Alceu vai usar o espaço da coluna para informar os leitores sobre o desdobramento da ação judicial.
Nem que fosse apenas por motivos pragmáticos, os políticos deviam optar pelo diálogo tolerante antes de reprimir quem pensa diferente – e quem abre espaço para o contraditório. Correm sempre o risco de despertar o fenômeno Xô Sarney, campanha que se multiplicou como uma febre pela internet brasileira depois que os advogados do senador maranhense tentaram tirar blogs do ar.
08
Jun07
Babel: globalização e não-comunicação
Ontem vi Babel, do mexicano Alejandro González-Iñárritu. O autor de Amores Perros e 21 Gramas mostra mais uma vez que a magia do cinema é eterna enquando houver boas histórias a serem contadas. Os temas deste filme são a globalização e a dificuldade de comunicação entre as pessoas. No Marrocos, um tiro acidental de rifle disparado por uma criança fere uma turista americana. As conseqüências se refletem nos Estados Unidos, onde vivem os dois filhos da mulher; no México, para onde as crianças acompanham a babá a uma festa de casamento; e no Japão, onde mora o dono original da arma e sua filha surda. No elenco, Brad Pitt faz um papel contido, na medida certa de seu personagem, um homem torturado por um drama do passado, que tenta se reconciliar com sua mulher – interpretada pela fera Cate Blanchett. A ponta mexicana tem como astro Gael Garcia Bernal, em papel secundário mas essencial à trama. Curioso: este filme ganhou o Oscar pela trilha sonora, mas ela foi o que menos me chamou a atenção.
Babel faz ressonâncias em minha vida pessoal que não consigo expressar com clareza. Passa pela coisa de ser nordestino migrante em terras sulistas; de ter o idioma como referência afetiva e profissional, ao mesmo tempo profundamente meu e inatingível; de precisar lidar de maneiras diversas, conscientes e inconscientes, com a minha Babel interna a transformar meu sotaque em algo que não é mais de lugar nenhum e é ao mesmo tempo de vários; e de ter bons amigos que vivem em outras culturas e línguas – a sensação de que, por um lado, nunca vamos nos compreender por completo (e alguém consegue em relação a outro ser humano?), mas por outro é possível transcender os códigos e chegar ao entendimento essencial, em que as palavras são dispensáveis (algumas cenas mostram isso com beleza e elegância). Há também uns trechos de não-comunicação e humilhação com os quais o viajante, sobretudo de país periférico, se identifica de imediato. Por exemplo, o incidente na fronteira entre México e Estados Unidos. É um filme pra rever, pois tem muitos subtextos. O melhor do ano até agora.
29
May07
Breathing Earth
Cheguei a este saite impressionante via delicious por uma dica do Nando. Breathing Earth mostra num mapa-múndi, em tempo real, quantas pessoas nasceram, quantas morreram e quantas toneladas de CO2 foram liberadas na atmosfera desde que você acessou a página. No Brasil uma pessoa morre a cada 27 segundos e meio e uma nasce a cada 10,2 segundos. O mapa mostra também quais são os países que mais liberam CO2.
~
Ah, Nando dá o toque: agora o blog dele é só http://dharmalog.com . Não vai ter mais o /aloha
23
May07
Handbook for Bloggers and Cyber-Dissidents
Li no Coluna Extra que a tradutora Dora Garrido, do blog Crônicas Atípicas, está trabalhando na versão para português do Handbook for Bloggers and Cyber-Dissents, lançado em 2005 pela organização Repórteres Sem Fronteiras. Iniciativa muitíssimo bem-vinda, Dora!
14
May07
Mude
Em fevereiro de 2003, republiquei neste blog um poema chamado Mude, que recebi por e-mail com a informação atribuindo autoria a Clarice Lispector. Nunca é tarde pra corrigir um erro. O autor é Edson Marques, que o registrou na Biblioteca Nacional e está travando uma batalha judicial para ter seu direito reconhecido. A confusão começou quando a agência publicitária Leo Burnett fez um comercial em 2001 comemorando os 25 anos da Fiat no Brasil e apresentou o poema. O release à imprensa dava crédito a Clarice. Foi reproduzido em jornais e os versos caíram no gosto do povo através da internet. O caso foi parar na Justiça e envolve os herdeiros de Clarice, de quem a agência alega ter comprado os direitos de uso. Edson Marques chegou a publicar anúncio oferecendo 10 mil dólares a quem provasse que o poema era de Clarice. Ele criou um blog sobre a polêmica, Desafiat, em que explica toda a história em detalhes. Quanto a mim, contrito por ter involuntariamente ajudado a ampliar a marola do equívoco, peço desculpas ao autor, agradeço pelos versos inspiradores – já deletei do blog – e saio desta polêmica para sempre.
03
May07
Operação Moeda Verde
Nesta quinta chuvosa, vem da Polícia Federal uma notícia pra lavar a alma de quem ama a Ilha de Santa Catarina e lamenta os crimes cotidianos contra a natureza. Desde a madrugada estão sendo presos políticos, empresários e funcionários públicos acusados de negociar licenças ambientais em Florianópolis. A lista de acusados presos chega a 22 pessoas, todas inocentes até julgamento em contrário. Mas ao que parece os nove meses de investigação deram bons fundamentos à decisão do juiz, que quer evitar a destruição de provas.
Com todo o meu ceticismo quanto à justiça dos homens, acho que é um grande avanço, mesmo que eles fiquem uns poucos dias no xilindró. O enriquecimento fraudulento às custas da degradação ambiental vem ocorrendo há anos com a complacência da mídia e dos governos. No mínimo a operação Moeda Verde vai ter efeito inibidor de outras canalhices. Leia aqui a íntegra da nota da PF e a lista com os nomes dos presos.
~
É sintomático que nos anos recentes a atuação da Polícia Federal tenha se voltado pros tubarões. Ao que parece, o governo Lula deixa investigar.








