24
May07
Brincadeiras na neve
Primeira neve do ano na serra. E o frio continua:
Os catarinenses podem ficar certos de uma coisa: vão sentir muito frio, pelo menos, durante os próximos 10 dias. A massa de ar polar que entra pelo Oeste e pelo Sul do Estado derruba drasticamente as temperaturas, e frio abaixo de zero deve ser registrado de hoje até domingo.
Por incrível que pareça, moro em Santa Catarina há 21 anos e nunca vi neve aqui, embora ela venha quase todo ano. Ou derrete quando chego à Serra, ou por algum motivo não posso ir lá conferir. O pessoal que vive nos países gelados deve achar graça do fascínio que os fiapos de neve provocam nos brasileiros. Culpa dos desenhos animados que passam no nosso Natal escaldante, mostrando a meninada que espera Papai Noel na maior friaca.
A primeira vez que vi neve foi na Bolívia, no topo das montanhas. De longe, pela janela do ônibus. Depois vi nevar em Praga, numa primavera gelada sobre a ponte Karluv – aquela famosa das estátuas de santos, cartão postal checo, talvez a ponte mais charmosa do mundo. Chovia fino, daí vieram uns floquinhos de nada e logo viraram chuva de novo. Mesmo assim deu tempo de abrir a boca e provar o gosto – a gente vira criança mesmo. Hmm, picolé de chuva ácida.
Na clareira de um bosque suíço fiz um piquenique romântico com a Laura. Ao redor de nós o chão tava coberto de neve misturada com lama. Preferi provar só pão e vinho.
Também vi nevar no topo da Zugspitze, maior montanha da Alemanha (2.962 m, diz a Wikipedia). Tinha uma grande quantidade acumulada e realizei uma antiga fantasia besta: me joguei no chão de braços abertos, de costas, que nem os Beatles num dos filmes deles. Me senti o Ringo, o mais narigudo e palhaço dos Fab Four.
Tinha uma fantasia de infância: brincar de batalha com bolas de neve. Realizei na Noruega, numa minúscula estação de trem chamada Flam, onde fizemos uma baldeação. Ao redor dos trilhos havia um labirinto de paredes de neve acumulada, com mais de três metros de altura. Meu adversário era o amigo Eirik Eng, exímio atirador de bolotas desde a infância. Acertei algumas na cachola dele, mas por melhor que fosse minha pontaria, não dava pra vencer um nativo.
Nunca me entusiasmei com esqui ou trenó. Mas tenho outra fantasia ainda não realizada que compartilho com o Miguel: fazer um boneco de neve. Quem sabe neste inverno. Nem que seja um pokemon de neve, pela quantidade que costuma cair em São Joaquim.
16
May07
O cavalinho de Santarém
Eu tinha cinco anos e descíamos o rio Amazonas de navio, de Manaus a Belém. No porto de Santarém, meus pais compraram pra mim um lindo cavalinho de borracha de seringueira. De volta a bordo, brinquei brinquei brinquei. Aí larguei o cavalinho sobre um bote salva-vidas e fui fazer outra coisa. Quando voltei pra pegar, tinha virado uma gosma disforme. Derreteu no sol. E a correnteza do Amazonas já nos levava em direção ao mar, sem chance de marcha à ré. Foi minha primeira lição sobre a impermanência
15
May07
Onde estão os comentários?
Tuca, do Fiapo de Jaca – um blog saboroso como a fruta – conta quais são os cinco tipos de pessoas que deixam de comentar no seu blog: 1. O ressentido; 2. O sensível; 3. O crítico; 4. O que arranjou trabalho e 5. O preguiçoso. Pra quem tá sentindo a falta dos meus comentários, pode crer que me enquadro na quinta categoria. Na maior parte das vezes eu leio, aprecio e mando meus parabéns telepáticos
~
Cheguei ao Fiapo de Jaca por meio dum post do Inagaki.
22
Feb07
Pequenos prazeres: sinuca em pé-sujo
Sou grande apreciador de xadrez, “o rei dos jogos”. Entre muitos motivos, porque nele não entra o fator sorte. Nada de dadinho rolando: ganha sempre o melhor, ou o menos distraído. Mas o que eu queria comentar mesmo é sobre outro belo jogo, também isento do fator sorte – um maravilhoso invento que a humanidade bolou pra diminuir nossas angústias em relação à finitude da vida. A sinuca me fascinava quando criança e via a malandragem jogando na bodega o dia inteiro. Mas terminei indo fazer outras coisas e não pude me aperfeiçoar. Talvez tenha sido pro meu bem, você pode pensar. É, talvez. Escapei de viciar em jogatina e de virar pinguço, mas o antigo fascínio pela beleza das esferas coloridas singrando no veludo verde permanece até hoje.
Nesta terça-feira, pra não dizer que passei o carnaval inteiro em casa, saí à noite com Neto, Érico e Camila em busca de um boteco pra jogar sinuca. No final da avenida das Rendeiras, na Lagoa, encontramos um “pé-sujo”, com direito a baratas circulando pelo chão, coca-cola vencida e uma penumbra que aliviava as paredes encardidas. Compramos algumas fichas no balcão e pedimos pro homem de feições nada apolíneas que baixasse algumas cervejas. Logo estávamos passando giz nos tacos e botando as bolinhas pra rolar. A mesa, apesar de suja, era boa e com iluminação decente. O banheiro tava surpreendentemente limpo, no vídeo rolava um tributo a Bob Marley e as cervejas estavam geladinhas. Mentalmente alterei o rótulo do boteco para a categoria “falso pé-sujo” – mas diante da exuberância das baratas, resistimos à tentação de pedir um tira-gosto.
Fizemos umas dez partidas em duplas. No começo marquei o placar com giz na parede, depois deixei pra lá, o importante é competir. Até fiz uma ou outra jogada à la Rui Chapéu. Numa delas, antológica, a bola correu num ângulo improvável pela quina do feltro sem sair da mesa e acertou o alvo lá no outro canto (lembrou-me uma partida de futebol de campo que joguei uma vez na escola: contra todas as expectativas, fiz dois gols com bola em movimento e dei vitória ao meu time; minha fama de perna-de-pau se dissolveu por completo, mas só até a próxima partida). Em vários lances atirei no que vi e acertei o que não vi – mas não chamaria isso de sorte, e sim de inteligência cinestésica intuitiva (outros preferem chamar de cagada
). E, claro, cometi erros de amador, mas no geral não fiz feio. Até senti certo progresso em minhas habilidades psicomotoras. Em resumo, uma noite divertida.
21
Feb07
Folhas secas, viagens e esquinas (après Cortázar)
As antenas de nossa percepção têm um limite, único e peculiar a cada pessoa. O universo que alguém enxerga numa folha seca pode passar despercebido por outro. O eco afetivo de memória que, em mim, certas músicas provocam, abrindo “portais de espaço-tempo”, a você talvez soe como um amontoado de sons que não fedem nem cheiram. Além do alcance dos nossos “tentáculos sensoriais” há o grande vazio. Um vazio repleto de vida e informação, mas por não tomarmos consciência dele, é como se não existisse. De vez em quando um movimento imprevisto no líquido amniótico em que a existência está mergulhada faz com que os tentáculos tateiem um pouco mais longe em direções inusitadas. É um jogo de toma-lá-dá-cá. Se dedico alguns anos a aprender francês, vão ser anos sem estudar alemão. Enquanto leio Cortázar – cujo capítulo 84 de Rayuela me inspirou a escrever isto sentado num banco de praça -, estou deixando de ler outros. A viagem à Europa ou ao Ceará é uma não-viagem a outros lugares.
Pode-se lidar com esta limitação de muitas maneiras, todas imperfeitas, nenhuma necessariamente melhor que a outra, talvez melhor pra mim e nem tanto pra você ou ao contrário. Viver satisfeito, pleno de si, da maneira mais criativa e genial possível dentro da bolha existencial, sem perder tempo com o inatingível. Viver em permanente ânsia e frustração pela viagem não feita, a frase não-escrita, o amor não-vivido – porque se estava fazendo outra viagem, escrevendo outras coisas, vivendo outro amor. Ou ainda o frágil e desequilibrado equilíbrio entre o contentamento com o que conseguimos perceber e o sonho com a sombra da possibilidade do que há nas outras dimensões, nas folhas secas que jamais veremos, nos idiomas falados pelas árvores e cães e gentes paradas em esquinas onde jamais vamos pisar. Mas se imaginarmos, quem poderá dizer que não existem?
12
Feb07
Um folheto de missa e um catálogo de museu
Tenho em minhas mãos um folheto da missa dominical de 4 de fevereiro da catedral St. Patrick, de NY, que minha cunhada pegou quando passou por lá. O primeiro parágrafo dá boas vindas aos fiéis. O segundo e o terceiro pedem grana – doações pra manutenção da catedral e pra serviços educacionais, de caridade e assistenciais. Sugerem o valor de uma hora de salário pra manutenção. O quarto parágrafo informa dois números de telefone e um saite a quem precisar fazer denúncias sobre abuso sexual de menores. O quinto e último parágrafo convida para um seminário sobre “A importância de ter um testamento”.
O catálogo do Museu do Brooklyn, com 12 páginas, nos conta o que rola em janeiro e fevereiro. Destaques pra exposição Mágica no Antigo Egito; pra uma mostra com 200 trabalhos da fotógrafa Annie Leibovitz entre 1990 e 2005 – ela é famosa por retratos de figuras públicas como Mandela e Demi Moore grávida e reportagens como o cerco de Sarajevo no início dos anos 90 -; e uma exposição com 11 esculturas do australiano Ron Mueck, que se dedica a fazer corpos humanos em tamanho gigante e impressionante perfeição de detalhes. Se você tivesse que escolher, iria à catedral ou ao museu?
18
Jan07
Crônicas da violência cotidiana (2)
Em janeiro de 2000, fazia duas semanas que eu me mudara pro Rio. Tinha terminado de jantar no restaurante Bella Blue, em Botafogo, e estava saindo quando me empurraram porta adentro. Três rapazes de uns 18 anos – um branco e dois negros, todos de calção, camiseta e tênis -, armados de revólveres, invadiram o restaurante:
- Perdeu, perdeu!
Foi tudo muito rápido, três ou quatro minutos. Que ninguém reagisse, senão ia ter morte. Fui confundido com o gerente porque estava na entrada. Um ficou na porta, o segundo saiu recolhendo os celulares nas mesas. O terceiro me apontou a arma e mandou abrir o cofre.
Expliquei que eu era só um cliente. Devagar, tirei vinte reais do bolso e botei na mesa. Imitando o garçom, levantei as mãos. Irritado, ele nos disse pra baixar os braços, chutou minhas costelas e mandou deitar no chão. Vi de perto seu Nike novinho e esperei o tiro.
Fugiram rápido, levando 4 mil reais e os celulares – eu tinha esquecido o meu no hotel. Desprezaram meus vinte paus. Um garçom me ofereceu gelo (depois tirei radiografia, tudo inteiro). Ainda tremendo, peguei um táxi e fui pro hotel no Catete. Lá vi que tinha esquecido a agenda. Peguei outro táxi e voltei. No caminho contei a história e o taxista comentou:
- Isso é comum aqui. Eu mesmo tenho uma bala alojada no pescoço faz cinco anos.
No restaurante o movimento tinha voltado ao normal, com novos clientes e comida quentinha. Meia hora depois do assalto, era como se nada grave tivesse acontecido. Peguei minha agenda e fui embora, pensando na banalização da violência e em como as pessoas se adaptam a tudo pra continuar vivendo.
Pensei, tenho duas opções: voltar ou insistir. Teimoso, fiquei. E vivi quase dois anos na cidade maravilhosa, sem presenciar nenhum outro incidente como esse – uma vez, na noite da Lapa, acompanhava um casal de amigos franceses e fomos seguidos, mas percebi a tempo e entramos num bar. Foram tempos divertidos, com muito cinema, samba de raiz e novos amigos. Aí voltei pra cidade-ilha em busca de sossego pra criar filho.
Nunca vou esquecer os olhos daquele rapaz que não tinha nada a perder, me apontando com raiva um 38 que podia ter interrompido toda minha história num segundo. Mas o que mais me chocou mesmo foi a atitude conformada com que as pessoas se submetem a viver um cotidiano desses. Ainda hoje penso nisso e não encontro respostas satisfatórias.
18
Jan07
Crônicas da violência cotidiana (1)
Essa é do Fernando Evangelista, nosso correspondente para assuntos aleatórios em Malta.
~
Conto um fato que testemunhei recentemen
te. É uma história real: Cheguei na escola e vi os professores e funcionários reunidos. Falavam baixo, estavam muito sérios. Clima pesado. Manhã de chuva.
Pensei no pior: Alguém morreu. Quem será que morreu? Como tem morrido gente ultimamente. Fiz uma listinha de cabeça. Tudo gente boa. Os cacos, aqueles que devem morrer, não morrem nunca. Será que foi o diretor?
Perguntei a minha professora, no meio do corredor, quase pedindo desculpas, quase sussurrando:
-O que houve?
E ela, voz de choro:
-Hoje faz três anos do assalto ao banco HSBC.
-Hummm. Quantos mortos?
- Uma pessoa baleada.
- Era alguém da sua família?
- Não, era o John, o guarda. Todo mundo conhece o guarda.
- Ah, sim, o guarda…. mas quantos mortos?
- Nenhum. O John foi baleado, ela repetiu e eu senti – porque é fácil perceber essas coisas – que o tom de voz estava mudando de choroso para impaciente.
- Ele ficou muito ferido?
- Foi uma bala de raspão.
- Que bom! Que sorte!
E ela, estarrecida:
- Que bom?! Nunca tínhamos tido nenhum assalto aqui, uma pessoa foi baleada e você diz que bom!?! Aqui sempre foi tudo muito calmo, nunca teve dessas coisas. Assalto, com revólver, Meus Deus, só em filme.
- A senhora estava no banco?
-Não, mas o país todo ficou muito traumatizado. Será muito difícil esquecer. Parece que foi ontem.
Falou muito séria e saiu. Eu fiquei o dia inteiro pensando nessa história, pensando no guarda e pensando no Brasil.
17
Jan07
Fragmento da metamorfose florianopolitana
Em poucos dias a escavadeira e os caminhões reduziram a reluzente clínica médica a um terreno de barro compacto e plano, cercado de tapumes. A demolição da casa na esquina abriu visão para a lateral da boate vizinha, prédio cinza escuro de dois pavimentos com seis exaustores e quase sempre de janelas fechadas. Uma moça sobe a escadaria do quintal e entra pelos fundos, sem pressa. Chinelos, blusa, cabelos pretos presos, zero glamour. Ali perto, o vendedor de flores aproveita o sinal fechado para oferecer seu produto aos casais com jeito de apaixonados – vende pouco. Na terra arrasada, estruturas de metal com roldanas dão a entender que em breve teremos um bate-estacas martelando nossa paciência e preparando a chegada de mais um edifício. A cidade não pára.
Ouvindo Chico Science na radiola-cachola.







