As lições da bola

Bolas. Foto de Sonia Vill/Quorum Comunicação.

Foto de Sonia Vill.

Cinco ex-jogadores de futebol profissional recordam os erros e acertos de suas carreiras e dão dicas às novas gerações


Dauro Veras *

A rotina do aposentado Rubens Ignácio Vicência, 70 anos, começa às quatro da madrugada. Depois de uma refeição leve, às cinco e meia ele já está caminhando pelas ruas de Criciúma, para o trabalho como segurança da Celesc. São duas horas sagradas de atividade física. “A mulher me pergunta: mas por que tão cedo? E eu respondo: é pra olhar as vitrinas”, diz Rubão, com os olhos rindo. “Vivo numa boa”, resume. “Voltei a trabalhar porque não aguentava mais ficar no quintal, esperando folhinha de laranjeira cair para eu varrer”. Por onde passa, as pessoas o cumprimentam e puxam conversa. Ex-goleiro de futebol profissional, ele tem muitos fãs e histórias para contar.

Rubão gosta de carregar no peito uma medalha que conquistou quando defendeu dois pênaltis em uma partida na Arábia Saudita. Ele já perdeu a conta dos países para onde o futebol o levou. Em 1961, tornou-se goleiro do lendário Metropol, que fascina os amantes do futebol pelo país. Criado por uma empresa carbonífera depois de uma greve de mineiros, o time ganhou sucesso inesperado no cenário nacional. Em 1962, o Metropol fez uma das mais extensas apresentações do futebol brasileiro na Europa, uma excursão de três meses, com 23 partidas em cinco países.

Rubão era um dos piadistas do grupo, muito querido pelos colegas. Pelas suas memórias de viagem circulam personagens surpreendentes. “Uma manhã em La Coruña, na Espanha, desci o elevador do hotel com Sofia Loren”, lembra. “Ela viu o meu uniforme e perguntou se eu era do Brasil, aí seguimos conversando no café-da-manhã. No almoço, eu estava com os colegas e ela acenou da mesa do lado. O pessoal perguntou, ‘de onde você conhece Sofia Loren, negão?!’ Eu fiz mistério: ‘Isso é gado meu…’”.

Em Barcelona, Rubão conheceu o baterista da banda de Louis Armstrong e viu o show dos bastidores, próximo do mestre do jazz. No México, o país que mais o encantou, ele quase chorou de emoção ao ouvir o som dos mariachis: “Tive vontade de beijar aqueles caras um por um”. Outro encontro memorável foi com Mané Garrincha, quando o Atlético Operário enfrentou o Botafogo, no início dos 60 em Criciúma. “Tomamos umas pela cidade, eu na cervejinha e ele no rabo-de-galo”, lembra. “É o maior craque que já existiu”.

Em 21 anos como goleiro (“peguei mais de 20 pênaltis, só levei um frango”), Rubão passou pelo Atlético Operário, Flamengo de Caxias do Sul, Metropol, Grêmio de Porto Alegre, Atlético Paranaense e Avaí. Encerrou a carreira em 1976 no Marcílio Dias, aos 38 anos de idade, com um pé-de-meia confortável. Seu modo de administrar as finanças foi poupar sem se privar. O goleiro recorda que já ganhou muito, mas às vezes gastava com extravagâncias, como fechar uma boate inteira só para ele. “Mas eu também investia, comprava uns terrenos. Hoje tenho casa, apartamento, carro do ano, dei um terreno pra cada filho e todos os quatro estão formados. Foi bom, faria tudo de novo”. Seu conselho às novas gerações de jogadores: estudar, não usar drogas e ser empresário de si mesmo.

Aulas de vida

Na escolinha de futebol Estação da Bola, em Florianópolis, 60 crianças e adolescentes entre seis e 16 anos treinam sob orientação de um ex- profissional dos gramados: João Carlos da Silva, o Balduíno, jogador que mais disputou o clássico Avaí e Figueirense – 75 vezes com as duas camisas. Aos 58 anos, aposentado como professor de Educação Física pela Udesc, ele agora divide a agenda entre as atividades de comentarista esportivo na mídia catarinense e as aulas de vida para a moçada.

“Tento fazer daqui a extensão da casa deles”, diz. “Nem todos vão se tornar atletas profissionais, mas aprendem a respeitar os outros e levam ensinamentos para o futuro, como a disciplina e a importância social do esporte”. Aos que desejam se profissionalizar, recomenda que evitem as drogas, contratem um bom profissional da área para administrar as finanças e valorizem a preparação intelectual. Ele também lembra que é preciso investir porque a carreira é curta no futebol. “O atleta joga no ápice por no máximo três anos, e no resto do tempo, faz o nome; a vida útil é de 10 a 11 anos em média, por isso tem que ser bem aproveitada”.

Balduíno não conseguiu economizar como jogador de futebol – trabalhava de dia para pagar os estudos noturnos e sustentar a família -, mas soube se preparar para uma aposentadoria tranqüila. Um ditado que seu avô Leonel Antônio Dutra gostava de dizer lhe serviu de norte: “Arrecade com unhas e dentes hoje para comer com as gengivas amanhã.” Assim fez. Tornou-se professor, ajudou os pais e os filhos e os amigos, adquiriu casa própria, sítio e carro. Tudo isso, sem se esquecer de viver o presente. “Quando eu recebo meu dinheiro, a primeira coisa que faço é me pagar dez por cento”, diz, reconhecendo que poderia ter mais se não fosse tão “mão aberta”.

O professor enfatiza a valorização da família e o bom exemplo que os atletas devem dar quando se tornam ídolos. Outra lição que os aprendizes escutam com frequência na Estação da Bola: querer ganhar é importante, mas crescer a partir das derrotas é fundamental. “Digo sempre a eles que gostaria de chegar aos meus 80 anos, de bengalinha, e vê-los na tevê dando entrevista como médicos, advogados ou com outra formação”.

Superação

Outro ícone do futebol catarinense é Albeneir Marques Pereira, mineiro de Belo Horizonte que começou a carreira profissional em 1977 no Nacional de Manaus. Depois passou pelo Brasília, Operário de Campo Grande, Matsubara, Atlético Paranaense e Grêmio. Em 1981, veio para o Figueirense, pelo qual disputou quase 300 partidas ao longo de oito anos, a maioria como centro-avante. Também traz no currículo uma temporada de dois anos no Avaí. A carreira bem sucedida de goleador o levou até a jogar pela Seleção Brasileira. Mas, se o futebol é uma “caixinha de surpresas”, a vida também é.

“Há três anos, três meses e 12 dias eu não consumo nenhum tipo de droga”, disse Albeneir no início da entrevista. “Todo dia é uma batalha. É só por hoje”. O ex-goleador, hoje com 52 anos de idade, conta que faturou bastante com o futebol, mas o dinheiro entrava por uma mão e saía pela outra, com carros, festas e falsas amizades. Deixou a família em segundo plano, impulsionado pela euforia da fama e da fartura. No fim de 1993, parou de jogar futebol profissional e começou a afundar na bebida alcoólica. Passou-se um bom tempo até ele perceber de que precisava de ajuda.

O dia da virada, Albeneir guarda nítido na memória: 6 de dezembro de 2006. “Eu não tinha mais amigos nem família, não tinha onde morar, não me comportava como gente civilizada, não tinha nada. Pedi ajuda a um delegado de polícia e a um padre. Nesse dia eu admiti que tinha perdido para a droga e me internei”. Começou então um longo processo de recuperação, em que reencontrou a saúde, o amor próprio, o amor da família e os verdadeiros amigos.

Hoje ele faz parte de dois centros de tratamento de dependentes químicos, onde continua se tratando e partilhando sua história com outras pessoas que precisam de apoio. “Minhas duas filhas e meu filho estão me olhando de outra maneira, como um pai presente”, conta. Albeneir manteve por alguns anos um projeto social para crianças e adolescentes, e um dos seus alunos está indo para o Figueirense. “São coisas que o dinheiro não paga”, diz, emocionado.

Equilíbrio

A vida também pregou uma peça em Antônio Nunes, o Lico. Ex-jogador do Joinville, Grêmio, Figueirense e Avaí, ele marcou época no Flamengo entre 1980 e 1984, jogando ao lado de Zico, Leandro, Júnior, Adílio e outros ídolos da torcida rubro-negra. Junto com eles, conquistou dez títulos, incluindo a Copa Libertadores da América e o Mundial Interclubes. Jogador polivalente e habilidoso, Lico se inspirava no estilo de Tostão. “Na minha época, a habilidade contava muito, mas hoje a força prevalece no futebol”, compara. Sua carreira estava no auge quando uma lesão no joelho o levou a três cirurgias e à aposentadoria.

Lico seguiu em frente. Hoje, aos 58 anos, vive em sua cidade natal, Imbituba. Graças ao futebol, conquistou relativo conforto – possui duas casas e pôde investir na educação das três filhas. “Na época eu não tinha orientação nem experiência sobre finanças – jogava porque gostava e nem ligava muito para contratos”, recorda. “Comprei uns poucos imóveis, mas foi o que me salvou quando tive que parar de jogar”. Ele é professor voluntário para garotos de 10 a 16 anos na Associação Paes Leme de Futebol, onde compartilha sua busca do autoconhecimento, dentro e fora do campo: “A vida é gostosa quando você tem equilíbrio emocional e psicológico para saber o que é bom e o que é errado”.

Equilíbrio também foi fundamental para que Hamilton Ferreira Gomes, 56, superasse um inesperado tombo nas finanças. Sua carreira de 18 anos como jogador de futebol, iniciada no juvenil do Flamengo, inclui Bangu, Maringá, Comercial de Ribeirão Preto, Francana, Criciúma, CRB, Figueirense e Paraná. Hamilton parou de jogar profissionalmente em 1988, para ajudar a cuidar do filho recém-nascido. Dois anos depois, o Plano Collor levou todas as suas economias ao bloquear uma caderneta de poupança e o dinheiro da venda de apartamentos. Abriu uma loja de reforma de alto-falantes e continua no ramo.

“Na nossa época era difícil ganhar dinheiro com futebol e ninguém tinha previdência, uma situação bem diferente de hoje, em que o profissionalismo é muito maior”, compara Hamilton. Aos que estão principiando na carreira de atleta profissional, ele faz recomendação semelhante à dita por outros ex-jogadores: ser um exemplo. “Não beba, não fume, não perca a noite”, orienta. “É importante administrar bem a carreira, aplicar o que ganha – comprar imóveis é um bom negócio – e buscar parcerias com patrocinadores”.

Homens com diferentes trajetórias, cada qual com sua maneira própria de ver o mundo, esses ex-profissionais têm em comum a paixão universal pela bola. E a certeza, concedida pela maturidade, de que a vida não oferece garantia de vitória. Mas não esmorecem. Eles sabem que essa partida fica mais bonita quando driblamos as incertezas e rumamos para o gol. Ou, no caso do goleiro, quando impedimos que a bola estufe a rede. Rubão dá a dica para quem quer bater um bom pênalti: “A tendência do goleiro é pular para baixo. Chute acima dos ombros e não tem quem pegue”.

* Reportagem publicada em julho de 2010 no Relatório de Gestão 2009 da Fundação Celesc – CELOS, produzido pela Quórum Comunicação.