29
jan11
Carta ao pai na UTI
Pai, escrevo esta carta sem considerar a remota hipótese de que você possa compreendê-la. Há vários meses a doença de Alzheimer lhe tirou o prazer da leitura e está passando uma borracha no seu cérebro. Mas as epístolas são um recurso de estilo adequado no nosso caso, pois fluem espontâneas. Tratamo-nos por “você” (alguns filhos lhe chamam de “senhor”, mas nunca me habituei), sem perder a reverência entre filho e pai. Presto tributo às nossas décadas de troca de correspondência e ao milagre da palavra contada, que você sempre admirou. Aproveito para informar os amigos, parentes e agregados que gravitam de maneira amorosa em nosso entorno e estão ansiosos por novidades. É um texto público que fala de um assunto privado e nada agradável à maioria dos paladares: doença e risco de morte. Natural a aversão ao tema: as pessoas tendem a fugir da dor e fingir que ela só acontece com os outros. Só vão ler minhas palavras as três dúzias de pessoas que tiverem interesse genuíno no João Camillo da Silva Filho e esbarrarem neste blog por acaso ou boca-a-boca. Os amigos, os conhecidos e os desconhecidos com quem você brindou a alegria de viver.
Aliás, abre parêntesis, vou lhe fazer uma confissão tardia: quando eu era um adolescente tímido e íamos a restaurantes e botecos, eu ficava envergonhado quando você se levantava e ia puxar assunto com gente desconhecida nas mesas vizinhas; hoje tenho vergonha de ter tido vergonha. Só as pessoas de personalidade cativante conseguem fazer o que você fazia sem serem chatas. Então, que uma vergonha cancele a outra. Fecha parêntesis.
Chegamos ontem de Fortaleza, depois de dez dias difíceis. Encontrar você em uma UTI, com pneumonia e em estado grave, foi bastante penoso pra nós todos da família. Especialmente quando a gente sabe que você sempre abominou a ideia de vegetar numa cama de hospital. Cheguei num momento crítico, em que, depois de muitas horas de espera, meus irmãos tinham conseguido vaga na UTI da Uniclinic. Era o possível no momento. Mas, em pouco tempo, informando-nos com diversos profissionais de medicina e observando a rotina hospitalar, percebemos que o lugar estava muito aquém das exigências mínimas de tratamento humanitário. Somos gratos a alguns profissionais de lá, que fizeram o possível com as condições que tinham; quanto aos arrogantes e despreparados, a gente lamenta que insistam numa profissão tão nobre como a de saúde. Movemos mundos atrás de outra vaga e finalmente conseguimos duas vitórias: a sua transferência para o Hospital São Carlos – um lugar de excelência que respeita a dignidade das pessoas, como deviam ser todos os hospitais brasileiros – e a contratação de um ótimo médico pneumologista para acompanhá-lo.
Posso afirmar sem muita chance de erro que essas duas mudanças salvaram sua vida, pai. Quando você chegou lá no São Carlos, estava nas últimas, com a infecção quase tomando conta e a pressão muito baixa. O doutor Plínio e sua equipe atuaram de imediato, mudando a medicação, introduzindo alimentação venosa, pedindo exames, combatendo uma infecção nos rins… Enfim, atacaram o caso com uma abordagem holística. Nos vários boletins que ele fez oralmente para nós, pudemos perceber seu extremo profissionalismo e respeito humano. Voz pausada, olhos nos olhos, descrição honesta e sem firulas sobre o seu estado. A possibilidade de sua morte estava ali delineada, palpável. Começamos a nos preparar para a aceitação do que fosse melhor e representasse menos sofrimento, com o consolo de que, até agora, foram 85 anos muito bem vividos (no vídeo que gravei aos seus 83 anos, você me respondeu como era ficar velho: – A vantagem é que a gente morre bem sabidinho).
Os dias se passaram e seu estado, que era “gravíssimo”, passou para “grave”. E, no momento em que escrevo, é inspirador de cuidados. A infecção nos pulmões e nos rins está cedendo. Nas palavras do médico, houve “importante melhora” (opinião de leigo: atribuo isso não só aos cuidados profissionais, como também ao seu proverbial vigor físico de ex-paraquedista e à vontade de viver). Mas ele lembra que a falência total dos órgãos ainda é uma possibilidade a rondar, pois a pressão arterial está instável e a pré-existência da doença de Alzheimer (degenerativa e irreversível) não pode ser esquecida. É importante a gente ter isso em mente pra evitar o auto-engano. Lembro que você brincava com as mentiras piedosas que as visitas costumam contar às pessoas desenganadas pela medicina: “Você está com uma ótima aparência! Vai logo ficar bom!”, enquanto o sujeito estrebuchava. Fique tranquilo. O que eu lhe disse na visita de ontem é a verdade do momento. A batalha está sendo ganha, por ora. O futuro? Quem sabe?
Miguel e Bruno passaram esses dez dias em Fortaleza sem poder lhe visitar, pois não é permitida a entrada de crianças na UTI. Fizemos o possível para entretê-los nos intervalos das duas visitas diárias e em meio à chuva que castigou a cidade por vários dias. Eles adoraram a Sorveteria 50 Sabores. Encontramos também um restaurante legal perto do apartamento da prima Abélia: tem uma área pra crianças com labirinto e cama elástica. Nos poucos dias em que o sol deu as caras, fomos duas vezes à Praia do Futuro (na segunda vez, Miguel comentou que estávamos indo “de volta para o futuro”, referência a um filme dos anos 80 que você nunca viu, pois detesta cinema). Bruno se divertiu com objetos de papelão que ele pedia pra gente recortar e depois desenhava: celular, pen-drive, cartão de memória, carteira de cédulas, carteira de identidade, volante de carro. Perguntei se ele não era muito novo pra dirigir com quatro anos. Ele respondeu: “Eu tenho 19 anos, é que sou anão”.
Pai querido, meu grande abraço.
Florianópolis, 29 de janeiro de 2010 (aniversário de Lubélia)
Outra carta ao pai, em julho de 2010
01
set10
Contar o que importa na vida
O que você pode começar a contar hoje que seja significativo para sua vida – pessoal ou profissional? Nesta palestra rápida (17’21″), Chip Conley, dono da rede hoteleira californiana Joie de Vivre, fala sobre o conceito de Felicidade Interna Bruta, criado em 1972 pelo rei do Butão, Jigme Singye Wangchuck, em resposta a críticas que afirmavam que a economia do seu país crescia miseravelmente. O empresário diz o que aprendeu com sua faxineira vietnamita e como aplicou com sucesso no próprio negócio a ideia de medir as coisas que fazem a vida valer a pena.
01
ago10
Chegadas: Clara
Nasceu no dia 30/7, de cesariana porque foi o jeito, uma menina sortuda porque muito amada e desejada pelo seu papai Frank Maia e pela mamãe Lígia Sena: Clara! Teu papi me enviou uma fotinho sua pelo celular (até chorei um pouco, no meio do calçadão da Felipe Schmidt; sou manteiga derretida pra essas coisas), mas não mostro pra ninguém porque essa honra cabe aos que te colocaram no mundo. Como você é grande! Juro que, nos últimos meses, pensei que vinham gêmeos. Vai ser bonito te ver crescer mais ainda e te apresentar aos meus meninos. Vai, Clara, mama e dorme bastante, que o mundo é teu. Que o caminho seja iluminado e cheio de descobertas maravilhosas, garota. Conte comigo pro que precisar, sempre.
26
jul10
Carta ao pai
Cheguei ontem do Ceará, onde passei uma semana em Russas com meu pai, João Camillo. No dia 18 ele celebrou o aniversário de 85 anos com uma festinha pros parentes e amigos mais chegados. Na ocasião, lançou um livro, As sete capitais, em que reúne seus escritos sobre o tempo em que morou em Fortaleza, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Manaus, Natal e Florianópolis.
Meu pai está com Alzheimer e, pela primeira vez, me dei conta dos efeitos devastadores dessa doença degenerativa, que vai fazendo a memória se evaporar e o corpo enfraquecer. Sua vivacidade, o humor rápido e certeiro, a facilidade de se comunicar, o enorme arsenal de histórias com que nos brindava, tudo isso agora é só uma boa lembrança. A cada dia, mais ele mergulha no seu mundo interior, com pequenas brechas em que retoma a lucidez – como na noite do lançamento do livro, em que até fez um pequeno discurso de agradecimento.
Tenho mais a contar sobre esses dias que passei lá. Por enquanto, compartilho o texto que escrevi pro livro dele. É provável que essas palavras não cheguem mais ao seu entendimento pela via racional. Felizmente, há outras formas de dizê-las, mesmo em silêncio.
Papai,
Escrevo profissionalmente há 25 anos, mas faz dias que estou enfrentando o bloqueio da página em branco quando tento redigir estas linhas. Para superar isso, usei a seguinte estratégia: em vez de preparar um texto sobre você, vou escrever para você. Que esta seja, então, uma conversa informal, das tantas que tivemos desde que me entendo por gente. Recorri a outros dois artifícios para me ajudar: a inspiração em uma de suas citações prediletas (parece que é de Churchill): “A coragem é a principal das virtudes, pois ela garante todas as outras”; e me imaginei no seu lugar, na porta aberta de um avião, com frio na barriga, prestes a dar um daqueles seus saltos de paraquedas. Há momentos na vida em que a gente simplesmente faz o que precisa ser feito. Da melhor maneira possível, nas pequenas e grandes obras.
Ser seu filho tem sido um privilégio. Sinto isso de maneira instintiva, desde criança. Meus irmãos e eu fomos criados com afeto, bom humor e paciência gigante. Com uma grande leveza de espírito, de fato. Você resumia essa atitude diante das nossas traquinagens com alguns chistes inesquecíveis, que hoje repito com meus dois meninos: “Parece criança!” Ou então: “Chore mais um pouquinho, filho, chore…” (e parávamos, só pra contrariar). Sou muito grato por nunca ter apanhado de você. Suas repreensões em voz alta eram tão raras e respeitadas que eu poderia contá-las com os dedos de uma mão. Tempos depois, ao ler sobre os índios e a maneira tranqüila como criam os filhos com respeito e liberdade, me dei conta de como o sistema deles é semelhante ao seu.
Pai, pode ter certeza que não estou aqui idealizando um herói, e sim me referindo a um ser humano especial – falível, mas extraordinário. Você nos educou para ganhar o mundo com autonomia de pensamento, e só isso vale por um caminhão de lições. Com você descobri que a amizade, a justiça e a generosidade são valores fundamentais. Buscar a felicidade é vital. Esse tipo de coisa não se aprende com discursos, e sim pelo exemplo. O cotidiano familiar sempre esteve repleto de aulas práticas de grandeza de caráter. Ao longo de toda a minha infância e adolescência, foram tantos os que conviveram como agregados em nossa casa, às vezes por longos períodos. Tantos foram os viajantes que abrigamos. E aquela alegria rondando tudo, que bom! Grana curta, é verdade, mas nunca faltava diversão. Almoços com amigos, serestas, rodas de piadas, festas com a vizinhança… A tradicional hospitalidade nordestina elevada à máxima potência. Sim, fui uma criança feliz.
O espírito nômade e aventureiro é outra característica sua que ajudou a formar o homem que sou hoje. Quantas vezes trocamos de casa e de cidade? Nunca encarei essas mudanças como coisas desagradáveis, apesar de representarem rupturas de relacionamentos e o abandono de zonas de conforto. Pra mim sempre foram momentos de euforia pelo novo, sensações revigorantes de estar em movimento. Depois que me tornei jornalista, em minhas andanças pelo mundo, adotei o costume de lhe telefonar ou enviar postais. Formas de dizer que você viajava comigo. Nas adversidades em que fui obrigado a improvisar e acreditar no meu instinto, pensei no que você faria em meu lugar. Sim, pai, temos andado sempre juntos.
O amor pela leitura é outro legado que devo ao seu exemplo e continua em seus netos Miguel e Bruno. Presente precioso que amplia os horizontes. Certas habilidades suas eu não herdei, e lamento, mas assim é a vida. Uma delas é a inteligência fora do comum para se comunicar, travar relacionamentos, contar anedotas. O brilho do seu olhar e a magia do seu sorriso encantaram muita gente por onde você passou. Suas histórias de humor, drama ou aventura conquistaram audiências deliciadas. Como em nossa família sou um dos que vivem para contar, sinto que devo passá-las adiante de alguma forma. Admito sem constrangimento que meu talento narrativo fica muito a dever em comparação com o seu. Mas se eu começar com coragem, quem sabe… Cada um tem o salto de paraquedas que merece.
Anos depois, olhando em retrospectiva, vejo o quanto você nos educou para a impermanência. Tudo muda o tempo todo. Uns partem, outros chegam, a vida passa. Se é assim, que o momento presente seja vivido com intensidade, então. Veja que curioso: esse conceito da filosofia budista faz parte da sua vida, mesmo que você não tenha se dado conta. O desapego é um grande desafio. Nisso temos muito a avançar, pai, pois ainda sofremos demais com a partida das pessoas amadas. Esse aprendizado é inevitável para quem chega a uma idade avançada como a sua, pois é preciso se despedir de muita gente pelo caminho. Mas com certeza devo a seu exemplo o fato de não sofrer pelas coisas. Afinal, são só coisas. E as pessoas que realmente valem, essas permanecem.
Papai, eu tenho muito mais a lhe dizer, e outro dia continuo. Vou terminar esta conversa de hoje com uma lembrança de infância. Tenho oito anos e estou brincando de carrinho com meus irmãos em cima da sua barriga, enquanto você dá uma cochilada depois do almoço. A tarde segue tranqüila, preguiçosa, com uma brisa morna. Mais adiante, muito mais adiante, virão tempestades que vamos superar de um jeito ou de outro, ganhando algumas cicatrizes. Mas por enquanto, nada disso. Sua presença nos dá aconchego e paz. Seu corpo forte se transforma em estradas, viadutos, caminhos protegidos pros carrinhos transitarem em nosso mundo de fantasia. A vida é bela quando se tem um pai assim.
Um grande abraço do seu filho Dauro.
Florianópolis, 13 de junho de 2010
13
jul10
Pequenas delícias das tardes de inverno
A partida mais gostosa que vi nesta Copa foi, sem dúvida, a disputa do terceiro lugar, Alemanha x Uruguai. Não pela qualidade do futebol ou por alguma jogada extraordinária – se bem que aquela bola uruguaia na trave no último lance foi de disparar o coração. E sim pela maneira como vi o jogo: no sofá, em estado alfa, aconchegado entre Miguel e Bruno, nós três debaixo de um cobertor de lã. Cochilei uma boa parte do primeiro tempo, mas que delícia… Em uma palavra: comunhão.
09
jul10
As quatro leis da espiritualidade
Compartilho esta mensagem que recebi do Celso Vicenzi, que a recebeu de alguém. Se você achar que faz sentido pra sua vida, bom proveito.
Na Índia, são ensinadas as ”quatro leis da espiritualidade”.
A primeira diz: “A pessoa que vem é a pessoa certa”.
Ninguém entra em nossas vidas por acaso. Todas as pessoas ao nosso redor, interagindo com a gente, têm algo para nos fazer aprender e avançar em cada situação.A segunda lei diz: “Aconteceu a única coisa que poderia ter acontecido”.
Nada, nada absolutamente nada do que acontece em nossas vidas poderia ter sido de outra forma. Mesmo o menor detalhe. Não há nenhum “se eu tivesse feito tal coisa…” ou “aconteceu que um outro …”. Não. O que aconteceu foi tudo o que poderia ter acontecido, e foi para aprendermos a lição e seguirmos em frente. Todas e cada uma das situações que acontecem em nossas vidas são perfeitas.A terceira diz: “Toda vez que você iniciar é o momento certo”.
Tudo começa na hora certa, nem antes nem depois. Quando estamos prontos para iniciar algo novo em nossas vidas, é que as coisas acontecem.E a quarta e última afirma: “Quando algo termina, ele termina”.
Simplesmente assim. Se algo acabou em nossas vidas é para a nossa evolução. Por isso, é melhor sair, ir em frente e se enriquecer com a experiência. Não é por acaso que estamos lendo este texto agora. Se ele vem à nossa vida hoje, é porque estamos preparados para entender que nenhum floco de neve cai no lugar errado.
01
jul10
Mudanças climáticas
O documentário sobre mudanças climáticas, dirigido pelo jornalista Marques Casara e exibido na COP 15, agora ganha versão para Internet: como povos tradicionais do Brasil, da Tanzânia e da Índia sofrem os impactos das alterações do clima. Conta o Marques:
É o documentário mais barato do mundo. A equipe brasileira era eu e minha mulher [Tatiana Cardeal]. No começo de 2009, fomos ao alto Rio Negro com uma câmera de filmar batizado, sem saída de microfone. Eu fiz a câmera e Tati fez o áudio com um microfone ligado a um gravador digital.
Climate Changes from Papel Social Comunicação on Vimeo.
31
mai10
Leituras em família
Estamos vivendo uma temporada maravilhosa aqui em casa: o despertar da paixão pela leitura nos dois meninos, em diferentes fases de desenvolvimento – alfabetização e pré-escola. É uma onda boa que chega de mansinho, sem sobressaltos, sem lembrança exata de quando começou, assim como a mudança das estações. Acontece com uma simplicidade que encanta. Às vezes me pego encarnando o papel de pai típico, ao pedir pro Miguel apagar a luz do quarto que é hora de dormir (na real sempre fui flexível com isso, acho que a hora ideal é quando dá sono, mas o dormir muito tarde tem suas inconveniências práticas). E ele, sem tirar os olhos do mangá do Naruto que lê na cama, responde, “Espera um pouco”. Debruçado no tapete, Bruno desenha letras aparentemente ao acaso, mas que pra ele fazem todo sentido. Depois recorta papeizinhos e cola com fita adesiva pelas paredes. Às vezes simplifica o processo e escreve com caneta diretamente nelas.
Os sinais se multiplicam, sutis e eloquentes. Há cada vez mais gibis da Turma da Mônica no quarto deles e no banheiro. Nossas visitas a bibliotecas e livrarias são um programa muito apreciado, comparável a ir aos parquinhos ou à praia. Aquela bagunça de livros parcialmente lidos pelos cantos da casa já não é mais privilégio dos adultos. Uma cena bonita de se ver à noite é Miguel lendo livros em voz alta pro Bruno na cama. A tevê tem deixado de oferecer tantos encantos e fica cada vez mais tempo desligada. O segredo disso tudo? Não há segredo, esse é o fato. É o bom e velho método da educação pelo exemplo. Crianças que têm pais leitores tendem a se tornar boas leitoras. Esta é uma das heranças mais preciosas que podemos deixar pra eles.
26
mai10
E por falar em camarão…
…recebi esta agora por e-mail do Celso Vicenzi.
A festa“Estava suave o sol, o ar limpo e o céu sem nuvens. Afundado na areia, um caldeirão de barro fumegava. No caminho entre o mar e a boca, os camarões passavam pelas mãos do Zé Fernando, mestre de cerimônias, que os banhava em água-benta de sal e cebolas e alho.Havia bom vinho. Sentados em roda, amigos compartilhávamos o vinho e os camarões e o mar que se abria, livre e luminoso, aos nossos pés.Enquanto acontecia, essa alegria estava já sendo recordada pela memória e sonhada pelo sonho. Ela não terminaria nunca, e nós tampouco, porque somos todos mortais até o primeiro beijo e o segundo copo, e qualquer um sabe disso, por menos que saiba.”Eduardo Galeano, escritor uruguaio.
22
mai10
O paradoxo das escolhas
Este vídeo tem 19’40″ e vale cada segundo. Barry Schwartz fala no TED sobre um paradoxo da vida moderna, cujo dogma é que a felicidade está vinculada à liberdade de escolher. Para ele, o excesso de opções na verdade traz paralisia e frustração. “O segredo da felicidade está em ter baixas expectativas”, brinca, a sério. “Quanto mais opções nos são oferecidas, mais ficamos desapontados com as eventuais escolhas erradas que fizemos”, diz, lembrando que essa pressão por não falhar leva a muitos casos de depressão e suicídio. Em resumo: “Não há dúvida de que alguma escolha é melhor que nenhuma, mas isso não significa que ter mais escolhas é melhor que alguma escolha”. Schwartz aponta a falsidade do mantra moderno de que não há limites para o que podemos fazer: “A ausência de algum aquário metafórico é uma receita para a infelicidade e, eu suspeito, o desastre”. Essa análise toda se aplica, claro, ao mundo ocidental capitalista desenvolvido, pois nos lugares miseráveis do mundo, o problema é a falta do que escolher. Nesse sentido, ele também faz uma interessante sugestão: a de que distribuir renda traz felicidade tanto para as pessoas pobres quanto para as que doam, pois estas estão abrindo mão da pressão para escolher tanto.
[vi este vídeo no blog Nãoenchequejátoucheia, valeu!]
p.s.: Vídeo em inglês, com legenda em várias línguas, inclusive português do Brasil.








