Sul é pioneiro em políticas de apoio a APLs

Parreiral em Antônio Prado, RS

Parreiral em Linha Camargo, RS. Acervo da Secretaria de Turismo de Antônio Prado.

Dauro Veras, para o Valor, de Florianópolis

O Sul do Brasil oferece amplo campo de estudos sobre políticas de apoio aos Arranjos Produtivos Locais, por seu pioneirismo e diversificação de experiências. Na região, a maioria dos APLs são de setores industriais tradicionais. Há ênfase no apoio integrado às micro e pequenas empresas, na capacitação e na oferta de serviços para uso comum. Entretanto, são necessárias correções de rumo na atuação dos governos estaduais, para que os Arranjos se consolidem como instrumentos do desenvolvimento. É o que aponta um estudo realizado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) em parceria com pesquisadores de universidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

“A institucionalidade das políticas nos três estados do Sul é bastante diferente”, explica Renato Campos, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenador do mapeamento das políticas para APLs nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. “Em Santa Catarina, a iniciativa é dispersa por vários órgãos e não está articulada numa política explícita pelo governo estadual; já as experiências do Rio Grande do Sul e do Paraná são mais próximas entre si, pois a política está explicitada em legislações específicas e é coordenada por órgãos dos governos”. O estudo recomenda melhor articulação entre as esferas municipal, estadual e federal do poder público.

O Rio Grande do Sul foi um dos primeiros estados a adotar políticas de apoio a APLs, com iniciativas formalizadas desde 1999. Há 33 APLs apoiados por políticas públicas e privadas, com destaque para os setores moveleiro, calçadista, vitivinícola, metal-mecânico e de máquinas e implementos agrícolas. Apesar de a continuidade da política ter obtido resultados expressivos, houve “perda de fôlego” do governo do estado em tempos recentes na mobilização dos agentes sociais e identificação de gargalos, diz Ana Lúcia Tatsch, professora do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Várias ações de apoio aos APLs passaram a ser realizadas por entidades como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Sistema Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), bem como por associações de classe e sindicatos. A temática ganhou mais espaço a partir de 2006 com o movimento Agenda 2020, em que mais de cem entidades se propuseram a discutir propostas para o desenvolvimento. Os pesquisadores da Unisinos apontam a necessidade de priorizar projetos que tenham a inovação como alvo. Também sugerem a adoção de novos instrumentos fiscais, creditícios e de financiamento.

“A organização em APL é o grande diferencial para as vinícolas da região da Serra Gaúcha, pela proximidade das firmas com fornecedores, viticultores, centros de pesquisa e institutos de formação de recursos humanos”, diz o professor Cláudio Farias, do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS). “Minhas pesquisas recentes têm apontado para os ganhos que as vinícolas relacionadas com os fornecedores de máquinas e equipamentos têm conquistado em desenvolver produtos e tecnologias conjuntamente”. Outro bom exemplo é a reconversão de vinhedos, com apoio de agrônomos e enólogos. Noventa por cento da indústria nacional de vinhos está concentrada no Rio Grande do Sul, em especial na Serra Gaúcha, onde se situam 620 vinícolas.

O APL moveleiro da Serra Gaúcha foi organizado há duas décadas para enfrentar gargalos comuns às mais de 500 empresas da região, que empregam 12 mil trabalhadores no município de Bento Gonçalves e entorno. “Avançamos na logística, com a instalação, próximo de nós, de empresas fornecedoras de insumos, e isso melhorou muito nossa competitividade”, relata o presidente da Associação das Indústrias de Móveis do Estado do Rio Grande do Sul (Movergs), Ivo Cansan. “Estamos fazendo um trabalho forte para inserção de novas tecnologias, maquinário, sistemas de gestão e de produção, participação conjunta em feiras e incorporação de design”, acrescenta.

No Paraná, uma pesquisa do governo do estado mapeou 114 APLs e selecionou 22 prioritários para as políticas públicas, informa Fábio Dória Scatolin, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR): “Criou-se um arranjo institucional interessante, a Rede APL do Paraná, envolvendo governo, Federação das Indústrias e Sebrae”. A partir de 2007, começou a implementação das políticas planejadas. “Nesta fase, infelizmente, o estado reduziu seu papel de protagonista, por causa de problemas macroeconômicos”, diz. O economista destaca que o engajamento dos atores sociais em governanças locais tem trazido muitos benefícios para as empresas.

Polo tecnológico de SC é modelo de sucesso

Natalino Uggioni, superintendente do IEL-SC

Natalino Uggioni, do IEL-SC.

Em Santa Catarina, o Arranjo Produtivo Local da Tecnologia de Informação e Comunicação (Platic) conseguiu superar rivalidades históricas entre três polos de inovação – Florianópolis, Blumenau e Joinville – e se transformou em modelo para a reestruturação dos APLs catarinenses. Entre 2005 e 2008, R$ 2 milhões em recursos públicos e privados foram investidos para enfrentar 11 gargalos ao crescimento do setor. Os resultados foram tão bons que os catarinenses já planejam uma reedição do programa.

“O Platic envolveu 49 empresas, seis entidades de pesquisa e 61 pesquisadores, rendendo 35 artigos científicos, três publicações e dez laboratórios implantados ou melhorados”, diz Natalino Uggioni, superintendente do Instituto Euvaldo Lodi (IEL-SC), vinculado ao Sistema Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc). O salto foi expressivo. Diversos empreendedores obtiveram certificados de qualidade do processo produtivo de software, que facilitam acesso ao mercado. Houve ganhos em logística, gestão empresarial e abertura de novos mercados. “Estamos pleiteando recursos federais para dar continuidade ao Platic entre 2010 e 2012″, afirma.

Moacir Marafon, da Softplan/Poligraph

Moacir Marafon, da Softplan/Poligraph

A proposta, orçada em R$ 4,5 milhões, é consolidar os avanços e ampliar o APL de TIC para outros municípios. Um quarto dos recursos irá para qualificação profissional, o novo gargalo na TIC. “Antes tínhamos gente, mas faltava conhecimento; agora temos conhecimento, mas não formamos gente em quantidade suficiente”, diz Alexandre D’Ávila da Cunha, diretor da fabricante de conversores elétricos Cebra e ex-presidente da Associação Catarinense das Empresas de Tecnologia (Acate), entre 2000 e 2008. Ele cita uma ação de APL que será replicada em outras localidades: “Em Blumenau, o programa Entra 21 Blusoft está investindo na formação em TIC de jovens de baixa renda”.

A Softplan/Poligraph, empresa de software fundada em 1990, foi uma das beneficiadas pelo Platic. “Participamos em 22 cursos de reciclagem, enviando 70 técnicos, o que envolveu 910 horas de treinamento”, conta seu diretor, Moacir Marafon. “Também recebemos consultoria para a maturidade dos processos de produção de software, motivadora dos trabalhos de certificação que se seguiram”. Hoje com 500 empregados, a Softplan/Poligraph é a maior empresa de TIC de Florianópolis. Atua em cinco áreas – construção civil, judiciário, gestão de projetos, administração pública e gestão de infraestrutura de transportes e obras -, com mais de mil clientes. As 550 empresas de software e serviços de Florianópolis faturam R$ 1 bilhão anuais e crescem em média 30% ao ano.

Polo de biotecnologia no meio da soja

Ater Cristófoli

Ater Cristófoli, da Cristófoli Biossegurança: "Educação gera resultados"

Campo Mourão, município de 86 mil habitantes a 460 km de Curitiba, tornou-se referência quando o assunto é educação como fomentadora de Arranjos Produtivos Locais. Sua economia gira em torno da soja e do milho, que garantem a pujança da Coamo, maior cooperativa da América Latina. Em 1990, a criação de uma indústria familiar de aparelhos médico-odontológicos serviu de semente para o desenvolvimento de um polo econômico diferenciado em meio ao cenário do agronegócio. “Só depois que criei a empresa, percebi que não tinha mão-de-obra”, recorda Ater Cristófoli, presidente da Cristófoli Biossegurança. Ele então decidiu investir em uma escola profissionalizante na Fundação Educere, criada pela empresa para educar jovens do município.

A Fundação logo ultrapassou o objetivo inicial, transformando-se em escola técnica, centro de pesquisa e incubadora empresarial. Atualmente, existem em Campo Mourão 22 empresas dedicadas direta ou indiretamente à atividade. Treze delas colocam no mercado cerca de 70 produtos de uso médico-odontológico. Em 2009, faturaram R$ 36 milhões. “Educação gera resultados, com certeza”, assegura Cristófoli. O empresário lembra que é preciso atuar de forma continuada e compara o caso de Campo Mourão ao fenômeno do crescimento chinês: “Aquilo que está acontecendo hoje na China é resultado de um processo iniciado há 30 anos”.

Um bom exemplo de investimento coletivo em Pesquisa e Desenvolvimento é o APL dos Bonés de Apucarana, formado por 150 fábricas que integram uma cadeia produtiva de 550 empresas – incluindo fornecedores de abas e botões, pingentes, fivelas e outros insumos. Esse município paranaense de 121 mil habitantes está no centro do eixo de 180 km do chamado “Corredor da Moda”, que inicia em Londrina, passa por Maringá e finaliza em Cianorte. A área é hoje a maior produtora de jeans e bonés do país, reunindo mais de 2,6 mil indústrias de confecções que faturam R$ 2 bilhões anuais.

“O Arranjo Produtivo de Bonés iniciou em 2003 por iniciativa do Sebrae, que convidou um grupo de empresas do ramo para compor inicialmente a governança”, conta Jayme Leonel, diretor da Milano Bonés e presidente do Sindicato da Indústria de Vestuário de Apucarana. Entre os projetos concluídos o empresário cita a vinda de um engenheiro alemão, trazido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), para solucionar o problema com a modelagem dos bonés, que era realizada de forma empírica e passou a ser feita tecnicamente. “Estamos desenvolvendo um ambicioso projeto de meio ambiente, que visa adequar o setor de bonés à legislação ambiental”, informa. (DV)

Uma versão condensada desta reportagem foi publicada pelo jornal Valor Econômico em 24 de junho de 2010.