Posts com a categoria ‘sociedade’

21

Jul

08

De futebol e modos de falar

Quem não conhece a região Nordeste muitas vezes pensa que o sotaque daqui é uniforme (algumas imitações em novelas são até constrangedoras de tão caricatas). É engano tão grande quanto achar que os catarinenses do litoral falam como os da serra, do oeste ou como os gaúchos de Porto Alegre. Muda a entonação, mudam as palavras e o ritmo. Meu irmão André cita um exemplo de futebol:
Atrito em campo numa pelada no CE: – Fi duma égua, baitola!
Numa pelada no RN: – Vou te rear, seu galado, fi de rapariga!

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13

Jul

08

Palavra Cantada encerra mostra de cinema

E hoje chega ao fim a 7a. Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis. Foram 17 dias intensos, 106 filmes exibidos para 25 mil crianças, pré-estréias nacionais, debates instigantes, muita pipoca e emoção. Fiz a assessoria de comunicação junto com as amigas e colegas Kátia Klock, Adriane Canan e Cleide de Oliveira, com apoio do Vinicius Muniz no making of. Foi cansativo, mas um privilégio e um grande aprendizado. Tivemos ampla cobertura da mídia e foi nítido o salto de qualidade da Mostra, que acompanho há alguns anos como pai-espectador. É uma alegria imensa ver que o trabalho da Luiza Lins, mãe do evento, ganhou dimensão tão importante pra cultura local e nacional. A onda de beleza gerada em Floripa vai chegar até a Suécia, que em março de 2009 recebe, no Festival de Financiamento de Malmö, um projeto de filme brasileiro selecionado aqui.

Vou guardar muitas lembranças boas desses dias. Do Centro Integrado de Cultura ao Hotel Majestic, de Palhoça aos bairros de periferia, a Mostra irradiou magia pra muitos meninos e meninas que tiveram o primeiro contato com o cinema. Vi lágrimas no rosto de professoras e a alegria com que o pessoal da produção trabalhou pra que o evento tivesse a melhor qualidade possível. Acompanhei a pintura da tela gigante “Eu no mundo” pelas crianças da comunidade Chico Mendes, na oficina Palavra Pintada. A maneira bonita como elas foram desarmando suas couraças em meio a atividades de massagem, dança e canto. O sorriso orgulhoso da meninada que fez a oficina de dublagem ao ver exibido o seu trabalho pro público. O insight dos participantes da oficina de flipbook ao se darem conta, nos bloquinhos de papel, de como funciona a ilusão de ótica do cinema. É um evento em que os sonhos e esperanças ganham posição de destaque. Uma delas, a de que as crianças brasileiras possam ver cada vez mais sua própria cultura nas telas de cinema e tevê. “É uma questão de segurança nacional”, disse alguém num dos debates. A gente chega lá.

Três momentos especialmente marcantes pra mim: o comentário da querida amiga Gilka Girardello, professora da UFSC, de que só vamos perceber todo o alcance da Mostra daqui a vinte anos, quando essa platéia de crianças e adolescentes estiver adulta, produzindo e criando; Alemberg Quindins, da Fundação Casa Grande, com seu sotaque cearense que me é tão familiar, lembrando que a infância é um estado de espírito e que ele, aos 42 anos, tem um quarto de brinquedos e almoça e janta pra esperar a sobremesa; e os olhos azuis brilhantes da Heleninha Gassen, atriz do curta Leste do Sol, Oeste da Lua (de Patrícia Monegatto Lopes), ao me contar que tem vontade de trabalhar em cinema ou televisão quando crescer. Foram dias bem felizes e encantados. A Mostra encerra hoje com o anúncio do melhor filme escolhido por júri infantil e com duas apresentações do novo espetáculo do grupo Palavra Cantada, com nome bem adequado a esta celebração da diversidade cultural: Carnaval.

Fotos: Cleide de Oliveira

p.s.: O filme vencedor da Mostra foi O mistério do cachorrinho perdido, do diretor paulista Flávio Colombini.

p.s.2: Galeria de fotos do show do Palavra Cantada (por Cleide de Oliveira).

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11

Jul

08

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11

Jul

08

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10

Jul

08

De fatos, bastidores e velhas novidades

Muito boa a matéria de Bob Fernandes na Terra Magazine sobre a guerra de espionagem interna que a PF viveu pra prender Daniel Dantas. Nessa história toda, aliás, os subterrâneos devem ser mais espetaculares que a ponta do iceberg que se vê nas notícias. A libertação do banqueiro ontem à noite por habeas corpus só surpreende quem ainda não se deu conta de que, no Brasil, cadeia não é lugar pra rico. Lembrei do velhinho humilde do interior de Mato Grosso do Sul que vi numa reportagem na tevê dia desses, preso numa cela com assaltantes e homicidas porque foi condenado por transportar vacas perto de uma estrada. De qualquer forma, não dá pra ignorar que o fato de tantos figurões da elite financeira passarem ao menos uma noite na prisão é sinal de que as coisas estão mudando. Mesmo que a passo de lesma em nossa escala cotidiana. A História é que vai dizer o real alcance desses acontecimentos. Como já lembrou Eric Hobsbawm, “historiadores são como todas as outras pessoas, são os mais perceptivos depois que as coisas acontecem”.

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08

Jul

08

O Grande Irmão e a internet brasileira

Este texto do Marcos Donizetti (Hedonismos), explica como um projeto de lei do senador Eduardo Azeredo representa ameaça de censura à internet no Brasil e o que podemos fazer pra pressionar os senadores a barrar a proposta. Também dá link pra vários textos sobre o assunto em outros blogs.

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13

Jun

08

Ambulantes no trem

André de Abreu, no Intermezzo, comenta sobre a reportagem multimídia Ambulantes no trem, um trabalho de conclusão de curso de alunos de graduação da faculdade Anhembi-Morumbi, orientado por Fábio Cardoso. Narrativas hipertextuais como esta são um exemplo do que pode se tornar o jornalismo daqui a alguns anos. Dá pra ser profundo e criativo sem ser chato. Construída em flash, a reportagem usa a metáfora do próprio trem como estrutura de navegação. Vídeos apoiados por textos curtos mostram o cotidiano dos “marrereiros”, o conflito com os seguranças de empresas privadas que apreendem suas mercadorias e às vezes os agridem, as expectativas desses vendedores, as opiniões dos usuários do transporte. Há também um mapa clicável da rede ferroviária de São Paulo com informações sobre as principais estações.

Naveguei pela reportagem de maneira não-linear e transversal, como acho que a maioria do público fará. Também dá pra seguir o caminho convencional. Parece que esta é uma forte tendência nesse tipo de narrativa: traçar a rota de começo, meio e fim – o que gera segurança – e ao mesmo tempo permitir que o navegante mais destemido ou impaciente crie seus próprios. Os pequenos problemas, pelo que conta André, estão sendo corrigidos: faltam os créditos e há excesso de pop-ups: quando naveguei na parte dos usuários do trem, o vídeo travou algumas vezes. Nada que ofusque a alta qualidade do trabalho de pesquisa e de execução prática da idéia. Parabéns aos autores e ao orientador.

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29

May

08

Encontro Anual dos Donos do Mundo

Tirinha dos Malvados, de André Dahmer. Clique pra ver ampliada.
[via Nonlinear]

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20

May

08

Estado está ausente em região que desmata

Um dos grandes nós do desmatamento da Amazônia é abordado nesta ótima reportagem de Yan Boechat que saiu ontem e hoje no Valor Econômico: a ausência do Estado. Ele esteve em Rondônia e entrevistou diversos atores sociais da atividade madeireira, entre eles as famílias de colonos que prosseguem com a derrubada ilegal da floresta por falta de opções.

Em Rondônia, um terço da cobertura de florestas já desapareceu. Em 1983, pouco depois de ser transformada de território em estado, a área desmatada era de 5,7%. Em 2004, já eram 31,2%, contando apenas as indústrias de transformação de madeira. Rondônia é o estado amazônico que desmatou em maior velocidade e intensidade. Com a bênção do Estado, que nos anos setenta estimulou a derrubada como parte da política de ocupação da região.

Pra quem está num grande centro urbano (às vezes sentado num sofá de mogno sob um telhado de angelim-pedra), não é fácil compreender a complexidade do tema. Há a tendência de rotular de vilão todos os que derrubam árvores e exigir soluções à la Capitão Nascimento. Uma questão levantada durante reunião de representantes do governo com os agricultores sintetiza o dilema:

No turbilhão de comentários desencontrados, Delano pediu a palavra e fez uma pergunta quase inocente, quase sarcástica: ‘O doutor pode explicar como vamos viver da terra com as árvores em pé?’. Não teve resposta.”

Enquanto o Estado não conseguir dar reposta adequada a isso, a derrubada continua, e não adianta chegar de metralhadora naquelas operações espalhafatosas que a mídia tanto gosta de mostrar. Em recente entrevista à BBC (reproduzo aqui citação do boletim eletrônico Alerta Científico e Ambiental), o ministro Mangabeira Unger foi questionado sobre o que o desenvolvimento sustentável realmente significa e do que necessita. A resposta dele vai ao encontro dos anseios identificados na reportagem do Valor. Mas do diagnóstico à solução dos problemas – entre os quais a complicadíssima questão fundiária – há uma distância amazônica:

Há três pré-condições fundamentais. A primeira é a questão da propriedade da terra. Temos que esclarecer a titulação e a posse da terra. O segundo pré-requisito é que se faça um zoneamento ecológico e econômico da Amazônia, que possa definir uma estratégia para a Amazônia sem floresta, não só a que foi desflorestada, mas também aquela parte que nunca teve floresta, e outra para a Amazônia com floresta. A terceira pré-condição é a construção de um regime regulatório e fiscal que garanta que a floresta em pé valha mais do que a floresta cortada. Uma vez que essas pré-condições estejam satisfeitas, podemos tocar os quatro principais pontos de trabalho que nos foram dados para dar um conteúdo prático à idéia de desenvolvimento sustentável. (…)

Ele prossegue falando dos quatro pontos: a tecnologia apropriada para a floresta tropical; a organização de serviços ambientais avançados na Amazônia; o regime de propriedade sob o qual a floresta será gerida, e o desenvolvimento da ligação entre a floresta e as indústrias. Como o próprio ministro reconhece, é mais fácil falar do que fazer.

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25

Apr

08

2008, o ano em que 1977 terminou

Abro espaço pra um post de convidado especial: o amigo João Vianney, diretor do Campus Unisul Virtual, escreve sobre a recente ocupação da Reitoria da UnB pelos estudantes e sobre o seu tempo de estudante naquela universidade, quando participou de uma greve em 1977. Belo texto.

2008, o ano em que 1977 terminou

Como explicar a ampla difusão e como entender as razões do movimento de estudantes que ocuparam a reitoria da Universidade de Brasília no outono de 2008, e que tinha como principal reivindicação a renúncia do reitor Timothy Mulholland? O alvo do protesto dos alunos eram desvios de finalidade na aplicação de recursos da instituição e da fundação de empreendimentos científicos e tecnológicos da universidade, originalmente destinados à pesquisa científica, e que foram aplicados, por exemplo, na compra de objetos de decoração de luxo utilizados na reforma do apartamento utilizado para moradia do reitor. Após acompanhar a primeira semana da ocupação pela mídia fui até o prédio ocupado. Queria conhecer aqueles estudantes, tentar identificar as razões deles e checar o motivo do fascínio que provocavam na imprensa.

A rampa de acesso ao primeiro piso da reitoria da Universidade de Brasília estava interditada. O bloqueio dos alunos à entrada da reitoria estava demarcado por uma placa que, como passaporte para ingressar nos pisos superiores, solicitava: “apresente a carteirinha de estudante”. Em respeito à advertência parei junto às duas estudantes que ali faziam a sentinela, e perguntei se eu informasse apenas o número da minha matrícula de aluno da UnB do ano de 1976, valia. Expliquei que eu não portava a minha carteirinha de estudante, emitida 32 anos antes. Elas não entenderam de imediato o meu questionamento, e eu logo percebi que elas tinham mesmo os seus motivos. (…)

Leia o artigo completo aqui

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