Ficar ou não ficar
Sempre com seu estilo inconfundível, que combina linguagem coloquial, pesquisa acurada e humor mordaz, o escritor-jornalista Tom Wolfe fez em Ficar ou não ficar uma mistura de reportagem, ficção e ensaio sobre temas que vão da sexualidade à informática, da neurociência à arte conceitual. O livro também conta a origem do Vale do Silício e discute a contribuição do jornalismo à literatura.
No texto que dá nome à obra, Wolfe aborda a precocidade sexual e a obsessão dos americanos com a juventude. Ele narra como era a vida de um americano na virada do segundo milênio: “No ano 2000, era normal que um alto executivo bem-sucedido chutasse a esposa e acabasse um casamento de duas ou três décadas, simplesmente porque o revestimento subcutâneo dela estava se deteriorando. O executivo estava livre para arranjar uma nova esposa, de preferência loura de vinte e poucos anos. E a atitude não provocava estranhamento”, diz Wolfe. A única coisa que acontecia era que todos pegavam seus celulares ou mandavam e-mails uns para os outros a fim de descobrir como se escrevia o nome da tal esposa nova: “Eram sempre nomes como Serena e ninguém sabia como se escrevia isso.”
Em Digibesteiras, pó de pirlimpimpim e o formigueiro humano, o escritor refuta a disseminação de bobagens sobre a expansão da mente na era digital. Elas se assemelham, afirma, ao pensamento mágico de tribos primitivas que associam a ondulação do capinzal à chuva que se segue e, por isso, celebram a dança da chuva. No país dos marxistas rococós é uma divertida crítica ao intelectual americano arquetípico, que escreve em linguagem pomposa – o “teorês” -, professa “doutrinas obscuras como o estruturalismo, o pós-estruturalismo, o pós-modernismo” e jamais admite quando está errado.
Meus três patetas é uma resposta a três escritores americanos de renome – John Updike, Norman Mailer e John Irving – que fizeram ataques a seu romance Um homem por inteiro. Mais que isso, é um ensaio valioso sobre a literatura dos Estados Unidos no século 20. Ao comentar a “anorexia” do romance americano, Wolfe defende o romance documental ou de realismo social, como as obras de Zola e Steinbeck. Na opinião dele, se as artes não-eletrônicas quiserem sobreviver no século 21, precisarão de conteúdo – devem mergulhar na vida real, no “pulso da fera humana”.
Dauro Veras
Publicado originalmente em 2001 no web site da Editora Rocco.







