25
Apr08
Uma tentativa de entender as motivações da turba
(…) Regra sem exceções conhecidas: a vontade exasperada de afirmar sua diferença é própria de quem se sente ameaçado pela similaridade do outro. (…)
Contardo Calligaris em A turba do “pega e lincha”, ontem na Folha de S. Paulo (acesso restrito a assinantes).
[via Enquanto seu blog não vem]
22
Apr08
Internet, games e crianças
Rogério Christofoletti (Monitorando) indica um artigo recente que lhe parece bastante relevante. Ainda não teve tempo de ler – nem eu, mas já tá salvo no HD. Meu interesse não é acadêmico, é prático mesmo.
The impact of the media on children and young people with a particular focus on computer games and the internet. Estudo liderado pelo renomado David Buckingham, do Instituto de Educação da University of London. Foi concluído em dezembro do ano passado e só agora está liberado na web. Em inglês, formato PDF e com 77 páginas.
O tema é complexo e costuma ser abordado de maneira superficial, às vezes alarmista. Muitos pais não sabem muito bem como lidar com as demandas dos filhos e, com base no senso comum, tendem a adotar atitudes radicais, ou de excessivo rigor ou de total ausência de limites. Selecionei e comentei rapidamente três pontos interessantes do resumo (destaques meus).
4. Recent developments in media technology, and in the nature of family life, have made it harder to prevent children being exposed to potential risks from media. However, some researchers argue that exposure to risk is a necessary part of healthy development; and that it will be impossible for children to learn about risks unless they experience them. Even so, it is important that risks are encountered in an informed way; and there is a crucial role for parents and schools here in helping children to deal with risk – both ‘spectacular’ but infrequent risks and more ‘mundane’ and pervasive ones.
O papel de mediação dos pais e da escola é fundamental.
5. The negative effects of media may be impossible to separate from their positive effects. Potential positive effects relate to learning and education, as well as processes such as social interaction, identity formation and cultural experience. Apparently ‘inappropriate’ content may also provide valuable opportunities for learning. In seeking to prevent negative effects, it is important to ensure that we do not also undermine or preclude the potential for positive effects.
O “caminho do meio” é valioso. Não dá pra isolar as crianças em redomas. Protegê-las, sim, mas com bom senso.
14. However, media literacy should not be seen merely as an alternative to media regulation, but as part of a broader strategy involving government, parents, teachers and the media themselves. Ofcom’s definition of media literacy as ‘the ability to access, understand and create communications’ suggests that it is more than simply a matter of technical ‘know-how’, but that it also involves the critical analysis and the creative production of media. As such, it should be regarded as a crucial means of enabling children to make the most of the positive opportunities that the media can provide.
Ao apropriar-se da mídia – não só consumir, também reelaborar e produzir -, a criança desenvolve o espírito crítico. É uma vacina com grande poder protetor em diversos campos da vida.
20
Apr08
Os paparazzi do espaço
Você gosta de pegar sol bem à vontade no quintal de casa? Alguém lá do alto pode estar bisbilhotando sua intimidade. Fotos captadas por satélite e exibidas pelo Google Earth mostram tudo, embora sem detalhes tão nítidos quanto o das revistas com fofocas de celebridades. Em Haia, na Holanda, onde o hábito de se bronzear em pêlo é bem difundido, fizeram até um ranking das dez melhores cenas. Esta imagem, também da Holanda, mostra duas pessoas nuas deitadas bem juntinhas num terraço. Ao que parece estão se divertindo bastante.
Matéria da Folha de SP diz que, segundo especialistas, o Google viola a privacidade das pessoas ao exibir esses flagras. Pode-se até entrar com ação na justiça exigindo a retirada das imagens. Ou pedir indenização por danos morais, com valores que ficariam entre R$ 70 mil e R$ 100 mil. Agora peço licença, vou ali no quintal ficar peladão e posar pros satélites (brincadeira; tá friozim e chove há horas aqui na Ilha
)
p.s.: Curiosidade etimológica: a palavra paparazzo teve origem em 1960 com filme La Dolce Vita, de Federico Fellini (adoro). Um dos personagens, fotojornalista de celebridades, tinha esse nome. Consta que o termo quer dizer mosquito em um dialeto italiano. O diretor batizou o fotógrafo ao lembrar que, na infância, tinha um colega com esse apelido porque falava demais e se movia o tempo todo.
p.s. 2: Wim Wenders fez um filme interessante e perturbador – não lembro o nome agora, alguém ajuda? – que conta a história de uma arma terrível: um satélite que monitora as pessoas e pode matá-las disparando um tiro ou raio lá do espaço.
p.s.3: E por falar em Google Earth – um dos meus softwares favoritos -, saiu há poucos dias a versão 4.3. Agora, a exemplo do que já ocorria no Google Maps, dá pra ver imagens de vários centros urbanos no nível das ruas. O menu de navegação foi remodelado e eles adicionaram um recurso bem interessante que permite ver a iluminação do sol sobre o planeta em diferentes horários do dia.
18
Apr08
Blogagem coletiva contra o analfabetismo no Brasil
Leio agora na Georgia, do Saia Justa, que amanhã tem blogagem coletiva contra o analfabetismo no Brasil. Como é bem provável que eu dedique o sábado ao ócio offline, aproveito pra dar meu recado hoje. É o complemento de um texto que escrevi no dia 6 de janeiro.
Analfabeto não é apenas aquele que não sabe juntar A mais B nem assinar o nome. É também quem lê e não entende. É quem sabe juntar letras, palavras e frases, mas nunca pega um livro nas mãos, ou por falta de hábito, ou porque não sabe o que está perdendo, ou por dificuldade de acesso. Aí se inclui o alto custo dos livros, mas nem tanto. Faltam bibliotecas.
Um bonito trabalho vem sendo feito em Rondônia com a Biblioteca Leia o Mundo, projeto social na comunidade carente de bairro Bom Jardim, em Rolim de Moura. Tive a alegria de conhecer crianças que tiveram o primeiro contato com o fascínio das letras naquele espaço humilde, mantido pelo esforço e idealismo de um pequeno grupo de cidadãos na verdadeira acepção da palavra.
Na sua casa tem algum livro ou revista pra passar adiante? Pode ser leitura pra adulto, adolescente ou criança. Que tal dar uma força nesse projeto? É muito pouco pra quem dá e tem valor enorme pra quem recebe. Você pode colaborar enviando doações de livros e revistas pra
Biblioteca Leia o Mundo (a/c Valdete ou Ivone)
Rua das Violetas, 6744, Bom Jardim, Rolim de Moura-RO
CEP 78987-000
17
Apr08
Clube do Nadismo
Manifesto do Clube do Nadismo, criado em Londres pelo designer Marboh [dica da Helenan via Twitter].
Eu quero fazer nada.Quero que haja tempo para não ter nada para fazer.
Quero desfrutar destes momentos tranquilamente, sem pressa.
Quero compartilhar isso com os amigos.Eu quero acabar com a pressão sufocante de estar sempre correndo atrás de um objetivo, de ter que estar o tempo todo fazendo algo que seja produtivo, útil, eficiente, rápido, dentro do prazo.
Quero minimizar a terrível sensação de que, por mais que se corra, nunca dá tempo para fazer tudo e nunca sobra tempo que não seja seriamente planejado, pois ficar sem fazer nada dá a impressão que se está perdendo tempo e isso nos faz sentir culpados. Quero eliminar a pressa que faz a vida passar cada vez mais rápido.
(…)
Dou todo o apoio, mas não me chamem pra nada. Coerência zen-redista.
05
Apr08
Acolhida na Colônia
A catarinense Thaise Guzzatti, criadora da Associação Acolhida na Colônia, que promove o ecoturismo rural, é tema de reportagem da Época Negócios. Fiquei contente de ver o reconhecimento à autora desse projeto tão bacana que tive a oportunidade de conhecer (o projeto) quando visitamos o Sítio Passárgada em Anitápolis, a 100 km de Floripa. Em outubro de 2007, Thaise foi apontada pela revista World Business, da escola de negócios Insead, como “uma das 35 mulheres com menos de 35 anos com algo especial para oferecer ao planeta”. É a única brasileira da lista.
18
Mar08
Férias para amar
O poeta e escritor finlandês Tommy Tabermann, eleito em 2007 para o parlamento do seu país, apresentou na semana passada um projeto inusitado: dar “férias de amor” de sete dias remunerados por ano, para prevenir a desintegração dos relacionamentos. A idéia é que nessa semana livre os casais possam se dedicar um ao outro, “tanto no nível erótico como no emocional”, para que “encontrem seu caminho no rumo do amor”. A proposta foi encaminhada para avaliação do Comitê de Emprego e Eqüidade do parlamento.
Li no Helsingin Sanomat, que é citado pelo Boing Boing. Comentário de Aaron Hotfelder em Gadling:
Leave it to a poet to come up with an idea like this. Doesn’t he know that spending seven days in a row together will probably destroy more relationships than it repairs?
09
Mar08
Plantão da madrugada
A cena acaba de acontecer: um carro branco pára no meio da rua, bem em frente à nossa casa, e as duas portas se abrem. Gritaria. A mulher, no volante, desce chorando. O homem, vinte e poucos anos, de boné, sem camisa, bêbado e com uma latinha de cerveja na mão, a ameaça. Ela se recusa a entrar no carro: “Você vai me bater!” Acendo a luz da varanda, vou até o portão e peço pra fazerem silêncio. Ele aponta o dedo pra mim e diz: “Não te mete! Vem aqui pra fora, vem!”
Acho graça do convite e numa fração de segundo pondero as opções. Não dá pra deixar a mulher apanhar. Conversa amistosa ou chá com torradas estão fora de questão. Ele é mais forte, mas é do meu tamanho e tá mamado, não é difícil de botar no chão. Também podia soltar a cachorra, que tá doida pra avançar no imbecil, mas aí a coisa pode sair do controle. Talvez o cara esteja armado. Ele sabe onde eu moro, eu não sei onde ele mora. Sou da paz, tenho fi pra criar e uma preguiiça danada de me incomodar com bobalhão… Como demora uma fração de segundo.
Faço meia volta e entro em casa, contente de não ter cedido a meu lado Hulk. Mas nem chego a discar pra polícia. Ela entra no carro e dá a partida. Ele, talvez percebendo a merda que fez, também entra e seguem o caminho. Posso só especular o antes e o depois. Imagino o início da noite deles: convite pra jantar fora, comemoram o dia internacional da mulher, rosa vermelha, cena de ciúme. Se a moça for esperta e corajosa, vai lhe dar um pé na bunda rapidinho. Se não, vai apanhar – talvez mais de uma vez – e deixar por isso mesmo, o que seria triste. Êta mundo doido…
O silêncio volta a reinar no bairro das corujas.
28
Feb08
24
Jan08
Álcool nas estradas
Rogério Christofoletti faz um comentário lúcido sobre a decisão do governo de proibir o consumo de bebidas alcoólicas nas rodovias federais brasileiras.
Tenho visto e ouvido muita besteira nos últimos dias sobre a medida do governo que proíbe o comércio de bebidas em estradas federais. Tem chiadeira dos comerciantes, lei da mordaça entre os patrulheiros e algumas manifestações de motoristas. …O governo está certo? Está. E a medida demorou. Deveria ter sido implementada antes, bem antes. O governo tardou em atuar. E agora, faz apenas o necessário, nada mais que isso. …
A proibição da venda de bebidas em estradas federais não é populista, nem moralista. As mortes no trânsito são questões de saúde pública. As estatísticas são suficientemente claras e trágicas. …
Concordo 100%. Não se trata aqui de uma lei que restrinja o direito individual de colocar a própria vida em risco, como pular de body-jumping ou tomar uma garrafa de uísque todas as noites na varanda de casa. É uma questão de saúde pública em que os infratores colocam em risco direto a vida de outras pessoas.
Não é preciso ser especialista em trânsito – basta ser brasileiro de estatura mediana – pra perceber um detalhe fundamental: só a lei, sem uma campanha forte de educação, periga não pegar. Uma campanha assim precisa ser sistemática (de longo prazo), de abrangência nacional (não só nas estradas federais, como bem coloca o Rogério) e com linguagens diferenciadas pra diversos públicos – motoristas, comerciantes, crianças e adolescentes.
As abordagens também precisam ser diferenciadas e complementares. Meu palpite é que informação sobre os riscos e sobre as punições aos infratores – ou mesmo a estratégia do choque, como outdoors mostrando carros esmagados – tem efeito limitado se não vier acompanhada de mensagens que incentivem comportamentos positivos. Por exemplo, o orgulho de contribuir para a fama do brasileiro como bom motorista (tou delirando?).
Tudo isso só caminha com a vontade política de todas as esferas de governo, o apoio maciço da mídia e o comprometimento coletivo. Mas o tamanho do desafio não deve desanimar. Um passo de cada vez. Espero que as estatísticas pós-carnaval possam indicar um avanço.
p.s.: Botelho, no comentário, toca num ponto fundamental: pra que a lei pegue, é preciso ter como fiscalizá-la. O efetivo da Polícia Rodoviária Federal no país é ridículo.








