Posts com a categoria ‘letras’

10

Jul

07

Deliciosa essa sua patifaria

Algumas palavras me atraem pela sonoridade, pelo ritmo ou pelas associações de idéias que provocam. Também gosto de imaginar novos sentidos pra elas. Por exemplo, corifena (um peixe, mas podia ser nome de mulher: “Princesa Corifena já vai recebê-lo, senhor”, ou de remédio: “Sete gotas de corifena três vezes ao dia”); coach (treinador em inglês, mas sempre penso num sapo de boné); serendipity (a palavra mais linda da língua inglesa, significa descobrir, por acaso ou sagacidade, coisas que não se está procurando; pra mim podia ser também um pozinho mágico, tipo o de pirilimpimpim); maravalha (apara de madeira; podia ser uma maravilha que valha a pena).

Não é sempre que a gente tem chance de usar nauseabunda, como agora por ocasião das revelações da Operação Moeda Verde. Isso me traz à mente algumas outras: meliante (especulador imobiliário na Ilha do Mel e em outras ilhas); algoz (pessoa que ridiculariza o ativismo ambiental de Al Gore); patifaria (patê bastante apreciado na mesa de certos parlamentares: “- Deliciosa essa sua patifaria! – Comprei em Paris, coisa fina”); hipocrisia (academia hípica para impulsionar o turismo de alto padrão); alvará (papel com timbre oficial que atinge altas cotações na bolsa de favores). Êta mundão das palavras…

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20

Mar

07

A sapinha meiga

Amanhã às 19h, na livraria Livros & Livros, Regina Carvalho lança o livro infantil A Sapinha Meiga, com ilustrações de Clóvis Geyer. Regininha foi minha professora de redação no curso de jornalismo. É uma mulher queridíssima e talentosa com as letrinhas. Clóvis foi meu colega de trabalho no Diário Catarinense e vizinho no sul da Ilha. Grande figura. Fico contente que essa parceria rendeu. A livraria fica na rua Gerônimo Coelho, 215, Centro, Floripa.

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05

Dec

06

Lendo: Hemingway e Kaiser

Tou alternando: de manhã leio Do outro lado do rio entre as árvores, uma das obras mais intimistas de Hemingway. De noite e madrugada, ataco o dionisíaco Tempos Heróicos, de Jakzam Kaiser.

O curioso é a diferença radical de ritmos entre os dois romances. No primeiro só aconteceu basicamente isso até a metade do livro: o protagonista, coronel americano cinqüentão com doença terminal, chegou de carro em Veneza – pelo caminho veio apreciando a paisagem e recordando os tempos de guerra -, se instalou no hotel, foi a um bar, tomou martínis secos com a amada italiana de 19 anos, filosofaram sobre o amor e a vida, saíram caminhando de volta ao hotel, olharam jóias numa vitrina, ela lhe deu um brinco de esmeralda de presente, subiram pro quarto dele, se beijaram diante da janela e ela retocou a maquiagem. Agora se preparam pra jantar.

No segundo livro, também já pela metade, o protagonista, jovem estudante de Porto Alegre, já comeu várias gatas, se envolveu em brigas de rua, saiu de casa e foi morar sozinho, fez as pazes com o pai, pegou caronas, entrou de penetra em festas, acampou no litoral catarinense, fumou um monte de baseados, comeu cogumelos, virou a noite em bares, leu Bukowski e Henry Miller, participou do congresso da UNE em Salvador, apanhou da brigada militar em passeatas, pichou muros, foi preso, fez panfletagem em porta de fábrica, se apaixonou, passou no vestibular em duas faculdades, abandonou engenharia e escolheu jornalismo…

Fecho as páginas de um e retorno ao outro. Sopra um vento frio em Veneza. O jantar vai ter como entrada lagosta fria com maionese.

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16

Sep

06

Partidas: Oriana Fallaci

A jornalista e escritora italiana Oriana Fallaci morreu de câncer na quinta-feira 14, em Florença, aos 77 anos. Suas obras são leitura de alto proveito pra quem se interessa por jornalismo, política e história. Ela cobriu a guerra do Vietnã, o Oriente Médio e a América do Sul. Ficou famosa por suas entrevistas com líderes mundiais, vários do mundo árabe. Dela li só um livro, suficiente pra reconhecer sua grandeza no mundo das letras: Um homem (1979). É a história de Alexander (Alekos) Panagoulis, revolucionário grego que se opôs à ditadura militar de Papadopoulos e tentou matar o ditador em um atentado a bomba. Foi preso, torturado, exilado e perseguido, mas nunca desistiu da causa. Era respeitado pelos carcereiros por ser impossível de dobrar. A jornalista terminou se apaixonando pelo biografado e viveram juntos por um tempo, antes que ele fosse assassinado. Um belo retrato, sem retoques, de um homem digno. Nos últimos anos os escritos de Fallaci provocaram controvérsia ao criticar a cultura do islã.

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14

Sep

06

Jabuti 2006

Saiu o resultado do Prêmio Jabuti. Cinzas do Norte, do amazonense Milton Hatoum, ganhou na categoria ficção. Carmen – Uma Biografia, do carioca Ruy Castro, levou em não-ficção. Gabriel Pensador recebeu o prêmio de melhor livro infantil por Um Garoto Chamado Rorbeto.

Li Cinzas do Norte. Prêmio merecido. Semana passada li também de Milton Hatoum Dois Irmãos. Poderoso. E há uns anos, Relato de um certo oriente, o romance de estréia e pra mim o melhor de todos. Os temas são recorrentes: transformações da Amazônia, migração, famílias com vínculos fortes e conflituosos. Um dos melhores escritores brasileiros, sem dúvida.

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16

Jan

06

As histórias de Zuenir

Acabo de ler Minhas histórias dos outros, de Zuenir Ventura. Com texto fluente e coloquial, ele passeia por alguns acontecimentos marcantes do século 20 que testemunhou como jornalista. Também conta anedotas curiosas de bastidores e pequenos grandes dramas do cotidiano. Eu já gostava muito do trabalho dele. Depois de ler a última história do livro – um relato corajoso e íntimo que envolve sua vida familiar -, minha admiração vai além do profissional: Zuenir é um homem de generosidade ímpar. Ele conta como rompeu com um dos princípios do jornalismo – o de não interferir nas histórias que cobre – ao adotar um menino acreano que foi testemunha-chave de acusação no caso Chico Mendes. O ato de amor que salvou a vida do menino provocou conseqüências inesperadas. Mais não conto pra deixar você com vontade de ler. As crônicas do autor de Cidade Partida e de 1968, o ano que não terminou podem ser lidas em No Mínimo.

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