31
Mar08
Do dicionovário do Millôr
BARCILO: Bactéria encontrada no bar.
CÔNEGRO: Eclesiástico de cor.
INAUGORAÇÃO: Estréia que não houve.
VILTóRIA: Vencer uma luta mesquinha.
SERVANTE: Servente com mania de ler o Dom Quixote.
CEDOÇÃO: Atrair sensualmente às primeiras horas do dia.
BOICEJO: Demonstração de tédio por parte do marido de dona vaca.
CENSOALIDADE: Estatística da volúpia.
27
Mar08
Tem pago ou tem pagado?
Dad Squarisi esclarece:
Afinal, é pago ou pagado? A questão é mais velha que Matusalém. Mas, volta e meia, ressurge. A razão: o verbo pagar joga no time dos generosos. Tem dois particípios. Um regular: pagado. Outro irregular: pago.
Quando usar um ou outro? Depende do auxiliar. Ter e haver exigem o particípio regular (tinha ou havia pagado). Ser e estar, o irregular (foi ou estava pago). Simples, não? Por que, então, a trapalhada? Acontece que pagar é pra lá de permissivo. Ele joga em dois times. Aceita a regra. Mas aceita também a forma pago com todos os auxiliares (foi pago, está pago, tem pago, havia pago).
Resumo da ópera: com o particípio de pagar, só há uma saída. É acertar.
24
Mar08
No dicionário: letra G
Grifo – um termo das artes gráficas que quer dizer itálico – tem uma palavra homônima que mexe com a fantasia:
â– substantivo masculino
1 Rubrica: mitologia.
animal fabuloso, com cabeça, bico e asas de águia e corpo de leão [Possui dupla natureza: divina, representada pelo espaço aéreo, próprio da águia, e terrestre, representada pelo leão. Tais animais simbolizam, ainda, respectivamente, a sabedoria e a força.]Houaiss
Às vezes penso nisso quando leio “grifo do autor”.
24
Mar08
Talvez o problema seja o tamanho
Sobre o artigo de Palácios, com a palavra Regininha.
Talvez o problema seja o tamanho…
O microconto ou o miniconto são legíveis, num monitor, mas textos longos cansam demais. O poema, por sua própria estrutura gráfica, por permitir recursos os mais variados,parece mais daptável. Além disso, é cada vez mais difícil publicar livros de poesia, pois não têm saída…A web tornou isso possível e fácil.
(não acho que isso esgote o assunto, mas é para se ir pensando… me interessa diretamente, já se sabe!)
24
Mar08
24
Mar08
Jornalismo e literatura na internet
Interessante esse artigo do professor Marcos Palácios na revista Texto Digital, do Nupill – Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística da UFSC. Ele tenta responder uma questão instigante pra quem flerta – ou tem um caso antigo – com jornalismo, literatura e o meio digital:
Como explicar o sucesso do webjornalismo, que se alastra pela Internet e multiplica modelos de disponibilização de notícias com utilização cada vez mais ampla das características específicas do suporte telemático (hipertextualidade, interatividade, multimidialidade, personalização, memória, atualização contínua), enquanto o texto ficcional em prosa parece estar em estagnação ou latência, não tendo ainda encontrado formas expressivas condizentes com seu desenvolvimento mais pleno no novo ambiente de produção possibilitado pelas redes telemáticas? Contrariamente à poesia, que se tem ambientado bastante bem na Internet, a hiperficção ainda não se enraizou no novo suporte. Por quê?
28
Feb08
Os mortos na sala de jantar
Recebi hoje pelo correio e sorvi de uma tacada só Os mortos na sala de jantar, do amigo Ademir Demarchi (Realejo Edições, Santos, SP, 2007). Seu livro de poemas ficou mais de vinte anos na gaveta-tumba, até que, no ano passado, foi premiado pra publicação pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Ademir passeia por vários formatos de escrita em torno do tema da nossa finitude. Seus textos, longe de oferecer conforto, fazem refletir sobre as idéias prontas que se tem sobre bater as botas.
O poeta se vale de referências irônicas e ácidas sobre história, política, literatura e comportamento pra criticar as fantasias que escravizam as pessoas: “Combato essa sociedade que vende felicidade, vida eterna e morte assépticas conquistadas sobre muita miséria”, diz. “Por isso a poesia que faço tem a pretensão, já de saída conscientemente falimentar, de ser eminentemente crítica. … Combato também as idealizações platônicas que em geral envernizam as mentes de quem se mete com literatura, acreditando em fantasias como A Obra, O Autor, O Livro, O Poema etc.”.
No prefácio, o crítico Raul Antelo assinala que Os mortos na sala de jantar se une a uma rica tradição que inclui artistas como Rubens, Rembrandt, Delacroix, Baudelaire, Marcel Duchamp, André Breton, Drummond e tantos outros. Ele cita o crítico de arte Georges Duhuit, para quem “o cadáver arrasta consigo a evolução dos estilos, serve às experiências perspectivas, aos ajustes de tonalidades, posa para efeitos de claro-escuro, é testemunha da diferença, do sério e até mesmo da majestade de uma personagem notável, instalado, porém, no espaço da função teatral, mero reflexo esverdeado em meio aos bajuladores de um lugar deslumbrante, por onde o homem comum já não pode mais passar”.
Alguns poemas:
Da felicidade e da infelicidadelá vai o viúvo
sorri sua mulher
morreu sua amante
~Epitáfios
epitáfios são epígrafes
de histórias que continuam túmulo adentro
~Leviatan
evita levita
~Amazônia
(in memoriam)descansa em paz
no chão e nos móveis da sala
~Aviso
caminha com cuidado
pisa sobre teus
antepassados
O autor:
ademirdemarchi [arroba ] uol ponto com ponto br
A editora:
Realejo Edições / José Luiz Tahan
(13) 3289-4935
realejolivros [arroba] terra ponto com ponto br
23
Jan08
Meias vermelhas & histórias inteiras
Li de uma só tacada Meias vermelhas & histórias inteiras, de Marcos Donizetti. Em 73 páginas, o autor do blog Hedonismos demonstra – sem se exibir – que tem domínio sobre a narrativa curta, aquela em que o escritor precisa vencer por nocaute, como lembra o Inagaki na introdução, citando Cortázar. As histórias fluem como conversas ao som de música. Júlia, Lurdinha, Laura, Fernanda, Débora, Ana Lúcia… Lucas, Júlio, Rodolfo, Jorge, João, Álvaro. Os personagens podiam ser nossos vizinhos, namoradas, maridos. Podiam ser nós mesmos em nossas vidas banais ou extraordinárias, dependendo do ângulo em que se veja.
Doni conhece o ofício. Ele lida bem com a passagem do tempo e com a reversão de expectativas – às vezes só pra confirmar o que o leitor já intuía. As histórias são temperadas com humor discreto, fetiches e sexo gostoso, mas o mote mesmo é amor. Com suas possibilidades e impossibilidades, palpitações, euforias e, quando acaba, seus efeitos devastadores. Quem já deu ou levou pé na bunda, quem guarda recordações agridoces de paixões da infância e adolescência vai se identificar. O livro também é flecha certeira pros que descobriram a mulher ou o homem de suas vidas.
Gostei muito do primeiro e do último conto, Júlia e A estrela é morta, que a gente lê ouvindo na cabeça a linda música de Lennon. Débora, com as pausas do narrador pra encher o copo, tá redondinho e divertido. A menina aborda a paixão platônica de uma maneira inusitada; tem uns ecos de Allan Poe. Vingança quente, conto de cinco parágrafos, é muito engraçado; pras mulheres captarem a essência, precisam se imaginar homens. Beijos foi esculpido com memória e arte; é talvez o meu favorito. Umas poucas histórias eu achei dispensáveis, dão a impressão de terem saído da incubadora antes do tempo. Mas elas não prejudicam o todo.
Guarde o nome de Marcos Donizetti. Ele ainda vai mostrar belas surpresas em forma de letra impressa (enquanto isso, dá pra apreciar o estilo do cara no seu ótimo blog). Meias vermelhas & histórias inteiras pode ser comprado pela internet na Editora Os Viralata, de literatura independente. Custa 19,90 dinheiros, já incluído o frete do correio. Você pode conferir aqui outras opiniões sobre o livro. Tem também uma comunidade no Orkut.
22
Nov07
Quinta-feira, dia de ler crônicas nos jornais de SC
Sou um ex-leitor assíduo de jornal. Pode parecer estranho ouvir isso de um jornalista, mas o fato é que hoje me informo basicamente via internet. Não só pela facilidade de acesso (o leitor de RSS é uma mão na roda) e variedade de fontes, como pra fugir da banalidade dos impressos – com todo o respeito aos colegas que labutam no jornalismo diário, o que fiz por longos dez anos.
Meu hábito se transformou depois que comecei a ter repetidas experiências de frustração ao comprar jornais impressos. Em geral, lia notícias requentadas do dia anterior. E ficava com a sensação de ter sido logrado, embora permanecesse o prazer inimitável de folhear aquelas árvores mortas cobertas de tinta. Também pela superficialidade da maioria das pautas, executadas às pressas e com base na reprodução de declarações de fontes com suposta autoridade. A exceção são os jornais de domingo, que têm qualidade melhor por serem feitos com matérias especiais, trabalhadas com mais tempo e espírito crítico. Passei a dedicar mais tempo aos livros e à internet, acho que foi um bom negócio.
Pois bem, todo esse “nariz-de-cera” foi pra dizer que estou considerando abrir uma outra exceção e comprar jornais nas quintas-feiras. É que agora vamos ter as crônicas de Regina Carvalho – minha ex-professora na UFSC – e de Felipe Lenhart, comparsa no coletivo de blogs +D1. Regininha estreou coluna no caderno Anexo, de A Notícia, e Felipe vai cobrir as férias do colunista Maicon Tenfen no caderno Variedades do Diário Catarinense. Quem já conhece os textos deles sabe que não exagero: é qualidade garantida e muita inspiração em um gênero que, por ser “ligeiro”, é às erroneamente confundido com fácil. Boa leitura!
p.s.: Essa é do frasista Zé Dassilva, num papo sobre o fim dos jornais:
Numa coisa acho que iremos concordar: antes de embrulhar peixe, todo jornal serve pra embrulhar leitor.
08
Oct07
Balanço de leituras
Lendo:
- O vulto das torres – A Al Qaeda e o caminho até o 11/9, de Lawrence Wright. Livraço que conta a gênese do principal grupo terrorista da atualidade. A ascensão de Osama bin Laden ao posto de inimigo número 1 dos Estados Unidos – depois de ter sido aliado na campanha de guerrilha contra os russos no Afeganistão – é apresentada de maneira meticulosa e interessante, com base em centenas de entrevistas.
- Reinações de Narizinho 1, de Monteiro Lobato. O clássico de literatura infantil brasileira está de volta pela Editora Globo, com belas ilustrações e em dois volumes. Todas as noites leio um capítulo pro Miguel. Começamos com uma visita ao Reino das Águas Claras, onde Emília, até então uma boneca muda, foi tratada pelo doutor Caramujo, que lhe deu uma pílula falante.
Recém-lido:
- El plan infinito, de Isabel Allende. À semelhança de outros romances seus, a autora chilena conta uma saga familiar. O protagonista é o americano Gregory Reeves, filho de nômades, criado no gueto mexicano em Los Angeles. Ele enfrenta um monte de barras pesadas até se encontrar. Infância, amigos, amores, influências intelectuais, casamentos fracassados, traumas familiares, guerra do Vietnã, voltas e reviravoltas. Se inspira na história do marido dela. Gostei.
Na fila:
- Hipertexto, hipermídia, organizado por Pollyana Ferrari. “O que muda na postura e no dia-a-dia do profissional da informação na era digital? Quem é o novo profissional da comunicação e quais meios ele possui?”. Tem um artigo da amiga Adriane Canan, A não-linearidade do jornalismo digital.
- Aventura nos mares do Brasil, de Werner Zotz. Mais um da coleção Expedições da Editora Letras Brasileiras. Ainda não comprei.
- …
Em pausa:
- Flush – Memórias de um cão, de Virginia Woolf.
- My System, de Nimzovich.
- Arquipélago Gulag, de Soljenitsin.
- …







