Entrevista – Cristina Kreuger

Fotossensível: memória à flor da pele

Cristina Kreuger, diretora de Fotossensível

Cristina Kreuger, diretora do curta-metragem Fotossensível: recordações familiares na Suécia e no Brasil

O curta-metragem Fotossensível é uma reflexão delicada sobre a memória e o tempo, a partir das filmagens cotidianas e lembranças que a diretora Cristina Kreuger guarda de sua família. Neta de suecos, nascida em Itajaí há 25 anos, a cineasta recuperou imagens amadoras feitas por seu avô na década de 1940 com uma câmera 16 mm, e depois por seu pai em uma Super-8. Nesta entrevista, Kike, como é conhecida pelos amigos, conta como foi o processo de criação e produção. Atualmente ela mora em Florianópolis, onde trabalha com direção de fotografia e documentários.

Que vínculo você tem com o país de origem de seu avô e como surgiu a motivação para estudar cinema?

Meu pai era filho de suecos, nascido no Brasil. Passou a infância em São Paulo e no Rio de Janeiro. Sempre mantive bastante contato com a cultura sueca, pois meus avós também passaram a viver em Itajaí por conta do porto. Com 13 anos morei um ano em Estocolmo, quando minha mãe foi terminar as pesquisas do seu doutorado. Desde muito nova me interessei por fotografia. As câmeras estiveram muito presentes na nossa história. Decidi estudar cinema porque me enxergava trabalhando com isso, e aqui estou!

Seu filme trata de tempo e memória de maneira afetiva e intimista. Como foi a experiência de mergulhar na experiência familiar para realizá-lo?

Foi um processo importantíssimo na minha vida, pois estava vivendo os sentimentos que queria transmitir com o Fotossensível. A ideia inicial surgiu em 2007, quando tive o primeiro contato com as películas do meu avô. Decidi guardá-las, pois assim que as projetei com o meu pai, enxerguei ali um potencial para a realização do meu trabalho de conclusão de curso. Só fui realmente definir a narrativa quando me dei conta dos rolos de super-8 do meu pai, que durante anos “brincávamos” de projetar aos domingos na parede de casa. Meus pais preparavam a pipoca e fazíamos nosso cinema. Foi aí que resolvi associar as duas histórias. Percebi que o filme que queria fazer não era sobre as cidades e nem sobre as paisagens, mas sim sobre a imagem, a memória e o tempo. Pouco depois de ter captado o material, meu pai entrou em fase terminal de câncer e faleceu. Só me senti preparada para iniciar o processo de edição após alguns meses, e posso dizer que vivi à flor da pele tudo aquilo que eu queria dizer através do filme.

Conte sobre o processo de produção e edição.

Foi meu primeiro filme como diretora e tenho um carinho muito grande por ele, pois, como me disse um amigo recentemente, é um filme que só eu poderia ter feito. Desde a primeira versão do roteiro, levei cerca de oito meses para terminá-lo. A captação da entrevista com meu pai foi feita às pressas, com a ajuda do Clóvis Guiorzi, e a edição foi feita em conjunto com o Will Martins. Eles tiveram uma participação fundamental, assim como todos que me ajudaram. Meu maior desafio foi conseguir digitalizar o material do meu avô, pois as películas estavam muito danificadas e precisaram ser limpas manualmente pela Labocine. Fiz a digitalização numa finish house no Rio de Janeiro, portanto, tive muito cuidado e investi bastante nesse aspecto. O super-8 foi escaneado em São Paulo. Meu material bruto em 16 mm totalizava 1 hora e 15 minutos, e o super-8, 20 minutos.

O que Fotossensível representou para você em termos de autoconhecimento?

Foi um processo muito delicado, e que acredito ter trazido bastante maturidade tanto no lado profissional quanto no pessoal. Foi uma realização importante também para a minha família, que demonstra um carinho muito grande pelo projeto. Gostei também de ter tido a experiência de me inserir como personagem. Talvez essa tenha sido uma das maiores dificuldades… aprender a me enxergar na tela e como realizadora ao mesmo tempo. O mais legal de tudo é ver que o público se identifica com o filme, que sempre foi um projeto bastante despretensioso.

Que dicas você dá para quem tem boas histórias familiares para contar?

Muitas histórias podem nascer a partir de imagens de arquivo. Pela minha experiência, pode se tornar um processo muito legal, pois, querendo ou não, estamos trabalhando diretamente com nossa própria história. Aprendi também a dar bastante importância a tudo que filmamos e fotografamos, mesmo que seja uma imagem banal, de uma situação qualquer. Um dia isso pode ter um valor enorme para você.

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Esta entrevista faz parte do material de divulgação do site Filmes que Voam, espaço de divulgação cultural de filmes infantis e documentários brasileiros de qualidade.